Ponto de Vista de Alana:
Os olhos de Cris se estreitaram, um músculo se contraindo em sua mandíbula. A máscara fria e ensaiada que ele usava escorregou por uma fração de segundo, revelando um lampejo de irritação genuína. Foi a única rachadura em sua compostura desde que meu pai parou de respirar. Meu pai. Morto. Por causa deles.
Ele agarrou meu braço novamente, seus dedos cravando em minha carne, me puxando bruscamente do chão. Meu corpo parecia uma marionete. Sem vida. Mas minha mente estava viva, afiada, queimando com uma clareza nova e aterrorizante.
"Você acha que isso é um jogo, Alana?" Sua voz era baixa, perigosa. "Você acha que pode me desafiar?" Ele enfiou o termo de volta na minha mão, a caneta agora pendurada inutilmente em seu clipe. "Assine. Agora. Ou a Kimberly ficará muito descontente, e você sabe o que isso significa."
Minha respiração falhou. Kimberly. Sua amante. Sua verdadeira prioridade. Meu pai, seu sogro por sete anos, era uma mera casualidade em sua história de amor distorcida. "O que isso significa, Cris?" Minha voz era um sussurro, cheia de uma calma aterrorizante. "O que mais você pode tirar de mim? Meu pai está morto por sua causa. Por causa dela. Que poder distorcido ela tem sobre você para que você sacrifique tudo por ela?"
Ele me soltou, suas mãos caindo ao lado do corpo. Ele desviou o olhar, depois voltou para mim, uma estranha mistura de defensiva e fria determinação em seu olhar. "Kimberly... ela me salvou uma vez. Ela estava lá quando ninguém mais estava." Ele fez uma pausa, seus olhos endurecendo. "Ela é tudo para mim, Alana. Você foi... um meio para um fim. Um arranjo conveniente."
Meu mundo se despedaçou novamente, os fragmentos do meu passado desabando ao meu redor. Um meio para um fim. Todos aqueles anos, todo o meu amor, meus sacrifícios, a riqueza da minha família despejada em sua empresa em dificuldades. Não significava nada. Eu era uma transação. Um degrau. Meu pai, sua morte, era um dano colateral. Eu estive tão completa e irremediavelmente apaixonada por um fantasma, uma miragem. A verdade fria era uma lâmina afiada se torcendo em minhas entranhas.
"Então é isso?" perguntei, minha voz desprovida de emoção. "Minha vida inteira, meu amor, minha família... tudo isso foi apenas um tabuleiro de xadrez para seus jogos distorcidos com sua preciosa Kimberly?" A ironia era um gosto amargo na minha boca. Eu tinha interpretado a esposa devotada, a parceira solidária, a filha amorosa. Eles eram os mestres das marionetes, e eu, a tola, dançava conforme a música deles.
Ele não respondeu. Apenas me encarou, seus olhos contendo um aviso arrepiante. "Chega. Assine." Sua paciência estava se esgotando.
Mas não havia mais nada a temer. Meu pai se fora. Meu amor por Cris era uma ruína carbonizada. A única coisa que restava era o gosto amargo da traição e o desejo ardente por justiça. "Não."
Seus olhos brilharam de raiva. "Tudo bem." Ele se virou, pegou o celular novamente e fez uma ligação. Suas palavras foram curtas, carregadas de um comando aterrorizante. "Inicie a retirada total. Termine todos os sistemas de suporte à vida. Agora."
Meu sangue gelou. Ele não tinha apenas cortado o tratamento do meu pai. Ele estava ordenando a remoção completa de tudo. As máquinas parariam. O zumbido cessaria. A pretensão de cuidado desapareceria.
"Não!" gritei, um som gutural de puro terror e agonia. Avancei sobre ele, arranhando seu braço, tentando arrancar o telefone. Mas ele me empurrou facilmente.
Ele encerrou a chamada, seu rosto uma máscara de indiferença arrepiante. "Você fez sua escolha, Alana." Ele caminhou de volta para a porta.
"Cris, por favor!" solucei, tropeçando em sua direção. "Não faça isso! Ele ainda está... ele era meu pai!"
Ele parou, depois se virou, um brilho de algo quase como pena em seus olhos, rapidamente substituído por um cálculo frio. "Ele se foi, Alana. Você garantiu isso quando se recusou a cooperar."
