Capítulo 2

Ponto de Vista: Daniel Braga

Acordei com uma dor lancinante na lateral do corpo e o cheiro estéril de antisséptico. Por um momento, a confusão nublou minha mente, densa como a neblina da manhã sobre a Lagoa do Taquaral. Então tudo voltou de uma vez: as luzes fortes da sala de cirurgia, os olhos gentis do anestesista me dizendo para contar de dez para trás, o rosto de Diana pairando sobre mim, sussurrando: "Você é meu herói, Dani."

A cirurgia foi um sucesso. Eu sabia que sim, mesmo antes da enfermeira me dizer. Eu podia sentir na energia aliviada que zumbia do lado de fora do meu quarto. O Sr. Almeida ia ficar bem. Eu tinha conseguido. Eu o tinha salvado.

Eu tinha garantido o nosso para sempre.

Diana entrou mais tarde naquela tarde. Ela não estava usando o suéter macio que eu amava, aquele que cheirava ao seu perfume de lavanda. Ela estava vestida com um terninho azul-marinho elegante, o cabelo preso tão firmemente que parecia esticar a pele ao redor dos olhos. Ela não parecia minha noiva vindo sentar ao meu lado. Parecia uma CEO prestes a fechar um negócio.

Ela não me beijou. Apenas ficou parada aos pés da minha cama, a bolsa apertada nas mãos como um escudo.

"Meu pai está acordado", disse ela, a voz sem expressão. "O rim está funcionando perfeitamente. Os médicos estão muito otimistas."

"Isso é ótimo, Di", consegui dizer, minha voz rouca. Tentei me levantar, mas a dor nos pontos era agonizante. "Isso... isso é tudo que importa."

"Sim", disse ela. "É."

O silêncio que se seguiu foi pesado, sufocante. Não era o silêncio confortável de duas pessoas apaixonadas. Era o silêncio de um tribunal antes da leitura do veredito.

"Estou tão feliz por ter feito isso por você, pela sua família", eu disse, tentando preencher o vazio. "Agora podemos finalmente só... ficar juntos."

A expressão de Diana não mudou.

"Sobre isso, Dani."

Meu sangue gelou.

"Eu não posso me casar com você", disse ela. As palavras foram secas, precisas e totalmente desprovidas de emoção. Elas caíram no quarto silencioso como pedras em um poço profundo.

Eu a encarei, certo de que isso era alguma alucinação cruel pós-anestesia.

"Do que você está falando? Você bateu a cabeça? A gente vai se casar em três meses."

"Não", disse ela, balançando a cabeça lentamente. "Não vamos."

"Mas... por quê?" A pergunta foi um sussurro cru. A dor na minha lateral não era nada comparada ao peso esmagador que de repente pressionava meu peito. "Eu não entendo. Eu fiz. Eu fiz o que você pediu. Eu salvei seu pai."

Um lampejo de algo — irritação, talvez? — cruzou seu rosto.

"E por isso, minha família será eternamente grata. Nós cobriremos todas as suas despesas médicas, é claro. E meu pai abriu um fundo para você. É bem generoso."

Um fundo? Despesas médicas? Ela estava falando comigo como se eu fosse um funcionário recebendo um pacote de demissão, não o homem com quem ela deveria passar a vida. Não o homem que tinha uma incisão de quinze centímetros na lateral e um órgão a menos por causa dela.

As peças começaram a se encaixar, afiadas e dolorosas. A maneira como ela me fez fazer os exames sem meu conhecimento. A maneira como ela enquadrou isso como um teste de amor. O terninho.

Minha voz tremeu.

"Esse sempre foi o plano, não foi? Pegar o rim, depois se livrar de mim."

Ela teve a decência de desviar o olhar, fixando-o no soro ao lado da minha cama.

"Não era para ser assim. Mas as coisas mudam."

"Que coisas?", exigi, minha voz falhando. "O que poderia ter mudado entre eu entrar na cirurgia e agora?"

Ela finalmente encontrou meus olhos, e a frieza neles era absoluta.

"O Eugênio voltou."

Eugênio Vasconcelos. Claro. Seu ex-namorado rico e arrogante da faculdade. Aquele com quem a mãe dela sempre disse que ela deveria ter ficado. Aquele que dirigia um Porsche e tinha uma casa de veraneio em Ilhabela. Aquele com quem eu nunca poderia competir.

