Capítulo 2

Will

— É claro que não! Acho que é o primeiro desafio como ator, e como pessoa, aprender a lidar com alguém como o Senhor olhar intimidador, mas às vezes, cansa!

— Você é meu irmão, e herdou a minha coragem...”

— Como é? Herdei sua coragem? Esqueceu que eu sou mais velho?

— Não vejo nada demais. Você pode ter nascido dois anos antes de mim, mas é fato que a hierarquia não existe entre nós, não é mesmo?

— Sua palhaça! Você não me respeita, acho que te dei muito espaço, isso sim! — digo, e jogo novamente um travesseiro nela.

— Ai, quer me matar? — fala e sorri. — Mas voltando ao assunto. Por que será que ele age dessa forma?

— Não sei. Não fiz nada para ele, e simplesmente sou ignorado...

— Será que ele não gostou de ter que contracenar com você, e queria alguém famoso para ser o Wanchai? Ou sua fama de playboy milionário chegou a ele, e deve estar pensando que você comprou a vaga...

— Lyn, nenhuma dessas alternativas faz sentido! Eu não sei qual é o problema dele, sei que preciso estudar ainda mais para dar o melhor de mim para esse personagem. Você sabe que o fandom do livro já me deu hate até a minha outra vida, e se o P’Nate está insatisfeito, ele que cobre a direção.”

[...]

Eu realmente precisava dar o meu melhor para viver o Wanchai, e minha missão inicial era conquistar P”Nate, quer dizer, conquistar sua confiança, para que juntos pudéssemos desenvolver um bom trabalho. Assim, o convidei para algo diferente dessa vez, pois, descobri que ele gosta de futebol, então o chamei para disputar uma partida com alguns amigos meus. Conversamos muito pouco antes da partida. Assim que terminou, tomei um banho, e esperei por ele, precisava convidá-lo para jantar, e assim teria algo para conversar: Futebol.

Despedi-me dos amigos, e fiquei sentado em um banco de frente para o banheiro da quadra.Demora um pouco, e o avisto. Não sei oq eu acontece, tento de tudo para não olhar, mas algo é mais forte que eu. Estranho demais. Pareço hipnotizado. O que está acontecendo? Não há nada demais com ele, vestindo jeans e uma camisa de time europeu, o cabelo molhado, caindo nos olhos. Ele senta ao meu lado, e espero que não tenha notado meu olhar curioso. Sinceramente, estou me desconhecendo. Continuo olhando enquanto ele calça seu sapato, e como se eu não tivesse o que fazer da minha vida, começo a notar uma gota de água que escorre de seu cabelo, percorrendo todo o seu rosto. Definitivamente, o que há comigo?

— Você vai ficar me olhando o tempo todo? — sua fala me surpreende, e preciso de algo para falar, me tirar dessa enrascada.

— Não, desculpa! É que... Eu estava observando sua camiseta, ela parece antiga...

— Ah, era isso? É antiga, comprei de um colecionador na internet, e da época dos galácticos do Real Madrid...

— Ah... Entendi! — nunca ouvi falar nos galácticos, mas tudo bem. — E esse Ronaldo, o número dele não era o é 7?

— Não. Esse é outro Ronaldo, é brasileiro. Foi campeão da copa do mundo com a seleção brasileira, um jogador incrível!

A nossa conversa continuou no restaurante, e pela primeira vez consegui arrancar algumas frases da boca dele, e até sorrisos. Quando se tratava de futebol e música, senhor olhar intimidador, fala sem parar, conversamos por horas, e me senti satisfeito com minha missão, se eu continuar perseverante conseguirei criar o mínimo de intimidade com ele.

[...]

As semanas passaram rapidamente, e durante esse período tive a oportunidade de me aproximar um pouco mais de meu parceiro de cena. Fizemos muitas atividades juntos, incluindo estudar o texto com, e sem o elenco. Foi importante para perceber que P’Nate é extremamente profissional em tudo, ver o quanto ele se dedica, e o quanto me ajudou a compreender ainda mais o Wanchai, foi gratificante.

O primeiro dia de gravações chegou. Exatamente, as gravações das cenas do primeiro trailer, e com ele, muitas preocupações, não apenas com as cenas, mas com meus pais. Esse trailer se limitaria ao Youtube, mas se meus pais o vissem seria um caos, e teria que enfrentá-los. Assim que acabamos o primeiro dia, caminho lentamente pelos corredores que levavam ao estúdio principal, e alguns colegas passam e se despedem enquanto me arrasto. Meu pensamento está em minha família, e no drama muito maior que aqueles que assistimos nas séries Boyslove, até ouvir alguém chamar meu nome, e ser retirado do transe em que me encontrava.

— Will, espera!

