Parei um táxi e pedi que fosse para o hospital. Aqueles minutos até a chegada pareceram uma eternidade. Finalmente, cheguei. Uma parte minha temia entrar. A verdade é que, apesar de meu avô ser a pessoa mais irritante do mundo, não estou pronto para perdê-lo. Fiquei ali, na porta do hospital, até que Edward, o CEO da empresa, se aproximou de mim.
- Tudo bem, Jemes? - Ele perguntou.
- Como o velho está? - Esperei pelo golpe, mas ele sorriu.
- Bem, ele está se recuperando. - E toda a tensão no meu corpo se desfez.
- Ele gosta de um drama, né?
- Vamos entrar, seu avô está sendo levado para o quarto. - Olhei para Allen, o mordomo e fiel amigo do meu avô.
- O que aconteceu? - Ele me olhou, balançando a cabeça.
- Ele tem se recusado a tomar os remédios. Está terrível, falando que os netos não se importam mais com ele. - Eu ri. Ele que me expulsou da mansão e eu sou o neto desnaturado.
- Quando vou poder vê-lo? - Ele deu de ombros.
- Estão levando para o quarto, pediram para aguardar. - Respirei fundo. Quero vê-lo, ter certeza de que ele está bem. Não demorou muito para Nicholas chegar. Seus olhos assustados, com medo. Apesar de não nos darmos bem, eu sei o quanto meu avô é importante para ele. Pensei em dizer algo para ele, mas não tinha o que dizer. Apenas balbuciei um "o velho".
Allen nos encarou. Ele acha que somos dois idiotas, e não posso negar tal fato. Esperamos impacientes a liberação para podermos ver o velho. E assim que liberaram, eu e Nicholas corremos para entrar no quarto.
- Vovô! - Nicholas se apressou a falar, sempre tentando ser o centro das atenções. - Como está se sentindo?
- O senhor me assustou. O que estava pensando quando decidiu parar com seus remédios? - Questionei, mal-humorado. Meu avô apenas levantou a mão para ignorar meus sermões.
- É tão bom ver meus dois netos juntos de novo! - Ele segurou nossas mãos, unindo-as. - Era assim que eu desejava vê-los antes de morrer, unidos como irmãos, tomando conta da empresa, continuando o meu legado.
- O senhor não vai morrer, vovô. Não diga uma coisa dessas. - Nicholas falou, apenas concordando com a cabeça. - Nunca conheci pessoas mais fortes que você. Não vai morrer nem tão cedo. E pare de se preocupar com a empresa, ela está em boas mãos.
Nosso avô bufou, irritado. O sonho dele é ver eu e Nicholas trabalhando juntos na empresa.
- Vocês é que estão me matando. Estão acabando comigo e nem percebem! - Ele falou irritado, fazendo os aparelhos enlouquecerem. - Por que não podem sossegar, formar uma família e seguir os negócios da família em paz? É isso o que eu preciso, ver que vocês estão encaminhados na vida, se tornando alguém e não que são apenas dois ricos mulherengos como o pai de vocês.
- Vovô, deveria se acalmar ou os médicos vão voltar aqui. - Falei, olhando para os aparelhos. - Podemos falar disso uma outra hora, quando estiver se sentindo melhor.
- Não vou me sentir melhor, não enquanto não colocá-los no caminho certo! - O caminho certo para o velho conservador é me levar para o altar.
- O senhor fez o bastante, agora nos deixe cuidar de você. Que tal começarmos a nos tornar os homens que quer, assim? - Nicholas falou. Revirei os olhos. Meu avô deu um tapa na mão dele.
A questão é que meu avô está com o drama pronto. Ele é um ótimo manipulador e, sabendo que eu e Nicholas queremos agradá-lo, ele irá usar isso.
- Isso vai acabar esse ano, não vou deixar que se tornem uma cópia do pai de vocês! - Nunca seria como meu pai, nunca desonraria a minha palavra como ele fez, nunca magoaria uma mulher como ele magoou minha mãe. - Eu o criei errado e deixei que agisse como queria toda a sua vida, mas não vou cometer o mesmo erro com vocês.
