Entre a Vida e o Caos
Enrique
O céu já escureceu, mas eu ainda estou sentado na varanda, observando a rua silenciosa.
O vento balança os galhos das árvores, e o som distante de um motor quebra o silêncio da noite. Minha mente deveria estar focada nos sinais de que algo grande está para acontecer, mas um pensamento insiste em voltar.
Simone.
Desde que trocamos aquele breve cumprimento de manhã, não consegui tirá-la da cabeça. Não é só porque é bonita – e ela é.
Mas há algo mais. Um peso nos ombros dela que reconheço muito bem. O peso de alguém que carrega o mundo sozinho.
A luz da sala dela ainda está acesa. Através da cortina entreaberta, vejo sua silhueta. Parece exausta, os ombros tensos enquanto massageia a própria nuca.
Minha mandíbula se contrai. Ela não deveria ter que enfrentar isso sozinha.
Ouço um barulho vindo da cozinha e percebo que estou apertando o copo de água nas mãos com força demais.
Droga. O que estou fazendo? Ela é só minha vizinha. Uma mulher que mal conheço. Mas... alguma coisa em mim insiste que preciso ficar de olho nela e naquela garotinha.
Engulo o resto da água e me levanto. Isso não significa nada. Apenas precaução.
Mas uma voz no fundo da minha mente sussurra o contrário.
Simone
O cansaço pesa nos meus ossos enquanto fecho a porta de casa.
O cheiro do jantar preparado por Júlia ainda preenche o ar, e Jamile dorme profundamente no sofá, agarrada ao seu bichinho de pelúcia.
Meu coração se aquece por um segundo.
Amo minha filha mais do que tudo, mas há noites em que me pergunto quanto tempo mais consigo segurar tudo isso sozinha.
Mesmo com toda ajuda que Júlia me dá eu vivo em uma roda viva, e as vezes sinto falta de amparo e proteção principalmente em relação a Jamile
Vou até a cozinha e pego um copo d'água. Quando olho pela janela, vejo uma sombra se movendo na varanda ao lado. Enrique.
Ele está sentado, olhando para a rua, como se estivesse em alerta. Há algo nele que sempre me intrigou.
Sua presença firme, sua forma de se movimentar... como se estivesse sempre pronto para agir.
Ele parece sentir meu olhar e, por um instante, nossos olhos se encontram na penumbra. Sinto um frio inesperado percorrer minha espinha.
Rápido demais, viro o rosto e levo o copo aos lábios, tentando ignorar o estranho calor que se espalha pelo meu peito.
Isso é besteira. Tenho preocupações muito maiores do que um vizinho misterioso.
Enrique
O hospital está um caos. Cheguei aqui para visitar um velho amigo, um dos paramédicos que trabalha com os bombeiros, mas a recepção está cheia de pacientes nervosos e médicos correndo para todos os lados.
Sinto um mau presságio no ar.
Caminho pelos corredores e vejo Simone. Ela se move como uma tempestade contida, o rosto tenso, mas as mãos firmes.
Mesmo no meio do caos, há algo nela que transmite controle.
Ela para por um segundo para ler um prontuário e percebo o jeito que morde levemente o lábio inferior, perdida nos próprios pensamentos.
Maldito seja meu instinto de observação. Isso não significa nada.
Mas então, as luzes piscam.
Primeiro por um segundo. Depois outro. E, de repente, tudo mergulha na escuridão.
O hospital inteiro perde energia.
Ouço gritos, alarmes disparando, e o coração dispara no peito.
Droga. Isso não é um apagão comum.
Simone
Meu sangue gela quando os monitores desligam e os alarmes começam a disparar.
- Gerador! O gerador precisa ligar agora! - grito, minha voz cortando o pânico ao redor.
Mas nada acontece.
Meu Deus.
- Os aparelhos dos pacientes críticos pararam em minutos! - alguém grita.
Meus pés já estão em movimento antes que minha mente possa processar o que está acontecendo.
- Precisamos de ventilação manual na UTI, agora!
Corro pelos corredores mergulhados na penumbra, sentindo o coração martelar no peito.
Isso não é um apagão normal. A energia deveria ter sido restabelecida pelos geradores.
Alguém fez isso.
As enfermeiras já estão bombeando oxigênio manualmente nos pacientes.
Me aproximo de um deles, um idoso entubado, e assumo o revezamento.
O hospital está desmoronando em caos e, no meio disso tudo, sinto um olhar sobre mim.
Levanto a cabeça e vejo Enrique.
Ele está ali, parado na entrada da UTI, olhando diretamente para mim.
Seu olhar não é de confusão. É de alguém que entende exatamente o que está acontecendo.
Nos encaramos por um segundo, e algo dentro de mim se contrai.
- Doutora! Precisamos de você na emergência!
Minha atenção é puxada de volta para a crise. Mas mesmo enquanto corro para salvar vidas, o olhar de Enrique continua queimando em minha mente.
Enrique
Isso não foi coincidência.
O apagão, a falha dos geradores, a pane nos sistemas. Alguém fez isso intencionalmente.
Meu peito aperta enquanto vejo Simone lutando para manter o hospital funcionando. Ela está no meio disso, e isso me incomoda mais do que deveria.
Não posso ignorar os sinais.
E, definitivamente, não posso ignorar o fato de que, quando tudo começou a desmoronar, meu primeiro pensamento foi nela.