Olho em direção a voz, atrás de mim. Paro, e espero ele se aproximar ainda com o traje de estudante universitário de série, o olhar não é intimidador, mas tem algo que me deixa um pouco incomodado, não sei o porquê de estar pensando algo assim, mas seus lábios são tão beijáveis, é difícil olhar para ele e não pensar nisso. O quê? Por que estou pensando nisso algo assim? Finalmente ele se aproxima, me olha timidamente, o que há com ele?

— Will, eu preciso passar o texto Será que você estará disponível amanhã à tarde? Já que teremos o dia de folga...

— Tudo bem, eu posso. Eu tenho aula na faculdade pela manhã, e assim que largar posso te encontrar.

Ele balançou a cabeça em sinal de positivo, e se despediu. Algo estava diferente, normalmente ele não é assim. O que eu estou pensando? Até parece que o conheço há décadas!

[...]

Quando nos conhecemos ele mal olhava para mim, e hoje me enviou seu endereço por mensagem, não consigo entendê-lo. Diante da porta de seu apartamento, respiro fundo, toco a campainha e não demora muito para que ele abra.

— Oi, entra. — fala, e faz sinal para que o siga. Fecho a porta atrás de mim. Observo rapidamente o espaço ao meu redor, tudo tão branco, parede, sofá.

Repassamos o texto várias vezes, mas toda vez que eu sugeria a cena do primeiro encontro, ele ficava nervoso, ou fingia demência, e falava para pularmos e deixá-la por último. Mas precisamos estudá-la. Assim que ele volta do banheiro, o questiono.

— P’Nate por que não fazemos logo a cena que falta?

— Por que você não para de me chamar assim?

— E como devo chamá-lo?

— Nate. — ao ouvir isso confesso que me deixou um pouco surpreso, ele me considera tanto assim para permitir que eu não use o P’? — Está bem Will, mas ainda faltam as cenas do segundo episódio.

— Eu sei, mas essa é a cena do primeiro encontro. É o primeiro contato entre Wanchai e Thirasak, precisamos acertar algumas coisas, movimentos, olhares e as nossas falas...

— Tudo bem. — seu olhar e tom de voz não parecem muito felizes.

Afastamos-nos, me aproximo e o encaro. Tento demonstrar um sentimento estranho, confuso ao olhar diretamente em seus olhos, é o que o texto pede. Abro e fecho a boca como se eu fosse falar algo, mas as palavras não saem. Ele me olha intensamente por um momento, mas abaixa o olhar e vira o rosto para o lado. Não entendo. O script não pede isso, mas acho que devemos seguir. Nate vira as costas para e caminha, eu o chamo, ou melhor, o Wanchai faz isso.

— Thirasak. — Esse é o momento em que ele simplesmente finge que não se importa com o Wanchai chamando por ele. Mas meu personagem não se cansa. — Seu idiota!

Ele vira, me encara com muita raiva. Caminha até mim. Fica muito próximo.

— É... Eu…

Sinto-me extremamente nervoso com o modo que me olha.

— O que é? Fala logo, estou com pressa. — diz, e continuo a gaguejar, olhar para os lados, até que ele solta a frase que faz meu coração disparar rapidamente.

— Continue me olhando desse jeito, e vou te beijar até você ficar louco!

Capítulo 3

Will

— Continue me olhando desse jeito, e vou te beijar até você ficar louco.

Sinto um grande desconforto ao ouvir isso. O sentimento seria do Wanchai, mas quem o sente sou eu. Mas por quê? O que há comigo? Meu desconforto é visível, pois Nate me encara com um olhar estranho, parece confuso.

— Will, está tudo bem?

— Estou... Está tudo bem!

— Você acha que esse tom está bom? Sei que teremos um ensaio antes da gravação, com o elenco, mas...

Ele continua falando. Eu não consigo encará-lo. Sento-me no sofá e folheio o caderno de texto que está em minhas mãos. Preciso me recompor. O que há, Will? Você não é o Wanchai, e este não é o Thirasak. Nate senta ao meu lado, e continua falando sobre os sentimentos do Thirasak nessa cena. Preciso sair daqui, não estou bem, algo está me incomodando.

— Desde a primeira cena eu percebi que ele era apaixonado pelo Wanchai. Esperar por alguém durante por um ano, é bonito. Não acha?

— É ... Bem bonito. — falo, mas não tenho coragem de encará-lo.

— Acho que o Wanchai não quis admitir, mas ele ficou caidinho pelo Thirasak nessa cena, não acha? Ele ficou abalado demais quando ele falou que o beijaria até cair.

Crio coragem para olhá-lo. Ele parece curioso, me encarando insistentemente.

— Está tudo bem, mesmo?

— Está. Será que podemos continuar amanhã?

[...]

Reviro de um lado a outro da minha cama. Não consigo dormir. Sinto-me estranho, principalmente quando lembro o olhar de Nate para mim, a proximidade entre nós, e sua voz grave me dizendo “Continue me olhando desse jeito, e vou te beijar até você ficar louco.” Acho que estou levando muito a sério o personagem, afinal é o Wanchai que fica levemente abalado quando o Thirasak fala essa frase para ele. É isso! É o Wanchai que sente, eu não sou ele. Mas por que estou tão abalado?