- O que quer dizer com isso, vovô? - Nicholas perguntou.
- Não queria ter de fazer isso, mas vejo que é a única solução. Vocês terão até o Natal do próximo ano para casar e me apresentar a noiva! - O velho enlouqueceu, provavelmente são os efeitos do medicamento.
- O quê? Vovô, não pode fazer isso, apenas por suas fantasias, enquanto nós não queremos nenhum casamento ou formar família. - Nicholas ainda tenta argumentar.
- Sim, não pode forçar as pessoas a se casarem e muito menos dar um ultimato com uma data final, vovô. - Tentei trazer a sanidade de volta ao velho.
- Queria que fossem assim sempre, como irmãos que se apoiam, mas o único momento em que conseguem fazer isso é para irem contra mim! - Ele falou irritado. - Não querem se casar e ter uma família? Ótimo, então não deixarei a empresa para nenhum de vocês. Querem a cadeira de CEO? Mostrem que merecem! O primeiro a se casar assume o posto!
Então o velho decidiu usar as armas que tem. A verdade é que, por direito, a cadeira é minha. Passei a vida me preparando para isso. Minha mãe não aceitaria nada menos do que seu filho no posto.
Dei de ombros. Provavelmente o velho irá esquecer dessa insanidade. Deve ser só os efeitos dos remédios.
Algumas semanas depois
Emma
Meu encontro com Jemes Carter não saía da minha cabeça. Não o vi mais desde do baile de natal. Apesar de não ter tido nem ao menos um beijo dele, tenho para mim que a noite passada foi especial para ele, assim como foi para mim.
- Emma, venha! - Maya me chama. Como trabalhamos na véspera do Natal, eu, Cairo e Maya organizamos uma pequena ceia para nós e os outros funcionários, na cozinha do hotel mesmo na noite do dia 25.
- Estou indo. - Falei, tirando o avental.
A ceia foi deliciosa, mas como não seria? O chefe sempre faz as melhores refeições. Cairo me entregou um pequeno embrulho no final do jantar.
- O que é isso? - Perguntei, olhando para ele. Ele sorriu.
- Abra. - E quando abri, vi um papel dobrado.
- Uma carta. - Cairo riu. Abri o papel e era um bilhete com as letras do meu pai.
"Cuide de Emma, não abandone, garanta o futuro dela. Mas não sei como protegê-la até que ela saiba lutar sozinha. Preciso que ajude, seja forte. Christine não é a mulher que pensei que é. Cuide do meu tesouro, Cairo."
- Meu pai... - Senti vontade de chorar.
- Não acredito que o testamento esteja certo, Emma. Seu pai garantiu que deixou seu futuro seguro. Agora que você é maior de idade, precisa de bons advogados. Com certeza o testamento foi alterado. - E senti um alívio que não sentia há muito tempo. Meu pai não havia me esquecido.
- Obrigada, Cairo. - Ele sorriu e se afastou, me deixando com o bilhete na mão. Maya chegou logo depois, com outro embrulho na mão.
- Não vai fazer isso. Prometemos que não trocaríamos presentes. - Falei para ela, que sorria.
- Já fez seu pedido para o papai noel? - Eu ri. Há muito tempo que não acredito no bom velhinho.
- Ainda não, não sei o que pedir. E você? - Ela riu e me entregou o embrulho. Revirei os olhos, abri e vi a máscara que havia usado.
- Guardou isso? - Perguntei, confusa. A verdade é que Maya devia se livrar de todas as provas de que eu estive no baile.
- Não tem mais problema. Ninguém irá lembrar mais da moça de vermelho que chamou a atenção de Jemes Carter. - Talvez ela tenha razão. Eu realmente quero ter algo para lembrar daquela noite.
- Muito obrigada. - Ela bateu no meu ombro de leve.
