— Quando vão retira-lá do coma? — reconheço a voz, ela é quase inexistente, mas sei que é mamãe. Sinto um toque agradavelmente quente na palma da minha mão, tento fechar os dedos para acolher o calor, estou com frio, e por mais que eu tente fechar os dedos eu acabo por não conseguir.
— A sua filha está respondendo bem aos tratamentos, provavelmente em breve o médico irá tira-lá do coma, sinto muito por tudo que aconteceu Sra. Kane — ouço certo pesar na voz feminina que desconheço, a voz entoa tristeza.
— Você não sente mais do que eu — mamãe diz ríspida, por que ela está brava? Emily sempre foi muito educada com as pessoas, estou assustada com o seu modo de tratar a mulher, gostaria de ver a sua feição e saber o motivo para tratar com rispidez essa mulher, tento abrir os olhos, mas o esforço é inútil.
— Hum... — a voz feminina murmura — Vou deixá-la e chamar seu marido.
Papai está aqui?
E Jason?
Mamãe não responde, o aperto na minha mão torna-se mais forte, sinto uma respiração quente sobre o meu rosto e uma mão desliza pela minha bochecha.
— Está na hora de acordar querida, quero ver seus lindos olhos verdes e o sorriso que tanto amo — a sua voz embarga, mamãe está chorando? Quero saber o motivo.
Quero tanto acordar!
Lentamente a escuridão me chama, reconheço essas chamas pretas, elas são atraentes, chamativas, prometem descanso e paz, e eu me entrego a elas.
***
— Por que ela está demorando a acordar Emily? — papai... Como é bom ouvir a sua voz, estou com saudades de você, reparo que a sua voz está cansada, como se não dormisse há dias, será que ele anda trabalhando muito?
— Temos que esperar o tempo dela Declan, o traumatismo foi grave — mamãe também está com a voz cansada, por que todos estão cansados?
— Mas já faz semanas que ela foi tirada do coma! — papai se exalta. As palavras semanas e coma me deixam confusa, quero que falem mais para que eu possa saber o que está acontecendo, mas apenas ouço o bom e velho silêncio.
A escuridão novamente aparece na minha mente, quando me entrego a ela me sinto melhor, tão tentadora e boa ao mesmo tempo, como não ouço papai ou mamãe falando eu decido me entregar a ela novamente.
***
— Você não tem permissão para colocar os pés nesse quarto — a consciência toma conta da minha mente, novamente ouço vozes, identifico papai, mas a segunda voz está abafada.
— Eu apenas quero vê-la Sr. Jordan — Jason!
— Você nunca mais irá vê-la, não depois do que fez a ela, você sabe o estado em que a minha filha se encontra? Você tirou parte dela, tem noção de como Elle vai ficar quando acordar? Você...
Minha mente é inesperadamente infestada de memórias.
A velocidade.
O medo.
Os pedidos para ir devagar.
A luz.
O grito.
E a escuridão.
Coma, traumatismo... Agora entendo, finalmente compreendo, quero abrir os olhos e lhes dizer que estou bem, mas não consigo, estou com tanta raiva por não conseguir me movimentar e abrir os olhos. Quero que alguém me ajude a sair dessa escuridão que está se tornando viciante, quero gritar para que me tirem daqui.
— Não foi a minha intenção, me perdoe, eu sempre vou ter esse maldito peso em meus ombros, sou eu que vou carregar essa tragédia, então me deixe vê-la pela última vez, não vou mais importuná-los, apenas peço para vê-la.
Última vez? Jason está indo embora? Por quê? Eu estou bem!
Novamente a escuridão aparece e dessa vez eu não quero me entregar a ela.
Não!
Não!
Não!
Mas meus pedidos são inúteis.
***
— Nesse último ano nunca vi você tão afastado do trabalho — as palavras saem irônicas da boca da mamãe, sei que ela está magoada com ele, mas também não precisa tratá-lo assim.
— Minha filha vem em primeiro lugar Emily — papai responde.
— Gostaria que Elle estivesse em primeiro lugar nesse ano também, mas ela apenas se tornou prioritária nas últimas semanas — mamãe está com raiva, com profundo ódio por papai, não quero ouvi-los brigar por mim.
— Não vamos discutir aqui Emily, não aqui.
— Você está certo — ouço a respiração profunda de ambos — Quero que Elle acorde, a espera está me matando, quero ver seus olhos, quero constar que ela está viva, nessa cama ela está parecendo...
— Morta — papai completa. Estou parecendo morta por causa do acidente? — Ela vai acordar Emily.
***
Encaro o teto branco e a luminária ao abrir os olhos, tento virar a cabeça, mas inexplicavelmente ela está muito pesada.
