Eu não conseguia parar de pensar em Pierre Arnois.
Quando seus restos foram encontrados depois de o serviço de proteção à
testemunha ter falhado em protegê-lo, tiveram que confirmar sua identidade
realizando um teste de DNA. Ele não tinha mais arcada dentária… A perícia
concluiu que seus dentes haviam sido arrancados um por um com alicate.
Também não tinha impressões digitais, assim como várias partes de seu corpo,
suas mãos tinham sofrido choques tão intensos e prolongados que sua pele ficou
coberta de queimaduras. E seu rosto… pelo que me atrevi a ler nos jornais, sua
cabeça tinha se transformado em um purê de sangue, miolos esmagados e
pedacinhos de ossos triturados.
Yuri Kulik… Era isso que ele fazia com quem se atrevia a ficar em seu
caminho.
E Arnois era só um contador. Apenas um cara que viu alguns números e fez
uns cálculos que ninguém fez.
Os livros e registros tinham sumido. A memória de Arnois era tudo o que
tinha restado, até ela ser transformada no purê de sangue, miolos e pedacinhos
de ossos.
Quanto a mim, eu não tinha visto só alguns números. Tinha-o visto matar uma
pessoa.
Não era ele, Mina. Não podia ser ele.
O homem tinha se transformado no inimigo público número 1. Até o caso de
Arnois, a investigação ocorrera de forma secreta, e apesar de a polícia ter certeza
de que Kulik era culpado de todos os crimes investigados, nunca havia uma
prova definitiva contra ele. Foi apenas quando o purê de Arnois foi descoberto,
há duas semanas, que o rosto de Kulik começou a aparecer na TV e não parou
mais.
Era ele. Eu não podia me enganar. Era ele, sim. Ele matou uma pessoa na
minha frente, sim.
Dei uns tapas de leve na minha testa e desejei voltar no tempo. Voltar para
quando meu maior problema era perder a virgindade. Olhei para o relógio e
percebi duas coisas: Elise ia demorar uma eternidade para voltar e eu não ia
conseguir dormir.
Tentei comer alguma coisa, mas não deu certo. Lavei o rosto e me servi uma
taça um vinho branco que Elise tinha na geladeira, tentando trazer minha
respiração de volta sob meu controle. Sentei no sofá e encarei o nada por longos
minutos antes de finalmente decidir me distrair com alguma coisa. Procurei o
controle da televisão e me preparei para as longas horas que seguiriam,
compulsivamente mudando de canal. A TV fez um som ao ligar, e percebi que
minha compulsão teria que esperar: a jornalista tinha um tom grave e estimava a
quantidade de feridos na explosão. O canal indicava que eram imagens ao vivo,
e a jornalista explicava que havia sido um vazamento de gás; polícia e
bombeiros já estavam no local, mas ainda não tinham um número certo de
mortos ou feridos.
Eu, no entanto, não estava prestando atenção em nada daquilo. Não me
importava o que ela dizia, mas onde ela dizia.
Eu conhecia aquele prédio. Aquela esquina. Aquele pequeno jardim. Tinha
estado lá há poucas horas.
Era a minha casa.
Alguém tinha explodido a minha casa.
Andei até o móvel onde estava a televisão e me ajoelhei no chão quase
enfiando o nariz na tela. Tive vontade de rir de desespero. Não é possível. Minha
vida é normal. Não é um filme e, se fosse, seria uma daquelas comédias trágicas
que você nunca decide se ri ou chora pela mocinha. Definitivamente, não seria
um thriller.
Mas lá estavam os restos da minha casa. Espalhados pelo canal 8.
Eu já tinha ouvido falar sobre como algumas pessoas reagem em um momento
de sofrimento ou tristeza. Não choram ou não sentem. Seguem como se nada
tivesse acontecido, atendo-se aos mais irrelevantes detalhes, até finalmente
perceberem o que realmente aconteceu. E então elas sofrem tudo que não
sofreram antes.
Era mais ou menos assim que eu me sentia. Não pensei nas pessoas que
poderiam ter se machucado. Não pensei nas minhas coisas. Itens pessoais de
valor real ou afetivo. Meu computador com todo o meu trabalho. Fotos da
família, amigos… meu peixe, minhas roupas ou o colar de aniversário, o último
presente que meus pais me deram antes de morrer. Não pensei em nada daquilo.
A única coisa que passou por minha cabeça foi que o número da seguradora
estava anotado na mesa de cabeceira, no bloco de anotações ao lado do telefone.
Eu havia feito aquele seguro há tanto tempo que mal conseguia lembrar o nome
do lugar, quem dirá o código do meu contrato. Ia dar um trabalho horrível.
Foi a única coisa em que pensei.
Bem… Isso e Ryker.
Se ele tivesse me deixado em casa, eu estaria morta.
A ideia de estar pensando no risco da minha morte sem entrar em desespero
me assustou. Eu devia estar na primeira fase; ainda não tinha aceitado tudo
aquilo como real. O problema era que a realidade me atingiria em algum
momento, certamente. E onde eu ia querer estar quando isso acontecesse?
Ryker quis fugir. Mas fugir para onde? E por quanto tempo?
Eu não ia abandonar minha vida. Isso parecia absurdo. Coisas como essa
aconteciam em suspenses policiais, não na minha vida pacata. Era inaceitável.
Ficar na casa de Elise não iria ajudar. Não havia nada que ela pudesse fazer, e
eu podia acabar por prejudicá-la.
A polícia.
Eu precisava ir até a polícia.
– Putain! Mas que merda foi aquela?
– O senhor disse para descobrir o cara e se livrar dele.
– Disse! Mas não era para explodir um quarteirão inteiro, imbecil!
– A polícia vai achar que foi só um vazamento de gás.
– E matou ele?
– Ainda não tenho certeza.
– Imbecil! Não acredito que possa ser tão incompetente!
– O taxista que o levou me disse que o tinha deixado naquele endereço. Ele
tem que ter ficado lá.
– Claro que não… Pode só ter pegado um punhado de coisas e corrido para a
polícia! Ou pior… Saído da cidade!
– Se foi para a polícia, algum dos nossos amigos por lá pode…
– É, mas e se tiver saído da cidade? A gente tem que ficar de olho em
aeroportos, estações de trem… Até na merda do bateaux-mouches. Qualquer
coisa que sirva de transporte.
– Vou falar com o pessoal. Deixar todo mundo avisado.
– Não. Eu vou cuidar disso. Quero resolver isso tudo antes do meio-dia. Vá.
Pegue meu telefone, traga ele até aqui. Preciso fazer umas ligações.
O moleque parecia estar no seu primeiro dia na delegacia. Seu nome era
Richont. Ele tentou me guiar até o lugar certo, mas se perdeu duas vezes no
caminho.
– Espere aqui. Vou chamar o inspetor.
– Você não tem que pegar minha declaração primeiro?
– A senhorita disse que testemunhou um crime, não foi? É melhor falar direto
com o inspetor.
Ele engoliu em seco, hesitando a cada palavra, e eu soube que ele não tinha a
menor noção do que estava fazendo.
