Violet se preparou para a entrevista de emprego da melhor maneira que conseguiu. A ansiedade a fez roer as unhas e se sentir insegura, imaginando as possibilidades de tudo dar errado. Levando em conta o que aconteceu nos últimos meses, bom, esse cenário parecia ser o mais adequado. Não que não estivesse conseguindo fazer as coisas darem certo. Pelo contrário. A agência de babás que trabalhava recentemente encontrou um bom emprego ao qual Violet decidiu que não iria perder. Tinha um bom salário e a família — um pai e uma filha — precisava de ajuda.
Quando chegou à casa, se surpreendeu com o tamanho. Era enorme, luxuosa e incrível. Ela estava engasgada com as palavras quando uma empregada a recebeu com um sorriso largo. Violet disse a ela sobre a entrevista de emprego e a mulher a levou até o escritório que seu chefe pediu para que levasse. A casa parecia ainda maior por dentro, bem decorada e cheia de vida.
A empregada bateu à porta e uma voz masculina disse que podiam entrar.
Violet entrou no escritório e passou os olhos ao seu redor. A chuva que caía desde cedo não tinha cessado, e apesar de estar um pouco atrasada, achava que isso não podia ser um empecilho. Seu currículo era bom o suficiente para chamar atenção. Já havia cuidado de idosos e de crianças e tinha uma habilidade especial e era atenciosa. Seu irmão Lucas também tinha sido cuidado por ela por pelo menos 4 anos. Ele tinha câncer. Era claro que isso não importava muito para o homem que estava sentado à cadeira virada de costas para Violet, observando a vista através das janelas francesas que tocavam o chão.
— O seu nome é Violet Jones? — Ele virou. — É a babá que contratei pela agência? — Ele segurava alguns papéis e ainda não tinha erguido os olhos para ela.
Violet sentiu como se estivesse prestes a explodir.
Era ele.
O estranho que a ajudou ontem.
Ela respirou fundo e cerrou punhos com as mãos rente ao corpo, apreensiva. Estava parada a poucos centímetros da porta. Ele finalmente ergueu os olhos e a olhou por um breve momento. Não parecia tê-la reconhecido. Violet não sabia por que achou que isso era um problema. Mais aliviada, ela assentiu, depois disse em voz alta e clara:
— S-sim!
O homem se ergueu e alinhou o paletó. Ele vestia um terno azul escuro que combinava com os olhos acinzentados, Violet percebeu. Não parecia ser tão velho quanto achou que fosse na noite passada. Talvez a escuridão da noite fez com que ele parecesse mais sério. Talvez ela só estivesse delirando. Ele se aproximou, passos lentos e pesados.
— Eu sou Graham. Graham Grayson — disse ele, olhando para ela. A voz dele era forte. Um tom único que a penetrou. Violet sentiu aquela voz reverberando dentro de si. Ela ergueu os olhos para ele, talvez com medo de que a repreendesse. — É um prazer conhecê-la.
— Obrigada, sr. Grayson. — Disse ela um pouco sem jeito. Ele colocou uma mão no bolso. — A agência me mandou para cuidar da sua filha.
— Olive — disse ele, um sorriso iluminou o seu rosto. — Ela tem oito anos. Está brincando no quintal.
— Eu posso vê-la?
— Claro que sim. Venha.
Ele a levou até onde a garotinha estava. Violet notou como ele parecia feliz. Olharam através da janela para a garota que estava brincando na chuva, vestida com uma capa de chuva rosa. Ele enfiou as mãos nos bolsos e olhou para Violet.
— Eu trabalho muito e não consigo tomar conta dela na maioria do tempo. Ela não se adaptou muito bem à última babá que contratei. — Contou ele. — Talvez ela goste de você, mas preciso ser claro antes que aceite. — Violet olhou para ele. — A mãe dela morreu há 5 anos, desde então, apesar de ser muito nova quando a mãe morreu, Olive não aceita muito bem. É introvertida e tem alguns problemas para lidar com algumas situações, além de ser dependente e carente. Pode ser difícil lidar com ela.
