Ponto de Vista: Alessa
Santino entrou no momento em que os dedos de Valentina se atrapalhavam com o primeiro botão de sua camisa. Seus olhos, escuros e tempestuosos, pousaram em mim.
"Que diabo você está fazendo, Alessa?" ele rosnou.
"Estou restaurando um pouco de dignidade a esta casa", eu disse, sem desviar os olhos do rosto em pânico de Valentina.
"Você está assediando uma mulher grávida e de luto. Está destruindo a união da nossa família." Sua voz era baixa, um rosnado perigoso que antes me faria encolher. Agora, apenas alimentava o gelo em minhas veias.
Ele se colocou entre nós, pousando uma mão protetora no ombro de Valentina. "Ela está carregando o filho do Marco. É meu dever cuidar dela. Você precisa entender isso. Precisa mostrar um pouco de compaixão."
A hipocrisia era tão espessa que eu podia senti-la no ar. Dever. Ele falava de dever enquanto desrespeitava nossos votos, nosso laço familiar, bem na minha frente.
"Eu entendo perfeitamente", eu disse, minha voz afiada. "Você deixou suas prioridades claras. Então, vou deixar as minhas claras também. Eu quero a anulação."
A palavra pairou no ar, pesada e chocante. Em nosso mundo, o casamento era um sacramento, um contrato vinculativo entre famílias. A anulação era uma declaração de guerra.
O rosto de Santino ficou rígido. Por um segundo, pensei que ele pudesse realmente ver o abismo que se abriu entre nós.
Então ele zombou. "Não seja ridícula. Você está emotiva." Ele acenou com a mão, desdenhoso. "Quer um carro novo? Eu te compro um carro novo. Quer outra casa? Escolha uma."
Ele achava que podia comprar meu silêncio, minha submissão. Ele não tinha ideia com quem estava lidando agora. Ele ainda estava falando com o fantasma da garota que eu costumava ser.
Foi quando Valentina começou sua performance. Uma lágrima solitária escorreu por sua bochecha. Seu lábio inferior tremeu. "Oh, Santino", ela sussurrou, a voz sufocada por uma tristeza fabricada. "Isso tudo é culpa minha. Eu me meti entre vocês. Eu deveria simplesmente ir embora..."
Foi um golpe de mestre da manipulação, e Santino caiu completamente.
"Não", ele disse, sua voz suavizando instantaneamente enquanto voltava toda a sua atenção para ela. Ele a puxou para um abraço gentil. "Você não vai a lugar nenhum. Não dê ouvidos a ela. Ela só está chateada."
Ele me fuzilou com o olhar por cima da cabeça de Valentina, seus olhos cheios de acusação. Ele estava protegendo sua amante de sua esposa.
Minha raiva, fria e precisa, encontrou sua voz. "Você fica aí a consolando depois de passar a noite passada massageando os pés dela na minha cozinha?" As palavras foram baixas, mas o atingiram como um golpe físico.
Valentina, sentindo a determinação dele vacilar, aumentou a aposta. Suas lágrimas silenciosas se transformaram em soluços convulsivos. "Eu não posso ficar aqui", ela chorou em seu peito. "Não posso ser o motivo pelo qual seu casamento desmorona. Eu vou embora. Vou criar o bebê sozinha..."
Foi a jogada perfeita. A ameaça de ir embora, de levar o último pedaço de seu irmão morto, cimentou seu senso de proteção equivocado.
Ele a segurou com mais força, ignorando completamente o fato de que eu ainda estava na sala. Ele ignorou a dor gravada em meu rosto, a finalidade em minha voz.
"Este é o seu porto seguro, Valentina", ele murmurou para ela, sua voz uma promessa baixa. "Esta é a sua casa. Você nunca, jamais, irá embora."
Foi o insulto final. Ele havia dado a ela minha casa, meu marido, minha vida.
Ele nem sequer olhou para mim. Apenas ficou ali, acariciando o cabelo dela, sussurrando palavras de conforto. Naquele momento, eu não era sua esposa. Eu nem estava ali.
E nesse momento, Alessa Bianchi, a esposa, morreu. E Alessa Bianchi, a rosa com espinhos pronta para sua vingança sangrenta, nasceu por completo.
Ponto de Vista: Alessa
Eu os observei por mais um momento, um quadro vivo da traição. Então, virei nos calcanhares.
"Estou indo embora", anunciei para as costas deles.