- Sabe, senhorita Emma, no Natal passado eu pedi para o papai noel que me desse um emprego com pessoas maravilhosas, e eu estou aqui. - Ela sorriu. - Que tal fazer o seu pedido? Talvez, só talvez, ele se realize.
Maya se afastou e eu fiquei ali. Então decidi subir para o terraço. Se ela tem razão, melhor pedir em um lugar que seja mais próximo do bom velhinho.
E ali, no terraço, onde o beijo com Jemes Carter não aconteceu, eu pedi com todo o meu coração que, se o papai noel existisse, ele interferisse em meu destino e me desse Jemes Carter de presente.
" Eu não sabia, mas que maldito desejo"
Emma
306 dias depois do pedido
- ACORDAR.
O grito me fez acordar atordoada. Christine não tem o hábito de ser gentil; ela puxou o meu cobertor.
- Vai perder a hora, garota preguiçosa! Eu disse ao seu pai que deveríamos ter deixado você com sua avó. - Ela fala com mal-humor. Me levantei ainda sonolenta e olhei para o relógio. Eu entro às 09h no trabalho, e ainda eram 6h da manhã. - Maya faltou de novo, precisamos que você a substitua.
- Claro, porque eu não tenho outros planos. - Falei, sem questionar ou reclamar do jeito dela. Aprendi a não me irritar com Christine, não quando ela perde o controle tão facilmente e joga o que tiver por perto em mim.
Puxei o ar com força. Ouvi Catharina reclamar de estar sendo acordada e Luana resmungar alguma coisa, mas Christine não se importava em acordar suas filhas. Na verdade, ela tem uma grande habilidade: não se importar com ninguém além dela mesma.
- Ande logo, estão precisando de você! - Ela gritou, e me arrastei até o banheiro.
- Me dá 20 minutos, preciso tomar um banho. - Ela gritou mais algumas ofensas, mas decidi não escutá-la; o barulho do chuveiro abafou seus gritos.
Quando Christine me fez a proposta de trabalhar no hotel dos meus pais, no primeiro momento eu recusei. Mas ela me lembrou que, ao contrário de suas filhas, eu não receberia mesada. Então, aceitei o trabalho de camareira. E assim, tenho sido jogada para fazer tudo no hotel. Christine não aceita o fato de que eu não recuo, não deixo ela me desanimar. Coloco um sorriso no rosto e o desentupidor de privada na mão, e sigo em frente.
E para ela, isso é um insulto. Como eu não caí aos seus pés e implorei por misericórdia. Christine é um ser desprezível, e eu tive o azar de meu pai se apaixonar por ela.
Sai do banho e vesti minha armadura de serviçal. Me lembro de quando era criança, perguntando à minha mãe por que eu não podia ter uma roupa como a das garotas do hotel. Eu achava lindo o tom azul escuro do uniforme. Era pequena demais para entender, mas a cor do uniforme era uma forma de distinguir quem era funcionário do hotel e quem não era.
Caminhei em passos firmes até a sala de jantar. O café estava servido. Não que eu pudesse me sentar com Christine, mas era bom que ela me visse indo trabalhar.
- Maya está bem? - Perguntei. Ela me avaliou com seus grandes olhos negros e deu de ombros.
- O filho está doente. Já falei para não contratar mulheres com filhos; elas usam eles como desculpas sempre que precisam. - Maya nunca falta, na verdade, é a melhor funcionária do hotel, mas não irei discutir isso com ela.
- Entendo, vou indo. - Falei, saindo da sala de jantar e indo para a escada de serviço. Christine diz que não devo sair pela porta da frente, não quando estou vestida de serviçal.