— Ela é linda — ela olhou a garota correr sobre a grama e estourar as poças d’água com os pés. Ela tinha cabelos castanhos e olhos azuis como o pai. — Sinto muito por sua perda. — Graham assentiu levemente com a cabeça, como se a lembrança ainda pesasse sobre os seus ombros. Violet viu o movimento de sua garganta.
— Nós sentimos muito a falta da mãe dela. Era uma mulher maravilhosa — ele disse, os olhos escurecendo. O sorriso que brilhava em seu rosto desapareceu, dando lugar a uma expressão séria. — Ouvi muitas coisas boas sobre você, srta. Jones. As recomendações da agência são ótimas e acredito que possamos fazer um excelente acordo.
Acanhada, Violet segurou a bolsa com força. Ela piscou.
— Me desculpe — ele disse. — Às vezes esqueço que não estou em uma negociação.
— Posso me programar conforme quiser — ela sugeriu. — Não tenho outro emprego e fico livre a maior parte do dia.
— E às terças e quintas? — Perguntou ele.
Violet o encarou.
— Eu vi um pôster no bar. Você é a mulher que foi atacada ontem, não é? — Ela engoliu em seco. Notando o jeito dela, Graham completou: — Eu sinto muito pelo que aconteceu. Só quis ajudar.
— Obrigada — disse ela. — Você ajudou. Respondendo à sua pergunta, também estou livre às terças e quintas. Fui liberada das apresentações. Terence Grimes, o homem com quem me viu ontem, era quem organizava os shows. O dono do pub achou que seria melhor cancelar as minhas apresentações.
— Oh, que pena — disse Graham. — Eu queria ouvi-la de novo. Conheci aquele bar através de um amigo. Fomos lá duas ou três vezes. A única vez que consegui ver uma apresentação sua foi ontem. Você tem uma voz e tanto! — Ela sorriu agradecida. — Por que decidiu virar babá? — Quis saber ele.
— Tenho um irmão que precisa de tratamento médico. A música não paga muito bem.
— Você é ótima — disse ele. — Devia investir nisso.
— É só um hobbie. Fico feliz que tenha gostado.
A garotinha atravessou o quintal e se aproximou. Ela abriu a porta e entrou, seu corpo estava ensopado de água e gotas caíam no chão.
— Liv! — Graham repreendeu. — O que eu disse sobre brincar na chuva?
— Mas papai!
— Liv… Esta é a srta. Jones — disse ele, apontando para ela. — Ela vai ser a sua nova babá.
Olive olhou para ela e ofereceu um sorriso banguela.
— Oi, srta. Jones!
— Você é a Olive, não é? — Olive assentiu. Violet se abaixou, ficando da altura da criança. — Ouvi falar muito bem de você.
— É verdade? — Perguntou a garota. — O papai não fala sobre mim para as outras mulheres.
Graham olhou para ela com os olhos semicerrados e as bochechas vermelhas.
— Outras mulheres? — Violet olhou para ele por cima do ombro.
— São bonitas como você — disse Olive. — Mas você é mais bonita.
— Obrigada! Você também é muito bonita.
— A sra. Williams disse que são prostitutas — Olive continuou, mas seu pai a interrompeu:
— Olive, por que não vai se trocar? Vai acabar pegando um resfriado. — Olive sorriu e se afastou saltitando como uma bailarina. — Me desculpe. Esqueci de dizer… às vezes faço reuniões no meu escritório e jantares. Olive tem um temperamento único…
— Eu achei ela uma graça — Violet sorriu e se ergueu.
— A minha rotina é um pouco movimentada. Você só vai cuidar dela. As empregadas fazem todo o resto.
— Não me importo em ajudar com alguma outra coisa — disse Violet.
