Ponto de Vista: Helena
Bruna estava no chão, soluçando dramaticamente, a mão pressionada na bochecha, mas seus olhos, arregalados e venenosos, estavam fixos em mim. "Como você ousa! Você me agrediu! Vou mandar te prender!" ela gritou, sua voz ecoando no corredor deserto. "Só porque sua vida está desmoronando, você acha que pode atacar pessoas inocentes?"
"Inocentes?" cuspi, tremendo com uma raiva que sacudiu todo o meu corpo. "Você é tudo, menos inocente! Você condenou minha irmã à morte por um 'acordo de negócios'!"
Antes que eu pudesse dizer outra palavra, uma mão pesada pousou em meu ombro, me virando. Era Ricardo, seu rosto contorcido de fúria, seus olhos em chamas. Ele me empurrou com força, me fazendo tropeçar para trás, minha cabeça batendo contra a parede fria e dura. Uma dor aguda e ofuscante explodiu atrás dos meus olhos e, por um momento, o mundo se dissolveu em um caleidoscópio de luzes piscantes.
Eu ofeguei, agarrando minha cabeça, uma onda de náusea me invadindo. Vermelho. Havia vermelho na minha mão quando a afastei. Sangue. Minha visão turvou e me senti tonta, desorientada.
"Helena, que diabos há de errado com você?" Ricardo rugiu, sua voz carregada de nojo. "Bater na Bruna? Você enlouqueceu completamente? Ela estava tentando te ajudar!"
"Ajudar?" grasnei, a palavra uma piada amarga. Minha cabeça latejava, uma batida implacável de dor. "Ela estava se gabando! Ela me disse que era um acordo de negócios! Ela roubou o coração da Júlia por um acordo de negócios!"
Bruna, ainda choramingando no chão, conseguiu se sentar, seu olhar alternando entre Ricardo e eu, um brilho astuto em seus olhos. "Ela está mentindo, Ricardo," ela sussurrou, sua voz trêmula. "Ela só está tentando te virar contra mim. Ela sempre teve ciúmes."
Ricardo olhou para mim, seus olhos se estreitando em suspeita. "Ciúmes? De quê, Helena? Da preocupação dela com meus parceiros de negócios? Ou você está apenas com raiva por não poder mais controlar tudo?"
"Minha irmã está morrendo, Ricardo!" gritei, as palavras rasgando minha garganta crua. "Ela precisa daquele coração! Minha mãe, nossa mãe, arranjou! Foi uma doação direcionada! Uma combinação perfeita! Como você pôde deixá-los levá-lo?"
Ele jogou as mãos para o ar em exasperação. "Helena, eu já te disse! Foi um mal-entendido! O primo da Bruna estava em estado crítico, uma emergência de última hora. O que eu deveria fazer? Deixá-lo morrer?"
"O primo dela?" Eu ri, um som áspero e quebrado que machucou minha cabeça dolorida. "Ela acabou de admitir que não era para o primo dela! Foi um acordo de negócios, seu tolo! Um jogo de poder!"
Bruna soltou outro pequeno soluço. "Ricardo, por favor, não dê ouvidos a ela. Ela está desequilibrada. Ela sempre me odiou."
Ele ignorou Bruna, seu olhar fixo em mim, frio e implacável. "Sabe de uma coisa, Helena? Você mudou. Você costumava ser tão doce, tão compreensiva. Agora você é apenas uma megera amarga e vingativa. Não é à toa que sua mãe sempre se preocupou tanto com você."
Suas palavras perfuraram a dor, cortando mais fundo do que qualquer golpe físico. Minha mãe. Ele ousava falar dela, de suas preocupações, como se soubesse algo sobre seu amor, sobre seus sacrifícios. Eu cambaleei para frente, passando por ele, determinada a chegar ao quarto de Júlia, a vê-la uma última vez antes que fosse tarde demais.
Mas Bruna, sempre atenta, levantou-se e bloqueou meu caminho. "Ah, não, você não vai. Você não vai causar mais problemas. Os médicos já têm o suficiente com que lidar." Ela colocou as mãos no meu peito, me empurrando para trás. "Pense na Júlia, Helena. Você quer que os últimos momentos dela sejam preenchidos com suas acusações feias?"
"Não se atreva a pronunciar o nome dela!" gritei, minha voz mal um sussurro, grossa de lágrimas e do gosto metálico amargo de sangue na minha boca. "Você não tem o direito de usar a Júlia para me manipular! Aquele coração era a última chance dela! Minha mãe arranjou. Minha mãe, que nos amava mais do que tudo, desistiu de sua própria chance de vida para garantir isso para a Júlia!"
Tropecei novamente, minha prótese cedendo sob o tremor súbito que percorreu meu corpo. Caí de joelhos, sem fôlego, meu lado queimando com uma dor intensa e agonizante. Agarrei meu estômago, um pensamento horrível florescendo em minha mente. Não. Isso não. Agora não.