Ok, Richont… Somos dois.
Eu ainda estava batendo os nós dos dedos na mesa quando ele entrou. Era alto
e ruivo, com um rosto muito branco, cheio de sardas.
– Boa noite, senhorita…
– Bault. Mina Bault.
– Senhorita Bault. – Ele olhou para o relógio. – Na verdade, acho que é quase
bom dia. Então… – Sentou-se descontraído. – A senhorita não parece estar
machucada… Mas, precisa de um médico ou quer ligar para alguém?
– Ahn? Não…
– Geralmente, quando uma garota aparece aqui a essa hora da noite, ela vem
relatar um tipo muito específico de crime. Não parece ser seu caso.
– Não… Eu… Eu acho que vi uma pessoa matando outra.
Na minha cabeça, eu queria organizar meus pensamentos. O problema era que
toda nova frase que eu formulava soava mais ridícula e surreal do que a anterior.
– Veio denunciar um assassinato, então? – Seus olhos clínicos deram-me a
impressão de que ele não acreditava no que eu estava falando.
– Eu estava em um hotel. O Grand Classique.
– Grand Classique? – Algo seco em sua voz me incomodou mais do que eu
poderia descrever. Ele se moveu na cadeira e inclinou o corpo sobre a mesa.
– É. Eu estava com um… amigo. Nós ouvimos um barulho e… O Grand
Classique, o senhor sabe onde fica? – Ele fez um gesto afirmativo – Tem todo
aquele parque ao redor; nós ouvimos um barulho no estacionamento.
– E quem era? A senhorita viu?
Eu tive que piscar os olhos algumas vezes.
Quem era?
Tinha algo errado. O arrepio tomou conta do meu corpo inteiro e minha
espinha gelou.
Tinha algo muito errado.
Ele não ia me deixar terminar de falar? Há dois segundos ele sequer parecia
acreditar no que eu dizia e agora seus olhos frios estavam firmes de um jeito que
me constrangia. Havia algo em sua pergunta… Ele não queria saber o resto da
história. Só queria saber quem eu vi.
Meu instinto estava gritando em meus ouvidos que eu deveria mentir.
– Eu… Eu acho que… – ofeguei, exagerada.
– Preciso que me conte a verdade com todos os detalhes, senhorita.
Mordi o lábio.
Mentir.
– Inspetor… A verdade é que eu não vi nada. Um amigo… Ele está muito
nervoso. Acabou de acontecer com ele, mas não quer vir à delegacia. Está com
medo. Ele não sabe o que viu ou quem viu. Só se assustou e correu.
– Entendo. No estacionamento do Grand Classique, você disse?
– Isso.
– E seu amigo? Onde está?
Isso não estava certo.
– Ele não confia muito na polícia – menti. – Aí eu vim na frente.
– Vou precisar falar com ele. Para pegar o depoimento.
– Não pode fazer algo só com o meu? Chamar outros investigadores ou… Eu
preciso escrever alguma coisa? Assinar em algum lugar? – Qualquer coisa que
levasse alguém mais a saber o que aconteceu comigo.
– Não, não será necessário. Mandarei alguém até o Grand Classique, e vamos
ver o que aconteceu. Pode esperar um minuto? Preciso só ver uns detalhes antes
de liberá-la.
– Não me disse seu nome, inspetor…
Ele apenas sorriu.
– Só vai levar um minuto.
Por que ele não queria me dar seu nome?
Fechou a porta atrás de si e eu vi pela pequena janela quando ele tirou o
celular do bolso e olhou ao redor antes de discar um número. O que seriam esses
“detalhes” que ele precisava verificar, e por que não usar o telefone da
delegacia?
Pelo movimento de seus lábios pude ver que estava falando com alguém.
Em filmes e livros, aquela era a hora em que tudo começava a dar errado. A
polícia nunca ajudava completamente e os mocinhos sempre davam um jeito de
encontrar o único policial corrupto em léguas. Mas na vida real era um pouco
mais complicado. E se Yuri Kulik fosse realmente o criminoso que os jornais
estavam sugerindo, ele deveria ter mais de um amigo na polícia.
O inspetor se virou de costas e eu aproveitei a distância de seu olhar para
decidir que estava na hora de ir embora. Olhei ao redor e… Minha bolsa. Ele
levou minha bolsa? Pegou ela da cadeira quando saiu da sala? Olhei pela janela e
lá estava ela. Em cima da mesa dele.
Empurrei a maçaneta com força apenas para sentir a resistência inabalável da
porta.
Ele me trancou aqui?
Eu não conhecia o protocolo policial para tomada de depoimentos, mas
certamente não poderia ser esse. Ele desligou o telefone e estava voltando.
Afastei-me da porta e mordi meu polegar.
Abstraia, Mina. Abstraia tudo, assim como fez quando viu a sua casa
destruída na televisão. O que você sabe?
Sei que vi um criminoso de alto nível matar outro cara. Sei que isso não é
bom. Sei que minha casa explodiu no vazamento de gás mais oportuno da
história da minha vida.
Não podia ser coincidência.
Ryker era um desconhecido, mas ele estava no mesmo buraco que eu e, ao
contrário da inexperiente Mina, ele parecia ter um mapa e uma lanterna. Não era
muito, mas estava melhor do que eu.
Você tem que sair daqui.
– Vamos? – Ele abriu a porta.
Deixei o silêncio perguntar por mim.
– Temos que ir até outro inspetor. De outro departamento. Essa informação
que você deu é importante.
– Ele não vem até aqui?
– Não. Está em outro prédio. Chegamos lá em quinze minutos. – Sorriu.
– Inspetor, eu… Eu prefiro só ir para casa. Olha, talvez eu tenha me enganado.
Talvez meu amigo tenha…
– Vai ser muito rápido, senhorita. E não posso deixá-la ir depois de uma
denúncia séria como essa. Não sem colher todo seu depoimento primeiro.
– Posso fazer uma ligação antes?
– Não acho que deva. Pode ser perigoso. Por causa do que você viu.
Pense rápido.
– É o meu amigo… Eu… – menti. – Ele estava muito nervoso. Quero pelo
menos avisar onde estou e o que está acontecendo.
– Ah, quer ligar para ele?
– Quero. Posso? – Engoli em seco, disfarçando o tremor da minha voz.
– Claro.
Ele sorriu e me guiou até a mesa mais afastada, ofereceu-me uma cadeira para
sentar e discou o zero no telefone antes de passá-lo para mim. Apoiou o punho
contra o tampo da mesa, e percebi que ele não me daria privacidade.
Diga para alguém onde você está.
Dê um jeito de fugir dele.
Disquei o número de Elise e a secretária eletrônica apitou.
– Oi. Sou eu. Estou aqui na delegacia, já falei para o inspetor sobre o que você
viu no estacionamento do hotel hoje. Ele disse que seu depoimento é importante.
Estamos indo falar com um inspetor de outro departamento agora.
Levantei os olhos. Ao nosso redor, a delegacia inteira funcionava. Pessoas
escrevendo, ao telefone, conversando, tomando café. Nem todos eles poderiam
ser corruptos, não é? Se meu inspetor sem nome estivesse tentando me tirar dali
escondida, eu não poderia colaborar. Tinha que fazer aquela gente me notar.
