No dia do meu casamento, meu noivo de dez anos me abandonou no altar por outra mulher. Ele enviou uma mensagem de texto simples: "Haylee precisa de mim."
Horas depois, essa mesma mulher me atropelou com o carro dela, fazendo-me perder nosso bebê. Mas quando acordei no hospital, meu noivo estava ao meu lado com uma exigência de gelar o sangue.
"Retire as acusações contra a Haylee", disse ele, com a voz fria. "Ela é sensível demais para a prisão. Você é forte, Kira. Você aguenta isso."
Para garantir que eu obedecesse, ele ameaçou divulgar um vídeo humilhante da minha mãe, que sofria de demência. Eu cedi, apenas para descobrir que Haylee já havia atormentado minha mãe com sussurros cruéis, levando-a ao suicídio.
A traição foi absoluta. Ele não apenas destruiu meu corpo e nosso filho, mas também orquestrou a morte da minha mãe para proteger seu novo amor.
Ele achou que tinha me destruído, me deixando sem nada.
Mas enquanto eu jazia despedaçada naquela cama de hospital, um e-mail chegou do seu maior concorrente. Eles me ofereceram uma nova identidade, uma nova vida e o poder de fazê-lo pagar por tudo. Eles queriam que eu forjasse minha própria morte.
Chapter 1
O vestido de noiva estava pendurado no quarto principal, uma cascata de seda branca e renda. Era para ser o dia mais feliz da minha vida, o auge de dez anos com Collin, meu melhor amigo, meu parceiro, meu tudo. Mas o vestido estava imóvel, e eu também. Meu celular vibrou contra a bancada de mármore polido. Era uma mensagem de Collin. Não uma mensagem de amor, não uma confissão de última hora de devoção eterna. Apenas três palavras: "Haylee precisa de mim."
Meu coração parou. Não batia mais. Apenas ficou ali, pesado e inútil no meu peito. Ele tinha me deixado. No dia do nosso casamento. Por Haylee Acosta, uma mulher dez anos mais velha que eu, mas que agia como uma criança. Ela se autodenominava "Haylee-boo". Era nauseante.
Haylee era uma caricatura de desamparo. Ela se jogava em cima de Collin, piscando os cílios, falando com uma voz aguda e infantil. Ela era intelectualmente vazia, mal conseguia formular uma frase coerente sem dar uma risadinha, mas tinha uma astúcia maliciosa que fervilhava sob seu olhar vago. Collin, o brilhante CEO de tecnologia, via uma donzela em perigo. Eu via uma predadora. Ele, o homem que construiu um império com meu código e minhas estratégias, agora estava obcecado por sua inocência fingida. Minha competência, meu intelecto, minha determinação... tudo isso só o fazia se sentir pequeno. Haylee, com sua necessidade infinita de sua "proteção", o fazia se sentir um deus.
Ele a adorava, uma indulgência doentia que revirava meu estômago. Ele havia comprado para ela um ridículo conversível rosa, alegando que ela precisava de algo "fofo e fácil de dirigir". Ele havia contratado um assistente pessoal para ela porque ela "não conseguiria de jeito nenhum gerenciar a própria agenda". Ele chegou a cancelar reuniões importantes com investidores porque Haylee teve um "pesadelo" e precisava que ele a abraçasse. Cada ato absurdo era um soco no meu estômago, uma percepção lenta e agonizante de que o homem que eu amava tinha desaparecido, substituído por um estranho que eu mal reconhecia.
Meu mundo se partiu quando o encontrei no estacionamento do DMV. O vestido branco parecia uma mortalha. "Collin", minha voz era quase um sussurro, embargada pela incredulidade. "O que você está fazendo?"
Ele se virou, seus olhos vidrados com uma energia frenética que eu nunca tinha visto. Haylee estava sentada no banco do passageiro de seu conversível rosa, mascando chiclete, totalmente alheia. "Kira. É... é o teste de direção da Haylee. Ela está tão nervosa. Eu só preciso estar aqui para ela."