Os dias passam rápido. As gravações iniciam a todo vapor, dei o melhor de mim para o primeiro episódio, o diretor e a produção, são só elogios ao meu trabalho, e isso me deixa extremamente contente em saber que posso fazer isso, ao contrário do que sempre ouvi de meus pais, eu consigo. Por falar neles, sei que preciso contar, mas acho que ainda não é o momento de dizer que estou atuando em um série BL, não sei como seria a reação deles, com exceção das minhas irmãs, eles nunca apoiaram meu sonho de ser ator.

Hoje temos uma cena bem incômoda para gravar, desde que cheguei ao set de gravação tenho pensado em como será, e em como reagirei. Não ensaiamos, na verdade nenhum de nós falou sobre ensaiar, achei ótimo, e estranho por parte do Nate. Mas minha alegria durou pouco, assim que terminei a maquiagem, os staffs me procuraram para que realizemos um ensaio geral com o elenco de cena, e depois gravar. É uma cena de boas vindas aos calouros para quebrarem o gelo, Wanchai e Thirasak são escolhidos para realizarem uma brincadeira bem desagradável, os dois devem dançar juntos, mas não é uma dança qualquer, devem estar colados um ao outro. Meu personagem, Wanchai, abraça o Thirasak pela cintura, e nossos rostos devem estar muito próximos. O texto faz menção de que devo me sentir levemente atraído por sua beleza, e Thirasak aproxima seu rosto do meu, além de me encarar intensamente. Além disso, há uma segunda cena, onde acontece a velha brincadeira com o pepero, e o script diz que no último pedaço a boca dele deve encostar na minha.

Enquanto realizamos a primeira cena, não consigo parar de encará-lo, e meu coração dispara de um modo que nunca vi antes, e isso me deixa muito nervoso. Seu olhar é tão intenso e verdadeiro, que pergunto se realmente estou diante de seu personagem. Sinto-me instável, incomodado com aqueles olhos castanhos me encarando como se quisesse me beijar.

— Corta. Pausa de 10 minutos para a cena do pepero. — assim que ele diz isso, Nate se afasta, mas continua me olhando, abaixo o olhar, e depois olho de um lado para o outro. Sinto-me um pouco perdido. Respira fundo, Will! Você não é o Wanchai.

Não demora muito para que tudo recomece. Os seniors da faculdade distribuem um snack para cada dupla, e o coloco na boca, e fico à espera do Nate, ou melhor, Thirasak. Ele me encara e apenas segura com a boca mostrando desinteresse. Em seguida, é repreendido por um dos seniors, que o manda comer o morder o pepero, ele faz o que é pedido, e vai comendo aos poucos até o último pedaço, essa é a pior parte, pois, para comer precisa encostar os lábios nos meus, e ao fazer, me olha de um modo extremamente sensual. Essa cena está no script, o Wanchai deve ficar abalado, não eu!

Ao fim das gravações, quero apenas estar em casa, na minha cama. Quando isso realmente acontece, a cama parece um lugar incômodo demais para mim. Já tentei várias atividades, mas não consigo parar de pensar no olhar do Nate, sua boca encostando-se à minha, aquela cena não sai da minha cabeça. Há algo de errado comigo, não deveria me sentir assim. Preciso dormir.

[...]

Enquanto a maquiadora faz seu trabalho em meu rosto, ela fala algo, mas não escuto, minha mente está muito longe. Ela termina, me despeço e caminho pelo corredor, até ouvir alguém chamar meu nome.

— Will, espera!

Olho na direção da pessoa que me chama. Eu não quero falar com ele sozinho.

— Oi, Nate! O que foi?

— Preciso falar com você. Vem comigo!

Antes que eu diga qualquer coisa, ele me segura pela mão, e me puxa, abre uma porta do nosso lado. É uma sala escura cheia de materiais do set, ele fecha a porta e me encara com o mesmo olhar que o Thirasak dedica ao Wanchai.

— Nate, o que você quer me falar aqui no meio dessa bagunça?”

— Eu precisava de um lugar tranquilo.

Por que ele precisa de um lugar tranquilo?

— Eu acho melhor sairmos daqui. — falo, me viro em direção a porta, mas Nate segura meu braço, viro em sua direção.

— O que há com você? O que precisa me falar?

— Precisamos terminar o que começamos ontem.

— O quê?

Antes que eu diga mais alguma coisa, ele se aproxima, me encara com aquele maldito olhar intimidador, e simplesmente encosta levemente seus lábios nos meus. Para, e se afasta. Encaro seu rosto, estou assustado. Mas algo é mais forte que eu, puxo-o para perto de mim, encurtando a distância entre nós, Nate sorri.

— Achei que você não queria! — ele diz.

— Eu quero desde o dia que coloquei meus olhos em você...

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