– Mas sei que você viu alguma coisa. – Isso. Fiz um silêncio breve e vi o
inspetor olhar brevemente para trás de si. – Droga, cara! – Elevei a voz. – Eu sei
que você viu alguma coisa! – Comecei a falar mais alto, e o inspetor colocou o
indicador sobre os lábios, pedindo que eu fizesse silêncio. – Eu sei que você viu
no parque do Grand Classique mais do que me disse! Que droga! – Agora eu
estava gritando. Boa parte da delegacia me observava de um jeito indiferente, de
quem está acostumado a escândalos. Mas os olhos do novato Richont estavam
em mim e resolvi continuar. – Alguém morreu, cara! Alguém morreu e você viu!
Você sabe disso! Não diga que não vai ajudar.
O inspetor colocou a mão sobre o gancho do telefone e ordenou que eu falasse
mais baixo, em um tom rude e urgente. Despedi-me do meu interlocutor
fantasma e desliguei o telefone.
– E então?
Ganhe tempo.
– Vamos esperar alguns minutos e ligar de novo. Sei como ele é. A
consciência dele demora a funcionar.
– Não. Não podemos esperar. – Ele se levantou.
– Eu ligo agora, então. Dessa vez convenço-o a vir. Em quinze ou vinte
minutos ele chega aqui.
– Não. Nós falamos com ele depois. Só seu depoimento vai ser suficiente por
enquanto.
Minha garganta estava seca de um jeito que fazia o ar passar ardendo.
Aquilo estava mesmo acontecendo, não era? O inspetor estava mentindo para
mim e ele ia me levar para Kulik. Eu sabia que ia. Não entendia como eu podia
ter tanta certeza, mas eu tinha. Estava fodida, e não do jeito que eu tinha
planejado no começo da noite.
– Posso ir ao banheiro?
– Vamos chegar lá em quinze minutos. Vai ao banheiro lá.
Ele me pegou pelo braço com força como se eu fosse uma criminosa, e o
pânico começou a nublar meu raciocínio.
– Vou fazer xixi no seu carro. Não consigo mais segurar.
Ele me encarou por uma fração de segundo e me guiou pelo corredor até o
banheiro. Apontou sem cerimônia e ficou na porta me esperando.
Minha bolsa ainda estava com ele.
Eu podia gritar, não podia? Podia gritar pela delegacia que ele estava me
levando para algum lugar contra minha vontade. Podia gritar o que eu tinha
visto.
Eu conseguia me lembrar dos olhares quando gritei ao telefone. Aquelas
pessoas ali deveriam estar acostumadas a todo tipo de grito, eu não iria chamar a
atenção. E, se chamasse, o inspetor me algemaria e inventaria alguma história.
Em quem eles acreditariam? Em mim ou nele?
Não… Eu ia ter que fugir e ia ter que fazer isso sozinha. Infelizmente, não ia
ser agora. O banheiro ficava enfiado no meio do prédio e não havia qualquer
janela ou passagem que eu pudesse utilizar. Apenas um exaustor barulhento.
Droga… E agora?
Ryker. Eu precisava encontrar Ryker. Mas não podia dizer para o inspetor onde
ele estava, não é?
Não, não podia.
Mas…
Eu podia fazê-lo me levar a outro lugar antes do nosso destino final.
Saí do banheiro e forcei um sorriso.
– Inspetor… – Fingi uma expressão resignada. – Eu sei onde ele está. O meu
amigo… Acho que se nós formos até lá eu o convenço.
Ele expirou cansado, mas inquestionavelmente fisgado.
– Muito bem. E onde ele está?
– No Jules Verne.
– O restaurante?
– O restaurante.
– Na Torre Eiffel?
– Na Torre Eiffel.
O inspetor me puxava pelo braço, mantendo-me presa a ele. Eu precisava
chegar ao metrô. Era só isso que eu precisava. Quilômetros de tubos
subterrâneos e dezenas de milhares de pessoas. Mas não podia dizer ao inspetor
que meu amigo estava em um metrô.
Um lugar tão amplo e com tanta gente… Ele nunca tiraria os olhos de mim.
Chegávamos às primeiras horas da manhã e os primeiros grupos de turistas já
se reuniam nas filas dos ingressos para o elevador. Eu sabia para onde ia correr.
Olhei para a direita medindo o caminho. Um ônibus de turistas estava parando
para deixá-los descer, e pensei que o amontoado de pessoas seria a melhor
camuflagem que eu poderia conseguir.
Só alguns metros, Mina. Só alguns metros.
– Posso ler sua mão?
Tem duas coisas que você pode contar em Paris: sempre haverá um croissant
fresco na Brioche Dorée e ciganos em pontos turísticos.
– Sim, ele quer, por favor. – Puxei meu braço da mão do inspetor e a cigana se
apoderou dele com fúria.
– Ei!
Eu o ouvi gritar, mas já estava correndo na direção do ônibus e tive certeza de
que a força descomunal da cigana agarrando a sua presa me daria alguns
segundos de vantagem. Além dos turistas, além do ônibus… Uma escada descia
para o subsolo e me joguei por ela.
Não era o metrô. Apenas o resquício de uma estação que não existia mais.
Agora era só uma escada minúscula que descia para um pequeno corredor
estreito e terminava em outra escada minúscula que voltava à superfície. Poucos
metros que levavam do nada a lugar nenhum. Turistas desavisados ainda
desciam aquelas escadas achando que tinham chegado à estação Champ de Mars
– Tour Eiffel, apenas para subir de novo à superfície, risonhos e confusos. Já os
parisienses tinham aprendido a ignorar aquela passagem. E eu estava contando
que o inspetor faria isso. Estava contando com todas as minhas forças.
Olhei para o relógio. Trinta segundos. Eu não podia esperar demais ou correria
o risco de ele dar a volta. Subi pelas mesmas escadas, voltando à Torre e olhando
ao redor com cuidado. Ele deve ter passado por ali correndo… Imaginou que eu
ia para o metrô. Seria o que qualquer pessoa inteligente faria, não é? Voltei a
andar para a Torre e virei pelo avesso meu casaco jeans tingido. O pano claro do
outro lado iria me ajudar a confundir o inspetor, caso ele voltasse procurando
uma garota em um casaco escuro no meio da multidão. Atravessei todo o parque
desviando dos pequenos grupos de escoteiros; um longo caminho até a estação
da École Militaire.
Envolta pela multidão da Gare du Nord, a sensação de pânico e perseguição se
intensificou, e tive a certeza de estar sendo observada. A pressão que senti no
meu braço fez com que eu já me virasse com o punho fechado.
– Ai! – Ryker envolveu com as mãos o nariz atingido. – Minha nossa, como
você é violenta!
– Ryker! – Nunca imaginei que pudesse me sentir tão aliviada ao ver um
garoto de programa desconhecido que eu quase tinha castrado.