"Nosso casamento", engasguei, apontando um dedo trêmulo para o tecido branco imaculado do meu vestido. "Hoje é o dia do nosso casamento."
Ele olhou para mim, depois para Haylee, e de volta para mim, um lampejo de algo que poderia ter sido vergonha passando por seus olhos antes de se acomodar novamente naquela obsessão desconcertante. "Ela bateu o carro da primeira vez. Ela é delicada. Você é forte, Kira. Você entende."
Eu não entendia. Minhas mãos se fecharam em punhos. "Não, eu não entendo. Saia desse carro, Collin. Agora."
Haylee, finalmente percebendo a tensão, interveio com sua voz açucarada: "Oh, olhe, é a Kira! Você veio me desejar boa sorte, docinho?"
Foi a gota d'água. O último fio se rompeu. Marchei em direção ao carro, minha visão embaçada. "Sua manipuladorazinha-"
Antes que eu pudesse terminar, Haylee gritou. Seu pé pisou fundo no acelerador, não no freio. O conversível rosa avançou bruscamente. Fiquei paralisada, como um cervo diante dos faróis. O impacto foi brutal. Um estalo medonho de metal contra osso, e então a escuridão.
Acordei com as luzes brancas e ofuscantes do hospital e uma dor que me roubava o fôlego. Minhas pernas pareciam porcelana estilhaçada. Uma enfermeira, com o rosto sério, explicou a extensão dos meus ferimentos. Múltiplas fraturas, hemorragia interna. E então, as palavras que me assombrariam para sempre: "Você perdeu o bebê, Sra. Blair. Fizemos tudo o que podíamos."
O bebê. Nosso bebê. Aquele que Collin e eu havíamos planejado, a pequena vida que eu carreguei por semanas, sonhando silenciosamente com nosso futuro. Tinha acabado. Por causa de Haylee. Por causa de Collin. Quando a polícia chegou, contei tudo a eles. O abandono, o confronto, a direção imprudente de Haylee. Mas Collin, sempre um passo à frente, apareceu no meu quarto de hospital antes que eu pudesse sequer processar as acusações.
Ele ficou ao lado da minha cama, sem nenhum pingo de remorso no rosto. "Kira. Retire as acusações contra a Haylee."
Eu o encarei, minha garganta arranhada de tanto gritar. "Você está louco? Ela... ela matou nosso bebê. Ela quebrou meu corpo!"
Ele suspirou, apertando a ponte do nariz como se eu estivesse sendo irracional. "Haylee é sensível demais para a prisão. Ela é frágil. Você, Kira, você é forte. Você aguenta isso." Ele fez uma pausa, sua voz baixando para um tom grave e arrepiante. "Mas sua mãe aguenta?"
Minha mãe. Minha doce e confusa mãe, afundando cada vez mais na névoa da demência precoce. "Do que você está falando?", sussurrei, um pavor gelado se infiltrando em meus ossos.
"Eu tenho um vídeo, Kira. Um vídeo da sua mãe, bastante... vulnerável. Um momento de confusão que ela não gostaria que o mundo visse." Ele ergueu o celular, um brilho sombrio nos olhos. "Se você levar isso adiante, ele viraliza. O último pingo de dignidade da sua mãe, perdido. E eu vou garantir que todos saibam que foi sua culpa por forçar a barra."
A traição foi um golpe físico, pior do que qualquer um dos meus ferimentos. Minha visão se encheu de lágrimas. Este não era o homem que eu amava. Ele era um monstro. As memórias da nossa década juntos, de construir a Brewer Tech a partir de uma startup de garagem, de noites em claro movidas a café e sonhos compartilhados, se transformaram em uma paródia grotesca. Eu havia lhe dado minha juventude, meu brilhantismo, minha lealdade inabalável. Eu acreditei nele quando ninguém mais acreditava. Eu criei os próprios algoritmos que tornaram sua empresa uma potência, sempre contente em ser sua sócia silenciosa, sua arma secreta. Eu acreditava que nosso amor era construído com base no respeito mútuo. Agora, ele estava ameaçando destruir minha mãe doente para proteger uma mulher que havia estilhaçado minha vida. Ele não apenas quebrou meu corpo; ele pisoteou minha alma.
