Os olhos frios de Caio pousaram em Helena, cheios de nojo.
"O que você pensa que está fazendo?", ele rosnou.
Helena olhou de sua perna sangrando para Caio embalando Brenda como se ela fosse uma boneca frágil. Uma dor surda se espalhou por seu peito, mais dolorosa que qualquer ferida física.
Ela lutou para manter a voz firme. "Ela tentou me bater."
"Caio!", Brenda soluçou, enterrando o rosto no peito dele. "Ela tentou machucar a Princess! Ela chutou minha pobre bebê sem motivo nenhum!"
A testa de Caio se franziu, seu olhar se tornando gelo. "Por que você atacaria um animal indefeso, Helena? Você sabe o quanto Brenda ama essa cadela."
Uma lágrima de pura frustração e desespero escorreu pelo rosto de Helena. "Você não viu! A cadela me mordeu primeiro! Olhe para a minha perna!"
A combinação da perda de sangue e da dor lancinante em suas costas finalmente a sobrecarregou. Suas pernas cederam, e ela deslizou pela parede, desabando em um monte no chão.
Por um breve segundo, os olhos de Caio piscaram para o corte em sua panturrilha, e um músculo em sua mandíbula se contraiu. Seu tom suavizou quase imperceptivelmente.
"Vamos limpar isso."
Mas Brenda imediatamente apertou seu aperto nele, seus soluços se tornando mais frenéticos. "Não! Caio, ela machucou a Princess! Minha pobre bebê está traumatizada!"
A preocupação momentânea de Caio por Helena desapareceu. Ele acariciou o cabelo de Brenda, sua voz gotejando afeto. "Pronto, pronto. O que você quer que eu faça, meu amor?"
Brenda levantou o rosto manchado de lágrimas, seus olhos cheios de veneno enquanto olhava para Helena. "Eu quero que ela peça desculpas. Para a Princess."
Caio olhou de volta para Helena no chão, sua expressão endurecendo novamente. "Você a ouviu. Peça desculpas para a cadela, e podemos deixar isso para trás."
Helena soltou uma risada fraca e amarga. Aos olhos dele, sua dor, seu sangue, sua dignidade — tudo valia menos que um cachorro mimado.
Seu rosto estava pálido, mas sua voz era resoluta. "Não."
"O que você disse?", a voz de Caio baixou, assumindo um tom perigoso.
"Eu disse não", repetiu Helena, trêmula, mas desafiadora. "Eu não fiz nada de errado."
Brenda soltou um suspiro teatral e começou a tremer nos braços de Caio.
A paciência de Caio se esgotou. "Você ousa me desobedecer?", ele trovejou.
Helena o encarou, seu coração um bloco de gelo. Ela se lembrou de todas as vezes que obedeceu, todas as vezes que engoliu seu orgulho, esperando por uma migalha de bondade que nunca veio. Não lhe rendeu nada.
"Eu ainda sou a dona desta casa, não sou?", ela desafiou, sua voz mal um sussurro. "Ou esse título é tão falso quanto nossa certidão de casamento?"
Caio ficou imóvel, seus olhos se estreitando. Então um sorriso cruel tocou seus lábios. "Não ouse usar sua posição comigo, Helena. Não vai funcionar."
Ele deu um passo mais perto, pairando sobre ela. "Peça desculpas. Agora. Ou eu vou fazer você pedir."
Helena olhou para seu rosto bonito e impiedoso e sentiu uma onda de repulsa. Ele estava disposto a humilhá-la a esse ponto por um cachorro, por Brenda.
Lentamente, dolorosamente, ela se levantou, agarrando-se ao corrimão para se apoiar. Ela encontrou o olhar dele, seus próprios olhos cheios de uma mistura de dor e pena. Pena por este homem poderoso que era tão emocionalmente atrofiado, tão completamente dominado por sua própria crueldade.
"Nunca", disse ela.
O rosto de Caio se contorceu de raiva. "Seguranças!", ele berrou. "Levem-na para o pátio. Façam-na ajoelhar. Ela ficará lá até estar pronta para se desculpar."
Dois seguranças de rosto impassível apareceram instantaneamente. Enquanto eles agarravam seus braços, Brenda, não mais chorando, lançou a Helena um sorriso triunfante e zombeteiro.
"Caio", Helena chamou, sua voz rouca, enquanto os guardas começavam a arrastá-la.
Ele se virou, sua expressão fria e impaciente. "O quê? Mudou de ideia?"
Ela queria gritar para ele que estava indo embora, que a mãe dele já havia concordado, que logo ele estaria livre dela para sempre. Mas as palavras ficaram presas em sua garganta, sufocadas por anos de lágrimas não derramadas e dor não dita.
Tudo o que ela conseguiu foi um único e desolado sussurro. "Você é um homem sem coração."
Caio apenas zombou, um lampejo de aborrecimento cruzando seu rosto. "Tirem-na da minha vista."
Ele virou as costas para ela e se afastou sem um segundo olhar.
Helena o observou ir, o aperto dos guardas cravando em seus braços. Ela sentiu a picada aguda de suas próprias unhas cravando em suas palmas.
Está quase acabando, ela disse a si mesma. Só mais um pouco, e você estará livre.
Helena ajoelhou no pátio a noite toda. O frio se infiltrou em seus ossos, agravando seus ferimentos existentes até que cada parte de seu corpo era uma sinfonia de dor. Quando o amanhecer rompeu, uma empregada finalmente a ajudou a se levantar e a voltar para seu quarto.
