Capítulo 2

Arthur parecia o mesmo. Seu terno era impecavelmente alinhado, seu cabelo escuro perfeitamente penteado. Ele se movia com a mesma confiança fácil que encantava júris e desarmava oponentes. Ele era o sol, e todos os outros eram apenas planetas presos em sua órbita.

Senti um fantasma de um recuo quando ele se aproximou do carro, meu corpo se lembrando de um tempo em que sua presença significava segurança. Agora, parecia apenas uma ameaça.

Ele abriu minha porta, a mão repousando em meu braço. O toque era para ser reconfortante, possessivo. — Helena. Você está em casa.

Antes que eu pudesse responder, outra voz cortou o ar, doce e enjoativa. — Helena! Oh, querida, você finalmente chegou!

Catarina.

A mão de Arthur imediatamente caiu do meu braço como se estivesse quente. Ele se virou para ela, um reflexo que eu conhecia muito bem.

Eu não disse nada. Apenas a observei. Ela era uma visão em um vestido branco, seu cabelo loiro capturando a luz da tarde. Ela correu para frente, as mãos unidas em uma performance de emoção avassaladora.

— Sinto tanto, tanto por tudo — ela sussurrou, seus olhos brilhando com lágrimas não derramadas. — Você não tem ideia do quanto rezei por este dia.

— Ela está sendo sincera, Helena — disse Arthur, colocando-se entre nós. Seu tom era firme, um comando sutil. — Catarina tem sido uma rocha. Foi ela quem planejou tudo isso, para você.

Ele estava me dizendo para ser grata. Ele estava me dizendo que eu devia algo a ela. A injustiça daquilo era uma pressão física no meu peito.

Abri a boca para falar, para dizer qualquer coisa, mas Arthur pegou meu cotovelo. — Vamos, todos estão esperando.

Ele me guiou para o pátio, seu aperto inflexível. O murmúrio baixo da conversa parou. Todos os olhos se voltaram para mim. Eu podia ouvir seus sussurros, nítidos e cruéis.

— É ela? Parece acabada.

— Ela matou o próprio pai. Dá pra imaginar?

— O que o Arthur vê nela? Ela não chega aos pés da Catarina.

— Ouvi dizer que a família dela é gente baixa. Sofria abuso ou algo assim.

— O Arthur e a Catarina namoraram na faculdade, sabe. Eles sempre foram o casal perfeito.

Vi a mandíbula de Arthur se contrair. O sorriso em seu rosto ficou tenso. Ele me puxou para mais perto, o braço envolvendo meus ombros em um gesto protetor que parecia anos atrasado.

— Não dê ouvidos a eles — ele murmurou em meu ouvido, seu hálito quente contra minha pele.

Mas seu abraço não oferecia conforto. Meu corpo era um bloco de gelo. Eu não me inclinei para ele. Eu não tremi. Apenas fiquei ali.

Gentilmente, deliberadamente, afastei seu braço.

Ele olhou para mim, os olhos arregalados de surpresa. Um lampejo de algo — confusão, talvez até mágoa — cruzou seu rosto antes que ele o mascarasse.

Lembrei-me de mil vezes em que ele me abraçou daquele jeito. Depois de um pesadelo. Depois de um dia estressante. Ele tinha sido meu escudo. O homem que me protegia do mundo.

Mas era tudo mentira. A única pessoa de quem eu precisei de proteção foi ele.

Eu não precisava mais da proteção dele.

A frustração de Arthur era palpável. Ele não conseguia controlar minha reação, e isso o incomodava. Ele lançou um olhar furioso para os convidados fofoqueiros.

Ele caminhou para o centro do pátio, sua voz retumbando com autoridade. — Silêncio!

Os sussurros morreram instantaneamente.

— Quero deixar uma coisa bem clara — disse ele, seus olhos percorrendo a multidão. — Esta é minha esposa, Helena Montenegro. Ela passou por uma provação que nenhum de vocês poderia imaginar.

Sua defesa de mim era tanto uma performance quanto as lágrimas de Catarina.

— O que quer que vocês pensem que sabem, estão errados. Ela é a pessoa mais forte que conheço, e está em casa. Comigo. Se alguém tiver algum problema com isso, pode resolver diretamente comigo.

Um silêncio tenso caiu sobre o pátio. As pessoas se mexeram desconfortavelmente, evitando seu olhar.

Pelo canto do olho, vi Catarina observando-o, um flash de puro ciúme em seus olhos antes de ser substituído por seu olhar característico de vulnerabilidade frágil. Ela pegou uma taça de espumante, a mão tremendo levemente.

Ela deu um gole dramático.

Então ergueu a taça para mim, a voz soando com uma sinceridade falsa. — A Helena. Bem-vinda de volta.

Ela deu um passo à frente, seus olhos se fixando nos meus. — Por favor. Você consegue me perdoar?

Capítulo 3

Olhei para a taça que Catarina me oferecia. Não me movi.

— Não, obrigada — eu disse. Minha voz era baixa, mas cortou o silêncio.

Uma onda de murmúrios percorreu os convidados.

— Que grosseria.

— A Catarina está se esforçando tanto, e ela simplesmente a ignora.

— Ela é uma ingrata.

— Arthur, o que há de errado com ela? — alguém perguntou, a voz pingando pena dele.