– Esmagou meus testículos, tentou me dar um choque anafilático e me deu um
murro. Em menos de doze horas – constatou, rindo discreto. – Você precisa
muito de uma boa transa, menina. Para ver se você relaxa.
Eu não estava com paciência para aquilo.
– Quer levar outro murro?
– Não, obrigado – riu. – Mudou de ideia? O que você tem? – Acho que entre
meu tom de pânico e minha cara pálida ele deve ter notado que eu não estava
nem um pouco bem.
– Fui até a polícia.
– Ai, merda, menina! Se metade do que eles dizem no jornal sobre o Kulik for
verdade…
– É, é! Eu sei. Descobri isso do jeito difícil.
– O que aconteceu? Vem até aqui… – Ele me sentou em um banco e comprou
uma água e um chocolate em uma máquina. – Toma. Vai se sentir melhor.
– Percebi que tinha algo errado e fugi. Ele disse que queria me levar até outro
departamento.
– Isso é estranho…
– Foi aí que eu tive certeza de que tinha algo errado.
– O que você disse para ele?
– Disse que um amigo viu um assassinato no estacionamento do Grand
Classique. Mas disse que ele não sabia quem era. E não falei nada específico
sobre você.
– Bem… Obrigado. Você fez bem em não dar detalhes.
– Ryker… Tenho que trabalhar amanhã.
Ele escondeu o rosto nas mãos e começou a rir.
– Você não tem o hábito de se meter em situações complicadas, não é?
– Não, não posso dizer que tenho. – Bebi uns oito goles de água seguidos.
– Esqueça seu emprego, menina. Até essa coisa se resolver, você precisa se
preocupar apenas com sua vida.
Aquela frase era tão insana que eu quis rir. E teria rido, se não estivesse tão
exausta.
– Qual é o seu plano, então?
– Tenho um amigo em Amsterdã. Tem um lugar que a gente pode ficar, ele
consegue um trabalho para gente…
– E aí? A gente passa o resto da vida morando com o seu amigo e trabalhando
para ele? Porque acho que eu prefiro me arriscar em outra delegacia.
– Conheço uma pessoa que pode ajudar. Pode nos conseguir policiais honestos
ou nos tirar do continente.
– Tirar do continente?
– Menina, sei que você não viu as coisas ficarem ruins, mas…
– Não vi? Explodiram minha casa, Ryker – sussurrei.
– O quê?
– Explodiram.
Chegava a hora.
Chegou a hora que eu começava a compreender o que estava acontecendo.
Meu corpo inteiro tremia, o mundo ao meu redor saiu de foco e achei que fosse
desmaiar.
– Minha casa… Minha vida toda. Eles destruíram. Sem contar na quantidade
de pessoas que eles devem ter… Oh, por Deus! Será que eles mataram alguém?
E por minha causa! Eu nunca poderia me perdoar e…
– Eu sei. – Ele me abraçou de um jeito desajeitado. – E eles continuarão atrás
da gente, por isso precisamos ir.
– Mataram Arthur! – Levei a mão à boca.
– Oh, eu sinto muito. – Ele estreitou os olhos. – Ele tentou te ajudar?
– O meu peixe. Arthur era o meu peixe. Eles explodiram o Arthur.
Ryker estava rindo.
– Sabe? Você lida com desastres surpreendentemente bem.
Ele ainda estava me abraçando e deixei que continuasse. Minhas forças
estavam aos poucos me abandonando, mas pude sentir que elas nãos iriam
embora completamente.
Se era em momentos de prova que a gente descobria de que é feito nosso
cerne, acho que eu estava me descobrindo uma pessoa bem forte.
Ryker olhou para cima, para as telas com horários e numerações.
– Nosso trem chegou.
– Você comprou mesmo uma passagem para mim?
– Eu disse que ia comprar, não disse?
Engoli em seco.
Quais eram minhas opções?
Nem que fosse só por um ou dois dias. Esperar a poeira baixar… Esperar
inspetores e criminosos esquecerem que eu existo.
Podia dar certo.
– Pronta?
Ele se levantou e me ofereceu a mão.
– Mina. – Eu disse.
– Ahn?
– É meu nome.
– Eu sei. – Riu.
– E por que fica me chamando de menina?
– Ajuda no efeito psicológico.
– Me diminuir?
– É… – confessou coçando a cabeça. – Você me deixou duro naquele quarto e
fugiu. Sendo pago para transar ou não, isso é o tipo de coisa que mexe com um
homem. – Ele tinha uma risada gostosa. – Acho que vou te chamar de menina
por mais algum tempo. Tentar esquecer que você é uma bela mulher. Isso que
está acontecendo com a gente é muito sério e preciso me concentrar. Ficar te
imaginando nua não vai fazer bem algum.
O trem seguia deslizando pelos trilhos em alta velocidade e eu não conseguia
parar de repensar minhas decisões. Ia ser demitida. Não ia poder voltar para
casa, não era?
Não seja idiota, Mina, caso contrário eles te acham e te explodem também.
Ryker estava ao meu lado, lendo um livro como se não tivesse uma única
preocupação no mundo. Respirei fundo e repassei minha lista.
Listar era a única coisa que conseguia me acalmar em qualquer situação. Eu e
minhas preciosas listas.
1 – Você viu um assassinato.
2 – Foi cometido por um chefe do crime. Eu me sentia ridícula por pensar nas
palavras chefe do crime.
3 – Ele deve ter contatos na polícia, e são muitos. Ou você deu azar e
encontrou o único policial vendido de Paris. Provavelmente, a primeira
opção. Não que eu esteja questionando meu glorioso azar.
4 – Explodiram minha casa, a agenda telefônica com o número do seguro e o
Arthur.
5 – A única pessoa com quem eu podia falar sobre isso era o Ryker. E ele
estava na mesma merda que eu.
6 – Elise mandaria a polícia atrás de mim.
7 – Ryker dizia que conhecia alguém que podia nos tirar da merda.
8 – Eu ia ter que confiar em Ryker.
Não porque eu queria.
Mas pela mais absoluta falta de opções.
Respirei fundo mais uma vez. E mais duas.
– Você respira do jeito errado. – Ele mal tirou os olhos do livro.
– Desculpa? – resmunguei baixinho a fim de evitar que os dois jovens
sentados nas cadeiras de frente para nós me ouvissem. – E tem um jeito certo de
respirar?
– Você enche os pulmões para cima. Não dá certo assim.
– E o melhor jeito de respirar é sem encher os pulmões?
Ele abaixou o livro.
– É uma figura de linguagem, espertinha. É claro que, fisiologicamente, você
sempre enche os pulmões quando respira.
– Fisiologicamente? – Se ele ia rir de mim, então eu também ia rir dele. –
Estou surpresa. Não achei que homens como você conhecessem palavras com
mais de quatro sílabas.
– Minha cara, entre nós dois, quem está lendo um livro sou eu. Enquanto você
não para de encarar aqueles dois.
Ele falou um pouco alto demais quando apontou para os dois caras do outro
lado, e o ardor nas minhas bochechas me informou que eu devia estar ficando
vermelha. Agora eles estavam olhando para mim e sorrindo. Olhares demais.