"Não", implorei, minha voz falhando. "Não se atreva."
Collin permaneceu impassível. "A escolha é sua, Kira. Justiça por um acidente tolo, ou a paz da sua mãe. Haylee vai ficar bem. Você vai se curar. Sua mãe... ela pode não se recuperar da humilhação pública." Ele olhou para o relógio, uma impaciência cruel em seus olhos. "Preciso de uma resposta até amanhã de manhã." Ele se virou para sair, dispensando-me com um aceno de mão.
"Collin", chamei, um apelo desesperado. "Por quê? Por que ela? O que ela tem que eu não tenho?"
Ele parou na porta, um sorriso fraco, quase piedoso, em seus lábios. "Ela precisa de mim, Kira. Você nunca precisou de verdade." Com isso, ele se foi, deixando-me sozinha no quarto estéril, cercada pelos fantasmas de um futuro despedaçado. Fiquei ali, entorpecida, a escolha posta diante de mim, um cálice envenenado. Minha mãe. Sempre minha mãe. Eu a protegeria, mesmo que isso significasse sacrificar o último pedaço de mim mesma. O mundo girou em seu eixo, e eu não senti nada além de uma determinação fria e dura se instalar em meu âmago. Ele achava que eu era forte. Ele não tinha ideia de quão forte eu poderia ser quando não tivesse mais nada a perder.
Na manhã seguinte, liguei para meu advogado e retirei as acusações. O suspiro de alívio de Collin ao telefone foi como um vento gelado. Ele achou que tinha vencido. Ele achou que tinha me destruído. Ele estava errado. Algo dentro de mim havia morrido, mas outra coisa, algo muito mais perigoso, havia despertado.
Então o telefone tocou novamente. Não era Collin. Era a polícia. Minha mãe. Eles a encontraram no jardim. Ela havia tirado a própria vida. Um bilhete jazia ao seu lado, rabiscado com uma mão trêmula: "Eu não suportava ser um fardo, minha querida Kira. Haylee-boo me disse... que eu te envergonho."
Haylee. Minha mãe tinha ouvido. A humilhação, a manipulação, os sussurros cruéis. Era tudo real. Collin não hesitou em usar seu poder para proteger Haylee e, ao fazer isso, assinou a sentença de morte da minha mãe. A dor me atingiu como um golpe físico, mas meus olhos permaneceram secos. As lágrimas não vinham. Minha alma parecia esvaziada, uma paisagem árida onde o amor e a esperança um dia floresceram.
Horas depois, enquanto eu olhava fixamente para o teto, meu corpo despedaçado um testemunho do meu sofrimento, meu celular apitou. Era um e-mail da YC Corp, uma concorrente feroz da Brewer Tech. O assunto dizia: "Um Novo Começo. Uma Nova Identidade. Um Novo Poder." Uma centelha de algo, frio e afiado, se acendeu na escuridão dentro de mim. Eles sabiam sobre meu avanço em IA, aquele que Collin havia descartado como "ambicioso demais". Eles sabiam do meu valor. Eles me ofereceram uma saída, uma maneira de desaparecer e reconstruir, uma maneira de me tornar algo que ele jamais esperaria. Uma maneira de fazê-lo pagar. Eles queriam que eu forjasse minha própria morte. A ideia era inebriante.
Minha visão turvou, não com lágrimas, mas com uma exaustão súbita e avassaladora. Meu corpo, já devastado, finalmente cedeu. A dor, tanto física quanto emocional, tornou-se insuportável. O quarto branco e estéril girou e depois escureceu. Acolhi a inconsciência. Era uma fuga temporária, uma pausa antes que a guerra começasse.
