Capítulo 2

Capítulo 2 – "Testando Limites"

(Narrado por Dante Moretti)

A chuva caía pesada sobre Nova Iorque, golpeando com força os vidros amplos do escritório. A cidade brilhava com luzes difusas, borradas pelas gotas incessantes. A penumbra preenchia cada canto da sala, interrompida apenas pelo brilho âmbar do whisky girando lentamente no copo de cristal em minha mão.

O cheiro de couro impregnava o ambiente, misturado ao leve aroma de tabaco queimado que ainda pairava no ar. As prateleiras de madeira escura, repletas de livros intocados, me cercavam, sufocando mais do que confortando. Cada detalhe ali gritava poder, controle. Mas, naquele momento, era como se o ambiente fosse pequeno demais para conter o turbilhão dentro de mim.

Eu deveria estar concentrado. Planos, contratos, negócios. E, no entanto, minha mente se arrastava de volta para aquela garota.

Aurora St. James.

Filha do meu melhor amigo. Um território que não poderia, não deveria, ser tocado.

Levei o copo aos lábios, sentindo o calor do álcool deslizar garganta abaixo. Não era suficiente para silenciar a lembrança do olhar dela me desafiando. Da forma como sussurrou aquela advertência:

"Você deveria."

Ela brincava com fogo. E eu sabia, melhor do que ninguém, o que acontecia com quem se aproximava demais das chamas.

Internamente, uma batalha se formava. O homem disciplinado, moldado pela violência e pela frieza dos negócios, sabia que precisava manter distância. Aurora era proibida, uma linha que não poderia ser cruzada. Mas havia algo nela... aquela ousadia, aquela vulnerabilidade camuflada por insolência... que me fazia querer quebrar cada maldita regra.

Externamente, eu precisava manter a aparência. Victor estava próximo, conversando sobre acordos e estratégias, completamente alheio ao veneno que se espalhava lentamente entre mim e sua filha. O mundo dos negócios era implacável, e uma fraqueza pessoal podia ser fatal.

Victor entrou no escritório, ajustando os punhos da camisa sob o terno impecável.

- Dante, preciso revisar os termos daquele contrato com os fornecedores de Boston. Não quero surpresas.

Assenti, forçando-me a focar.

- Está tudo encaminhado. Lorenzo já fechou os detalhes.

Victor se aproximou da mesa de madeira maciça, espalhando papéis.

- Confio mais em você do que nele.

Sorri de canto. Lorenzo era eficiente, mas imprevisível. Victor sabia disso.

E então, a porta se abriu.

Aurora entrou sem bater, descalça, usando um vestido curto demais para aquele ambiente. O tecido preto colava-se ao corpo, contrastando com a pele clara.

Ela não olhou para mim de imediato. Estava ocupada demais vasculhando a mesa do pai.

- Aurora, o que está fazendo aqui? - Victor resmungou, sem paciência.

- Pegando meu livro. Deixei aqui.

Ela se esticou para alcançar algo, o corpo inclinando-se de forma descuidada. Meu olhar foi inevitável. O tecido subiu um pouco mais, revelando pele demais.

Merda.

Ela encontrou o livro e, ao se virar, nossos olhos se encontraram. Eu deveria ter desviado o olhar. Mas não desviei.

Ela também não.

- Com licença. - Sua voz foi baixa, mas carregada de algo mais.

E quando passou por mim, roçou propositalmente a mão sobre a superfície da mesa, perto demais da minha. Não houve toque. Mas a intenção foi clara.

Na saída, ela parou por um segundo. Ligeiramente de costas, inclinou o rosto só o suficiente para que eu a ouvisse.

- Não é seguro brincar com monstros, não é? - repetiu, sussurrando a frase que eu mesmo havia dito antes.

Aurora desapareceu pelo corredor.

Victor continuava falando ao fundo, mas as palavras dele eram apenas ruído.

Ela estava me provocando. Testando limites. E eu não tinha certeza de quanto tempo conseguiria segurá-los.

Horas mais tarde, encontrei-me em frente ao espelho no banheiro. A água fria escorria pelos pulsos, mas não dissipava a tensão.

O reflexo mostrava o homem que eu era, frio, calculista, intocável. Mas havia rachaduras.

Eu podia sentir. Ela estava entrando por essas frestas.

Lembrei-me do calor da pele dela, mesmo sem tocá-la. Do cheiro leve de algo doce e proibido. Era só uma garota. A filha de Victor.

Nada mais.

Mas minha mente discordava.

🔥🔥

O silêncio do escritório era preenchido pelo som suave da chuva batendo no vidro. O aroma amadeirado dos móveis se misturava ao perfume distante de Aurora que parecia ter impregnado o ar.

O couro da poltrona rangia sob meu peso, e o gelo no whisky estalava suavemente.

Pequenos detalhes, cada um servindo como lembrete de que havia algo fora de controle.

O vidro do escritório, onde a chuva caía incessante, simbolizava a barreira tênue entre o autocontrole e o desejo reprimido. Assim como a água deslizava pelo vidro, Aurora estava lentamente atravessando essa barreira invisível.

O telefone vibrou. Uma mensagem de Lorenzo.

"Temos um problema no The Serpent's Den. Preciso de você."

Eu deveria focar no problema.

Mas tudo o que conseguia pensar era se Aurora sabia no que estava se metendo.

Levantei-me, ajustando o paletó. Eu precisava colocar um fim nisso antes que começasse.

Mas, no fundo, já havia começado. E eu não sabia se queria parar.

Capítulo 3

Capítulo 3 – "Provocação Silenciosa"

(Narrado por Aurora St. James)

O som seco dos meus saltos ecoava pelo mármore frio do corredor. Cada passo parecia mais alto do que deveria, reverberando nas paredes da mansão como um aviso. Ou talvez uma promessa.