Vi o conflito nos olhos de Arthur. Ele olhou para Catarina, que parecia prestes a se despedaçar. Então ele olhou de volta para mim. Vi o momento em que ele fez sua escolha. Ele sempre a escolhia.

Ele pegou a taça da mão de Catarina.

— Helena — ele disse, a voz baixa e perigosamente suave. Ele se aproximou, me bloqueando da vista dos outros. — Pegue a taça.

Não era um pedido. Era uma ordem.

— Vovó não está bem — ele sussurrou, suas palavras um golpe preciso e calculado. — Seria uma pena se os cuidados de enfermagem dela fossem subitamente... interrompidos.

Minha avó. A única pessoa no mundo que já me amou incondicionalmente. A ideia dela, frágil e sozinha, fez meu estômago se contrair de medo.

Minha mão tremeu quando estendi a mão e peguei a taça de espumante. Levei-a aos lábios e bebi. As bolhas queimaram minha garganta ferida.

A tensão no pátio diminuiu. Os convidados sorriram, aliviados.

Os brindes continuaram. Um após o outro, as pessoas erguiam suas taças para mim, para Arthur, para a ideia distorcida deles de uma reunião feliz. Cada vez, esperava-se que eu bebesse. Olhei para Arthur em busca de ajuda, de um sinal, de qualquer coisa.

Ele apenas me deu um pequeno aceno de encorajamento. Entre no jogo.

Ele estava ocupado demais observando Catarina, garantindo que ela estivesse bem, me deixando afogar em um mar de espumante e sorrisos falsos. Eu podia sentir os olhos de Catarina em mim, um brilho sutil e triunfante em suas profundezas.

Eu bebi. E bebi.

Uma dor aguda começou a se formar no meu estômago, uma dor familiar das úlceras que me atormentaram na prisão. Ela crescia a cada taça que me forçavam a beber.

A dor se intensificou, torcendo-se em um nó de fogo.

Catarina se aproximou com uma última taça, seu sorriso largo e predatório. — A saideira?

De repente, uma onda de náusea me atingiu. Dobrei-me, uma tosse estrangulada escapando dos meus lábios. Senti algo quente e úmido espirrar na toalha de mesa branca e imaculada.

Sangue.

Os convidados ofegaram de horror.

O primeiro movimento de Arthur não foi em minha direção. Ele correu para o lado de Catarina, puxando-a para longe como se eu fosse contagiosa.

O mundo girou. A dor no meu estômago era uma agonia incandescente. Os rostos ao meu redor se borraram, suas vozes um zumbido distante. Então tudo ficou preto.

Acordei com o brilho ofuscante das luzes fluorescentes. O cheiro de antisséptico encheu meu nariz.

Eu estava em uma cama de hospital.

Arthur estava sentado em uma cadeira perto da janela, de costas para mim.

— Você acordou — ele disse, a voz carregada de acusação. Ele se virou, e eu vi a raiva em seus olhos.

— O que foi aquilo, Helena? Tentando fazer uma cena? Tentando me envergonhar?

— Eu não estava... — Minha voz era um sussurro fraco. Era a primeira vez que conversávamos, de verdade, desde a minha soltura.

Ele se levantou e caminhou até a minha cama. Ele olhou para mim, olhou de verdade para mim pela primeira vez. Vi seus olhos traçarem o ângulo agudo da minha mandíbula, a nova magreza das minhas bochechas. Eu havia perdido mais de quinze quilos na prisão.

Um lampejo de culpa cruzou seu rosto. Apenas um lampejo.

Ele estendeu a mão para tocar meu cabelo, seus dedos roçando minha têmpora. — Vamos te deixar saudável de novo — ele murmurou, seu tom suavizando para aquele que ele usava quando prometia o mundo. — Vamos para Trancoso, como sempre planejamos. Vamos comprar aquela casinha perto do mar. Seremos só nós.

Ele pintou um belo quadro de um futuro que parecia uma mentira.

Eu não me importava com Trancoso. Eu não me importava com a casa. Havia apenas uma coisa com que eu me importava.

— Vovó — sussurrei. — Como ela está?

Ele pareceu surpreso. Ele estava começando um monólogo sobre nosso futuro, e eu o interrompi para perguntar sobre minha avó.

— Ela está... ela está bem — ele disse, um pouco rápido demais.

Naquele momento, seu telefone vibrou. Ele olhou para a tela. Era Catarina.

Ele se levantou imediatamente, o rosto uma máscara de preocupação. — Eu tenho que ir. Catarina está tendo um ataque de pânico. O sangue... a deixou em choque.

Ele caminhou até a porta sem um segundo olhar para trás.

Claro. Catarina estava em choque. E eu? Eu era apenas o objeto que causou o choque.

Uma risada seca e oca escapou dos meus lábios. Ele nem a ouviu. Já tinha ido embora.

Continue lendo
Apoie o autor e inspire mais histórias incríveis Moboreader
Desbloquear todos
Capítulo
Personalizar
Próximo Capítulo
Minishorts Logo
Leia web novels, ficção online e histórias românticas em alta no MiniShorts. Descubra romances de bilionários, fantasia de lobisomens, drama e novelas de fantasia, além de conteúdos selecionados de dramas curtos inspirados nas tendências de narrativa mais populares.
MiniShorts YouTube
PRODUTOS E SERVIÇOS
Sobre nós
support@minishorts.com
©2026 MiniShorts Todos os direitos reservados. CHASINGTOP HK LIMITED