Sinto o suor brotar na minha testa e descer pelo meu rosto a cada tentativa de olhar para outro lugar que não seja o teto, quando finalmente consigo vejo papai e mamãe dormindo em duas cadeiras hospitalares desconfortáveis, agora entendo as vozes recheadas de cansaço.
— Ma... Ma-mãe, Ma... — por que tenho que me esforçar até para falar? O que está acontecendo comigo? Tento mexer meus braços e não consigo movimenta-los, parecem sacos de areia, estou ficando assustada — Mã-e — minha voz sai extremamente rouca.
— Elle — mamãe abre os olhos e fico aliviada, ela levanta — Como você se sente? — a sua aparência está estranha, seus olhos verdes estão apagados, seus cabelos castanhos estão sem vida, parece que mamãe tem mais que seus 40 anos.
— Dor — murmuro.
— Onde querida? — ela passa a sua mão na minha face e fecho os olhos — Não durma novamente, por favor — suplica, abro os olhos.
— N-não vou Dor-mir.
— Me diga onde dói.
— Minha ca-be-ça, e mi-nha, colu-na — digo com dificuldade, mamãe começa a chorar, tento levantar as mãos para secar suas lagrimas, mas elas se tornaram imprestáveis.
— Vou chamar a enfermeira e o médico — diz soluçando.
— Por que es-tá choran-do? O que aconte-ceu co-mi-go? — ela nega com a cabeça se recusando a falar, seu choro faz papai acordar e a olhar confuso até me ver acordada.
— Graças a Deus! — ele vem até mim, me abraça e beija minha testa desajeitado.
— Quanto tem-po dormi?
— Dois meses filha, estamos no último dia de Fevereiro — arregalo os olhos, dois meses?
— Pa-pai o que aconte-ceu comigo? — ele sorri tristemente.
— Vamos esperar a sua mãe voltar com a enfermeira e o médico, não sou a melhor pessoa para explicar o que aconteceu com você querida.
Sei que receberei uma notícia ruim ao ver o sofrimento de ambos.
***
— É muito bom vê-la acordada Elle — um doutor, aparentemente jovem, não deve ter mais de 30 anos, entra no quarto com a voz e a expressão alegre.
Meus pais se mantêm apoiados na parede ao lado da porta enquanto o doutor vem até mim, antes que ele fale algo eu faço uma pergunta que necessita desesperadamente de uma resposta, estou assustada com a incapacidade do meu corpo.
— Po-por não consi-go me me-xer e fa-lar direi-to?
— Faz dois meses que você está nessa cama sem fazer nenhum movimento, seus movimentos irão voltar aos poucos, quanto mais você se mexer vai ser melhor, a fisioterapia vai ajudar — assinto, a sua resposta me aliviou imensamente.
— Elle, agora eu vou fazer alguns exames e irei fazer algumas perguntas, tudo bem?
— Sim.
— Me diga quantos dedos você está vendo — ele abre as suas mãos na minha frente expondo setes dedos ao todo.
— Se-te.
— Ótimo, e agora? — ele diminui alguns dedos formando o número quatro.
— Qua-tro.
— A sua visão está boa, agora vou tocar em algumas partes do seu corpo — avisa antes de dar uma leve apertada no meu pulso.
— Sente? — concordo com um pequeno aceno, ele faz o mesmo com meus braços, minha caixa torácica, costas, barriga e quadril. Ao olhar para mamãe vejo uma esperança silenciosa em seus olhos.
— Vou fazer o mesmo com a parte inferior do seu corpo, preciso que você se concentre e me diga se sente o meu toque — o doutor afasta o lençol e gentilmente apalpa a minha coxa, mas não sinto, ele olha para mim, há um pergunta não dita em seus olhos.
— Não — respondo, eu não senti o seu aperto na minha coxa, talvez seja pelo fato de ter dormido por muito tempo como ele mesmo disse.
O doutor continua o seu exame apalpando meus joelhos, panturrilhas e por último meus pés, mas não consigo sentir nada. Olho para a minha mãe tentando entender o motivo desse exame, mas a sua face mostra que ela está tão devastada para que eu possa fazer essa pergunta.
— Elle — o doutor começa assim que cobre as minhas pernas com o lençol — Eu cuidei de você após o acidente, na sua ficha constava que você estava com o cinto de segurança, mas a batida com o outro carro foi muito forte, você atravessou o para-brisa sendo arremessada há uma distância consideravelmente grande do carro. Você chegou ao hospital com traumatismo craniano e uma lesão na coluna. Conseguimos tratar o traumatismo, mas infelizmente a sua lesão é irreversível. Sua lesão foi completa a partir da sétima vertebra cervical, isso quer dizer...
