Capítulo 2

Beatriz saiu do quarto respirando fundo, estava realmente cansada. As horas que Lisa descansariam não eram as mesmas que ela, que tinha que deixar tudo pronto para a entrevista, ver um lugar onde a amiga poderia encher a cara, e tambem organizar as coisas do próximo dia. Sem contar que tinha ansiedade crônica. Nem sabia a última vez que tinha dormido tranquilamente, sem sentir a pressão de assessorar a cantora mais famosa do momento. 

Ela amava o trabalho, mas era cansativo, ainda mais porque era uma perfeccionista nata, queria que tudo saísse do jeito que ela planejou e do jeito que ela sabia que seria o melhor para a carreira de Lisa, por isso, não aceitava erros. Afinal, estava a frente de uma equipe de mais de mil pessoas, respondia por todas elas, respondia a empresa na qual Lisa debutou, era sim um peso enorme e ela não estava livre de se sentir pressionada.

Conseguiu cochilar por duas horas, levantou, tomou seu banho, se vestiu da melhor forma que pode para visitar um planetário e um bar depois, e consistia em calça preta, camisa branca e sua jaqueta de couro, da qual não se livrava nunca. Beatriz estava longe de ser uma bad girl, diria mais que era uma patricinha mimada por ela mesma, mas gostava de manter alguma aparência que intimidasse.

Quando a hora chegou chamou Lisa em seu quarto, que já estava pronta. Nunca teve problemas com horários, já que sua cliente também era perfeccionista e odiava atrasos. Mas foram em silêncio até o lugar da entrevista. Ambas estavam cansadas da extensa agenda que tiveram nos estados unidos, do voo longo ate ali, mal tiveram tempo de descansar e já estavam de volta ao trabalho. A sorte era que o outro dia seria de folga, poderiam dormir. Beatriz queria muito - tentar - dormir.

Chegaram as duas juntas mais dois seguranças e um cinegrafista que acompanhava Lisa a todo canto, foram levados ate a sala da rádio, passando por vários lugares onde se vinham globos terrestres, fotos do espaço, maquetes do sistema solar.

- Olha Fontes, olha - Lisa a cutucou, e de trás de uma janela vários binóculos em uma sala. Seria difícil tirar a cantora dali sem dar pelo menos uma espiada. 

- Ah, chegaram - Um rapaz de sorriso quadrado veio ao encontro da turma - Sou Guilherme Lopes, mas aqui sou o Guido - ele cumprimentou a todos - Sou o locutor que fará a entrevista hoje.

- Oh, prazer - Lisa respondeu, animada por finalmente poder conversar em português novamente, poder se expressar melhor. 

Beatriz olhava em volta, observando tudo. Sempre fora assim, observadora. O lugar era aconchegante, ela confessava. Era a melhor rádio de Curitiba e era... simples. Todas as rádios famosas que visitou nos estados unidos eram luxuosas, com equipamentos caros e pessoas metidas. Mas ali não, além do tal do Guido, havia apenas mais uma pessoa na sala, que foi apresentada como Lucas, quem cuidava da parte da música. E mais ao canto, sentado de costas, havia outro homem, que não foi incluído nas apresentações.

Aquilo já deixou Beatriz com uma pulga atrás da orelha, e era seu dever tentar entender o que outro homem estava fazendo ali se não era da equipe. Lisa acabou a chamando logo depois, a envolvendo na conversa e quando reparou, o homem estava do outro lado da sala, que era protegida por um vidro, dessa vez estava de frente e Beatriz pode ver seu rosto.

Seus cabelos eram loiros quase da cor de sua pele branca, tinha uma mão apoiada no rosto e a outra passava em um livro como se tivesse sentindo a textura das letras - o que era estranho ao seu ver. Não pode ver os detalhes de seu rosto pela distância, mas viu o suficiente para se interessar e bem, que mal tinha em flertar com outra pessoa em uma rádio? Ja tinha conseguido belas transas daquela forma. 

Ela começou a caminhar pela sala enquanto a entrevista começava e Lisa respondia animada as perguntas que já tinham sido pré selecionadas pela própria Beatriz. Vez ou outra ela passava perto da janela onde o outro homem estava, jogava seus cabelos loiros pra trás, se encostava furtivamente ali, como quem não queria nada. Mas nenhuma vez conseguiu chamar sua atenção. O homem até levantava o olhar, mas parecia que Beatriz não o interessava, porque o via sem a olhar.