Capítulo 2
O cheiro de antissépticos e ar viciado de hospital preencheu meus sentidos enquanto eu lentamente voltava à consciência. Minha cabeça latejava, uma dor surda atrás dos meus olhos, e minhas pernas pareciam chumbo. Pisquei, as luzes fortes do teto queimando minhas retinas. Esta não era a suíte luxuosa na qual Collin teria insistido. Era um quarto de hospital padrão, sem graça e impessoal. Um arrepio percorreu minha espinha. A última coisa que eu lembrava era de ter desmaiado depois de ler aquele e-mail. A YC Corp já tinha feito sua jogada? Ou isso era apenas mais uma camada da crueldade de Collin?
Uma enfermeira entrou, seus movimentos rápidos, quase bruscos. Ela ajustou bruscamente meu soro intravenoso, causando uma pontada de dor no meu braço. "Fique quieta, Sra. Blair", ela resmungou, sem me olhar nos olhos. Seu tom era monótono, desprovido de qualquer calor. Este não era o cuidado gentil que eu geralmente recebia, mesmo em uma internação hospitalar comum. Algo estava errado.
"Você poderia ser um pouco mais gentil?", perguntei, com a voz rouca. Uma risada amarga escapou de seus lábios.
"Gentil?", ela zombou, virando-se para me encarar, seus olhos endurecidos. "Querida, o Sr. Brewer disse que você era 'dramática'. Ele nos disse para apenas fazer o trabalho. Disse que você é forte o suficiente para aguentar."
Collin. Suas palavras, suas palavras exatas. Elas ecoavam a declaração arrepiante que ele fizera no DMV. Você é forte, Kira. Você entende. Meu estômago se contraiu. Ele ainda estava orquestrando meu sofrimento, mesmo na minha suposta recuperação. Meu coração, ou o que restava dele, doía com uma dor familiar e lancinante. Ele realmente acreditava que estava me fazendo um favor, construindo minha resiliência. Ele estava apenas provando o quão pouco ele me conhecia.
Nesse momento, a porta se abriu e Collin entrou, com um buquê de rosas cor-de-rosa berrantes na mão. Ao seu lado, Haylee Acosta entrou saltitando, usando um vestido de verão amarelo ridiculamente brilhante, seu rosto uma máscara de doçura sacarina. A presença dela fez o quarto parecer ainda menor, sufocante.
"Oh, Kira! Você está acordada!", Haylee chilreou, sua voz irritando meus nervos. Ela parecia uma criança brincando de se fantasiar, completamente deslocada em um hospital.
Meu sangue gelou. A visão dela, a mulher que havia roubado meu futuro, matado meu filho e indiretamente causado a morte da minha mãe, quebrou algo dentro de mim. Toda a dor reprimida, a raiva, a dor inimaginável, explodiu. Eu me lancei para frente, minhas pernas enfaixadas protestando com um grito de agonia, minhas mãos se estendendo para ela. "Você!", eu rugi, um som cru e primitivo rasgando minha garganta. "Sua monstra!"
Haylee gritou, tropeçando para trás em direção a Collin, que rapidamente a envolveu com um braço, puxando-a para perto. "Collin, ela está tentando me atacar!", ela lamentou, enterrando o rosto em seu peito.
O olhar de Collin endureceu, fixando-se em mim com uma desaprovação gélida. "Kira! O que há de errado com você? Olhe para ela, ela está apavorada!" Ele falou comigo como se eu fosse um animal selvagem, não a mulher com quem ele deveria se casar. "Haylee está aqui para te ajudar. Ela se sente tão mal por... tudo. Ela quer se redimir."