Sugestivos demais. E me odiei por não ter ficado quieta.
– Só não descobri ainda se você preferiu o da direita ou o da esquerda. Diga
para mim, menina, você prefere loiros ou morenos?
– Ryker, cale-se – sibilei.
– Achei que estávamos brincando de deixar o outro com vergonha – sussurrou
para mim antes de se virar para suas duas novas amizades. – Nem se
empolguem, colegas. – Apontou o polegar para mim. – Virgem – anunciou. Eu
quis bater nele. – E dá um trabalho horrível. – Voltou para seu livro e afundei na
poltrona.
O loiro e o moreno estavam rindo para mim e considerei se não teria sido
melhor ser explodida junto com Arthur.
Acalme-se, Mina.
Respirei fundo.
– Jeito errado…
– Cala a boca, Ryker! Respiro do jeito que eu quiser!
– Se tivesse respirado certo ontem, a gente teria transado e eu poderia estar te
comendo até agora. Mas não! Você respira do jeito errado, entra em pânico e
quase arranca fora a ferramenta da minha masculinidade.
– Será que você poderia ser só um pouquinho mais discreto? – implorei e ouvi
os dois rapazes rindo incontrolavelmente.
– O que foi? Eu disse ferramenta da minha masculinidade. Não disse pau ou
cacete, exatamente para ser discreto.
Dei um soco no seu ombro e levantei.
Ele riu pedindo que eu ficasse, mas eu estava andando pelo corredor
procurando outro assento vazio. Encontrei um jogo de poltronas no final do
vagão e me enfiei ali.
– Eu estava só brincando. – Jogou-se na poltrona na minha frente e o ignorei.
Pelo menos ali não havia mais ninguém para rir de mim.
– Estava me humilhando. Era realmente necessário?
– E você com o garoto de programa que não sabe palavras com mais de
quatro sílabas era o quê? Brincadeira ou humilhação?
– Você foi longe demais.
– Tá legal. – Tocou meu joelho com um aperto amigável. – Desculpe, tudo
bem? Eu faço piada quando estou nervoso e o assunto sexo sempre me acalma. É
um momento complicado e eu não posso me aliviar do jeito que estou
acostumado porque você é virgem.
– Não vou transar com você porque está nervoso!
Ele riu.
– Obrigado por considerar. Mas eu disse aliviar no sentido de fazer piadas
sobre sexo. Mas se você quiser ficar nua comigo ali no banheiro, não vou
reclamar.
Chutei seu pé.
– Ai! Tá! Desculpa! Parei.
– Como você consegue ficar tão calmo?
– Não estou calmo.
– Com suas piadinhas e seu livro? Parece bem calmo para mim.
Sacudiu a cabeça encarando a janela por um instante.
– Acho que já estive em situações de merda o suficiente na minha vida para
aprender que entrar em desespero não ajuda.
– E essa é uma grande situação de merda, hein? – Suspirei, mais para mim
mesma do que para ele.
– Comemorar meu aniversário fugindo de um mafioso assassino? Sim, é o que
eu encaixaria na definição.
Minha boca estava entreaberta e eu não soube se desejava os parabéns ou se
expressava meu pesar.
– É seu aniversário?
– Daqui a alguns dias. – Abanou a mão, e eu soube que ele não queria se
demorar naquele assunto. – Mas e então? Vai me deixar ler? Ou prefere
continuar o programa de ontem à noite no banheiro do trem? – Piscou um olho
brincalhão e descarado, me fazendo expirar em desistência.
– Volta a ler seu livro, vai. Fica quieto.
– Acho que eu preferia você perdida, sem saber o que fazer. Você mandona é
chata.
– Isso não é ficar quieto, Ryker.
Fez uma careta para mim e levantou o livro.
Vi a capa de relance e…
Eu não acredito!
Tomei o livro das suas mãos e ele reclamou.
– O último resquício do pudor. Lexa Strome! – Eu tive que rir – Lexa Strome!
– O que você tem contra ela? – Tomou o livro de volta.
– Nada. Acho que ela escreve muito bem. Mas eu sou mulher.
– Não entendi o preconceito.
– Isso é literatura erótica para mulheres, Ryker. Não é preconceito, é um fato.
– Você já leu esse aqui?
– Ainda não.
– Então, é um conceito formado previamente de algo que você não conhece
em sua plenitude. Preconceito.
– Ela só escreve erotismo para mulheres. É o estilo dela! Posso não ter lido
esse, mas conheço a autora melhor do que você.
– Duvido muito.
Ri mais alto.
– É fã do estilo, Ryker? Gosta de se imaginar sendo o alvo da luxúria voraz de
algum homem rico e sedutor?
– Não entendi a graça. Se eu fosse bissexual seria até melhor, não é? Teria
uma clientela maior – constatou distraidamente. – E, além disso, isso aqui é
material de consulta para mim. Saber o que deixa mulheres virgens e fantasiosas
como você molhadas. Posso usar muita coisa.
– Está dizendo que literatura erótica é coisa de virgens fantasiosas? Quem está
sendo preconceituoso agora?
– Quer ouvir um segredo? Prefiro literatura erótica a qualquer outro gênero.
Acho o estilo mais basal e verdadeiro que existe da palavra escrita. E não sou
uma virgem fantasiosa. Então: não, senhorita Bault, não acho que seja coisa de
virgens fantasiosas.
– Falou só para me constranger?
– Precisamente.
– Obrigada.
– De nada. De qualquer modo, não é só por isso que leio os livros dela.
– E por quê, então?
Ele me olhou por cima das páginas por um segundo, como se considerasse.
– É minha irmã – respondeu, expirando longamente.
Pisquei o olho algumas vezes, recuperando o foco.
– Sua irmã? Lexa Strome é sua irmã? A autora de best-sellers eróticos
internacionais?
– É. Qual o problema?
– Não acredito.
– Por que não?
– Sua irmã tem um bocado de dinheiro e você se prostitui?
– Meus pais têm um bocado de dinheiro também.
Engoli em seco.
Não era mais engraçado. Ele estava falando sério.
– Eu não… entendo. Por que você se prostitui?
– Porque eu gosto. E o dinheiro é bom. Além disso, não é meu único trabalho.
– Não?
– Não.
Senti em seu tom que ele não ia responder à próxima pergunta.
Olhou para o relógio.
– Acho que a viagem ainda vai demorar um pouco.
– Vamos fazer uma escala em Bruxelas.
– E vamos descer do trem? Achei que íamos para Amsterdã.
– E vamos. Mas tenho um amigo em Bruxelas… Ele é como um irmão e me
deve uma porção de favores. Talvez seja bom passar para vê-lo.
– Por quê? Ryker… Acho que é melhor ninguém saber onde estamos.
– Não vou dizer a ele para onde vamos. Mas vou contar a história para ele,
fazer um relato em vídeo ou algo assim. E a gente vai precisar de dinheiro.
Fazer um relato em vídeo.
– Por que você quer contar a história para ele? – Minha voz tremeu.
– Por segurança. – Levantou um ombro.
