Capítulo 2

Ponto de Vista de Elena Vitiello

A cobertura estava silenciosa. Era uma vasta gaiola de vidro no céu, com vista para uma cidade que parecia uma placa de circuito de ouro e escuridão.

Meu celular vibrou na bancada de mármore. Uma mensagem de Dante.

*Não volto. Resolvendo a situação. Não me espere.*

Eu não respondi. Apaguei a conversa. Em seguida, fui aos meus contatos e apaguei o número dele. Não o bloqueei — isso chamaria a atenção — apenas removi o nome. Ele não era nada mais do que uma sequência de dígitos agora.

Fui para o closet principal, um mausoléu cheio de vestidos de grife, blusas de seda e sapatos que custavam mais que um carro popular. Passei por eles até o pequeno cofre no fundo. Digitei o código e peguei um celular descartável e um pen drive.

Esta era a verdadeira Elena. O resto era apenas uma fantasia.

Sentei-me no chão e comecei a limpeza digital. Entrei nas contas conjuntas e removi minha autorização. Cancelei os pedidos recorrentes de seu Barolo favorito. Desvinculei meu e-mail das notificações de segurança da propriedade. Pedaço por pedaço, byte por byte, eu estava me apagando da infraestrutura dos Moretti.

Meu dedo pairou sobre o ícone do Instagram no meu celular pessoal. Eu não deveria. Sabia que não deveria.

Eu abri.

A história de Sofia estava no topo. Claro que estava.

Toquei nela. Uma foto do convés de um iate. Um balde de champanhe gelado. E no canto da imagem, uma mão apoiada na grade. Eu conhecia aquela mão. Conhecia a cicatriz na junta, o pesado anel de sinete de ouro com o brasão dos Moretti.

*Sã e salva*, dizia a legenda. *Meu herói.*

Ele não estava resolvendo uma crise. Estava bebendo champanhe em um barco enquanto sua esposa estava sentada sozinha em um apartamento vazio.

Era meu aniversário.

Fechei o aplicativo. Caminhei até a cozinha, o silêncio amplificando o clique dos meus saltos no piso. A equipe já tinha ido embora; eu os dispensei mais cedo. Abri a geladeira. Não havia nada preparado. Dante geralmente pedia do melhor restaurante italiano da cidade às sextas-feiras, mas ele não estava aqui para pedir.

Encontrei uma caixa de macarrão e um pote de molho. Fervi a água. O vapor atingiu meu rosto, quente e úmido, imitando as lágrimas que me recusei a derramar.

A porta da frente apitou.

Eu congelei. Ele não deveria voltar.

Dante entrou. Ele parecia desalinhado, um estado raro para ele. Sua gravata estava frouxa, o botão de cima desabotoado, as mangas enroladas revelando os antebraços aos quais eu costumava me agarrar. Mas quando ele se aproximou, o cheiro me atingiu. Ele cheirava a sal marinho e aquele perfume enjoativo de baunilha.

Ele parou quando me viu de pé junto ao fogão. Ele segurava uma pequena caixa branca na mão. Uma caixa de confeitaria.

"Você está cozinhando?", ele perguntou, franzindo a testa.

"Eu estava com fome", eu disse, minha voz plana enquanto mexia o macarrão.

Ele se aproximou e colocou a caixa na ilha. "Peguei isso. No caminho de volta."

Ele a abriu. Era um pequeno bolo de baunilha. Genérico. Sem nenhuma inscrição. Parecia algo que um assistente compraria em um supermercado cinco minutos antes de fechar.

"Feliz aniversário", disse ele. As palavras pareciam pesadas, forçadas.

Eu encarei o bolo. Ele se lembrou. Ou melhor, seu calendário o lembrou, e ele sentiu uma pontada de obrigação forte o suficiente para parar em uma confeitaria, mas não forte o suficiente para ficar em casa.

"Obrigada", eu disse.

Ele olhou para a panela de macarrão fervendo, borbulhando violentamente. "Isso é o jantar? De aniversário?"

"Está tudo bem, Dante."

"É patético", ele murmurou. Ele passou a mão pelo cabelo, exalando bruscamente. "Vista-se. Vamos sair."

"Eu vi a foto", eu disse.

Ele parou. Sua mão caiu ao lado do corpo. "Que foto?"

"O iate. A história da Sofia."

Ele nem sequer vacilou. "Ela estava abalada. Precisávamos tirá-la da cidade por algumas horas até que a ameaça fosse neutralizada. Era o protocolo."

"Protocolo envolve champanhe?"

Seus olhos se estreitaram, as manchas douradas endurecendo. "Não comece, Elena. Estou cansado. Passei as últimas quatro horas limpando uma bagunça para que a Família não parecesse fraca. Voltei para casa para passar a última hora do seu aniversário com você. Não me faça me arrepender."

*Fazê-lo se arrepender.* Como se minha existência fosse um fardo que ele graciosamente tolerava.

"Não estou mais com fome", eu disse. Estendi a mão e desliguei o fogão. O borbulhar cessou instantaneamente.

Seu telefone tocou novamente. O som agudo cortou a tensão. Ele olhou para a tela e suspirou — um som de pura, inalterada exaustão.

"Preciso atender", disse ele. "É o Consigliere. É sobre a equipe de segurança da Sofia."

"Vá", eu disse.

"Elena-"

"Vá, Dante. Está tudo bem."

Ele hesitou. Por um segundo, pensei que ele pudesse me ver. Realmente me ver. Ver a mulher que o amava desde os dezesseis anos, a mulher que escrevia seu nome em diários e rezava por sua segurança quando ele ia para a guerra.

Mas ele apenas assentiu. "Eu te compenso."

Ele se virou e saiu.