Meu corpo tremia, não de dor, mas de uma mistura aterrorizante de fúria e desespero. Me ajudar? A ironia era um gosto amargo na minha boca. Ele quer que ela me ajude? A mulher que me mergulhou neste inferno? Eu não conseguia nem falar, minha garganta se fechando de emoção. Mas Collin não tinha terminado. Ele olhou para mim, um lampejo de algo em seus olhos — não medo, mas talvez um desconforto momentâneo com o ódio cru que emanava dos meus. Foi rapidamente substituído por sua condescendência habitual.
"Haylee vai ficar com você", ele anunciou, como se decretasse uma grande honra. "Ela está preocupada com você e insiste em cuidar de você até que se recupere. É a maneira dela de se desculpar."
Minha mente girou. Isso não era um ato de bondade. Era uma forma distorcida de punição, uma maneira de me manter sob seu controle, para garantir que eu retirasse as acusações e permanecesse em silêncio. Ele queria que eu a visse brincar de casinha, enquanto eu apodrecia na minha própria miséria. Ele queria esfregar a "inocência" dela na minha cara, um lembrete constante de tudo que eu havia perdido. Eu queria gritar, atacar, mas as palavras ficaram presas na minha garganta. Meu corpo estava fraco demais, meu espírito esmagado demais. Tudo o que eu podia fazer era encarar, meus olhos queimando buracos em sua fachada presunçosa.
E assim, minha tortura começou. Haylee se tornou minha "cuidadora". Era uma farsa elaborada de incompetência e agressão passiva. Ela "acidentalmente" deixava meus analgésicos fora de alcance, alegando que pensava que eram "apenas doces". Ela "esquecia" de me dar meus exercícios de fisioterapia, citando suas próprias "tonturas". Meus ferimentos, em vez de sarar, pioraram. Uma infecção persistente se instalou, minhas pernas uma pulsação constante de dor. Cada dia era um novo hematoma, uma nova dor, tanto física quanto emocional. Tentei protestar, explicar a crueldade deliberada dela para Collin, mas ele sempre me dispensava com um aceno de mão. "Haylee é apenas um pouco desajeitada, Kira", ele dizia, "Ela tem boas intenções. Não seja tão dura com ela." Uma vez, quando afastei a mão dela enquanto ela tentava forçar uma colherada de caldo ralo pela minha garganta, ela caiu no choro. Collin, chegando naquele exato momento, imediatamente ficou do lado dela, seu rosto uma máscara de decepção. "Kira, você está assustando ela! Ela está se esforçando tanto."
Meu espírito definhou. A luta se esvaiu de mim, substituída por um desespero vazio. Parei de tentar explicar, parei de tentar resistir. Eu apenas ficava ali, uma prisioneira na minha própria recuperação, observando Haylee zanzar pelo quarto, suas palhaçadas infantis um lembrete constante e chocante do meu tormento. Meu coração havia endurecido, minha mente entorpecida.
Uma tarde, Haylee entrou no meu quarto com um sorriso triunfante, carregando um shake de proteína. "Kira-boo, olhe! Collin disse que você precisa ficar forte! Eu encontrei este pó especial. Diz 'cinzas' no recipiente, então deve ser super nutritivo!"
Meu sangue congelou. "Cinzas?", minha voz era quase um sussurro. A urna da minha mãe. Estava rotulada como "Cinzas".
Um pavor frio me dominou. Eu me ergui, uma onda de adrenalina superando momentaneamente a dor. "O que você fez?", exigi, meus olhos arregalados de terror.
Haylee fez beicinho. "Eu só adicionei ao seu shake! Estava no recipiente rotulado 'Cinzas' no escritório de Collin. Pensei que fosse algum tipo de suplemento especial, como para ossos fortes!"
Minha mãe. Minha linda e gentil mãe. Seus restos mortais. Misturados em um shake de proteína por esta criatura vazia e maliciosa. Um grito gutural rasgou minha garganta. Eu me lancei da cama, arrancando o copo da mão dela e atirando-o contra a parede. O shake se espalhou, um líquido escuro e viscoso contra o branco imaculado. "Sua monstra nojenta!", gritei, minha mão voando, acertando sua bochecha com um tapa retumbante.
