Para que você compreenda um pouco da dimensão do meu problema e tudo que me fez chegar até este momento, vou lhe contar um pouco sobre mim. Pode ficar em paz. Sei que você vai se interessar em saber sobre minha vida. E isso é importante para que você entenda como eu cheguei até Nicole.
Como eu lhe disse, faço parte da polícia. Mais especificamente, de um batalhão especial de investigação (e eliminação) de pessoas consideradas perigosas. Talvez você jamais tenha ouvido em uma divisão assim, afinal, não somos tão famosos quanto outras que aparecem na TV e já viraram até filmes. Entretanto, se você ainda está vivo e o mundo ainda não está pior do que tudo que você vê, agradeça à nossa divisão.
Antes de fazer parte dela, eu era um policial de elite. Participava de centenas de operações em comunidades, procurando sempre encontrar eles, os bandidos. E quer saber da minha lista de troféus dessa época? Ah, é bem bacana. Traficante de drogas, assassino, ladrão de banco, estuprador, terrorista. Diversos desses passaram por minhas mãos... e, claro, acabaram com, no mínimo uma bala fincada no meio da testa.
Você quer saber qual é a sensação? Eu vou lhe contar. Me pagam para eliminar o lixo do mundo. Cada um daqueles que eu matei tinha uma ficha enorme. Eu vou lhe falar o que eu sinto fazendo isso. Fácil. Eu sinto prazer. É tão excitante ver um desgraçado desses sangrando em minha frente e perdendo o último fôlego de vida que se pudesse fazia isso todos os dias.
O último que peguei antes de mudar de divisão era procurado há um tempão. O filho da puta tinha raptado duas crianças, estuprado, matado e jogado o corpo na Baía de Guanabara, no Rio de Janeiro. Nem preciso dizer que eu me ofereci para esta caçada. Nós subimos um morro. Eu e mais cinco. Fizemos uma limpa. Apareceu no caminho, sentamos o dedo. Claro que pegamos alguns para nos contar sobre quem estava procurando. E sabe onde o filho da puta se escondia? Na casa da avó. Quando batemos na porta, ela disse que o neto estava com “problemas psicológicos”. Eu, educadamente, disse que iria levar a cura para ele. E fiz isso. Primeiro, esfreguei a cara do desgraçado nas ruas e calçadas, fazendo com que cada lugar tivesse o sangue dele. Depois, levei para a beira do morro e estourei o miolo deles. Pronto! Curado!
Foi então que me chamaram para este batalhão especial. Meu superior era o João, o cara que me recrutou. Lembro exatamente da conversa dele:
— Carlos, estou aqui para lhe fazer um convite bem diferente. Quero que você integre um batalhão diferente, onde vamos, juntos, limpar a sujeira desse mundo. Meu objetivo não é pegar os pequenos, igual vocês fazem. Eu quero é os grandes. Aqueles que estão no comando.
Eu lembro que sentei numa cadeira de escritório, estiquei as pernas e coloquei sobre a mesa dele, dizendo:
— E o que eu ganho com isso? Por que eu deveria ir para um batalhão desses?
O homem sorriu:
— É a sua chance de fazer uma limpa nas ruas e ainda ir atrás de alguém que você já ouviu falar... Conhece o Bira do Beco?
Ao ouvir aquele nome eu quase caí da cadeira. Claro que sabia quem era. Eu o odiava desde que éramos crianças:
— O que aquele filho da puta anda fazendo?
João deu um sorriso. Sabia que eu estava dentro, ainda mais se fosse para pegar aquele gordo careca nojento. Ele respondeu:
— Nós estamos falando de um dos maiores traficantes de armas do país, Carlos.
— Aquele merdinha virou traficante de armas? Ah, então foi por isso que ele sumiu da comunidade! Bem que eu estranhei. E como pegaremos ele?
João riu naquele instante. Sabia que tinha conseguido me convencer a participar deste batalhão especial.
E quer saber? Não posso dizer que me arrependi não. Meu trabalho seria bem interessante. Eu teria que investigar os casos propostos, reunir provas e, claro, ir até os extremos para encontrar o desgraçado do Bira do Beco.
Sei que o nome dele parece ridículo, assim como de vários traficantes são. Mas ele era bem perigoso e ainda estava arrumando bastante confusão com a nossa organização. Era um burro, um merda. Não sei como ele poderia se tornar um traficante de armas altamente procurado. Isso me intrigou. Será que não tinha alguém por trás dele?
Mas, naquele dia, o que me interessava era saber exatamente com quem estava lidando. Eu perguntei ao João:
— Quem faz parte desse batalhão especial?
