Kyra
Não consegui dormir. A ansiedade tomava conta de mim. A forma como ele me olhou e tudo que não foi dito ali, me deixou apavorada e com medo. Aproveite a noite para beber algo bem forte, assim esqueceria do dia e amanhã estaria bem melhor para encarar a nova vida.
O céu ainda estava cinzento quando voltei à mansão na manhã seguinte, desta vez com minha mala pequena em mãos e a garganta apertada pela expectativa, e se rudo desse errado? Tudo ali parecia silencioso demais. Sem música. Sem vida. Como se ninguém respirasse forte dentro daquela casa — apenas sussurrasse ordens ou se calasse para não incomodar o chefe.
A porta foi aberta novamente pelo mesmo funcionário da noite anterior. Ele apenas fez um gesto com a cabeça, como se eu já pertencesse àquilo. Mas eu não pertencia. Nem mesmo me sentia Bem-vinda.
Liam, ou melhor, o Sr. Blackthorne me esperava no corredor lateral, vestindo um terno escuro e com um relógio caro no pulso — o tipo de homem que parece atrasado para tudo, menos para mandar em alguém. E o tipo de homem que eu quero distância.
— Pontualidade — ele disse, seco. — Bom começo, senhorita Lystem.
Assenti, apertando a alça da mala com força. Eu queria ser forte. Mas tudo nele me fazia sentir… exposta. Como se ele conseguisse ler meus pensamentos antes mesmo de eu organizá-los. Que droga!
— Vou te mostrar o que precisa saber — continuou. — A casa é dividida em três andares. Você fica no primeiro, no quarto ao lado de Julie. Nunca suba. O segundo andar é privado e o terceiro é meu quarto e alguns cômodos. Pode subir quando quiser, mas mantendo distância dos corredores do segundo.
A forma como ele disse privado soou como um código. Como uma parede invisível que, se ultrapassada, teria consequências que não vinham com aviso.
— Certo — murmurei.
Passamos pela sala de estar minimalista, pela cozinha ampla demais para ser usada e por um corredor decorado com quadros monocromáticos. Alguns quadrados eram apenas rabiscos de criança, talvez de Julie.
— Essa é a sala da Julie. Ela só usa quando quer desenhar. Raramente fala ou convera muito. Quase nunca sorri para alguém. Não se esforce para forçar nada. Ela vai te observar por dias antes de permitir qualquer aproximação. Espero que não haja problemas para você.
— Respeitar limites jamais será um problema para mim. Estou aqui para aprender com ela também.
— Ela é asmática — completou, parando diante de uma porta branca. — Isso é importante. As crises podem ser raras, mas quando acontecem, você precisa agir em segundos. Porque as crises são silenciosas.
Ele abriu a porta e revelou um armário embutido repleto de remédios, bombinhas, máscaras e cilindros de oxigênio e instruções plastificadas.
— Leia tudo. Duas vezes. Até saber de cor. Essa é a única parte da casa em que não tolero erro.
Assenti, engolindo seco. Eu conhecia aquele tom. Aquele peso nas palavras. Liam não estava pedindo. Estava dando um veredito.
— Ela vai para a escola três vezes por semana. O motorista já sabe os horários. Quando estiver em casa, mantenha as janelas fechadas. A umidade afeta a respiração dela.
— Ela dorme com a porta aberta?
Ele me olhou com intensidade.
— Ela não dorme a noite toda. Tem pesadelos com frequência e costuma acordar bastante durante a madrugada.
Silêncio. E então a vi. A pequena Julie. Pequena. Cabelos loiros até os ombros, olhos enormes azuis e tristes, e um coelhinho de pano manchado de tinta nos braços.
Ela estava parada na porta do quarto, em silêncio, apenas nos observando.
— Julie — Liam chamou, a voz mais baixa, mas ainda firme. — Essa é Kyra. Será sua nova babá a partir de hoje. Quero que a conheça, meu bem.