Ricardo, vendo meu sofrimento, parou, um lampejo de preocupação cruzando seu rosto. Mas foi rapidamente substituído por irritação. "Helena, pare com essa farsa. Levante-se. Você está fazendo uma cena."
"Não vou sair até ver a Júlia," ofeguei, as palavras quase inaudíveis. "E você, seu monstro, vai se arrepender disso. Eu juro, você vai se arrepender disso pelo resto da sua vida."
"Arrepender do quê?" ele zombou, sua paciência claramente no fim. "De ser leal aos meus parceiros de negócios? De salvar uma vida que não era 'sua' para salvar? Você está sendo dramática, Helena. Como sempre."
"Você quer drama?" sibilei, forçando-me a olhá-lo nos olhos, apesar da dor embaçando minha visão. "Você quer drama? Tudo bem. Espero que aproveite sua nova vida, Ricardo. Porque você e eu acabamos. De verdade. Estou me divorciando de você. E vou levar tudo o que é meu."
Seu rosto ficou branco. "Você não pode estar falando sério."
"Ah, estou falando sério," sussurrei, uma determinação arrepiante se solidificando em meu coração. "Mais séria do que nunca. Você tirou a vida da minha irmã. Você tirou o último presente da minha mãe. Agora estou pegando a minha de volta."
Antes que ele pudesse responder, a dor insuportável em meu abdômen se intensificou, uma cãibra aguda e lancinante que me dobrou. Gritei, um som cru, animal, agarrando meu estômago com as duas mãos. Minha cabeça girou e minha visão afunilou.
Ricardo, seu rosto ainda pálido com minha declaração, recuou um pouco, um lampejo de alarme genuíno em seus olhos. "Helena, o que foi?" ele exigiu, dando um passo hesitante para frente.
Mas eu estava além da fala. Meu corpo estava atormentado pela agonia, um calor aterrorizante se espalhando entre minhas pernas. O sangue. Havia mais sangue. Um terror gelado me dominou, mais frio que qualquer ódio.
"O que há de errado com ela?" Bruna choramingou, sua voz tingida de impaciência mal disfarçada. "Ela é sempre tão dramática. Apenas a ignore, Ricardo. Temos coisas mais importantes a fazer."
Ricardo hesitou, olhando entre mim e Bruna. Por um momento, um fragmento do antigo Ricardo, aquele que ocasionalmente mostrava preocupação, pareceu surgir. Mas foi passageiro. Seu olhar endureceu novamente.
"Helena, se você está tentando me manipular com alguma cena elaborada, não vai funcionar," ele avisou, sua voz fria. "Esta é sua última chance. Vá para casa. Agora. Ou não espere que eu vá te procurar quando você perceber que cometeu um erro terrível."
Minha respiração falhou. Ele achava que eu estava fingindo. Ele achava que eu estava fingindo essa dor excruciante, esse calor úmido e aterrorizante se espalhando sob mim. Ele achava que eu manipularia a morte do meu filho.
"Erro?" engasguei, uma risada amarga borbulhando através da minha dor. "O único erro que cometi foi te amar. E agora, estou pagando por isso. Todos nós estamos."
Fechei os olhos, a dor sobrepujando tudo. Eu podia ouvir os passos de Ricardo se afastando, a risadinha triunfante de Bruna, o zumbido distante da maquinaria do hospital. Um pavor frio se instalou sobre mim, uma premonição de perda irreversível. Não era apenas a Júlia que eu estava perdendo. Era tudo.
Ponto de Vista: Helena
A ligação veio no meio da noite, cortando o fino véu de inconsciência que eu consegui arrancar após horas de choro inconsolável. Minha mão desajeitada procurou o telefone, meu coração já um tambor frenético contra minhas costelas. O pavor, frio e pesado, tinha sido meu companheiro constante desde a traição de Ricardo.
"Senhorita Carpenter?" Uma voz sombria do outro lado, formal e estéril, confirmou meus piores medos. "Aqui é o Dr. Evans do Hospital Sírio-Libanês. Estou ligando para informar... perdemos a Júlia."
O mundo girou. O telefone escorregou de meus dedos dormentes, caindo no chão. "Não," sussurrei, o som arrancado da parte mais profunda da minha alma. "Não, não, não." Não podia ser verdade. Simplesmente não podia. Júlia, minha brilhante e esperançosa Júlia, não podia ter partido. Ela deveria viver. Ela tinha tanta vida pela frente.
Minhas pernas cederam. Caí no chão, o azulejo frio pressionando minha bochecha, espelhando o frio que havia tomado meu âmago. Meus pulmões queimavam, o ar se recusando a entrar ou sair. Arranhei minha garganta, desesperada por uma respiração, mas era como tentar respirar debaixo d'água. Sufocamento. Era o que parecia. Não apenas físico, mas espiritual.