Ele estava preocupado. Queria ter um plano B caso a gente morresse. Um jeito
de levar os culpados à Justiça. Era ao mesmo tempo incrivelmente lógico e
mórbido da parte dele. Sua coesão me fez admirá-lo.
– Mas agora é minha vez – falou animado. Deve ter notado meu nervosismo. –
Já fez suas perguntas, agora quero fazer as minhas. O que há de errado com
você?
– Como? – Levantei uma sobrancelha.
– Você é bonita, gostosa. Sagaz, esperta. Lê Lexa Strome – riu. – Por que
ainda é virgem?
– Uma mulher não pode escolher esperar? – desafiei.
– Pode. Mas as que fazem essa escolha raramente me contratam. – Seu sorriso
era descarado na medida certa, e me lembrei de seu hálito na minha pele poucas
horas atrás.
– Acho que… – Seu sorriso me desconcentrou, só que não estava pronta para
despejar todas as minhas inseguranças em um desconhecido que praticamente
tinha me visto nua. – Acho que quando chega a hora eu sempre respiro do jeito
errado. – Dei de ombros.
Ele sorriu, compreensivo.
– Eu sabia.
Segurei Mina pela mão quando descemos do trem. Ela entrelaçou os dedos
nos meus e um alerta disparou na minha cabeça.
Ela podia só estar insegura e com medo, buscando algum conforto.
Ou pode estar confundindo minha preocupação com carinho.
Eu podia ouvir a voz do meu cunhado estalando nos meus ouvidos. Apertei
meu livro na outra mão. Eu amava minha irmã, apesar de todos os nossos
problemas. Apesar do modo como ela abandonou todos nós e fugiu com o cara
que hoje seria seu namorado, caso os dois não fossem tão cabeças-duras. E ali,
naquele simples livro, estavam algumas respostas.
Mas não importava o quanto eu amasse minha irmã.
Eu admirava o quase namorado dela mais. Era por isso que eu preferia pular
as etapas e considerá-lo meu cunhado, de uma vez. Tê-lo como parte da família
era uma ideia que me agradava. Quase como se assim ele pudesse ser meu
irmão.
O cara simplesmente entendia como as coisas funcionavam e eu fazia questão
de não esquecer nada que ele me dissesse.
Se você acha uma mulher gostosa, Ryk, diga pra ela que ela é gostosa. Ela
pode te dar a boceta, a bunda, a boca ou um tapa. Mas não vai te dar o coração.
Fuja dos corações. Elas se apaixonam, então você para de foder e passa a ser o
fodido. É uma merda.
A última coisa de que eu precisava em uma situação como a minha era a
menina se apaixonar por mim. E com o nível de inexperiência e deslumbramento
que ela deveria ter, se apaixonaria inevitavelmente.
Se você as ignora, é pior, Ryk. Elas começam a alucinar que você está caindo
de amores, mas com medo de se envolver, aí partem em uma jornada para abrir
seu coração. É muito inconveniente e toda essa conversa sobre coração deixa
seu cacete com ciúmes da atenção. E você nunca quer contrariar seu cacete.
Eu precisava deixar bem claro que queria sexo com ela e nada mais que isso.
Soltei sua mão e passei o braço pela sua cintura. Deixei minha mão
perigosamente na parte baixa de suas costas.
– Ryker…
Sério?
Ela já ia reclamar?
Escorreguei a mão mais para baixo e já ia dizer alguma safadeza sobre como
era difícil me controlar perto dela, quando repetiu.
– Ryker. – E me segurou.
Mina estava olhando para algum ponto à nossa esquerda. Segui seu olhar e vi
imensos televisores no alto de uma das colunas. Nele, uma imagem borrada
minha, feita pelas câmeras de segurança na Gare du Nord, estava estampada
abaixo de uma grande manchete, “pode ter informações importantes”, com um
número para contato logo na sequência.
– Mas que merda… – As palavras escaparam descrentes da minha boca e eu
fiquei parado no meio do saguão.
– Vem. – Mina estava me puxando. – Mantenha a cabeça abaixada.
Todos os meus neurônios pareciam concentrados em entender o que diabos
estava acontecendo, e meu corpo seguiu Mina sem questionar.
A foto não era clara e seria difícil alguém me reconhecer. Mas não impossível.
– O seu amigo que mora aqui em Bruxelas, ele mora longe daqui?
– Não muito. Alguns quilômetros. Não é uma boa ideia ir andando.
– Então a gente pega um táxi. Ainda sobrou dinheiro? Do que eu te paguei?
– Claro. Eu sou caro e você me pagou a mais. – Talvez aquilo pudesse soar
como uma piada, mas as palavras foram ditas sem qualquer cortesia jocosa. Eu
ainda estava tentando colocar sentido nos acontecimentos.
A saída da estação estava poucos metros à nossa frente, mas para chegar até
ela, teríamos de passar por dois policiais que assistiam à notícia com atenção.
Baixei a cabeça e engoli em seco. Queria correr e passar por eles o mais rápido
possível. Mina segurou meu braço e os policiais se viraram para nós, olhando ao
redor. Tinha plena consciência de que eu estava parado no meio do salão com
uma cara de culpado, quando os policiais começaram a se aproximar. Meu
coração disparou e Mina se moveu do meu lado.
Eu estava preocupado demais com os policiais e só notei sua aproximação
quando ela já estava na minha boca. Os braços nos meus ombros. Os dedos
enfiados nos meus cabelos.
A menina tinha um cheiro bom. Abri os lábios e deixei que ela enfiasse a
língua na minha. Apertei sua cintura contra meu quadril e a beijei de volta. Sua
boca era delicada e desajeitada, mas uma delícia de morder. E foi isso que fiz.
Ainda tinha seu lábio inferior entre os dentes, quando ela abriu os olhos e me
empurrou.
– Vem. – Segurou-me pela mão, nos encaminhando para a saída, assim que os
policiais passaram por nós.
Algo no modo urgente e sem cerimônias como ela segurou minha mão me fez
pensar que talvez meu cunhado estivesse errado. Talvez ali estivesse uma garota
virgem e cheia de fantasias que não se apaixonaria.
Uma coisa estranha e miúda dentro de mim fez um bico de birra e desejou que
eu estivesse errado. Então, Mina parou um táxi e eu resolvi voltar a me
concentrar no que estava acontecendo.
– Belo truque. Já fugiu da polícia antes?
– Já assisti a filmes de ação antes. Entra.
Ela me empurrou para dentro do táxi e me beliscou no braço. Eu reclamei e
ela só me olhou de volta com uma careta raivosa e mandona. Eu disse o
endereço para o motorista e o táxi correu pelas ruas.
– Você disse que ele te devia uns favores, esse seu amigo – suspirou. – Tomara
que sejam uns favores bem grandes.
O amigo de Ryker, Antoine, parecia uma pessoa gentil. Apenas me
cumprimentou com uma palavra e um sorriso, mas tinha gentileza nos seus
olhos. Eles conversaram por poucos minutos; Ryker contou o que tinha
acontecido e Antoine lhe deu as chaves do seu carro e enfiou um tanto de
dinheiro em suas mãos.