A casa estava viva esta noite. As luzes douradas pendiam dos lustres de cristal, lançando reflexos nas paredes cobertas de obras de arte. O cheiro de rosas recém-arranjadas misturava-se ao aroma de pratos sofisticados vindo da cozinha. O som abafado de risadas e conversas fluía da sala de recepção, misturado ao tilintar de taças.

Mas nada disso me importava.

Diante do espelho, estudei meu reflexo com atenção.

O vestido que escolhi não era uma escolha inocente. Preto, justo, de cetim liso, com alças finas que mal sustentavam o tecido contra a pele. A fenda lateral era ousada demais para um evento familiar, e o decote era profundo o bastante para sugerir intenções que eu não tinha coragem de admitir em voz alta.

Passei os dedos pelo tecido, sentindo a suavidade contrastar com o frio que subia pelas minhas pernas.

Eu sabia que ele estaria aqui. Sabia que me olharia. E queria ver até onde podia ir.

Prendi o cabelo em um coque baixo, deixando algumas mechas soltas. Deliberadamente despretensiosa. Ou era o que queria parecer.

Coloquei brincos discretos, um anel simples. Nada que distraísse. A mensagem era clara, o corpo falava por si.

Inspirei fundo.

Que comece o jogo.

🔥🔥

A cada passo em direção à sala principal, sentia meu coração acelerar. Uma parte de mim gritava que isso era loucura. Que ele não era o tipo de homem com quem se brinca.

Mas a outra parte... A outra parte queria mais.

Queria ver até onde ele iria. Até onde eu poderia forçá-lo.

Não era apenas desejo. Era poder. E eu queria senti-lo.

A sala estava lotada. Homens de ternos bem cortados, mulheres em vestidos de grife, taças de cristal erguidas em mãos cuidadosas. Sorrisos falsos. Conversas vazias.

Meu pai, Victor, estava cercado por seus parceiros de negócios. Ria alto, orgulhoso, enquanto apertava mãos e fechava acordos disfarçados de simpatia.

Pessoas se moviam ao meu redor, mas meus olhos procuravam apenas uma.

E então, encontrei-o.

Dante estava recostado perto da varanda, uma taça de whisky na mão. O terno escuro abraçava seu corpo com perfeição. A luz dourada realçava as linhas duras do rosto, a barba por fazer, o olhar cortante.

Ele falava com Lorenzo, mas não sorria. Não precisava.

Não me olhava. Não ainda.

Fingi desinteresse. Sorri para um convidado qualquer, aceitei uma taça de champanhe. Murmurei algo irrelevante, rindo baixinho.

Mas me movi. Passei perto. Perto demais. O perfume dele misturou-se ao meu, e por um segundo, o mundo pareceu desacelerar.

Nada. Nenhuma reação.

Até sentir. Uma mão firme, quente, fechou-se ao redor do meu pulso. Rápida, precisa.

Puxou-me discretamente para um canto mais escuro do corredor.

- Está brincando com o quê exatamente, princesa? - A voz dele era baixa, arrastada.

A pele sob seus dedos queimava. O aperto não era forte o suficiente para machucar, mas também não era gentil.

- Quem disse que estou brincando? - Sussurrei, sem recuar.

Os olhos dele desceram lentamente pelo meu corpo. Não havia pressa. Não havia vergonha.

- Tome cuidado.

Os dedos dele deslizaram do meu pulso até minha mão, soltando-a lentamente.

- Porque se começar algo que não pode terminar, vai se arrepender.

Fiquei ali, imóvel, enquanto ele se afastava. A pele ainda formigava onde ele me tocou.

E eu... Sorri.

Voltei para o salão, os dedos ainda levemente marcados pelo toque dele.

A cada passo, sentia o calor subir pelo corpo. Ele havia me avisado. Mas não me afastou.

Era uma linha tênue, e eu estava disposta a atravessá-la.

Ao longo da noite, nossos olhares se cruzaram mais de uma vez. Ele não sorria. Não demonstrava nada. Mas havia algo no olhar dele, algo que me despia lentamente, sem tocar.

Quando Lorenzo se aproximou para conversar comigo, notei o leve tensionar do maxilar de Dante. Um detalhe quase imperceptível. Mas estava lá.

E isso me alimentou.

Deslizei o dedo pela borda da taça, provocando sem precisar de palavras. Ele não se aproximou de novo. Mas me observava.

Sempre.

O frio do mármore sob meus pés contrastava com o calor crescente na pele. O som abafado da música preenchia o ambiente, misturado às vozes e risadas.

O perfume amadeirado de Dante parecia me seguir, se misturando ao aroma adocicado do meu próprio perfume. A leve pressão do toque dele ainda estava ali, como uma sombra.

O vestido preto era mais do que uma peça de roupa. Era uma armadura e uma arma. Representava a dualidade entre inocência e provocação, o limite tênue entre o jogo e o perigo real.

A taça de champanhe que eu girava nas mãos era frágil, prestes a se partir, assim como o controle que ambos tentavam manter.

Pouco antes de sair do salão, notei Dante falando ao telefone. O olhar dele estava mais sombrio, tenso.

Lorenzo passou por mim rapidamente, com uma expressão dura. Algo estava acontecendo. Mas isso não era problema meu.

Ou era?

Enquanto subia lentamente as escadas para o meu quarto, ouvi passos pesados atrás de mim.

Não precisei olhar para saber.

A voz dele veio baixa, firme:

- Você não entende, entende? Isso não é um jogo.

Virei-me lentamente, sorrindo de canto.

- Talvez seja.

E fechei a porta com calma. Mas o coração martelava no peito. Porque, no fundo, eu sabia.

Ele estava prestes a me mostrar que monstros também sabem brincar.

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