Ele começou listar alguns poucos nomes. E no meio, claro, tinha que estar o “senhor certinho, politicamente correto e que sempre seguia as leis” do Jorge. Eu tinha um certo nojo dele antes. E, com o tempo, isso aumentou. Porque não gosto de pessoas que tenham uma pose assim. Algo estava escondido por detrás daquela perfeição. Lembro que questionei João:
— Porra, logo o Jorge?
João me respondeu assim:
— Preciso de um ponto de equilíbrio no grupo, Carlos. Alguém que não pense apenas em limpar a sujeira, mas que consiga encontrar provas, conversar e até usar um pouco de negociação. Há momentos que conversar também faz parte na nossa profissão.
— Ah, mas eu converso com eles — retruquei. — Eu e Gertrudes. — Gertrudes era o apelido carinhoso para uma das minhas armas. Na verdade, todas elas eram Gertrudes a partir do momento em que estavam nas minhas mãos, então, não importava a arma, ela sempre teria o mesmo nome.
Lembro que João me olhou com uma expressão séria. Eu sabia que era por isso que ele estava me chamando. E por que não seria? Eu não tinha medo de nada, era bom no que fazia e sempre realizava as missões com sucesso. E achava isso ótimo. Só os bandidos que não, afinal, sempre sofriam baixas e, quando eu dava sorte, eles perdiam a vida no processo.
— Então, meu amigo Carlos, você usa a Gertrudes. Jorge vai conversar com carinho. Lembra da famosa história do policial bom e do policial mau?
— Desculpe, João, nunca consegui chegar com nenhum deles respirando para conhecer o policial bom... acho que isso é uma falha minha...
Nós dois gargalhamos. E eu estava dentro. Numa missão para pegar o Bira do Beco. Ah, como eu queria ser o primeiro a encontrar aquele desgraçado. Eu ia fazer com que ele sofresse bastante e pagasse por muito que fez quando eu era criança.
Quando eu saí daquela reunião, caminhei para meu carro. Fiquei pensando:
“Por que eu? Justamente eu teria que pegar aquele merda do Bira em uma missão altamente secreta?”
Mal sabia que teria sido melhor voltar e desistir de tudo. Teria tornado minha vida mais fácil. Ainda mais depois de tudo que aconteceria por causa desse caso (sim, foi nesse caso que eu conheci Nicole e já vou chegar nessa parte).
Quando cheguei no meu apartamento, na zona Sul do Rio, minha mãe me esperava. Uma senhora baixinha, com pele negra, cabelos embranquecidos e acima do peso. Ah, como eu amo essa velha! Ela sempre me motivou a tudo.
E não estranhe que eu, um cara de quarenta anos, ainda more com minha mãe. Quando entrei na polícia, eu fiz questão de comprar um apartamento longe daquele morro onde tivemos apenas sofrimento e viemos para cá. Eu e minha velha. Claro que eu não trazia mulheres para cá. Respeitava a velha. E era por isso que eu tinha um kitinet perto alugado também. Era o lugar onde eu realmente me divertia (afinal, que mulher não gosta de um policial forte como eu?).
Mas ainda não é esse o fato que eu quero contar. Naquele dia, justo naquele dia, tinha desmarcado com a Marta, uma garçonete desempregada do bairro que vivia me fazendo visitas íntimas no meu pequeno espaço. Ah, como eu gostava de ter aquela mulher de meia idade lá. E justo naquele dia, quando eu queria acabar com a adrenalina acumulada, ela desmarcara comigo.
Quando cheguei em casa, minha mãe percebeu que eu estava diferente. Ela logo veio me questionando:
— O que aconteceu, meu filho?
Eu dei um sorriso:
— Recebi uma promoção, mãe. E, agora, vou trabalhar menos. Vai ser menos arriscado e estarei mais tempo com a senhora.
Naquele momento, era o que eu achava. Mal sabia que minha vida ia mudar por completo. Ao contrário do que eu pensava, eu iria trabalhar muito mais e estaria longe de todos que eu amava por mais tempo que antes.
No dia seguinte, quando cheguei no serviço, eu fui chamado pelo meu superior. Ele me mandou sentar e começou a falar:
— Você vai agir diferente hoje, meu amigo. A partir de agora, você deverá investigar como puder e reunir informações para encontrar aquele desgraçado que queremos pegar.
Eu comecei a sorrir:
— Mas isso era para ser fácil. Só pegarmos a pessoa certa.
— Não, Carlos, você não está entendendo. Aquele filho da puta está se escondendo. E alguém está no lugar dele. Provavelmente a filha dele.
Foi a primeira vez que ouvi falar que Bira tinha uma filha. Queria que tivesse sido a última. Mas era ali que tudo estava começando a acontecer. E meu maior erro foi justamente atrás da filha daquele filho da puta.