— Sou bem rigoroso quanto a isso. Estou pagando para que seja apenas babá. — Violet assentiu. — Olive precisa de alguém por perto o tempo todo. Ela tem uma terapeuta, faz algumas aulas e tem tutores particulares.
— Ela não vai a uma escola?
— Não. Ainda não está preparada. Ela pode ficar um pouco agressiva com outras crianças por perto. Principalmente quando alguém fala sobre a mãe. Além de que precisa de alguns remédios. Preciso que fique atenta quanto a isso. É muito importante que ela tome os remédios na hora certa.
— Tudo bem — concordou ela. — Sou responsável.
— Não estou dizendo que não é — disse ele. Violet engoliu em seco. Qual o problema dele? — A última babá não conseguiu lidar muito bem. Olive caiu e bateu a cabeça. Foi um pouco grave. Ela tem sonambulismo e é natural que acorde no meio da noite e tenha alguns episódios turbulentos. Às vezes trabalho até tarde, então não consigo ficar com ela. Ela só fica calma quando estou por perto ou toma remédios. Prefiro não lhe dar remédios. Ela não precisa de mais problemas.
Violet levou a mão ao peito.
— Eu sinto muito.
— O que me diz?
— Eu aceito.
— Quando você pode começar?
— Amanhã.
— Ok. Vou ligar para a agência e preparar o contrato. Precisamos discutir sobre o período em que vai ficar aqui, além de algumas coisas básicas.
— Está bem. Obrigada.
— Não precisa agradecer — disse ele. — Seja bem-vinda.
Graham era o CEO de uma renomada empresa. A Price & Pierce fora herdada por seu pai, e seu pai a herdou de seu pai. Era um negócio de família que começou pequeno e se tornou grandioso, logo ocupando um lugar importante nos tabloides e virando sinônimo de sucesso. Com o passar dos anos, Graham aprendeu que a melhor maneira de ser bem-sucedido era ignorar suas fraquezas e elevar o seu nível social. Viver à sombra de seu pai era motivo de decepção. A maior parte de sua vida Graham buscou o apoio do pai, mas agora isso não importava muito. Ele se tornou ainda melhor que seu pai, ainda mais bravo e valente, ocupando o topo da empresa. Mas era claro que seu pai não confiaria o império tão facilmente. Por isso ele deixou alguém que ficaria de olhos bem abertos.
Vivian era a secretária de seu pai; prestativa e muito bem organizada, esperta e atraente. Grant, o pai de Graham, achou que podia controlar o próprio filho se ele fosse seduzido por Vivian. Bom, isso quase aconteceu, exceto por Graham sofrer um acidente no seu aniversário e conhecer uma enfermeira doce e atenciosa, por quem se apaixonaria. Talvez isso foi de fato o que fez tudo mudar. Graham tinha um caso com Vivian, mas aquilo nunca passou de sexo. Ele tinha deixado bem claro que era apenas isso, mas ela nunca entendeu muito bem por que ele preferiu uma enfermeira do que ela, a protegida de seu pai.
Para Graham, a resposta estava bem debaixo de seu nariz.
Ele odiava ser controlado.
Odiava qualquer método que o obrigasse a viver sob as rédeas de alguém. Foi por isso que ele decidiu se tornar melhor que seu pai. Não era uma competição, mas se fosse, Graham ganharia. Ele viveu toda a sua vida em busca disso e, quando finalmente alcançou o que sempre quis, percebeu que o gosto não era tão bom.
— No que está pensando? — Perguntou Vivian, sentada à cadeira na frente da mesa de Graham, que por sua vez estava virado para as janelas que tocavam o chão. Todo o seu escritório era aberto, e a vista era de tirar o fôlego. Ele nunca gostou daquele lugar, mas ocupar a cadeira e o cargo em que estava precisava de alguns desafios, a começar por ter que tolerar Vivian.
— No que acha que estou pensando? — Perguntou ele, virando para ela.