A fachada infantil de Haylee se despedaçou. Seus olhos, geralmente grandes e inocentes, se estreitaram com um ódio venenoso. Uma marca vermelha profunda floresceu em sua bochecha. Ela cambaleou para trás, agarrando o rosto, um lamento agudo irrompendo dela. "Collin! Collin! Ela me bateu! Ela tentou me matar!"
A porta se abriu com um estrondo. Collin estava lá, seu rosto contorcido de fúria enquanto observava a cena: o vidro quebrado, meu estado desgrenhado, o rosto de Haylee manchado de lágrimas. Sem uma palavra, ele se lançou sobre mim, empurrando-me para trás com uma força que enviou uma nova onda de agonia através das minhas pernas feridas. Eu bati contra a parede, minha cabeça atingindo o gesso com um baque surdo. Estrelas explodiram atrás dos meus olhos.
"Kira, que diabos há de errado com você?", ele rugiu, sua voz carregada de um nojo frio. Ele se virou para Haylee, segurando o rosto dela em suas mãos. "Amor, você está bem? Ela te machucou muito?"
Haylee soluçou, apontando para a parede salpicada. "Ela... ela jogou meu shake especial! Ela disse que eu era uma monstra! Eu só queria ajudá-la a ficar forte, como você disse! Pensei que o pó de 'Cinzas' era bom para ela!" Ela olhou para Collin, seus olhos arregalados com inocência fingida. "Querido, ela precisa se desculpar. Ela precisa se desculpar comigo por me machucar."
O olhar de Collin voltou para mim, afiado e implacável. "Kira, peça desculpas a Haylee. Agora."
Minha cabeça girava, a dor um rugido surdo em meus ouvidos. Pedir desculpas? Pelo quê? Por ela profanar a memória da minha mãe? Pela crueldade dela? "Não", eu sussurrei, a palavra um desafio. "Nunca."
Seu maxilar se contraiu. "Não me faça trazer sua mãe para isso de novo, Kira. Eu sei muito mais sobre o passado dela do que aquele vídeo mostrou. E se você não se desculpar, vou garantir que cada segredo seja exposto."
Minha mãe. De novo. Minha pobre e falecida mãe. Ele ainda a estava usando, mesmo na morte, para me controlar. A amargura era uma sensação física, espessa e sufocante. Meu corpo tremia com soluços reprimidos, mas nenhuma lágrima veio. Eu era um poço seco de luto. Qual era o sentido? De que adiantava? Ele já havia destruído tudo. Minha voz era um sussurro rouco.
"Me desculpe", eu engasguei, as palavras com gosto de cinzas. "Me desculpe, Haylee."
Os soluços de Haylee cessaram instantaneamente, substituídos por um sorriso presunçoso. "Está tudo bem, Kira-boo", ela disse com afetação, dando tapinhas no meu braço, um gesto que parecia uma cobra se enrolando em mim. "Eu sei que você está apenas confusa. Collin, vamos. Ela precisa descansar."
Collin assentiu, alheio ao veneno em seu toque. Ele beijou a testa de Haylee, depois se virou para mim, seus olhos frios e distantes. "Viu, Kira? Apenas peça desculpas. Não é tão difícil." Ele pegou Haylee pela mão, levando-a para fora do quarto. Enquanto saíam, suas palavras de despedida pairaram no ar, um aviso final e cruel. "Você precisa se acalmar, Kira. Para o seu próprio bem."
Eu os observei sair, meu corpo doendo, minha alma gritando. O cheiro das cinzas da minha mãe, misturado com pó de proteína, pairava no ar. Minhas mãos tremiam enquanto eu, lenta e meticulosamente, limpava a bagunça na parede, cada mancha uma nova ferida no meu coração. Minha vida era um deserto, reduzida a cinzas. Mas das cinzas, algo novo estava se agitando. Uma raiva fria e calculista. E uma promessa. A promessa à minha mãe, ao meu filho perdido e a mim mesma. Collin. Haylee. Eles iriam pagar. E eu me certificaria de que seria um preço que eles jamais poderiam imaginar.
