Capítulo 2

Rio de Janeiro.

2019

Entrei correndo pelos corredores do hospital. O microfone anunciava meu nome para uma cirurgia cardíaca de emergência. Trabalhava tanto no serviço público quanto no particular, ou seja, vivia para a medicina e ocasionalmente tinha vida social. Vivia cercada por duas melhores amigas, que também eram médicas. Desde a infância, me acalentavam o coração e gostavam, como eu, de músicas brasileiras, principalmente uma boa roda de samba na praia.

Graduei-me na Universidade Federal do Rio de Janeiro, conquistando o primeiro lugar em minha turma. Apesar disso, havia um elemento que sempre me afastava dos livros: o samba. Mesmo durante os períodos intensos de internato obrigatório antes da minha graduação, e até mesmo durante minha residência, sempre encontrava maneiras de não deixar de participar dos ensaios da minha escola de samba preferida. E minhas amigas leais estavam sempre ao meu lado.

A cardiologia sempre me fascinou, mas o impulso decisivo para escolher essa especialização veio de um problema cardíaco que meu pai enfrentou. No entanto, essa história um tanto dolorosa será compartilhada em outro momento.

No final da tarde, exausta após um plantão de trinta e seis horas e três cirurgias ao longo do dia, finalmente pude descansar. Minha residência abrange tanto cirurgia geral quanto cardíaca.

As fiéis amigas, que desde a infância, me escutavam falar que um dia seria médica, falam que adoro remendar os outros. Observando a minha paixão pelo ofício, acabaram por me seguir. A verdade é que vejo uma operação como um modo de curar, os olhos brilham quando posso realizar um procedimento cirúrgico e observar a pessoa acordar e passar pelo processo de recuperação.

Saí do hospital com o corpo todo dolorido. ngela e Lorena já me esperavam. Era quinta-feira e sempre que podíamos fazíamos um happy hour na orla. Todavia, naquele dia, sem saber ao certo o motivo, queria minha casa. A comida feita por mim e a cama pareciam me chamar de saudade. Talvez se eu fosse escutar uma boa música e beber cerveja, meu mundo não teria se transformado tanto.

Elas ainda insistiram, mas quando coloco uma coisa na cabeça, tem que ser muito, mas muito persuasivo, para me convencer.

— Vamos para a orla, para qualquer boteco que avistarmos pela frente, ou para o bar da laje?

— Hoje vou decepcionar vocês. Estou mega cansada. O plantão e três cirurgias, uma atrás da outra, me esgotaram. Beberei um vinho em casa e cairei na cama.

— Júlia…

Ah, esse é meu nome.

— Não conseguirão me convencer. A Júlia está fechada para balanço hoje. Aceitem, que dói menos. Não sei o que está acontecendo, sinceramente. Sabem que mesmo cansada, estou sempre disposta, mas nunca estive tão esgotada. Talvez seja até uma gripe, surgindo sem aviso prévio.

— Acredito na primeira opção. Você deve estar com febre ou uma virose. Já te vi realizar seis cirurgias em um plantão de vinte e quatro horas e ainda assim ir para a roda de samba. Seu corpo, mesmo exausto, parece esquecer toda a fadiga ao ouvir um tamborim ou pandeiro. Algo está realmente estranho. O corpo da morena sestrosa não consegue evitar mexer-se ao som do tamborim, como uma filha de sambista.

— Mas hoje não será assim. Talvez esteja com uma virose mesmo, pois meu corpo está todo dolorido. E, por incrível que pareça, sem vontade.

As duas se aproximaram de mim, colocaram brincadeira-mente a mão em minha testa para verificar se eu estava com febre. Afastei-me, fingindo repulsa, e dei um beijo no rosto das duas. Entrei no carro e segui diretamente para casa. No rádio, ouvi uma das músicas prediletas de papai e mamãe, "Outra Vez". As lembranças vieram na forma de saudade.

