A água já batia na porta do carro, um som surdo e constante.
Lá fora, a tempestade transformava as ruas de Porto Belo num rio furioso.
A minha mão tremia tanto que mal conseguia segurar o telemóvel.
"Atende, Tiago. Por favor, atende."
Ao meu lado, a minha mãe, Sofia, mantinha as mãos no painel, o rosto pálido.
"Calma, Clara. Ele vai atender. Deve estar preso no trânsito também."
Mas eu sabia que não era só trânsito. A água subia rápido demais.
Eu estava grávida de oito meses. Cada movimento brusco do carro na correnteza enviava uma onda de pânico pelo meu corpo, uma preocupação aguda pelo meu filho.
O telefone chamou, chamou, e caiu na caixa de correio pela quinta vez.
Liguei de novo. A minha respiração era curta e difícil.
Desta vez, ele atendeu. A sua voz soou distante e irritada, abafada por outros sons.
"O que foi, Clara? Estou ocupado."
"Ocupado? Tiago, estamos presas! Na Avenida Central, a água está a subir, não consigo sair com o carro!"
Houve uma pausa. Ouvi uma voz feminina ao fundo, a rir de alguma coisa.
Era Laura, a sua meia-irmã.
"Avenida Central? Estou do outro lado da cidade. Não consigo chegar aí agora."
"O que estás a fazer aí? Por favor, Tiago, eu preciso de ajuda! O carro vai ser arrastado!"
A minha voz quebrou. O medo era uma coisa física, apertando a minha garganta.
"A Laura torceu o tornozelo a fugir da chuva, e o cão dela, o Max, quase se afogou. Tive de vir ajudá-la. Fica calma, liga para os bombeiros. Eles resolvem. Tenho de ir."
Antes que eu pudesse dizer mais alguma coisa, ele desligou.
O som do silêncio na linha foi mais violento que o da tempestade lá fora.
Olhei para o telemóvel na minha mão, incrédula.
Ele não vinha.
A sua meia-irmã e o cão dela eram mais importantes.
A água começou a entrar no carro, gelada, a molhar os meus pés.
A minha mãe soltou um grito abafado.
O nosso mundo estava a afundar, e o meu marido tinha escolhido não estar nele.
O painel do carro apagou-se com um estalo. As luzes morreram.
Estávamos presas numa caixa de metal escura, a ser empurrada pela corrente.
"Temos de sair daqui," disse a minha mãe, a voz a tremer.
Ela tentou abrir a porta, mas a pressão da água era demasiado forte.
Eu puxei o meu cinto de segurança, o coração a bater descontroladamente contra as minhas costelas.
O bebé mexeu-se, uma ondulação suave na minha barriga tensa.
Um instinto de proteção, feroz e primitivo, tomou conta de mim.
Eu tinha de o salvar.
"Ajuda-me a quebrar o vidro," gritei para a minha mãe, a minha voz a ecoar no pequeno espaço.
Procurámos algo pesado. Encontrei a tranca do volante debaixo do meu assento.
Bati contra o vidro lateral com toda a força que consegui reunir. Uma, duas, três vezes.
O vidro estalou, depois partiu-se em mil pedaços.
A água jorrou para dentro, uma torrente gelada e suja.
A minha mãe gritou.
"Sai primeiro, mãe! Rápido!"
Ela hesitou, a olhar para a minha barriga.
"Eu vou a seguir! Vai!"
Ela subiu pela janela, agarrando-se ao tejadilho do carro. Eu segui-a, o meu corpo pesado e desajeitado.
A corrente era forte. Outros carros flutuavam à nossa volta como brinquedos abandonados.
O som das sirenes estava longe, um lamento perdido na tempestade.
Agarrei-me ao tejadilho, os meus dedos dormentes de frio.
De repente, uma dor aguda e lancinante atravessou o meu abdómen.
Gritei, dobrando-me sobre mim mesma.
"Clara! O que foi?" A minha mãe agarrou o meu braço, o pânico nos seus olhos.
"O bebé..." foi tudo o que consegui dizer antes de outra contração me atingir, mais forte que a primeira.
O sangue quente escorreu pelas minhas pernas, misturando-se com a água fria da enchente.
Eu estava a perder o meu filho.
Ali, no meio do caos, no tejadilho de um carro a afundar.
A última coisa que vi antes de desmaiar foi o rosto aterrorizado da minha mãe.