O silêncio que se seguiu foi absoluto. Nenhum protesto. Nenhuma pergunta. Apenas o som dos soluços baixos de Valentina. Eles não se importavam.
Fui para o meu quarto — nosso quarto — e comecei a fazer as malas. Mas primeiro, entrei no closet gigantesco. Do meu lado, fileiras de bege, cinza e azul-marinho pendiam em perfeita ordem. As cores discretas da esposa de um Dom. O uniforme da minha prisão.
Afastei-as, alcançando uma caixa bem no fundo. Dentro estava a mulher que eu costumava ser. Tirei um par de jeans justos e gastos e uma camisola de seda vermelho-sangue. Tirei o vestido conservador que estava usando e os vesti. Soltei meu cabelo do coque apertado, sacudindo-o solto sobre meus ombros. Olhei no espelho e vi uma estranha, um vislumbre da garota impetuosa que eu havia enterrado há quatro anos. Foi uma ressurreição.
Enquanto fazia as malas, cada objeto que eu tocava era uma lembrança de um sacrifício. Os materiais de arte que guardei porque Santino os achava bagunçados. Os lenços coloridos e as joias ousadas que parei de usar porque sua mãe, Eleonora, os chamava de bregas. A vida inteira que eu havia abandonado, pedaço por pedaço, por um homem que estava atualmente consolando outra mulher na minha cozinha. O vazio da minha devoção era uma dor oca no meu peito.
Peguei meu telefone criptografado novamente e enviei uma única mensagem codificada.
*Preciso de conselho. O Cervo.*
Damião Costa, um Capo da organização do meu pai e um amigo leal da minha infância, respondeu quase instantaneamente.
*Uma hora. No lugar de sempre.*
Saí de casa sem dizer mais uma palavra a ninguém. O "lugar de sempre" era um bar tranquilo e familiar no centro de São Paulo, um lugar onde negócios eram conduzidos e segredos eram mantidos em segurança. O ar estava impregnado com o cheiro de madeira velha e uísque caro.
Damião já estava lá, uma presença sombria e sólida em um reservado no canto. Seu rosto estava sério.
"Alessa", ele disse, sua voz baixa. Ele não precisava perguntar o que estava errado. Estava estampado no meu rosto.
Contei tudo a ele. A constante violação de limites, os pesadelos, a massagem nos pés, a camisa. Contei a ele sobre a vergonha profunda e esmagadora que Santino havia trazido ao nome do meu pai.
Damião ouviu sem interrupção, sua expressão endurecendo a cada palavra. Ele tinha o instinto protetor de um padrinho sombrio, sua lealdade à minha família era absoluta.
Quando terminei, ele ficou em silêncio por um longo momento. "Você tem certeza de que a criança é do Marco?" ele perguntou, sua voz enganosamente casual. "Valentina era... conhecida, antes do Marco."
A pergunta pairou no ar, uma semente de dúvida que se plantou no solo fértil da minha raiva. Uma conspiração mais profunda.
Eu estava tão consumida pelo pensamento que não vi Santino até ele estar parado sobre nossa mesa.
Seu rosto era uma máscara de fúria fria. A possessividade irradiava dele em ondas. Ele não estava aqui por preocupação. Estava aqui porque sua propriedade havia deixado o terreno sem permissão.
"Você vai para casa. Agora", ele ordenou, sua voz não deixando espaço para discussão. Ele agarrou meu braço, seus dedos cravando na minha pele.
Na manhã seguinte, acordei no quarto de hóspedes. Meu braço estava roxo onde ele me agarrou. Na mesa de cabeceira havia um frasco de analgésicos e um copo d'água. Uma admissão silenciosa e patética de sua brutalidade.
Desci as escadas. A cena na cozinha era uma piada cruel. Santino tinha um prato de analgésicos para mim, mas havia preparado um banquete para Valentina — panquecas, frutas frescas, suco de laranja. Ele estava tratando sua culpa comigo e tratando-a com um banquete. Seu descaso insensível era de tirar o fôlego.
Caminhei até a mesa, meus olhos se encontrando com os de Valentina. Ela desviou o olhar, um lampejo de medo em seus olhos.
Inclinei-me, minha voz um sussurro frio e baixo apenas para seus ouvidos.
"Este é o seu primeiro e único aviso. Não me provoque novamente. Você não tem ideia do que sou capaz."
Endireitei-me, encontrando seu olhar aterrorizado. Ela estava vendo a Rainha da Máfia agora, e tinha razão em ter medo.