Eu morava na pequena comunidade coreana da Cidade Maravilhosa. Herdei o prédio dos meus pais, que ali viveram por mais de trinta anos, até sofrerem um acidente de carro no ano de 2016 e me deixarem órfã. Lembro de estar no hospital de plantão quando duas ambulâncias os trouxeram. Nesse dia, eu me desesperei. Precisou que me segurassem para eu não interferir nos procedimentos; foi sufocante, cheguei a machucar o braço. De nada adiantou, um dia depois enterrava papai. Na madrugada daquele fatídico dia, ele teve uma parada cardiorrespiratória. Já a mamãe, partiu cinco dias depois, devido a uma infecção hospitalar e falência múltipla dos órgãos. Morria a maior das porta-bandeiras da Portela, a escola de samba do seu coração.

Além do prédio de apartamento, construído na década de noventa, com quatro andares, oito unidades, eles tiveram um restaurante de comidas típicas, tanto brasileiras, pela mamãe, quanto coreanas, por papai. O ponto foi vendido a outro proprietário. O prédio de quatro andares foi construído por papai, para morarmos e termos a renda dos aluguéis. Eu vivia no primeiro andar, nem precisava do elevador e todos os inquilinos eram conhecidos de longa data. O mais novo ali morava a mais de quinze anos, ou seja, sempre estive amparada.

Estacionei o carro na garagem e, em vez de subir diretamente, passei pela portaria para recolher as correspondências. Já se passavam dois dias desde minha última visita em casa, e as contas sempre tinham seu jeito de chegar. O Senhor José e sua esposa, que trabalhavam ali há mais de 20 anos, me tratavam como uma filha querida. Ele era o porteiro e ela desempenhava o papel de zeladora. Viviam em uma edícula nos fundos do prédio. Seus dois filhos haviam sido criados ali, e embora casados atualmente, eles traziam seus netos nos finais de semana, para alegria dos avós corujas. Durante a noite, a partir das sete horas, outros dois seguranças assumiam o posto até as sete da manhã do dia seguinte.

Ao chegar na portaria, mesmo cansada, sorri.

— Boa noite, Senhor José. Há correspondências para mim?

— Estava de plantão? Já faz alguns dias que não a vejo.

— Sim.

— É por isso que há várias correspondências aqui. Estão aqui. No entanto, algo curioso aconteceu. Aquele homem de terno está sentado ali, esperando por você há um bom tempo, diria que muito, muito tempo. Nem mesmo se levantou para tomar um gole d'água. Estranhei a situação, mas também percebi que ele é abastado. O terno dele é de alta costura, e ele segura o livro e aquela pasta com um certo charme. — O Senhor José compartilhou os próprios comentários com um sorriso nos lábios.

— E quem é ele?

— Não disse. Até tentei perguntar, mas acredito que o inglês que a senhora me ensinou não foi suficiente para estabelecer uma conversa com ele.

Olhei na direção do sofá que ornava a portaria. Vi um homem alto, pelos traços, parecia coreano. Cabelos lisos e negros, idade na casa dos quarenta e poucos anos. Tinha uma expressão séria, mas, ao mesmo tempo, jovial. Ele lia um livro e parecia tão concentrado que não percebeu que o observava.

— Ele, ao menos, falou porque quer falar comigo, senhor José?

— Não, dona Júlia. Não disse nada. Acho que estou precisando de mais aulas de inglês. O pouco que ele falou, não entendi nada.

— Vou lá perguntar quem é e o que quer de mim.

— Ficarei aqui de olho. Pode ser perigoso. Vai que é um agente secreto querendo prender a senhorita, aí vou ter que dar um soco nele – riu de novo o senhor que tanto gostava de mim.

Deixei a bolsa no balcão e caminhei lentamente pelo saguão, até o sofá de couro, perto da janela, que dava para um pequeno jardim de inverno.

— Boa noite. O senhor está me procurando? – perguntei quando cheguei um pouco mais próximo do sofá vermelho, onde ele se sentara.

Sua presença era imponente, preenchendo o espaço ao seu redor com uma aura de sofisticação. Cada gesto, cada movimento, transmitia uma sensação de elegância natural, como se tivesse nascido para ocupar um lugar de destaque.

As palavras do Senhor José agora faziam todo sentido. O homem diante de mim carregava uma distinção inegável, algo que ia além de uma mera aparência atraente.