Meu corpo tremia incontrolavelmente, um tremor violento que começou em meu âmago e sacudiu cada membro. Senti-me fraca, tonta, completamente exausta. Mas um novo som perfurou o silêncio estéril. Uma linha reta. Esta, mais profunda, mais final. O último suspiro do meu pai, exalado no ar frio e indiferente deste quarto de hospital.
Então, a porta se abriu novamente. Kimberly. Ela entrou como se o quarto pertencesse a ela, seu rosto uma imagem de preocupação. "Cris, querido, o que aconteceu? Ouvi um grito. A Alana está... bem?" Seus olhos se voltaram para mim, depois para o monitor com a linha reta, um sorriso minúsculo, quase imperceptível, brincando em seus lábios.
Cris correu para o lado dela, seu braço envolvendo sua cintura. "Não é nada, querida. A Alana está apenas sendo difícil." Ele me lançou um olhar venenoso.
Minha visão embaçou. Isso era demais. A maldade pura e absoluta de tudo aquilo. Eu rosnei, um som que não reconheci. "Você! Sua demônia!" Avancei sobre Kimberly, um animal selvagem e enlutado. Minha mão atingiu sua bochecha, um estalo agudo ecoando no quarto.
Sua cabeça virou para trás. Seus olhos se arregalaram, não de dor, mas de choque fingido. Ela gritou, um gemido pequeno e teatral, e levou a mão ao rosto. "Oh! Minha bochecha! Ela me bateu, Cris! Ela me atacou!"
Cris imediatamente rugiu, seu rosto contorcido de raiva. Ele me empurrou, me fazendo tropeçar para trás, batendo na parede com um baque surdo. "Alana! Que diabos há de errado com você?" Ele se virou para Kimberly, sua voz carregada de terna preocupação. "Você está bem, meu amor? Dói?"
Kimberly se aninhou nele, seu olhar encontrando o meu por cima do ombro dele, um sorriso triunfante substituindo sua fachada chorosa. "Ela está instável, Cris. Perigosa. Precisamos fazer alguma coisa."
Cris a abraçou com mais força, seus olhos queimando de fúria. Ele me olhou, uma expressão de puro ódio contorcendo suas feições. "Tire-a daqui. Agora. E certifique-se de que ela não receba nada. Nem um centavo. Nem uma única lembrança." Sua voz era baixa, arrepiantemente calma. "Ela perdeu tudo."
Assim que ele terminou de falar, a linha reta final e agonizante do monitor cardíaco do meu pai ecoou pelo quarto. Meu pai. Se foi. Para sempre. Minhas pernas cederam. Caí no chão, minhas mãos estendidas em direção à forma sem vida do meu pai. "Não! Pai!" Meu grito rasgou o ar, desesperado e quebrado.
Ponto de Vista de Alana:
Meu corpo bateu no chão do hospital, cada osso doendo, cada músculo gritando em protesto. O último suspiro do meu pai, uma linha reta ecoando no quarto estéril, era um som que me assombraria por toda a eternidade. Rastejei de quatro, arranhando o caminho em direção à sua cama, em direção à forma fria e imóvel que um dia foi meu pai vibrante e amoroso.
"Pai!" Minha voz era um grito cru e gutural, um som de angústia pura e absoluta. Alcancei sua mão, sua pele fria sob meu toque. Ele realmente se fora. Por causa deles.
Uma raiva, fria e absoluta, se acendeu dentro de mim. Virei-me, rosnando, e avancei sobre Cris, minhas mãos formando punhos, golpeando-o onde quer que eu pudesse alcançar. "Você o matou! Você assassinou meu pai!" Meus golpes eram fracos, alimentados mais pelo luto do que pela força, mas carregavam o peso de sete anos de traição e uma vida inteira de amor pelo homem que ele acabara de destruir.
Cris agarrou meus pulsos, sua força superando facilmente a minha. Ele os torceu atrás das minhas costas, forçando-me a ficar de joelhos. "Chega, Alana! Você está fazendo uma cena." Sua voz era um rosnado baixo, totalmente desprovido da emoção que me dominava. Como ele podia estar tão calmo? Tão insensível?
"Me solta!" Debati-me contra seu aperto, mas era inútil. Ele me mantinha cativa, assim como manteve minha vida cativa por tanto tempo.
"Alana", ele disse, sua voz baixando para um sussurro perigoso, "podemos fazer isso do jeito fácil ou do jeito difícil. A escolha é sua." Ele fez uma pausa, deixando suas palavras pesarem no ar. "Assine o termo para a Kimberly, e eu permitirei que você veja o corpo do seu pai uma última vez. Você pode organizar um funeral. Se você se recusar..." Ele parou, mas a implicação era clara. Ele apagaria a existência do meu pai, assim como tentou apagar a minha.