A menina não respondeu. Nem se mexeu. Apenas virou e saiu como se já soubesse que não havia motivo para interagir. Enquanto ele, parecia se esforçar.
— Ela tem quatro anos — explicou. — Mas parece mais velha às vezes. Espero que consiga lidar com ela de forma leve e amigável. Espero que não desista facilmente.
Ele passou os dedos pelos punhos da camisa. Ajeitou a gravata com precisão. Tudo nele era controle. Inclusive o amor. Se é que ainda havia algum ali dentro.
— Você pode começar agora. Leve sua mala. Leia as instruções. E esteja pronta às 19h. Jantamos pontualmente. Todos os dias, na mesma hora
Eu o encarei, sem saber se “jantamos” incluía ele, ou apenas a criança.
— Eu devo servir o jantar? — Porque era isso que também estava escrito, mas apenas o da pequena Julie.
Ele deu um meio sorriso. O primeiro. Mas era cruel.
— Não. Deve apenas estar presente. Quero observar como ela reage com você à mesa. — Ele se aproximou dois passos. — E como você se comporta quando é colocada sob expectativa.
O ar pareceu ficar mais pesado. Não houve contato físico. Nem ameaça direta. Mas havia algo em suas palavras que me marcou como um ferro em brasa. Eu assenti lentamente. Mantive o queixo erguido, mesmo sentindo tudo em mim estremecer. Mas antes de se afastar, ele me olhou firme e djsse:
— Bem-vinda à rotina, senhorita Lystem.
Liam
Ela não perguntou mais nada. Boa garota. Observei enquanto ela desaparecia pelo corredor com a mala. O andar era hesitante, mas o pescoço mantinha-se firme. Kyra não era feita para se submeter facilmente. Mas algo nela… já se curvava, mesmo sem perceber. Seria medo ou precaução? Era isso que me interessava.
Julie ainda me observava de longe, escondida atrás da porta do quarto, com aqueles olhinhos curiosos que me lembravam o meu cruel passado.
— O que achou dela? — perguntei olhando para ela e sorrindo, tentando não me perder ali.
Minha filha apenas apertou o coelho contra o peito e voltou para o quarto sem responder.
Era o mais próximo de uma aprovação que eu conseguiria ter naquele momento. Mas já era bastante coisa.
Voltei para meu escritório. O dia seria longo. Reuniões, contratos, decisões. Mas, pela primeira vez em meses, algo na casa parecia diferente. Não mais silenciosa. Mas inquieta.
E eu gostava dessa inquietação. Porque me fazia relembrar que ainda sou humano. Que tenho uma filha e eu preciso seguir em frente sem olhar para trás, ou continuar me perdendo.
Julie precisa de mim interio, porque temos apenas um ao outro agora.
Kyra
Às 18h45, terminei de me trocar.
Simples. Discreta. Um vestido preto, liso, que não chamava atenção demais, mas ainda marcava minha cintura com certa elegância. Prendi o cabelo em um coque baixo, como se isso pudesse me fazer parecer mais profissional e menos… vulnerável. O relógio na parede marcava 18h58 quando saí do quarto e caminhei até a sala de jantar.
A mesa já estava posta. Guardanapos perfeitamente dobrados. Talheres alinhados como num catálogo. O tipo de organização que não aceitava deslizes. Nem barulho. E o tipo de coisa que eu também não estava totalmente acostumada a lidar.
Julie já estava sentada em uma das pontas. Vestia um vestido claro, os cabelos escovados com perfeição. Mas o olhar era o mesmo da manhã: distante. Observador. Silencioso. Liam apareceu dois minutos depois. Calmo, sem pressa. Como se o tempo estivesse ao seu favor e nós, à sua mercê.
— Pontual de novo — disse, puxando a cadeira da cabeceira. — Já está se saindo melhor que as outras.