As coisas costumavam ser diferentes; por doze anos, eu fui a princesinha do meu pai, o hotel meu castelo, eu era mimada e amada, mas Christine apareceu em nossas vidas, acabara de perder o marido, assim como meu pai tinha perdido a minha mãe, rapidamente os dois criaram conexão, como não criar, ambos pais sozinhos aprendendo a lidar com o luto. No começo, eu achava bom, meu pai sorria, teria irmãs para brincar. Mas tudo mudou quando meu pai ficou doente e, com doze anos, me tornei órfã, e Christine, minha amada madrasta, se sentiu na obrigação de me criar. E aí o mundo desabou, e a princesinha se tornou um estorvo.
- Graças a Deus chegou. - Cairo falou, ajeitando a gravata. Ele é o gerente do hotel, sempre foi leal ao meu pai e, apesar de não suportar Christine, ele me prometeu que nunca me deixaria à própria sorte com ela.
- Estamos lotados, sabe como é perto do Natal e Maya não conseguiu vir. - Sorri para ele, pegando o avental.
- Eu já estou pronta, o que preciso fazer? - Ele sorriu para mim.
- Leve esse café para o quarto 203. - Ele apontou o carrinho com o café da manhã. Senti um frio na espinha, eu sei quem está hospedado no 203.
- Eu posso arrumar os quartos, pede que outra leve o café da manhã. - Cairo olhou para mim impaciente.
- Não temos tempo para isso, sabe como o Sr. Carter é irritante pela manhã. - Puxei o ar, a verdade é que não desejo ir naquele quarto, não desejo chegar perto do Sr. Carter.
- Estou indo. - Falei, sabendo que não posso passar o resto da vida o evitando, ele provavelmente não lembra de mim, estava de máscara e foi uma noite agitada para ele.
Peguei o carrinho e entrei no elevador de serviço, meu coração pulsava como se estivesse em uma corrida de cavalo, já pensei em diversas situações possíveis caso o Sr. Carter me reconhecesse e todas elas terminam com ele me rejeitando quando percebesse que sou só mais uma funcionária do hotel.
Já vi as garotas que Jemes andam, todas sempre bem vestidas e lindas, sei que se ele não tivesse entendido naquela noite, nunca teria se aproximado de mim.
Parei de frente ao quarto 203, meu coração batia em um ritmo acelerado, sei que ele não vai me reconhecer. Bati na porta e esperei ele abrir. Seus cabelos negros estavam molhados, ele estava apenas com uma toalha na cintura demonstrando seus músculos, seus olhos grandes e azuis caíram sobre mim.
- Pode entrar, docinho, me desculpa por atendê-la assim, vou colocar o roupão, pode colocar a mesa. - Ele fala, andando para o quarto. O apartamento 203 é espaçoso, tem sala de visitas, o quarto, a sala de jantar, mas sei que ele prefere tomar seu café na varanda. Empurrei o carrinho até o lado de fora.
Não sou tão boa em organizar a mesa quanto Maya, ela tem mais habilidade com isso, apenas coloquei o café sobre a mesa da varanda. Ele logo apareceu, vestindo um roupão. Seus olhos me avaliaram enquanto eu colocava os talheres. Ele se sentou, e seus olhos continuavam fixos em mim. Uma onda de desespero e medo me tomou. Se ele me reconhecesse, se soubesse que a dama misteriosa era eu? Provavelmente falaria com o gerente ou até mesmo com Christine, o que a faria saber que eu não cumpri o acordo e fui ao baile.
- Como se chama? - Ele enfim perguntou, seus cabelos negros estavam bagunçados e molhados, o que o tornava estranhamente mais atraente.
- Emma. - Falei, desviando de seu olhar, me preparando para sair o mais rápido dali. - Posso ajudar em algo mais?
Ele me avaliou como se estivesse pensando em algo, meu coração começou a bater mais depressa.
- Sabe de uma coisa? - Ele sorriu, um sorriso triunfante. - Pode sim, Emma.
- E no que seria, senhor? - Prontifiquei-me depressa, esperando o pedido.
Ele novamente me olhou de cima a baixo e sorriu.
- Por acaso tem namorado? - Neguei com a cabeça de imediato.
- Não, senhor. - Ele piscou para mim.
- Então me faça um grande favor e se case comigo?