Quando você ouve o nome “Nicole” e sabe que ela é filha de um traficante de armas gordo e careca, qual a primeira impressão que você tem? Bom, eu vou lhe contar o que eu imaginei no dia em que soube que o nojento do Bira tinha uma filha.
Foi assim. Meu superior, João, resolveu me mandar investigar o lugar de origem de Bira, ou seja, o morro onde eu nasci. Acho que aquele corno sabia que era meu lugar de origem e queria me testar. Mas, antes de me mandar, ele disse:
— Não esqueça, Carlos. Você tem que encontrar a pessoa que está por trás dele. Provavelmente seja a filha, então, encontre rastros dela.
— E você sabe algo sobre a filha de Bira do Beco?
João pegou uma cópia de um papel e me entregou:
— Só o que está escrito aqui. Foi tudo que Jorge conseguiu reunir na investigação dele sobre o caso.
Eu peguei o papel, já chateado de ter ouvido o nome de Jorge. Aquele cara era um babaca. Se achava o cara mais certinho da corporação. Aposto que o filho da puta escondia alguma coisa. E eu ainda ia descobrir o que era. Mas, concentrado no caso, eu li o papel:
— Vejamos: “Albiner Oliveira, conhecido popularmente como Bira do Beco. Homem acima do peso, calvo, com 45 anos de idade”. Caralho, João, ele tem apenas cinco anos a mais que eu e parece ser muito mais velho.
— Deve ser a quantidade de drogas consumida.
Continuei a leitura:
— “Procurado internacionalmente por tráfico de armas. Um dos chefes das quadrilhas do Rio de Janeiro”. Até agora, nada que não saibamos.
— Continue.
— “Possui uma filha chamada Nicole, com aproximadamente 20 anos de idade”. Só isso? Então você quer que eu descubra pistas dessa tal Nicole, é isso?
Olhei para o papel e criei minha imagem mental da filha de Bira. Não sei por que verbalizei para meu superior como eu achava que ela deveria ser:
— Aposto que é uma piranha feia pra caralho, parecida com o pai e que deve se acabar nas drogas.
João mexeu a cabeça:
— Não faço ideia, Carlos. Ninguém faz. Soubemos dessa filha há pouquíssimo tempo. Então, por favor, descubra o que conseguir sobre ela e avance nesse caso tão complicado.
Deixei o batalhão logo cedo. Era diferente estar naquele grupo de operações. Ainda mais eu, que estava acostumado com ação o tempo inteiro. Mas eu tinha, naquele momento, que conseguir pistas sobre a tal Nicole. E justamente no morro onde nasci e cresci.
Naquele dia, não estava fardado. Era estranho, me sentia pelado. Porra, eram anos de farda. Sair para trabalhar com uma arma na cintura sem farda era bem diferente. Mas eu iria acabar me acostumando com isso em algum momento da minha vida. Pelo menos era o que eu esperava.
Subi o início da rua da comunidade, já com algumas pessoas me olhando de cara feia. Eu era conhecido e aqueles merdinhas sabiam que, já que eu estava ali, eu queria algo.
Não querendo arrumar problemas, eu entrei no Bar do Zé, um espaço pequeno fedendo a cachaça que ficava na entrada do morro. Seu Zé, já bem velho, estava sempre na porta com um cigarro na mão e um copo de cachaça. Ao me ver, ele disse:
— Vejam quem resolveu aparecer, o Carlos.
Quando criança, eu ia no Bar do Zé para comprar algumas coisas para minha mãe. Apesar de ser um boteco, ele tinha alguns alimentos que dava para comprar, apesar de que nunca soubemos a origem. Então, sempre que se fazia necessário, ia comprar açúcar, café, macarrão, tudo com ele.
Olhei para aquele velho senhor com um sorriso:
— Como vai, seu Zé? Eu vim aqui beber um refrigerante.
Ele olhou para mim, estranhando:
— Pensei que ia pedir uma cerveja gelada ou uma branquinha das boas...
— Porra, seu Zé, não me tente. Estou trabalhando e não posso beber.
Seu Zé, rindo, como sempre, pegou um refrigerante em garrafa de vidro e me entregou. Sentei em uma cadeira branca ao lado dele, enquanto conversava:
— Seu Zé, vim aqui ver umas coisas na antiga casa da minha mãe. O senhor sabe quem mora lá agora?
O velho sacudiu a cabeça, rindo:
— Uma velha desdentada! De vez em quando visito ela. Dou um couro legal na coroa.
Tive que soltar uma gargalhada. Ele era um senhor bem espirituoso. Aproveitei o momento para continuar a conversa e cheguei onde eu queria:
— Sabe quem eu nunca mais ouvi falar, seu Zé? Do Bira do Beco. O senhor sabe o que aconteceu com ele?