Capítulo 3
Os dias seguintes se transformaram em um ciclo monótono de dor e desespero. Eu permaneci confinada ao meu quarto de hospital, as quatro paredes um lembrete constante do meu estado de destroços. Collin e Haylee não me visitaram. A ausência deles era um silêncio gritante, quase bem-vindo. Eles enviaram um desfile de enfermeiras, médicos e até mesmo um fisioterapeuta que parecia operar sob a mesma diretriz cruel da primeira enfermeira: eficientes, distantes e totalmente desprovidos de empatia. Meu corpo se curava a passos de tartaruga, constantemente inflamado, um testemunho do "cuidado" de Haylee.
Então, uma manhã, um frenesi de atividade irrompeu ao redor do meu quarto. Caixas começaram a chegar. Presentes caros e luxuosos. Roupas de grife, joias cintilantes, um laptop de última geração, o mais novo headset de realidade virtual. Meu quarto rapidamente se transformou em uma butique de luxo, transbordando de coisas que eu não queria nem precisava. Era o pedido de desculpas de Collin, sua maneira de se redimir. Um gesto transacional, desprovido de qualquer sentimento genuíno, destinado a cobrir o abismo gigantesco entre nós com um brilho superficial. Era bem a cara dele pensar que o dinheiro poderia consertar tudo. Ele costumava fazer isso depois de nossas discussões, me cobrindo de presentes até que eu esquecesse a briga. Desta vez, isso só alimentou meu ressentimento.
Eu rolava o feed do meu celular, meus dedos tocando a tela entorpecidos. O feed do Instagram de Haylee era um caleidoscópio ofuscante de rosa e glitter. Novas postagens, a cada hora, parecia. E em cada uma delas, lá estava Collin. Sorrindo. Paparicando-a. Ele a estava levando para Paris, para ilhas particulares, cobrindo-a de experiências que ele sempre considerou "frívolas demais" para nós. Ele comprou para ela um cachorrinho latidor que ela chamou de "Princess Fluffy-butt" e providenciou um jato particular para levá-los a um "retiro de spa" nos Alpes Suíços. Ele até postou uma foto dela usando os brincos de diamante que ele havia me prometido em nosso décimo aniversário, uma década atrás. Era um contraste brutal com a minha vida de dedicação silenciosa, de construir seu império tijolo por tijolo, com muito esforço. Eu era a sócia silenciosa, a arquiteta de seu sucesso. Ela era o troféu, exibido para o mundo ver, com todos os seus caprichos satisfeitos.
Ele a via como a flor frágil que precisava de cuidado constante, enquanto minha força era algo a ser explorado e depois descartado. Ela era tudo o que eu não era, e tudo o que ele agora parecia querer. A constatação foi uma pílula amarga. Ele não queria uma parceira. Queria um brinquedo, um reflexo de seu próprio ego inflado. E em sua mente distorcida, eu, com minha mente afiada e espírito independente, havia ameaçado isso.
Uma batida forte na porta quebrou meu devaneio. Uma assistente de rosto sério entrou, segurando uma capa de roupa. "Ms. Blair. O Sr. Brewer solicita sua presença na Gala da Brewer Tech esta noite. Seu vestido."
A Gala da Brewer Tech. O evento anual que eu havia planejado meticulosamente por anos, apresentando as mesmas inovações que eu liderei. Era para ser a minha noite, a noite em que Collin reconheceria publicamente minhas contribuições para a nova e revolucionária IA da empresa. Uma onda de náusea me invadiu. Eu queria recusar, gritar, mas então outro pensamento se formou, frio e claro. Por que não? Por que não ir? Era o meu trabalho, afinal, o meu legado. E eu tinha a sensação de que esta noite não se desenrolaria exatamente como Collin esperava. Eu iria. Não por ele, mas por mim mesma.