Ela ignorou os apelos da empregada para descansar. Ela tinha que ir para a residência principal dos Barros. Tinha que receber sua punição e deixar aquele lugar para sempre.
Ela estava mancando pela grande escadaria quando Caio apareceu no final, a testa franzida. "Onde você vai?"
"Sua mãe me convocou para a casa principal", respondeu Helena, sua voz plana e sem emoção.
A expressão de Caio escureceu. Ele estava prestes a dizer algo quando a voz alegre de Brenda flutuou do topo da escada.
"Indo para a casa principal? Vai correr para fofocar para a velha, Helena?", Brenda desceu as escadas, usando deliberadamente o primeiro nome de Helena com um desprezo familiar.
Helena a ignorou e continuou em direção à porta da frente.
"Pare." A voz de Caio era uma ordem. Ele agarrou seu braço, seu aperto como ferro. "Você não vai a lugar nenhum. Brenda quer ir às compras. Você vai acompanhá-la."
Ele a olhou de cima a baixo, seus olhos cheios de desdém por seu vestido simples e gasto. "Vou te dar um dinheiro. Compre algo decente para si mesma. Você está patética."
Helena sentiu uma risada histérica borbulhar em sua garganta. Em cinco anos, ele nunca se ofereceu para comprar nada para ela. Sua súbita "generosidade" era obviamente apenas mais uma maneira de apaziguar Brenda.
"Não, obrigada", disse ela, sua voz como gelo. "Eu tenho que ir para a casa principal."
Antes que ela pudesse terminar, Caio gesticulou para seus guardas. "Coloquem-na no carro."
Eles a forçaram a entrar na parte de trás da limusine sem outra palavra.
A tarde de compras foi uma tortura. Brenda saltitava de uma boutique cara para outra, sua energia inesgotável, sua risada ecoando pelo shopping. Helena foi forçada a seguir, carregando uma montanha cada vez maior de sacolas de compras.
Suas costas pareciam estar em chamas. Sua perna latejava. Seus joelhos, machucados por ajoelhar a noite toda, cediam a cada passo. Finalmente, ela não conseguiu mais. As sacolas escorregaram de seus dedos dormentes e caíram no chão. Ela se encostou em uma parede, ofegando, fraca demais para sequer falar.
Brenda se aproximou, um sorriso presunçoso no rosto. "Cansada já? Você é tão delicada, Helena."
Helena a encarou, o rosto uma máscara em branco. Ela sabia que Brenda estava fazendo isso de propósito, saboreando cada momento de seu sofrimento. Não havia escapatória, não até que Dona Lúcia concedesse oficialmente o divórcio.
Rangendo os dentes, ela se afastou da parede e se curvou para pegar as sacolas.
Mas Brenda não tinha terminado com ela.
Quando voltaram para a mansão, Brenda apontou para a montanha de roupas novas. "Lave estas."
Caio, que estava lendo um jornal, olhou para cima. Ele nem sequer olhou para Helena. "Faça o que ela diz."
Helena ficou atordoada. "Mas... há empregadas para isso. E minha perna... minhas costas..."
Caio finalmente levantou os olhos e viu seu rosto pálido e encharcado de suor. Por um momento fugaz, um lampejo de algo — pena, talvez — cruzou suas feições.
Brenda viu também. Ela imediatamente suspirou, lágrimas brotando em seus olhos. "Oh, esqueça. Tudo bem. Eu mesma faço. Eu não gostaria de incomodar a grande Sra. Barros, é claro."
O sarcasmo era espesso. A expressão de Caio endureceu instantaneamente. Ele voltou sua fúria para Helena.
"Ela está se oferecendo para fazer isso e você fica aí parada? Qual é o problema de você lavar algumas roupas? Não é como se você fizesse qualquer outra coisa por aqui."
As palavras atingiram Helena com mais força do que qualquer golpe físico. Ela ficou em silêncio.
Ela era filha de um motorista, uma serviçal. Mesmo depois de cinco anos como a dona da casa, aos olhos dele, era tudo o que ela seria. Uma serviçal.
Sem outra palavra, ela se virou e começou a levar as roupas para a lavanderia.
Ao sair, ouviu Brenda envolver os braços no pescoço de Caio. "Oh, Caio, você é o melhor. Você sempre cuida de mim."
Sua voz, suave e indulgente, a seguiu. "Qualquer coisa por você, meu amor."
Helena olhou para a montanha de sedas e tecidos delicados empilhados na lavanderia e se sentiu a maior tola do mundo.
Já passava da meia-noite quando ela terminou. O movimento repetido de esfregar reabriu as feridas em suas costas. Sua perna estava inchada e quente ao toque. Uma infecção se instalara, e uma febre assolava seu corpo.
Ela subiu as escadas às cegas, sua visão embaçada. Chegou ao seu quarto antes de desabar no chão, inconsciente.
Quando acordou, estava em um quarto branco e estéril. Uma enfermeira ajustava um soro intravenoso conectado ao seu braço.
"Você acordou", disse a enfermeira gentilmente. "Você está com febre alta. O Sr. Barros a trouxe pessoalmente. Ele estava muito preocupado. Ele nos disse especificamente para cuidar muito bem de você."
O coração de Helena deu um solavanco estranho e doloroso. Caio? Preocupado com ela? Ela sabia que não devia acreditar nisso.
A porta de seu quarto se abriu com um estrondo.
Caio entrou furioso, seu rosto uma máscara de raiva trovejante. Ele segurava uma pistola e pressionou o cano frio diretamente contra a testa dela.