Capítulo 2

Quando recebi a chamada do hospital, estava a fazer as malas para a nossa viagem de aniversário de casamento para os Açores.

O meu marido, Pedro, estava no banho, a cantarolar uma melodia desafinada.

O médico do outro lado da linha tinha uma voz grave e cansada.

"Senhora Eva Costa? O seu pai, o senhor Afonso, sofreu um ataque cardíaco. Está em estado crítico na UCI."

O meu telemóvel caiu da minha mão, batendo com um som surdo no tapete.

O meu mundo parou.

Peguei no telemóvel, as minhas mãos tremiam tanto que mal conseguia marcar o número do Pedro. A chamada foi para o voicemail.

Gritei o nome dele, a minha voz a falhar.

"Pedro! O meu pai! Ele está no hospital!"

A porta da casa de banho abriu-se e ele saiu, com uma toalha à volta da cintura e o cabelo a pingar. A sua expressão era de pura irritação.

"O que foi, Eva? Não vês que estou a tomar banho? Que gritaria é essa?"

"O meu pai," consegui dizer, as lágrimas a escorrerem-me pelo rosto. "Ele teve um ataque cardíaco. Precisamos de ir para o hospital. Agora."

Pedro suspirou, um som longo e exasperado, como se eu lhe tivesse pedido o maior dos favores.

"Outra vez? O teu pai não pode ter um drama sem ser no pior momento possível? Sabes há quanto tempo planeamos esta viagem?"

Ele pegou no seu próprio telemóvel, ignorando completamente o meu pânico.

"Espera, a Sofia está a ligar-me."

Sofia. A sua "melhor amiga" de infância, a mulher que vivia no nosso prédio, a mulher que parecia precisar sempre de alguma coisa do meu marido.

Ele atendeu a chamada com um sorriso que não me dirigia há meses.

"Olá, Fifi. O que se passa? Estás bem?"

A voz dela, aguda e chorosa, era audível mesmo à distância.

"Pedrinho, o meu gato, o Mimo, subiu a uma árvore e não consegue descer! Estou tão preocupada, ele está a miar há horas e os bombeiros disseram que não é uma emergência!"

Pedro olhou para mim, depois para a mala meio feita na cama, e a sua decisão foi instantânea.

"Não te preocupes, Fifi. Estou a ir para aí. Não saias daí."

Ele desligou e começou a vestir-se rapidamente, não com as roupas de viagem, mas com calças de ganga e uma t-shirt.

"Pedro, não podes estar a falar a sério," eu disse, incrédula. "O meu pai está a morrer."

"O teu pai está no hospital, com médicos," ele respondeu, sem sequer olhar para mim. "A Sofia está sozinha e em pânico. O gato dela pode cair a qualquer momento. É diferente."

"Diferente? Um gato é mais importante que o meu pai?"

"Não sejas dramática, Eva," ele retorcou, a sua voz fria como gelo. "Eu vou lá, resolvo a situação e depois falamos sobre o teu pai. Podes ir à frente. Chama um táxi."

Ele saiu pela porta, deixando-me sozinha no meio do nosso quarto, com os bilhetes de avião para os Açores a fazerem-me troça em cima da cómoda.

A viagem de aniversário. O nosso amor. A nossa vida. Tudo parecia uma mentira.

Naquele momento, enquanto o som dos seus passos se afastava pelo corredor, uma certeza fria apoderou-se de mim.

O nosso casamento tinha acabado.

Capítulo 3

Cheguei ao hospital sozinha, o coração a bater descontroladamente no peito.

A sala de espera da UCI era fria e silenciosa, cheia de pessoas com a mesma expressão de medo que eu devia ter no rosto.

Uma enfermeira aproximou-se.

"Senhora Costa? O seu pai está estabilizado por agora, mas o estado dele é muito grave. O médico quer falar consigo."

O médico explicou a situação com palavras que eu mal conseguia processar. Bloqueio severo. Danos no músculo cardíaco. A necessidade de uma cirurgia de bypass urgente.

"A cirurgia é de alto risco," ele disse, "e muito cara. O seguro dele não cobre a totalidade. Precisamos de um depósito de cinquenta mil euros para prosseguir."

Cinquenta mil euros.

O ar fugiu-me dos pulmões.

Eu e o Pedro tínhamos essa quantia na nossa conta conjunta. Era o nosso fundo de emergência, as nossas poupanças de uma vida.

Sentei-me num canto, peguei no telemóvel e liguei ao Pedro.

Uma, duas, três vezes. A chamada ia sempre para o voicemail.

Enviei-lhe uma mensagem.

"Pedro, o pai precisa de uma cirurgia de urgência. Custa 50.000€. Preciso de transferir o dinheiro da nossa conta. Por favor, atende."

Esperei. Os minutos arrastavam-se como horas.

Finalmente, o telemóvel vibrou. Não era uma chamada, mas uma mensagem de texto.

"Estás louca? 50.000€? Esse dinheiro é para a nossa casa, para o nosso futuro. Não vou gastar as nossas poupanças de uma vida num velho que mal se aguenta em pé."

As palavras dele atingiram-me com a força de um soco.

"O teu pai já viveu a vida dele. Nós estamos a começar a nossa. A Sofia concorda comigo. Diz que é uma loucura."

A Sofia. Claro que a Sofia concordava.

As minhas mãos tremiam de raiva.

"Ele é o meu pai, Pedro! Ele vai morrer!"

A resposta dele foi quase imediata.

"As pessoas morrem, Eva. É a vida. Para de ser egoísta e pensar só em ti. Eu tenho de ir, o Mimo finalmente desceu mas arranhou o braço da Sofia. Tenho de a levar ao centro de saúde para levar uma vacina antitetânica."

Depois disso, silêncio.

Ele não atendeu mais nenhuma chamada. Não respondeu a mais nenhuma mensagem.

Olhei pela janela da sala de espera, para a cidade a brilhar lá em baixo. Uma cidade cheia de pessoas, e eu nunca me senti tão sozinha.

O meu pai estava a lutar pela vida a poucos metros de mim, e o meu marido, o homem que prometeu amar-me e proteger-me, tinha-me abandonado por causa de um gato e de um arranhão.

A decisão foi tomada ali mesmo, naquela cadeira de plástico desconfortável, com o cheiro a antisséptico no ar.

Não havia mais nada a salvar. O divórcio não era uma possibilidade, era uma necessidade.

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