Fiquei no silêncio da cozinha. Olhei para o bolo de baunilha barato com sua cobertura branca cerosa. Fui até a gaveta e peguei um único fósforo. Risquei-o na caixa. A chama se acendeu, brilhante e quente, consumindo o oxigênio.

Enfiei o fósforo no centro do bolo como uma vela.

"Eu desejo", sussurrei para a sala vazia, observando a chama queimar em direção à cobertura. "Eu desejo parar de te amar."

Eu a apaguei. A fumaça subiu no ar, cinza e desaparecendo, assim como nós.

Capítulo 3

Ponto de Vista de Elena Vitiello

A batida pesada da música pulsava pelo assoalho do lounge VIP. Era um clube privado, supostamente território neutro para as Famílias, mas esta noite os Moretti haviam alugado todo o andar de cima.

Eu estava sentada ao lado de Dante no sofá de veludo amassado. Seu braço estava estendido ao longo do encosto do assento atrás de mim — nunca me tocando, mas reivindicando agressivamente o espaço.

Era uma exibição territorial. *Isso é meu. Não toque.*

A sala estava densa com fumaça e o tilintar agudo de cristais caros. Os Capos riam, enquanto os soldados ficavam como estátuas perto das portas. Era uma celebração do aniversário da aliança.

"Certo, tragam!", alguém gritou por cima do barulho.

Uma pesada caixa de madeira foi colocada na mesa central. A Cápsula do Tempo.

Cinco anos atrás, durante uma festa de trégua, a geração mais jovem das Famílias havia escrito cartas para seus futuros eus. Era uma tradição estúpida, algo em que Sofia insistira quando ela era o centro do mundo de Dante.

Senti um suor frio brotar na minha nuca. Eu tinha me esquecido disso.

"Vamos ver quem previu o futuro!", Marco, um dos soldados de Dante, riu enquanto quebrava o selo.

Ele tirou um pedaço de papel dobrado. "Sofia... quer ser uma estrela de cinema."

Risadas ecoaram pela sala. Sofia ainda não estava aqui. Ela sempre se atrasava.

Marco enfiou a mão e tirou outro. Ele o desdobrou, e então congelou.

Ele parou. Olhou para mim, depois para Dante. O sorriso bêbado desapareceu de seu rosto.

"Leia", Dante ordenou, tomando um gole lento de seu uísque.

Marco pigarreou, mexendo-se desconfortavelmente. "É... é da Elena."

Dante olhou para mim. Eu encarei em frente, minhas unhas cravando crescentes nas minhas palmas.

"Leia", Dante repetiu, sua voz mais baixa, não deixando espaço para discussão.

Marco desdobrou o papel completamente. Sua voz era hesitante. "Eu não sei se ele algum dia vai me ver. Sou apenas uma sombra no canto da sala. Mas hoje, ele olhou para mim. Ele me salvou do tumulto na 25 de Março. Ele não sabe meu nome, mas eu sei o dele. Eu o amo. Eu amo Dante Moretti. Rezo para que um dia, eu possa ser aquela a lavar o sangue de suas mãos, mesmo que ele nunca me ame de volta."

O silêncio na sala era absoluto. Era mais pesado que o baixo, mais alto do que os gritos de momentos antes.

Senti-me nua. Cinco anos atrás, eu era uma garota ingênua com um diário. Agora, aquelas palavras pairavam no ar como a confissão de um crime.

Dante lentamente pousou seu copo. Ele virou a cabeça para me olhar. Sua expressão era indecifrável, mas seus olhos estavam arregalados, atônitos. Foi a primeira vez que o vi parecer verdadeiramente chocado, como se tivesse levado um soco no estômago.

Ele abriu a boca para falar. "Elena..."

Meu telefone não tocou. O dele sim.

Quebrou o momento como vidro. Dante estremeceu. Ele olhou para a tela.

Ele não atendeu imediatamente. Olhou para mim novamente, procurando em meu rosto, procurando pela garota que escreveu aquela carta.

O telefone tocou de novo. E de novo.

"Chefe", Marco sussurrou, a tensão palpável. "Pode ser urgente."

Dante atendeu. Colocou no viva-voz.

"Dante! Me ajuda! Por favor!" A voz de Sofia gritou pela sala silenciosa. "Eles têm armas! Estou na zona dos galpões! Eles vão me matar!"

O choque desapareceu do rosto de Dante. Foi substituído instantaneamente pela máscara do Ceifador. A besta acordou.

Ele se levantou tão rápido que a mesa tremeu. "Marco, reúna a equipe. Agora."

"Dante", eu disse, minha voz mal um sussurro.

Ele não me ouviu. Já estava se movendo, verificando o pente de sua pistola. Ele era um borrão de movimento letal.

"Fique aqui", ele latiu para mim por cima do ombro. "Não se mova."

Ele correu pela porta, seus soldados o seguindo em enxame. A sala de repente ficou vazia, exceto por alguns garçons confusos.

Fui para a varanda. A chuva havia parado. Olhei para a rua.

Vi Dante sair correndo da entrada do clube. Vi-o dar uma coronhada em um segurança que foi lento demais para sair de seu caminho. Ele pulou em seu carro, os pneus fumegando enquanto cantava.

Eu o observei partir.

Ele tinha ouvido a profundidade da minha alma, a verdade crua e sangrenta do meu amor por ele. E no momento em que outra mulher gritou por socorro, ele me deixou no silêncio.

Ele não correu para salvar a família. Ele correu porque não conseguia respirar se ela não estivesse respirando.

Peguei a carta da mesa. Rasguei-a ao meio. Depois ao meio novamente.

Joguei os pedaços em um cinzeiro e os incendiei.

"Adeus, Dante", sussurrei.

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