O Inferno Sobre Rodas
Simone
As luzes ainda piscam no hospital, instáveis, me deixando ansiosa e apreensiva, vidas depende do tempo que a energia vai demorar para ser restabelecida.
Enquanto o gerador luta para sustentar os aparelhos essenciais. Mas a energia não volta por completo.
Meu coração bate descompassado enquanto corro para a emergência, sentindo o suor escorrer pela minha nuca.
- O que temos? - pergunto, tentando recuperar o fôlego.
A enfermeira me encara com olhos arregalados.
- Um acidente grave na avenida principal. Os semáforos pararam... Doutora, é um massacre lá fora.
Aperto os dentes. Droga.
- Quantos feridos?
- Ainda não sabemos. Os bombeiros estão trazendo mais vítimas.
Olhando em volta, vejo que não temos leitos suficientes, nem pessoal para isso. O hospital está sobrecarregado, e agora essa catástrofe só piora tudo.
Sinto uma presença ao meu lado. Enrique.
Seus olhos analisam tudo com precisão, como se calculasse a gravidade da situação. Não é um olhar de quem está apenas observando.
É o olhar de um soldado.
Ele me encara, e por um instante, sinto que não estou sozinha nisso.
–Fique tranquila doutora sou bombeiro, sou treinado para emergências, possível ajudar.
Precisamos mesmo de ajuda nesse caos
Mas não há tempo para distrações. O barulho de sirenes corta o ar, e os paramédicos entram empurrando macas.
O inferno acaba de começar.
Enrique
A cena é pior do que imaginei.
Corpos ensanguentados, feridos gemendo, médicos e enfermeiros correndo de um lado para o outro. Caos absoluto.
Vejo Simone no meio disso tudo, comandando a equipe como se fosse uma general no campo de batalha.
Seu rosto está coberto de suor, os cabelos presos de qualquer jeito, mas nada nela vacila.
Sinto algo no peito.
Admiração.
E preocupação.
Um paramédico passa por mim empurrando um homem desacordado. O cheiro de gasolina e metal queimado invade minhas narinas.
Eu reconheço isso. É cheiro de tragédia.
Mas uma coisa não sai da minha cabeça: os semáforos não param de funcionar sozinhos.
Isso foi provocado? Me pergunto desconfiado.
Vejo Simone se abaixar ao lado de uma mulher presa em uma maca, grávida pelo jeito uma gravidez já avançada,os olhos dela cheios de dor e terror.
- Eu estou com você - Simone diz, segurando sua mão. Suave e firme ao mesmo tempo.
A mulher aperta os dedos dela, desesperada.
–Salva meu bebê, por favor! Eu imploro, salva ele!
Algo em mim aperta.
Me aproximo sem pensar.
- O que aconteceu com ela?
Simone levanta a cabeça, surpresa ao me ver ali.
- Hemorragia interna. Se não operar agora, ela não resiste.
Olho em volta. A equipe está sobrecarregada. O hospital inteiro está um caos.
Ela não tem para onde correr.
E por alguma razão que não consigo explicar, não quero que ela enfrente isso sozinha.
- O que precisa? - pergunto, minha voz firme.
Simone pisca, confusa.
- O quê?
- Você precisa de mim?
Os olhos dela brilham com um misto de exaustão e alívio.
- Sim. Preciso.
Eu nunca soube recusar um pedido de ajuda.
Simone
Enrique segura a maca junto comigo enquanto corremos pelo corredor. A mulher geme de dor, e eu pressiono a gaze contra o ferimento, tentando conter o sangramento.
- Fica comigo! - digo a ela. Mas a consciência dela está oscilando.
Enrique olha para mim.
- Ela vai conseguir?
O tom dele é sério, mas vejo algo mais nos olhos castanhos. Ele realmente quer saber.
- Se eu puder operá-la a tempo...
O problema é que o hospital não tem energia suficiente para manter todos os equipamentos funcionando.
E se a sala de cirurgia apagar no meio do procedimento?
A resposta vem antes mesmo que eu possa terminar o pensamento. As luzes piscam e... apagam.
O hospital inteiro mergulha na escuridão.
Enrique
–Porra!
O pânico toma conta dos corredores. Os alarmes disparam, médicos gritam, pacientes choram.
Simone fica imóvel por um segundo. E então age.
- Continuem as ventilações manuais nos críticos! Enfermeira, quero lanternas em todas as salas!
Ela vira para mim, e vejo o brilho da adrenalina nos olhos dela.
- Enrique, preciso que me ajude com essa maca. Não posso perder essa paciente.
- Diga o que fazer - respondo imediatamente.
Ela me encara por um instante, como se não esperasse minha resposta tão rápida.
Depois, assente.
E seguimos.
Simone
Chegamos na sala de cirurgia improvisada, e minha equipe já está preparando os materiais sob a luz de lanternas. É precário, mas é o que temos.
Enrique me ajuda a transferir a paciente para a mesa, e pela primeira vez percebo o quão forte ele realmente é.
Vejo os músculos dos braços dele se contraírem sob a camisa enquanto segura a mulher com cuidado.
Eu não deveria estar notando isso agora.
Ele olha para mim.
- E agora?
Eu engulo em seco.
- Agora eu salvo essa vida.
Mas no fundo, sei que estamos à beira de algo muito maior.