— Não terei movimentos abaixo do quadril, eu sei doutor, estudei para saber o que é uma lesão na coluna e as suas consequências — faço força para falar sem interrupções, o doutor olha surpreso para mim ao ouvir a minha voz sem um pingo de emoção — Me dei-xem sozinha por um mo-momento — peço, o doutor se retira, meus pais o seguem de cabeça baixa e a porta é fechada.
Agora entendo o motivo da briga de Jason e do meu pai, e meu pai estava certo: Foi retirada metade de mim, metade que era essencial para que eu seguisse uma vida plena e feliz.
Mas agora não existe mais, essa metade conviveu comigo por vinte anos, e foi tirada de mim tão rápida como se nunca tivesse passado vinte anos sendo parte de mim, como se nunca tivesse existido.
Sinto as lagrimas caindo pelo meu rosto, meus lábios tremem levemente.
Não é aquele choro cheio de soluços com gritos e exclamações do quanto eu estou sofrendo, é aquele choro onde as lagrimas caem silenciosamente enquanto a dor é sentida da forma mais dolorosa possível, onde a dor não é exposta para todos, onde ela é apenas sentido no exterior, ela ataca meu coração.
Mas essa dor principalmente destruiu os meus sonhos.
— E Jason? Ele ficou muito ferido? — pergunto para mamãe, mas não a encaro. Eu mal posso olhá-la sem ver a expressão de dor em sua face, sem ver a sua agonia. Papai é o único que consegue esconder o que sente, assim torna-se mais fácil conversar com ele.
— Apenas algumas escoriações pelo corpo, a única atingida foi você por culpa dele — noto a acusação na sua voz, eu não o defendo por que essa é a verdade, eu não vou sair da cadeira de rodas pelo resto da minha vida por culpa de Jason, por culpa da sua inconsequência, ele estava se divertindo enquanto eu estava com medo.
— Quando eu serei liberada? — a minha voz voltou ao normal conforme eu me comunicava, todos os movimentos da cintura para cima voltará ao normal, mas as minhas pernas nunca irão, elas jamais voltarão a funcionar.
— Querida, seu pai está pesquisando clinicas e tratamentos para que você volte a andar, nós iremos encontrar um jeito... — não, não, não! Ela precisa parar de falar essas coisas para mim, eu não vou criar falsas esperanças e não preciso da minha mãe, uma mulher que estudou para isso, dando falsas esperanças para mim.
— Quando eu vou sair daqui?! — aumento meu tom de voz fazendo-a se silenciar, não quero magoa-la, Emily é uma mãe maravilhosa, sei que ela fará de tudo para que eu possa ter uma vida boa e confortável, também sei que ela tentará encontrar esperanças até chegar ao fundo do poço, mas eu não quero isso para ela, quero que mamãe pare de tentar, ela precisa ser feliz, precisa resgatar o seu casamento e reconstrui-lo.
— Ainda não sei, vou falar com o Dr. Mathews — assinto, a visão que eu tenho da pequena janela do quarto é linda, o dia amanheceu com uma brisa fria e a partir das dez da manhã o sol despontou com força, consigo ver as pessoas caminhando, fazendo exercícios e indo trabalhar, não posso negar que estou sentindo inveja.
Olho para mamãe, ela sai do quarto deixando-me sozinha e fico aliviada, pois ela não para de falar sobre o meu estado, a recuperação, fisioterapia e tratamentos.
Pais e mães são chamados de "O poço infinito onde as esperanças nunca acabam", eu vi muito deles ao longo dos quatros anos que estudei enfermagem. Quando estava estagiando em um dos hospitais de Southward Angel muitos pais vinham até mim procurando segundas opiniões sobre a possibilidade do seu filho sobreviver a um câncer maligno, possibilidades do seu filho paraplégico voltar a andar, ou possibilidades do seu filho tetraplégico voltar a sentir sensibilidade, mesmo que seja mínima. Nunca pensei que meus pais se encaixariam no "Poço infinito onde todas as esperanças nunca acabam", agora ambos estão atrás de alternativas que não darão em lugar algum.
— Senhorita Jordan — uma enfermeira adentra o quarto — Sou Ângela, vim trocar a sua sonda — engulo em seco, descobrir que eu acordei paraplégica já é difícil e agora saber que eu estou usando uma sonda torna o meu sofrimento pior.
— Não quero usar uma sonda — murmuro.
— Sinto muito, mas a senhorita ainda não está em uma boa condição para parar de usar a sonda, você ainda não consegue se locomover muito bem, mas com a fisioterapia em breve você poderá ir ao banheiro sozinha e fazer outras atividades — concordo revoltada. A enfermeira coloca meus pés nas estribeiras da cama e separa os instrumentos que ela irá usar na mesa encostada a parede.
O lençol é retirado e engasgo com a minha própria saliva ao ver que estou de fralda. Fecho os olhos e deito a minha cabeça no travesseiro.