Eu não sabia qual era a história ali, mas pelo modo fraternal como se
abraçaram antes de irmos embora, imaginei que havia confiança e carinho o
suficiente.
A viagem até Amsterdã aconteceu sem incidentes, ao contrário de tudo o mais
nas últimas doze horas. Ouvíamos o que tocasse na rádio e tentávamos manter o
assunto longe de sexo ou assassinatos. Era adorável como ele sorria cantando
pedaços das músicas e quase me fazia esquecer o verdadeiro motivo e o
propósito da nossa jornada. Já era quase meio-dia quando chegamos, e o sol
brilhava no meio do céu frio carregado de nuvens.
Ryker estacionou na rua e subiu as escadas até a porta de entrada de uma casa
comprida e vertical, enfileirada entre outras casas idênticas, mas de diferentes
cores.
– Estamos no meio do dia, Ryker! Ele não deve estar em casa. – lembrei-o
quando ele bateu com força na porta, pelo que deveria ser a quinta vez.
– Lucky trabalha de noite – explicou quase no mesmo instante em que uma
voz rouca anunciou um já vai irritado, lá de dentro.
– Ryker? Mas o que diabos… – Ele era alto, comprido e vertical, como a casa
em que morava. Cobriu os olhos acinzentados com uns óculos de armação velha
e frágil, antes de passar a mão pelos seus ralos cabelos claros. Parecia ter mais
de cinquenta anos e menos de cinquenta quilos. Não era o que eu esperava de um
dono de uma boate em Amsterdã.
– Lucky… Eu tive um problema. É uma coisa séria. A gente pode conversar?
– Claro, claro… Entre! – convidou. – Olá. – Sorriu para mim ainda incerto se
deveria ou não ser simpático.
– Olá.
– Oi, Bessie! – Ryker cumprimentou uma mulher corpulenta e sorridente.
– Olá, querido! Quanto tempo!
– Essa é minha amiga, Mina.
Eles sorriram para mim mais uma vez.
– Está com fome, querida?
Eu fiz um gesto que poderia ser compreendido como um “sim”, um “não” ou
um “talvez”. Bessie sorriu e me puxou para a cozinha. Ryker entrou com Lucky
e eu pude apenas imaginar sobre o que eles estariam conversando.
Bessie me serviu um café da manhã exagerado, e bastou colocar a primeira
porção na boca para perceber o quanto estava faminta. Devorei o resto apressada
e logo Ryker veio se juntar a mim. Quando Lucky voltou, alguns minutos
depois, nós já tínhamos comido tudo que Bessie havia oferecido. Ela estava
sorrindo e nós agradecendo.
– Aqui. – Lucky ofereceu uma chave, balançando no ar, e uma pequena
mochila carregada. Ryker pulou da cadeira.
– Obrigado, cara.
– Não me agradeça – riu, coçando a cabeça. – Para que servem os amigos, não
é? E você vai me trazer dinheiro, então está tudo certo. – Deu um tapa no ombro
de Ryker. O que Lucky disse foi apenas um sussurro, mas eu o ouvi muito bem
quando ele apontou para mim e disse: – Você fala com ela?
O pomo-de-adão de Ryker se moveu quando ele engoliu em seco antes de
dizer:
– Falo.
O quarto ficava no primeiro andar da boate de Lucky. A escada comprida
terminava em um corredor estreito com apenas duas portas. Uma se abria para
um pequeno depósito e a outra, para um quarto com banheiro.
Um quarto.
Só um.
– Lucky morava aqui antes da Bessie. – Fechou a porta atrás de nós.
– Ele não tinha uma sala ou cozinha?
– Tem uma TV no escritório dele, lá embaixo. E a cozinha do bar.
Ryker esvaziou os bolsos sobre a mesa e a calma temporária permitiu que eu
organizasse meus pensamentos.
– Você disse que conhecia alguém que poderia nos ajudar.
– Disse.
– E quem é? Quero dizer… Quanto tempo você acha que vamos ter de ficar
aqui?
– Meu pai. Ele é um político influente, tem bons contatos.
Um político influente com um filho garoto de programa.
– Algo me diz que você não é o filho favorito.
– A alternativa seria preferir a filha que fugiu aos dezessete anos com um
moleque sem educação, criado em um prostíbulo. – Achou graça do próprio
argumento. – Mas você está certa, ele não é exatamente meu fã.
– Mas é seu pai.
– É meu pai.
– Família sempre se ajuda nessas horas.
– É… Eu não prenderia a respiração enquanto espero por ele. Vai considerar a
carreira umas oito vezes antes de nos ajudar e talvez acabe nem fazendo isso.
Vou tomar um banho.
– Como assim talvez acabe nem fazendo isso? Você disse que…
– Sei o que eu disse. Mas também disse que talvez fosse necessário sair do
continente. Kulik é poderoso, mas não é onipotente. Se a gente vai para longe da
França, ou da Europa, ele perde o apoio. Minha irmã e meu cunhado me
ajudariam, caso meu pai não consiga resolver. Ou não quiser.
– Eu tenho uma vida na França. – Sentei na borda da cama. E não estava
criticando o que ele tinha dito. Sabia que Ryker só queria ajudar, mas era uma
perspectiva assustadora ainda assim.
– Você não é obrigada a me seguir, Mina. Mas acho que deveria. Você tem
alguém que possa te ajudar?
– Não. – Sorri.
– O que foi? – Deve ter achado curioso meu sorriso em um momento tão
inoportuno.
– Você me chamou de Mina – expliquei.
– É. Estamos a salvo. Acho que é seguro te ver como uma mulher de novo. –
Piscou um olho para mim e começou a tirar a roupa.
A camisa saiu primeiro e me peguei encarando as linhas que contornavam sua
pélvis, emoldurando um caminho em direção à base de sua cueca e além.
– Pode tocar, se quiser. – Ele tinha, claramente, notado meu olhar fixo. – Ou
lamber – acrescentou com um sorriso safado.
– Vá tomar seu banho, Strome.
– Alguma chance de você vir também?
– Não, obrigada. – Tamborilei os dedos nos joelhos. – Vou depois.
Ele puxou a pequena mala que Bessie havia preparado para nós. Alguns
poucos utensílios necessários, roupas dela que certamente ficariam folgadas
demais em mim e uma mochila com algumas roupas de Ryker.
– Por que tinha uma mochila sua na casa do Lucky?
– Sempre deixo alguma coisa por aqui. – Levantou um ombro. – Por um
motivo ou outro, a vida sempre acaba me trazendo de volta para Amsterdã.
Pegou uma toalha antes de soltar o cinto e tirar os sapatos.
Eu estava encarando seu corpo de novo…
– Quer que eu tire tudo logo? – brincou, e me lembrei da noite anterior. – Ou
você quer tirar para mim?
– Vai parar de fazer piadas sobre isso alguma hora?
– É pouco provável – admitiu com um sorriso devasso, antes de se enfiar no
chuveiro.