"Ele veio ao hospital quando soube do meu pai", ela continuou, a voz se suavizando pela primeira vez, mas não por mim. "Ele foi tão solidário, tão forte. Ele me lembrou de como minha vida deveria ser. Do que nossa família precisa."

"E o que é isso?", engasguei. "Alguém que pode te comprar coisas? Eu trabalho duro, Di. Eu teria te dado tudo."

"Você já deu", disse ela, e a crueldade daquilo me tirou o fôlego. "Você deu ao meu pai uma segunda chance na vida. Isso é mais do que suficiente. Mas você não pode me dar o mundo ao qual eu pertenço, Dani. O Eugênio pode."

O quarto de hospital estéril começou a girar. O bipe rítmico do monitor cardíaco acelerou, uma trilha sonora frenética para o meu mundo se despedaçando. Eu tinha sido uma ferramenta. Um meio para um fim. Meu sacrifício não foi uma prova do nosso amor; foi o preço da saúde do pai dela e a minha taxa de saída.

Lágrimas escorriam pelo meu rosto, quentes e inúteis. O amor que eu sentia por ela estava se transformando em algo tóxico e amargo no meu estômago.

"Então é isso?", sussurrei, as palavras rasgando minha garganta. "Você me usa, pega uma parte do meu corpo e depois me joga fora por ele?"

"Não seja tão dramático", disse ela, a voz ficando afiada novamente. "Você é um bom homem, Dani. Você vai ficar bem. O fundo garantirá que você fique confortável."

Ela colocou um envelope branco e impecável na mesa de cabeceira.

"Isso é do meu pai. Um agradecimento."

Ela se virou para sair.

"Diana", chamei, minha voz embargada.

Ela parou na porta, de costas para mim.

"Eu te amava", eu disse, as palavras parecendo cinzas na minha boca.

Ela não respondeu. Apenas abriu a porta e saiu, me deixando sozinho com o buraco na minha lateral e o buraco ainda maior que ela acabara de rasgar na minha vida. O bipe constante do monitor era o único som, cada pulso marcando mais um segundo do meu novo e vazio para sempre.

Capítulo 3

Ponto de Vista: Daniel Braga

A semana que passei me recuperando no hospital foi um borrão de dor, medicação e um luto profundo que era pior do que qualquer dor física. Quando finalmente me deram alta, peguei um Uber de volta para a pequena casa que compartilhávamos. Nossa casa.

A chave parecia estranha na minha mão.

No momento em que entrei, eu soube. O ar estava diferente — parado e vazio. O cheiro dela, a leve fragrância de lavanda e baunilha que sempre impregnava tudo, havia sumido.

Andei pelos cômodos silenciosos. O armário estava meio vazio, todos os seus vestidos de grife e blusas de seda haviam desaparecido. A bancada do banheiro estava livre de suas dezenas de cremes e séruns. A foto emoldurada de nós dois na lareira, tirada no último Natal comigo usando um suéter de rena bobo e ela rindo, tinha sumido.

Ela não tinha apenas se mudado. Ela tinha se apagado.

Na mesa da cozinha, apoiado contra o saleiro, havia um único bilhete dobrado. Reconheci sua caligrafia elegante e floreada imediatamente. Minha mão tremeu ao pegá-lo.

"Dani", dizia, "Preciso de um espaço para pensar. Tudo isso está acontecendo tão rápido. Espero que você possa entender. Eu te amo. Sempre. - Di"

"Eu te amo." As palavras eram uma piada amarga. Amassei o bilhete na mão, o papel estalando em protesto, e o joguei na lixeira. Ela provavelmente já estava na cobertura do Eugênio, tomando champanhe e rindo do mecânico ingênuo que deixou para trás.

Meu celular vibrou no bolso. Era meu melhor amigo, Marcos.

"E aí, cara! Já saiu?", ele perguntou, a voz alegre. "Ouvi dizer que a cirurgia foi um sucesso enorme. Você é um herói, cara. Dar um rim para o seu futuro sogro? Isso é amor de outro nível. A Diana deve estar nas nuvens."

Uma risada seca e áspera escapou dos meus lábios.