Eu não preciso ver isso.
Não preciso ver essa situação humilhante.
Sufoco um soluço ao sentir a sonda sendo tirada da minha vagina, agora finalmente entendo o sofrimento das pessoas que estão presas a uma cadeira de rodas, não entendo como elas suportam essa vida sem se suicidar.
Vou depender dos meus pais para o resto da minha vida?
E o meu sonho de seguir a carreira de enfermagem?
Mamãe diz que Deus nunca dá um fardo maior do que nós podemos suportar.
Mas ela está errada. Deus exagerou dessa vez, não mediu as consequências que esse fardo teria sobre mim.
Esse será um fardo pesado para carregar.
***
— Mamãe foi para casa? — pergunto depois de engolir a polenta, papai assente.
— Ela precisa descansar, os últimos meses foram difíceis.
— Não quero mais — consegui comer metade do prato, foi o maximo que consegui ingerir depois de dois meses dormindo e recebendo fluidos pelo cateter — Gostaria de falar com você papai — ele deixa o prato de lado e assente.
— Elle, você sabe que pode perguntar o que quiser — papai pega a minha mão e aperta, preciso lhe mostrar o que ele está perdendo e fazê-lo compreender que eu não vou mais andar, os médicos foram firmes ao dizer que não há essa chance e eu preciso que eles aceitem as palavras que foram ditas.
— O que houve com o casamento de vocês? Quero que me fale a verdade — a pergunta o pega de surpresa, mas preciso saber, não quero que eles continuem escondendo o motivo, eu sou a filha deles, compartilhei o sofrimento da minha mãe e eu necessito vê-la feliz.
— A sua mãe está certa, eu coloquei o trabalho acima de vocês, ela acha que eu mantenho um amante — ele sorri tristemente — mas eu nunca faria isso com ela. Elle, quando eu conheci a sua mãe eu não tinha nada, então você nasceu e eu prometi dar o melhor para ambas. Abri um pequeno negócio de caldeiraria, mas nunca tive expectativa de que fosse crescer, e incrivelmente cresceu, eu consegui pagar a sua faculdade e dar conforto para você e sua mãe.
— Mas você se esqueceu de nós papai, você não sabe como é difícil vê-lo partir e esperar a sua volta.
— Sinto muito, você não sabe o quanto. Eu estava no aeroporto quando soube do acidente, e enquanto esperava notícias da sala de cirurgia eu pude enxergar o quanto eu errei, você poderia ter morrido e eu iria me martirizar pelo resto da minha vida por não ter dado a atenção e o amor que você precisava — minhas lagrimas assim como as de meu pai começam cair livremente, elas são inevitáveis — Agora eu estou aqui e jamais irei deixá-las.
— É muito bom ouvir isso, eu preciso que você concerte a sua relação com a mamãe, ela merece ser feliz nesse momento. Preciso também que você tire dela as esperanças de que eu possa andar, nós três sabemos que eu não irei, ela apenas não quer enxergar.
— Elle, se eu tirar as esperanças dela o que vai restar? — sorrio ternamente, pois a resposta é tão fácil...
— Pai, as esperanças vão desaparecer, mas você estará ao lado dela para segura-lá e garantir de que tudo ficará bem.
— Sabe filha, eu sempre assistia na televisão sobre acidentes que deixavam as pessoas paraplégicas, e eu pensava que isso nunca iria acontecer com alguém da minha família, mas eu estava errado em pensar assim.
— Eu também pensava assim pai, agora olhe para mim, nunca mais poderei andar, terei que viver uma vida que eu não escolhi, não terei o emprego dos meus sonhos, um amor e filhos, estou fadada a uma vida hipócrita, qual é o sentido de continuar vivendo?
— Não fale assim Elle, você é a única coisa que mantém a mim e a sua mãe vivos, eu sei que você terá uma vida incrível, talvez até melhor da qual você sonhou, apenas tenha paciência, tudo vai se ajeitar no seu tempo.
Espero que papai esteja falando a verdade, pois senão qual será o sentido de viver uma vida vazia?
***
Acordo no meio da noite com terríveis dores abdominais e sinto extrema vontade de ir ao banheiro.
Avisto papai dormindo e apesar da vergonha eu o chamo, mas acaba sendo tarde demais.
O cheiro que toma o ar é repugnante, começo a tremer e chorar de raiva, estou me sentindo tão impotente, não posso mais fazer o que era um simples ato para mim, ir ao banheiro.
Uma enfermeira entra e meu pai fica do lado de fora, ao olhar para seu rosto vejo a pena ao me ver chorando de dor, raiva e humilhação, e ao vê-la tirando a fralda eu penso em acabar com tudo isso, pois eu nunca me senti tão humilhada em toda a minha vida.