Respondeu em coreano. Perguntou quem eu era, acho que julgou que não entenderia.

— Me chamo Julia. O porteiro me disse que o senhor está à minha procura — respondi em coreano, já que papai fez questão que eu soubesse, apesar de nunca ter pisado na Coreia do Sul. Ele me ensinou o idioma e dentro de casa conversava comigo só na sua língua materna, era um modo de jamais esquecer suas origens, apesar de nunca ter voltado lá desde que chegara ao Brasil. Era o que eu sabia.

Ele levantou-se e fez uma reverência. Retribuí o cumprimento, outro ensinamento de papai, tratar os mais velhos com respeito e cordialidade. Ele fazia questão de manter a tradição, o respeito aos mais velhos e aos honoríficos corretos para se dirigir as pessoas.

— Fala coreano muito bem senhorita. Kang, Ye-Jun, ao seu dispor.

— Obrigada. Aprendi desde criança, com meu pai, mas em que posso ajudar?

— Poderíamos conversar em um restaurante? Estou com fome e vi que aqui ao lado há um restaurante com um cheiro bom. O cardápio parece bem apetitoso.

— É urgente? Serei bem sincera com o senhor. Passei trinta e seis horas em um hospital. Sou médica e estava de plantão. Estou muito cansada. Amanhã estarei de folga, podemos tomar café da manhã. Em qualquer lugar que eu me encostar agora, dormirei, por mais que seja séria a conversa. Sei que está me esperando há muito tempo, mas…

Capítulo 3

— Sem problema, senhorita Kang. A que horas podemos tomar o desjejum e onde?

— Nesse mesmo restaurante que o senhor mencionou. Às oito da manhã, pode ser, ou se quiser mais cedo, sem problema, estou acostumada a acordar cedo, vida de médico é assim.

— Estarei aguardando, senhora. Às oito. Tenha uma ótima noite de sono e descanse.

Fiz a reverência e me despedi. No balcão, peguei minha bolsa e vi quando o cavalheiro saiu com o celular no ouvido.

— O que aconteceu, senhor José? Está chorando?

— Lembrei do seu pai quando vi vocês fazendo a reverência. Achava lindo quando ele vinha buscar o jornal pela manhã e me dava o bom dia daquela maneira. Sinto muita falta dele. Foi um homem tão bom, de coração brando, alegre, sempre cordial. Faz muita, mas muita falta.

— Eu também. Há anos que não a usava, tive medo de errar. Papai, em casa, me dava bom dia assim, antes de me beijar a bochecha e me fazer cócegas, é claro. Isso não podia faltar, jamais.

— Já te disse, menina Júlia, você é a mais brasileira das coreanas e a mais coreana das brasileiras.

— Como? Se nem ao menos conheço o país de meu pai? Só herdei os olhinhos puxadinhos — respondi sorrindo. — Só sei de onde ele veio, mas a história por trás da vinda dele ao Brasil, nada. Quer dizer, ele veio atrás da bela morena.

— Descobriu quem é o senhor de terno preto e o que quer da senhorita?

— Ainda não. Marquei um café da manhã no restaurante ao lado. Assim estarei perto de casa e do senhor. Será a minha proteção.

— Pode contar comigo sempre. Qualquer coisa, chamo a polícia na hora.

— Acho que não será preciso. Boa noite, a noite será curta para o sono que estou.

— Durma bem, menina, boa noite.

*****

Enquanto jantava uma gororoba qualquer que sobrara na geladeira de outro dia, frango desfiado requentado com arroz, pensei na fisionomia do senhor de terno. Parecia-se com papai. Olhei a foto dele sorrindo, colocada no aparador da sala, mas era loucura minha, aquele homem era muito alto e papai baixinho, além de outras diferenças. O cansaço do trabalho me deixava lesada. Naquele instante, um clique mental ecoou em minha mente quando me ocorreu que ele também havia se apresentado com o mesmo sobrenome que eu carregava. Um tremor de surpresa percorreu meu corpo enquanto eu processava essa descoberta. Balancei levemente a cabeça, numa tentativa de afastar aquela torrente de pensamentos frenéticos que ameaçava tomar conta de mim. Sentindo a necessidade de um breve intervalo, decidi me dirigir ao banheiro para um banho, buscando um momento de tranquilidade.