— As outras? — perguntei antes de me censurar. O tom soou curioso demais. — Desculpe!
— As outras candidatas — ele respondeu, enquanto servia água para Julie. — Nenhuma durou mais que uma semana aqui dentro. Não me pergunte o motivo, pois eu também queria saber.
Sentei em silêncio, tentando esconder o nó que se formava na boca do estômago. Julie começou a mexer na comida sem muito apetite. Liam, por outro lado, cortava a carne com precisão cirúrgica, como se cada pedaço tivesse que ter o tamanho exato.
— Como está a comida, Julie? — perguntei, tentando criar algum laço. Mas cai na real que parecia mais uma idiota.
Ela olhou para mim, sem expressão, e respondeu num tom quase inaudível:
— Igual a ontem. Não há diferença.
Liam sorriu. Mas não era um sorriso doce. Era o tipo de sorriso de quem entende os jogos que as palavras silenciosas jogam. Afinal, ela era filha dele. Deve ter um pouco da sua personalidade nela.
— Ela tem memória gustativa — explicou ele. — E pouca paciência para pequenas gentilezas.
Respirei fundo e voltei ao meu prato. Sentia os olhos dele sobre mim. Me testando. Medindo cada gesto meu. Como se ali eu fosse uma peça no xadrez dele.
— Você leu todas as instruções? — ele perguntou, sem desviar o olhar.
— Duas vezes — respondi. — Como mandou.
— E entendeu todas?
Assenti.
— Algumas pareciam mais… pessoais que profissionais. Mas sim, entendi todas perfeitamente, senhor.
Ele apoiou os cotovelos na mesa. As mangas da camisa dobradas até os antebraços, mostrando a pele pálida e forte. A presença dele era… imensa. Como se tomasse todo o ar ao redor.
— Tudo nessa casa é pessoal, Kyra. E se não entendeu isso ainda, vai entender com o tempo.
A tensão correu pela minha espinha como um arrepio involuntário. Julie, curiosamente, não reagia. Apenas observava, com a colher parada no ar, como se estivesse assistindo a um filme daqueles que adultos falam coisas estranhas.
— Você disse que minha função era cuidar da Julie — retruquei, com cautela.
— E é. Mas eu cuido de quem cuida dela. — Ele se inclinou sutilmente. — Se você não estiver em equilíbrio… ela sente. E eu também.
O ar parecia preso entre nós três. Como se ninguém pudesse soltar um suspiro sem desrespeitar a ordem invisível que Liam criava com as palavras. Ele terminou o jantar antes de todos. Limpou os lábios com o guardanapo e levantou-se com a elegância exata de quem nunca foi contrariado.
— Kyra, venha comigo antes de recolher-se.
Julie nem piscou. Levantei, confusa, mas o segui pelo corredor. Ele parou diante da porta branca do fundo — a mesma que não tinha sido aberta até então.
— Aqui ficam as regras. Eu pensei que as tivesse lido.
Ele destrancou a porta. Dentro, não havia papéis. Havia... itens. Pessoais demais.
Coleiras. Algemas. Máscaras. Um pequeno sofá de couro escuro. Um armário com roupas de tecido fino e recortes ousados demais para serem usados como uniformes.
— Isso... não faz parte do trabalho com a Julie — sussurrei, em choque. — Desculpe-me, senhor Blackthorne se quebrei alguma regra tão cedo.
— Não ainda — ele respondeu, com a voz mais baixa, mais rouca. — Mas é parte do contrato se aceitar, é claro!
Engoli em seco.
— Eu nunca… aceitei isso. Desculpe-me a pergunta, mas agora entendo o porquê de todas elas irem embora.
— Eu nunca propus isto a ninguém, senhorita. Mas, conheço pessoas pelo olhar e o seu me pareceu tentador demais para não perguntar.
Ele fechou a porta devagar. Não me tocou. Não se aproximou demais. Mas estava ali, no limite entre o controle e a provocação.