"É. Amor."

Afundei em uma cadeira da cozinha, o bilhete amassado um veneno no lixo ao meu lado. Três anos. Três anos de madrugadas na oficina, de economizar cada centavo para um anel que ela merecia, de acreditar que eu tinha encontrado minha pessoa. Tudo parecia uma mentira. Uma piada longa e elaborada, e eu era o alvo.

"O que foi?", a voz de Marcos ficou séria. "Você não parece bem."

Olhei para o espaço vazio na parede onde nossa foto de noivado costumava ficar. Eu ainda podia ver o contorno fraco na poeira.

"A gente vai se divorciar", eu disse, a palavra com gosto de ácido.

"O quê? Vocês nem casaram ainda! Que diabos aconteceu?"

Lágrimas arderam em meus olhos novamente. Eu as enxuguei com raiva com as costas da mão.

"Ela não quer mais se casar comigo, Marcos. Ela voltou com o Eugênio Vasconcelos."

O silêncio do outro lado da linha foi pesado. Marcos sabia tudo sobre o Eugênio. Ele esteve lá durante meus primeiros dias de insegurança, me dizendo que um cara como aquele não tinha chance contra o amor real e honesto. Nós dois estávamos errados.

"Depois que você deu um rim para o pai dela? Ela te largou depois disso?", a voz de Marcos estava carregada de incredulidade e fúria.

"Dois dias depois", confirmei, minha voz oca. "No quarto do hospital."

"Eu vou matar ele", Marcos rosnou. "E ela. Meu Deus, Dani. Eu sinto muito."

Conversamos por mais alguns minutos, mas mal registrei suas palavras de apoio. Depois que desligamos, fiquei sentado na casa silenciosa, o vazio me pressionando. Senti uma necessidade súbita e desesperada de me livrar de tudo que me lembrava dela, de purgar minha vida da mentira.

Comecei no quarto, tirando nossos velhos álbuns de fotos do armário. Minhas mãos pararam em uma pequena cesta de vime guardada na prateleira de cima. Eu tinha esquecido que estava lá.

Eu a peguei e abri a tampa.

Dentro, aninhados em papel de seda, havia um par de sapatinhos de bebê, um macacãozinho amarelo e uma cópia gasta de "Boa Noite, Lua".

Uma onda de náusea me atingiu com tanta força que tive que me apoiar na parede.

Quando começamos a namorar, Diana foi categórica em dizer que não queria filhos. Dizia que sua carreira era muito importante, que não tinha tipo maternal. Eu, por outro lado, sempre sonhei em ser pai. Eu era filho único, e a ideia de uma família grande e barulhenta era meu desejo mais profundo. Mas eu a amava. Então, respeitei sua decisão.

Eu me convenci de que ela estava apenas com medo. Comecei a comprar coisinhas, escondendo-as nesta cesta, imaginando um dia em que poderia mostrá-las a ela e ela sorriria, seus medos se dissipando. Eu assistia a programas sobre pais com ela, apontando como as famílias eram felizes. Eu via o lampejo de desejo em seus olhos às vezes, e pensei que estava a conquistando.

No dia em que finalmente desisti, guardei todas as coisas de bebê nesta cesta para jogar fora. Ela me encontrou sentado no chão, segurando os sapatinhos. Ela se ajoelhou ao meu lado, sua expressão suave com uma pena que agora percebo ser falsa.

"Desculpe, Dani", ela disse. "Eu simplesmente não consigo."

Eu sorri através da minha própria decepção, puxando-a para um abraço.

"Tudo bem", eu disse a ela. "Contanto que eu tenha você, é o suficiente. Nós somos o suficiente."

Eu guardei a cesta. Não consegui jogá-la fora. Uma parte pequena e estúpida de mim ainda mantinha a esperança.

Agora, olhando para os itens pequenos e perfeitos, senti uma raiva tão pura e incandescente que eclipsou o luto. Nunca foi sobre não querer filhos. Foi sobre não os querer comigo. Ela provavelmente já estava planejando um quarto de bebê com o Eugênio.

Foi tudo uma mentira. Cada toque gentil, cada promessa sussurrada, cada sonho compartilhado. Uma performance de três anos.

E eu tinha sido sua plateia mais cativada.

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