Depois do banho reparador, fui direto para o quarto. Apesar de estar apreensiva, adormeci de imediato, já que o cansaço do corpo era descomunal.

*****

Pela manhã, logo cedo, despertei ansiosa. Sentia-me estranha, insegura, pelo encontro que teria com o senhor de terno. Não queria ser a primeira a chegar, então arrumei algumas coisas em casa. Tomei um banho demorado, lavei o cabelo longo, até dar a hora. Passei na portaria e após dar um bom dia sorridente a José, sinalizei que já estava indo ao restaurante. 

Entrei no estabelecimento, vazio nesse horário. Todos já tinham tomado seu café e partido para o trabalho. O senhor Kang, Ye-Jun, já me aguardava, sentado na mesa de canto. Trajava de novo um terno preto e adotava uma formalidade extrema, deixando-me ainda mais apreensiva. Estava muito quente, pois estávamos nos primeiros dias do verão, o que não ajudava a melhorar o clima do ambiente.

— Bom dia, senhor. Não está sentindo calor? Estamos em pleno verão carioca. E aqui, nessa cidade, o normal nessa época do ano é fazer quarenta graus. Com esse terno, vai sofrer.

Ele se levantou e me cumprimentou formalmente.

— Apesar do calor, estou a trabalho. Não posso, ainda, me dar ao luxo de vestir uma bermuda e camisa. Se não se importar, já pedi o desjejum completo.

— Prefiro meu pão com manteiga e café com leite, mas hoje o acompanharei — respondi sorrindo.

— A senhorita trabalha hoje? Talvez a conversa seja um pouco demorada.

— Seria meu dia de folga, mas já avisaram de uma cirurgia, que será inevitável. Avisei no hospital que irei só na parte da tarde. Não se preocupe. Só não posso faltar à tarde, pois além desse procedimento cirúrgico, também tenho alguns pacientes das cirurgias de ontem que preciso ver.

O arroz, a sopa de ovo e o Kim chi foram servidos. O homem de preto, como um bom coreano cavalheiro, me serviu primeiro. Esse gesto e até mesmo a maneira de pegar na colher, lembraram-me mais uma vez de papai, e a saudade apertou. Tentei disfarçar uma lágrima, e o senhor cordial, sem nada dizer, apenas me estendeu um guardanapo.

Logo que acabamos de comer, ele tirou uns documentos de uma pasta e colocou sobre a mesa.

— Vou tentar falar seu nome brasileiro, senhorita. Desculpe-me se sair errado. “Xúlia”, não é?

Eu sorri.

— Mais ou menos. A pronúncia será difícil para o senhor. Tenho um nome coreano, papai fez questão de me dar, Min-Ji.

— Bonita escolha, típica de Kang, Don-Yun. Ao menos o que me lembro.

— Você conheceu meu pai? Ele veio para o Brasil com dezoito anos e nunca mais voltou ao país de origem. O senhor parece bem mais novo do que ele, apesar de ter se apresentado ontem com o mesmo sobrenome.

Pela respiração forte, como um suspiro saudoso, vi que teria uma revelação importante por trás daquela conversa.

— Min-ji, sou irmão de seu pai, Don-Yun. Estou falando sem o sobrenome, o qual é o correto, mas somos da mesma família, a Kang. Durante toda a sua vida, nosso pai o procurou por esse mundo todo. Ele colocou detetives particulares por toda parte, todavia jamais conseguiu achá-lo. Depois de muito tempo, descobrimos que ele mudou o nome para um brasileiro. Só agora soubemos do acidente que o matou, junto com sua mãe. Vim em nome do patriarca da família, seu avô. Ele quer conhecer a única neta e passar a herança do primeiro filho para você. Além…

— Espera, do que estamos conversando mesmo? É alguma brincadeira? Conversou com as minhas duas amigas loucas, que adoram contos de fadas, histórias da carochinha, etc.? Pode falar! É uma pegadinha por eu não ter saído ontem com elas, né? — Comecei a rir, sem parar.

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