— Graham, eu sei que nos afastamos desde que o seu pai morreu, mas quero que saiba que tem todo o meu apoio. Eu sei que tudo está diferente agora e que somos praticamente estranhos um para o outro… — ela disse. Graham olhou para ela como se estivesse prestes a dormir.
— Espero que a sua viagem tenha sido divertida — ele alinhou o terno e se ergueu. Ela o acompanhou com os olhos e sorriu. — Você sabe que eu não tolero qualquer tipo de confronto. O que você fez foi imperdoável.
— Eu só tentei consertar as coisas — disse ela.
Graham virou para Vivian e a fuzilou com o olhar. Ele não sabia o jeito exato de as mulheres pensarem, mas ela com certeza devia ser estranha até para os padrões femininos. Ele a encarou, esperando que Vivian continuasse, mas ela retribuiu seu olhar.
— O que está fazendo aqui, afinal?
— Ouvi dizer que encontrou uma babá — ela também se ergueu e se aproximou dele. — E que ela é adorável. — Os olhos azuis de Vivian se incendiaram. Ela pousou uma mão no peito de Graham e olhou nos olhos dele. — Você não vai seduzi-la, vai? Mesmo que fosse, o que iria fazer? Você é um homem incompleto. Parte sua está enterrada junto ao corpo cadavérico da sua mulher. — O sorriso que os lábios de Vivian desenharam doeu como uma faca enfiada no coração de Graham. Ela estava certa. Parte dele estava mesmo morta. Parte dele, Graham nem tinha certeza, estava enterrada. Ele respirou fundo e a encarou. Era somente o que podia fazer. Ela estava enganada. — Para um homem incompleto, você é bem pervertido — ela sussurrou ao ouvido dele, levando a mão até a sua virilha. — Que adorável — Vivian continuou, ouvindo a respiração de Graham, que tentava se controlar. Vivian era uma mulher muito bonita, com cabelos loiros, olhos azuis e um corpo escultural. Ela fazia qualquer homem cair em seus encantos, e não importava o que quisesse, sempre conseguia. Ele não tinha medo dela porque ela era perigosa, mas sim porque, em algum momento, ela realmente se apaixonou por ele. — Ah, Graham… você vai mesmo fazer isso comigo?
— Pare — ele disse, uma veia saltou em seu pescoço.
— Por que eu devo fazer isso? — Ele pegou o pulso dela com força. Vivian sorriu. — Finalmente!
Ele não sabia exatamente, mas Vivian ainda parecia cultivar algum tipo de interesse. Logicamente, Graham não fazia ideia. O que tinham já havia acabado. Na verdade, Graham nunca sentiu nada por ela.
— Certo — ela finalmente recuou. Vivian se afastou. — Você venceu. Eu não gosto de insistir. Achei que só queria um pouco de diversão. Nós sabemos que você tem um gosto um pouco estranho, não é mesmo?
— Eu não posso tocar em ninguém — ele disse. — Não posso fazer sexo com outra mulher. Eu a amava, prometi a mim mesmo que não tocaria em mais ninguém depois dela.
— Ela está morta, Graham. Você está vivo. Muito vivo, aliás. Seus métodos são estranhos, admito. Não pode prometer a uma morta nunca tocar em outra mulher.
— Você não entende.
— É claro que eu não entendo. Nunca entendi, na verdade. Espero que se divirta. Deve ser um pouco difícil fazer tudo isso sozinho, mas… Bom, você é criativo.
Vivian tinha retornado de uma viagem depois de anos fora. Ela foi embora antes de seu pai adoecer e morrer lentamente em um leito de hospital, e agora estava de volta, exigindo o que nunca teve. Ela não conseguia entender por que Graham escolheu uma mulher como Layla. Não conseguia entender por que ele se apaixonou por ela.
De toda forma, ele não se importava com isso.
Não iria quebrar a promessa que fez.
Mas Vivian estava certa.
Haviam outras formas de ter prazer.