A culpa, crua e corrosiva, me rasgou. A culpa é toda sua, Helena. Eu deveria ter lutado mais. Eu deveria ter encontrado outro jeito. Eu nunca deveria ter confiado em Ricardo. O rosto da minha mãe brilhou diante dos meus olhos, seu sorriso gentil, seu olhar amoroso. Eu te decepcionei, mãe. Eu decepcionei a Júlia.
Um ódio ardente por Ricardo, um fogo venenoso e consumidor, acendeu-se em meu peito. Ele tinha feito isso. Ele havia assassinado minha irmã. Ele havia tirado a vida dela com sua indiferença cruel, sua arrogância egoísta. Ele havia roubado o coração, mas havia arrancado o meu no processo. Ele não era apenas um marido; ele era um assassino. Eu nunca o perdoaria. Eu nunca esqueceria.
O mundo ficou preto.
Os dias seguintes se transformaram em uma névoa indistinguível de luto e dor. Meu corpo se movia no piloto automático, uma casca oca guiada pelo instinto. Encontrei-me ao lado do túmulo de Júlia, a terra recém-revolvida uma ferida aberta em meu coração. Dois túmulos, lado a lado. O da minha mãe, e agora o da Júlia. Parecia errado, totalmente errado, uma vida tão jovem ser enterrada.
Eu encarei sua lápide, a foto sorridente de Júlia, vibrante e cheia de vida, seus olhos brilhando com sonhos. Ela tinha apenas dezesseis anos. Dezesseis. Ela queria viajar pelo mundo, cantar, dançar como sua irmã mais velha. Agora, ela se foi. Vítima das circunstâncias. Não. Vítima de traição.
"Sinto muito, minha pequena," sussurrei, minha voz rouca, crua de lágrimas não derramadas. "Eu tentei. Eu realmente tentei."
A capelã do hospital, uma mulher de rosto gentil com olhos tristes, aproximou-se de mim com cautela. "Helena," ela disse suavemente, sua voz cheia de compreensão gentil. "Eu só queria dizer o quanto sinto muito por sua perda. Fizemos tudo o que podíamos."
Ofereci uma risada amarga e sem humor. "Fizeram? Fizeram mesmo, padre? Ou apenas seguiram ordens?"
Seu olhar vacilou, um lampejo de desconforto cruzando seu rosto. "Às vezes," ela começou, depois parou, suas palavras presas na garganta. Ela simplesmente balançou a cabeça e se afastou, deixando-me sozinha com meus fantasmas.
O céu acima espelhava minha alma, uma tela pesada e cinzenta que ameaçava chuva. Uma rajada de vento frio bagunçou meu cabelo, trazendo consigo o cheiro de terra úmida e folhas morrendo. Alcancei o bolso do meu casaco, meus dedos se fechando em torno do pequeno pássaro de madeira primorosamente esculpido que Júlia me dera anos atrás. Era seu amuleto da sorte, ela dissera. Seu coração.
"Helena, você é a melhor irmã mais velha do mundo inteiro," a voz de Júlia, brilhante e clara, ecoou em minha memória. Estávamos sentadas perto da janela, observando a chuva, anos atrás. Ela tinha acabado de me ver chorar após um treino de balé particularmente exaustivo, minha prótese doendo. "Não se preocupe, você vai encontrar alguém que te veja, toda você, não apenas sua perna. Alguém que te ame completamente."
"Você acha, Juju?" eu havia perguntado, cética, enxugando minhas lágrimas.
Ela assentiu enfaticamente, seus olhos sérios. "Eu sei que sim. E quando você o encontrar, ele será o homem mais sortudo do mundo. Você merece toda a felicidade."
Suas palavras, antes um bálsamo reconfortante, agora pareciam uma ironia cruel. Eu acreditei nela. Acreditei que encontrei essa pessoa em Ricardo. Acreditei que meu amor, embora imperfeito, era verdadeiro. Acreditei que merecia a felicidade. E veja onde isso nos levou.
Apertei o pássaro de madeira na mão, as bordas afiadas cravando em minha palma. A chuva começou a cair, suave no início, depois mais forte, misturando-se com as lágrimas frescas que escorriam pelo meu rosto. Meu amor por Ricardo levara à morte de Júlia. Minha confiança nele custara tudo.
Limpei o rosto com as costas da mão, uma determinação fria e dura se instalando em meu coração. As lágrimas acabaram. O luto, embora sempre fizesse parte de mim, não me paralisaria mais. Ricardo havia tirado tudo, mas não levaria meu espírito. Ele não levaria minha vontade de lutar. Eu me divorciaria dele. Cortaria todos os laços. Ele fizera sua escolha. Agora, eu faria a minha. Ele não era meu marido. Ele era o assassino de Júlia. E ele pagaria.