E depois de algumas várias tentativas frustradas aquilo estava começando a irrita-lá.

Beatriz não era rejeitada. Nunca. Era ela quem rejeitava. Então quem o homem achava que era pra a rejeitar? Pra nem a olhar? Trabalhando em um planetário mixuruca, com certeza não ganhava nem o troco que Beatriz dava, não era ninguém. 

Ficou tão irritada que se jogou no sofá e, com um bico enorme, esperou os minutos finais da entrevista.

Capítulo 3

Lisa estava sorridente, e era muito difícil aquilo acontecer, ela odiava dar entrevistas, as fazia por educação, mas Beatriz percebeu que aquilo realmente tinha a feito feliz. Lisa via beleza nas coisas simples, e já tinha ficado animada com a ideia do planetário.

- Nós estamos querendo beber depois daqui, tem alguma sugestão? - ela disse animada enquanto conversavam, para a troca de locutores.

- Oh, já que você é famoso, eu sugiro o Wings, é de um amigo meu, ficava há algumas quadras daqui e tenho certeza de que terá privacidade. - Guilherme disse animado também.

- Você podia ir com a gente o que acha? Faz tanto tempo que não ando por Curitiba, e você conhece lá, o que acha Fontes? - Guilherme a olhou, ainda estava jogada no sofá. Beatriz apenas deu de ombros.

- Eu só preciso arrumar minhas coisas, e vou avisar meu amigo tambem, assim se já tiver alguem mal encarado por lá ele já manda embora - disse sorrindo enquanto pegava o celular e se afastava.

Lisa sentou no sofá ao lado de Beatriz - Ta com esse bico porque? A entrevista foi incrivel e de quebra arrumei um amigo.

- Amigo Lisa? Me poupe - ela disse ainda irritada.

Lisa riu - Que bicho te mordeu? Credo - ela falou quando Beatriz pegou o celular, claro sinal de que não queria conversa - Já ta de noite, vou pedir pra ele se eu posso ver um binoculo. Ei - ela se levantou quando Guilherme se aproximou - Sei que vai parecer estranho mas... eu acho que a chance de eu voltar a um lugar incrivel desse é quase nula, e hoje eu tenho tempo, será que eu poderia...

- Ter uma tour? Claro - Guilherme sorriu - Vou chamar o Yoongi, ele conhece melhor essa parte do planetário e é astronomo, vai poder explicar tudo direitinho - disse indo ate a porta. A porta que separava a janela que Beatriz jogou seu charme durante as duas horas que passou ali. Viu Guilherme chamar baixinho e então o homem se aproximar. Ele não era muito alto, e sim, de perto era ainda mais bonito, seus olhos eram felinos e Beatriz percebeu que era asiático, a boca fina e suculenta, a pele branquinha... ela quase esqueceu a rejeição e tentou o seduzir novamente, quase. Mas por educação, se levantou quando ele chegou a sua frente - Esse é Min Yoongi, ele é praticamente o dono do planetário, vai fazer a tour com a gente. 

O tal Min Yoongi sorriu, um sorriso aberto que mostrava suas gengivas fofas e sim, Beatriz esqueceu completamente da rejeição. Em partes. Ainda tinha seu orgulho, afinal. - Prazer - o homem disse, tinha a voz rouca e baixa - Guilherme disse que é famoso, desculpe, conheço somente sua voz, confesso que sou um fã.

- Só a minha voz...? - Lisa perguntou confusa, olhando de lado para Beatriz, que estava da mesma forma.

- Ah, me desculpe, antes que fique desconfortável eu já vou avisar, não tenho problemas com isso - Guilherme riu para a fala de Yoongi - Eu sou cego.

Beatriz arfou, e sentiu seu sangue sumir de seu corpo.

Não tinha sido rejeitada afinal, o tal homem não a viu. Ha! Não tinha sido rejeitada! Ainda tinha seus charmes!

Mas assim que a euforia veio, tambem passou.

Ele era... cego? Não veria os charmes de Beatriz? 

Como ela o conquistaria afinal?

Merda. 

Nunca um sorriso gengival tinha sido tão doloroso de se encantar.

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