Puxando a memória antiga, o velho bebeu mais um gole da cachaça e me contou:
— Sei sim, meu filho. Aquele garoto arrumou problema aqui no morro. Dizem que ele comeu a irmã de um traficante e engravidou a menina. Aí, teve que fugir daqui para não ser morto.
— Quer dizer que ele teve um filho?
Seu Zé falou baixinho para mim:
— Dizem que é uma filha e que é muito gostosa. Parece que ela gosta de frequentar um baile que acontece toda noite. Dizem que rebola até o chão. O baile é em um clube aqui perto.
Eu sabia que baile era aquele. Era um lugar com muita música eletrônica e que vendiam muitas drogas. Fizemos algumas operações lá, mas eles sempre conseguiam se esconder de nós.
Depois de agradecer ao seu Zé, eu segui um pouco por perto e fui embora. Tinha que ir a um baile de noite. Imaginem eu, com meus 40 anos, em um baile perto de uma molecada.
Mas o que eu fiquei curioso foi com a fala do velho. Ele se referiu à filha do Bira como uma mulher gostosa. Se bem que, para ele, que vivia sempre no meio de muita gente feia e esquisita, qualquer menina mais nova seria uma maravilha.
À noite, naquele dia, cheguei no tal baile. Coloquei uma calça jeans, uma camiseta sem mangas mostrando meus braços sarados e minha tatuagem, óculos escuros e fui para o baile. Entrei. Olhei para um lado e para outro e só vi gente nova dançando com a música eletrônica, além de luzes e um balcão onde pediam bebidas.
Eu me aproximei do balcão, sentei e pedi uma bebida. O atendente veio, me trouxe o que solicitei. Notei duas meninas me olhando. Eram novas, pele branca. Uma estava de mini saia e blusinha. A outra estava de vestido. Ah, mas eu falo delas depois. Primeiro, eu tinha que achar Nicole.
Perguntei ao atendente:
— Você conhece Nicole?
Ele, um homem já de meia idade, me respondeu:
— Se você está falando da senhorita Nicole, filha do senhor Bira, claro que conheço. Ela é dona desse lugar aqui.
Dona daquele lugar. Olhem isso. Eu procurando a piranha e ela era dona do lugar. Eu questionei ao homem mais uma vez:
— E ela se encontra hoje aqui?
Ele me apontou para perto do DJ. Quando olhei para lá, ainda bem que a música estava alta, porque eu só pensei em três palavras:
— Puta que pariu.
Nicole era linda. Como eu falei, ela tem um metro e setenta e cinco. Seu corpo é lindo, uma mulher magra com belos seios e aquela bunda maravilhosa. O cabelo ruivo curto fazia brilhar um brinco de ouro em suas orelhas, dando um charme mais que especial para ela.
Naquele baile em especial, ela estava usando um top que mal tampava os seios e um mini short que mostrava grande parte da sua bunda. A roupa era prata. Tinha um sapato de salto preto e uma maquiagem muito bem feita. Eu não conseguia acreditar que aquela deusa era Nicole, justamente a Nicole que eu estava procurando.
E agora, como eu me aproximaria? Iria conseguir? Ah, achei que não naquela noite. Mas tinha que dar um jeito.
A situação ficou mais difícil quando ela se aproximou do DJ, pegou um microfone e disse:
— Bem-vindos à minha festa! Agora eu irei cantar para vocês!
A filha da puta ainda cantava. Caralho. Que voz era aquela? Sedutora, delicada. Quando os lábios mexiam, eu só pensava em uma coisa:
“Eu preciso comer essa mulher. Foda-se quem ela é.”
Sei que pode parecer uma atitude um pouco irracional, até meio animalesca. Mas, porra, ela tem algo diferente. Eu estava completamente encantado e olha que só olhei para ela.
Então, me aproximei mais um pouco para poder ver melhor. A jovem Nicole, aquela mulher linda, era realmente a herdeira do crime? Eu já até tinha esquecido que estava trabalhando. Queria era me aproximar dela de qualquer maneira.
Olhei para perto dela. Dois homens fortemente armados. Certamente que os seguranças dela. Merda. Como me aproximar de uma mulher com seguranças. Sabia que não seria naquela noite.
Enquanto estava me preparando para sair, com a imagem de Nicole em minha mente, as duas jovens que me encaravam se aproximaram. Uma delas (que não lembro qual) disse:
— Você nem nos pagou uma bebida.
Juro para você que meu pensamento, naquele momento, estava em Nicole. Mas realmente as duas eram atraentes. E estavam ali, diante de mim, querendo algo.
Se você me perguntar como foi que paramos na quitinete, eu e as duas meninas, não sei dizer. Mas eu vou lhe contar como aquela noite foi bem interessante. E por que comer as duas foi muito bom para meu caso (e principalmente para meu ego).