Naquela noite, vestida com o deslumbrante vestido que ele havia enviado, cheguei ao grande salão de baile. O zumbido familiar de empolgação, os flashes das câmeras, o murmúrio da elite da tecnologia — tudo parecia estranho, distante. Collin estava no palco, carismático e impecável, fazendo um discurso sobre o futuro da Brewer Tech. Ele era tudo o que eu o ajudei a se tornar. Quando entrei, uma ondulação percorreu a multidão. Seus olhos encontraram os meus, e um sorriso fraco, quase imperceptível, tocou seus lábios. Ele gesticulou para um assistente, que então se aproximou de mim, sussurrando: "O Sr. Brewer solicita sua presença no palco, Ms. Blair."
Caminhei em direção ao palco, cada passo um testemunho da minha resiliência, ignorando a dor persistente em minhas pernas. A luz do holofote parecia forte, expondo cada nervo à flor da pele. Collin pegou minha mão, seu toque enviando um choque de repulsa através de mim. "Senhoras e senhores", ele anunciou, sua voz ressoando com falsa magnanimidade, "como muitos de vocês sabem, Kira Blair tem sido um ativo inestimável para a Brewer Tech. Sua dedicação, sua visão... é verdadeiramente inigualável. Para reconhecer suas contribuições, tenho o orgulho de anunciar que estou presenteando Kira com uma participação significativa na Brewer Tech — dez por cento das minhas ações pessoais."
Uma rodada de aplausos educados se seguiu, pontuada por sussurros de "que generoso". Ele se inclinou, seus lábios roçando minha orelha. "Viu, Kira? Eu cuido de você. Isso é mais do que você jamais sonhou, não é? Mais do que qualquer projeto bobo ou reconhecimento."
Olhei para a multidão reluzente, meus lábios se curvando em um sorriso que parecia afiado, quase predatório. Não era um sorriso de gratidão. Era um sorriso de desdém. Ele pensou que poderia me comprar, me silenciar, com ações de uma empresa que eu construí com minhas próprias mãos. Meus olhos encontraram os de Haylee, que estava na primeira fila, agarrada ao braço da mãe de Collin. Seu rosto se contorceu com um rápido lampejo de ciúme, rapidamente mascarado por um sorriso afetado. Seu olhar então se desviou para alguém logo atrás do palco, um aceno sutil passando entre eles.
De repente, uma microfonia estridente soou da enorme tela de projeção atrás de nós. As luzes piscaram. Um suspiro coletivo se ergueu da plateia. A tela, em vez de exibir o logotipo da Brewer Tech, piscou e ganhou vida com um vídeo granulado e humilhante. Era minha mãe. Desorientada, confusa, com as palavras arrastadas, sua dignidade arrancada. O mesmo vídeo com o qual Collin havia me ameaçado.
Minha respiração ficou presa na garganta. Meu sangue gelou, e depois ferveu com uma fúria avassaladora. Não. De novo não. Aqui não. Minha mãe não.
O rosto de Collin ficou pálido. Ele se virou, com os olhos em chamas: "Que porra é essa? Quem é o responsável?"
Um jovem técnico de audiovisual, pálido e trêmulo, gaguejou: "Sr. Brewer, eu... eu não sei! Haylee-boo me disse para fazer um diagnóstico em seus arquivos de mídia privados antes da apresentação. Ela disse que tinha alguns vídeos fofos de-"
Mas ele nunca terminou. A tela mudou de repente de novo, e desta vez, era eu. Vídeos privados. Momentos de vulnerabilidade, de intimidade, capturados sem meu conhecimento. Um soluço engasgado escapou dos meus lábios. Os sussurros na plateia se transformaram em escárnio aberto, risos e pena. Meu mundo desabou ao meu redor, despedaçado em um milhão de pedaços pelo brilho cruel da tela.