Deixou a porta entreaberta e me controlei para não enfiar o rosto na brecha da
porta e assistir. O chuveiro foi desligado e acordei do meu devaneio. Ryker saiu
enxugando o cabelo com a toalha. Gotas de água ainda se espalhavam pelo seu
corpo úmido, e meus olhos foram atraídos para cada linha dos músculos como
que por magnetismo… Descendo do seu tórax firme para o abdômen desenhado,
seus pelos e…
Senti seu riso antes de ouvi-lo.
Virei os olhos para longe.
– Gostou de algo que viu?
Seria assim. Eu já tinha entendido. Ele ia me irritar mais e mais e mais.
Ia me deixar envergonhada, constrangida e… Por que eu estava sentindo uma
vontade incontrolável de apertar minhas pernas e esfregar minhas coxas? Tinha
um gancho pontudo fazendo cócegas na minha vagina e seria bastante
desagradável se não fosse tão bom.
Entrei na banheira e pensei em tomar um longo banho quente… Mas era
melhor tentar dormir um pouco. Liguei o chuveiro e a água escorreu pelo meu
corpo; minha mão buscou um espaço entre minhas pernas de forma involuntária.
Um dedo deslizou pouco mais de um centímetro dentro de mim enquanto meu
polegar brincava no meu clitóris. Passei a língua nos lábios e só o que minha
mente inconveniente conseguia fazer era exibir um slideshow de todas as partes
do corpo de Ryker que eu já tinha visto, sempre voltando para os seus pelos e
sua nudez de poucos minutos atrás.
Movimentos circulares fizeram meu clitóris se inchar de prazer e um gemido
baixo e incontrolável se fez ouvir, ecoando pelo banheiro abafado.
Apoiei um braço contra a parede e senti uma corrente de ar fazendo meus
pelos se arrepiarem. Virei de costas e, sem cortina ou box de vidro para nos
separar, a primeira coisa que vi foi aquele sorriso que a cada minuto eu tinha
mais vontade de morder.
– Ah, por favor, continue. Não pare por minha causa.
– RYKER! – Joguei uma mão de água nele antes de me tapar. – Saia daqui!
– Agora estamos quites. – riu.
Puxei a toalha, me cobrindo como pude e avancei para cima dele dando um
murro no seu peito.
– Seu pervertido nojento!
– Só fui avisar como fazia para a água ficar quente, sua maluca. – Segurou
minhas mãos, ainda rindo, e perdi o apoio para segurar a toalha. – Aqui. Eu pego
para você. – Colocou as mãos ao meu redor mantendo minha toalha no lugar. –
Pronto. Ainda está vestida. Por favor, não me bata – provocou.
– Por que você precisa fazer isso?! – gritei. – Por que precisa me deixar com
vergonha?
– Vergonha? Só entrei no banheiro… Você já me viu nu e me despindo…
– Não é a mesma coisa. Não faça isso de novo!
– Ah, então, você é do tipo hipócrita.
– Sou o quê?
– Estava pronta para pagar para transar comigo, mas quando é de graça não
quer e faz doce.
– Não estou fazendo doce!
– Não é hipócrita e não está fazendo doce?
– Não, seu insensível!
– Tá. Venha até aqui.
– Para quê?
– Para transar comigo de uma vez.
– COMO? – ri descrente.
– Você está nervosa, já me pagou e estava me encarando de toalha. Você me
quer. – Ao dizer as últimas palavras, riu de um jeito ordinário que irritou meu
orgulho.
– Não estava olhando!
– Ah, por favor. Vai mesmo jogar esse jogo?
– E não te quero.
– Acho que vou dormir nu, então, está bem? Já que você não dá a mínima…
Meus olhos passearam pelo seu corpo malvestido, me traindo.
– Você é… é… – Eu procurava alguma ofensa poderosa o suficiente, mas as
palavras falhavam.
– Gostoso?
– Arrogante! Insensível. E se superestima! Eu não quero você. – Fiz um bico
sério de birra.
– Olha. – Ele se aproximou de mim. Engoli em seco e cruzei os braços,
tentando manter o ar de resolução. – O que estou propondo é bem simples. A
gente vai ter que ficar preso aqui por um tempo, é uma boa maneira de se
distrair, aliviar a tensão e… Já era algo que você queria fazer comigo, não era?
– Em outra situação, Ryker! E quer saber? – Enfiei o indicador no peito dele.
– Já mudei de ideia. Acho que prefiro morrer virgem antes de transar com você.
– Vai mudar de ideia de… – riu.
– Odeio homens como você, sabia? Explodindo autoconfiança e achando que
são os melhores. E você! Você é a criatura mais prepotente do universo!
– Eu? A criatura mais prepotente do universo? – Ele estava gargalhando. – Ah,
Mina… Você precisa conhecer o meu cunhado.
– Não quero conhecer ninguém! Quero que você me respeite!
– Eu te respeito. Mas você vai ter que se acostumar com olhares se for
trabalhar aqui.
– Se eu for fazer o quê?
– Ah, é… Esqueci essa parte. Não sei quanto tempo a gente vai ter que ficar
aqui, e vamos precisar de dinheiro. Vou dar um jeito de vender o carro de
Antoine, já falei com ele. E Lucky vai nos pagar. Mas claro que vamos precisar
trabalhar. Suas opções são garçonete seminua ou stripper, pode escolher. –
Sorriu.
– Você perdeu o juízo.
– Eu mal te conheço. Não vou sustentar nós dois! Vamos ficar seguros aqui,
mas você vai ter que trabalhar. – Ele falou a última palavra como se estivesse
cometendo um atentando ao pudor, particularmente obsceno.
– Eu não me encaixaria em um lugar desse nunca, Ryker! Vou embora e
consigo um emprego. Consigo me virar.
– Não tenho dúvidas. – Ele ainda estava muito perto e, em minha raiva, não
percebi seus dedos em minhas coxas ainda não enxutas. – Não tenho dúvidas de
que consegue se virar muito bem – sussurrou na minha pele.
– Pare… – pedi. Mas sua mão subia e subia e meu pedido não demonstrou
qualquer tipo de convicção. Ele era cheiroso e seus músculos rígidos contra
minha pele molhada estavam me excitando como nada antes já conseguira. Sua
mão estava entre minhas coxas, passeando devagar, me tocando com suavidade,
acariciando meu clitóris inchado com os nós dos dedos. Tive de lutar para não
me esfregar contra sua mão como um animal.
Foi então que percebi que aquele era o momento em que eu precisava me
decidir. Ou deixava ele me manipular com seu erotismo e cedia, ou mostrava que
ele não ia me convencer do que quer que fosse com dois apertões deliciosos.
Empurrei seu tórax com força, afastando-o de mim.
– Pare com isso. Já disse que não te quero. E não me toque sem minha
autorização.
Ele sorriu mais discreto. Levantou as mãos, rendido.
– Sabe, Mina? Acho que você estava errada.
– Ah, é?
– É. Acho que vai se encaixar aqui. – Puxou o cobertor e deitou na cama.
Dobrou os braços sob o travesseiro, seus músculos pularam e minha resolução
estava fraquejando de novo. – Vai se encaixar bem direitinho.