— Enfim... não leve isso para o lado pessoal. Agora entenda porque está é uma sala que ninguém entra.
E então se foi. Deixando a porta trancada. E meu coração acelerado demais para o silêncio da casa que era assustadoramente silencioso.
Depois que Liam desapareceu no corredor, meu corpo demorou a relaxar. Levei a mão ao peito. O coração ainda corria como se quisesse fugir antes de mim. O que era aquela sala? O que ele queria realmente de mim? E porque ele me mostrou tal coisa? Não me interessa. Nada disso me interessa.
Respirei fundo e voltei à sala, esperando encontrar Julie no mesmo lugar — mas ela não estava. A mesa já tinha sido limpa por alguém que eu nem vi passar. Silêncio. De novo, aquele silêncio estranho dessa casa onde até os passos têm vergonha de ecoar. Caminhei pelo corredor e encontrei a porta do quarto de Julie entreaberta. Bati de leve e abrir um pouco.
— Julie? — A chamei antes de entrar.
— Entra — ela disse com a voz baixa, abafada pelo travesseiro. — Está aberta.
Entrei devagar. Ela estava deitada de lado, abraçando um bichinho de pelúcia. Os olhos brilhavam na penumbra. Com apenas a luz fraca do abajur distante da cama.
— Você está bem? Gosta de histórias?
Ela assentiu com a cabeça.
— Você pode me contar uma história? De verdade?
A pergunta me pegou de surpresa. Não pela simplicidade, mas pela doçura inesperada em sua voz.
— Posso, sim. Qual tipo de história você quer ouvir? Tem alguma preferida?
Julie puxou o cobertor até o queixo.
— Uma história boa. Não de monstros. Uma história onde alguém se sente segura. Não tenho nenhuma preferida, ninguém me conta histórias. Só meu pai.
Segura. A palavra me cortou por dentro.
A filha de um bilionário com todo o dinheiro do mundo pedindo segurança para uma babá como se fosse um tesouro impossível.
— Tudo bem... — sentei na beira da cama — Vou te contar sobre uma menina chamada Lía, que vivia numa floresta onde tudo era silêncio. Ela ouvia os passarinhos, o vento, os galhos, mas ninguém falava com ela...
Enquanto contava, vi os olhos de Julie ficarem mais pesados. Sua respiração se acalmava. Em algum ponto da história, ela esticou a mãozinha e segurou a minha. Ficamos assim. Eu sentada, ela dormindo. Até que senti meus próprios olhos pesarem. E, sem perceber, me deitei ao lado dela, ainda com a mão entrelaçada à sua.
Liam
O relógio já passava da meia-noite quando decidi checar se tudo estava em ordem. Era um hábito antigo. Um tipo de toque obsessivo disfarçado de responsabilidade. Silenciosamente, atravessei o corredor. A luz do quarto de Julie ainda estava acesa, fraca. Bati duas vezes, como sempre fazia. Nenhuma resposta.
Abri a porta e parei diante à cena. Kyra dormia ao lado da minha filha, o corpo curvado em direção ao dela. As mãos entrelaçadas. A expressão... tranquila. Algo que Julie raramente exibia. Por um instante, algo apertou no meu peito. Aquilo... não fazia parte das regras.
Nenhuma funcionária havia chegado tão perto.
Nenhuma havia tocado Julie. Nenhuma havia sido autorizada. Mas ela... Ela fez sem pedir.
E Julie deixou, sem ao menos questionar sobre ela.
Fiquei ali, parado, por tempo demais. Observando. Tentando entender por que aquela imagem me perturbava mais do que deveria. Kyra está ultrapassando limites. Mas por que parece tão certo... tão inevitável?
Fechei a porta devagar. Sem som. Sem reação.
Sem quebrar o laço que, mesmo adormecido, começava a se formar entre minha filha e a doce babá dela.