Minha respiração ficou presa na garganta. O funeral do meu pai. Os últimos ritos para o homem que sempre foi minha âncora. Minha única família restante. Eu o odiava, odiava Kimberly, odiava a mim mesma por ter amado um monstro como aquele. Mas eu não podia negar a dignidade do meu pai. Não podia deixar que eles profanassem sua memória.
"Tudo bem", engasguei, a palavra com gosto de cinzas na minha boca. "Eu assino. Agora me solte."
Cris soltou meus pulsos, empurrando-me bruscamente em direção à pequena mesa no canto onde a prancheta estava. Minhas mãos ainda tremiam, mas uma fria determinação se instalou em meu coração. Isso não era rendição. Era uma retirada tática. Uma promessa de guerra futura.
Uma enfermeira, com o rosto pálido de choque, trouxe a prancheta e uma caneta. Minha mão estava instável enquanto eu rabiscava minha assinatura na parte inferior do documento, um pedaço de papel sem sentido diante de uma perda tão monumental. Estava feito. Kimberly Luna estava legalmente absolvida de qualquer irregularidade na cirurgia do meu pai. Uma paródia grotesca da justiça.
Olhei para Cris, meus olhos queimando com um ódio tão profundo que parecia uma entidade física. "Agora", eu disse, minha voz perigosamente suave, "quero ver meu pai. E então, quero ser deixada em paz para lamentá-lo. Você e sua... doutora podem ir."
Cris hesitou, seus olhos se voltando para a porta como se esperasse que Kimberly aparecesse. Uma ruga vincou sua testa. Foi um momento de fraqueza, uma pequena rachadura em sua fachada cuidadosamente construída. Ele realmente parecia quase... confuso.
Mas Kimberly, sempre a mestra das marionetes, reapareceu convenientemente naquele momento, seu braço ainda aninhado no de Cris. Seus olhos, ainda arregalados e inocentes, se voltaram para mim, depois para o termo assinado na prancheta. Um pequeno sorriso vitorioso tocou seus lábios. "Cris, querido, você está bem? Parece preocupado."
Ele imediatamente se enrijeceu, seu olhar voltando para ela. O momento fugaz de confusão desapareceu, substituído por sua familiar máscara de controle frio. "Estou bem, meu amor. Apenas lidando com a Alana." Ele a puxou para mais perto, sua preocupação com ela dolorosamente óbvia.
Ignorei os dois. Meu foco estava unicamente em meu pai. Corri para sua cabeceira, desabando ao seu lado, embalando sua cabeça em meus braços. Sua pele já estava ficando mais fria. As máquinas estavam silenciosas. O quarto parecia imenso, cavernoso, cheio do eco dos meus gritos silenciosos.
"Precisamos levá-lo para o atendimento de emergência!" gritei, minha voz rouca. Ele não estava realmente morto, estava? Tinha que haver algo. Um milagre.
Mas então, um funcionário entrou, seguido por dois seguranças. "Sra. Vasconcelos, a Dra. Luna precisa do quarto."
"Não! Meu pai precisa de ajuda!" gritei, agarrando-me a ele.
O Dr. Henderson, o médico principal do meu pai, entrou correndo, parecendo angustiado. "O que está acontecendo? Por que estão removendo o equipamento? Ele precisa de monitoramento contínuo!"
Cris deu um passo à frente, sua voz arrepiantemente calma. "Dr. Henderson, a Kimberly precisa de você. Ela teve um incidente infeliz. Seu paciente aqui foi... encerrado." Ele usou a palavra com um distanciamento tão clínico que fez meu sangue gelar.
"Encerrado?" Os olhos do Dr. Henderson se arregalaram de horror. "Do que você está falando? E que incidente?"
Kimberly, sempre a atriz, tocou delicadamente sua bochecha, uma leve marca vermelha visível. "A Alana... ela me atacou, doutor. Seu estado mental é frágil. Preciso de atenção imediata."
"Sua vadia mentirosa!" gritei, fazendo outra investida desesperada em direção a Kimberly, mas os seguranças me agarraram, prendendo meus braços atrás das costas.
"Levem-na daqui!" Cris ordenou, sua voz ecoando no pequeno quarto. Ele olhou para o Dr. Henderson. "Você a ouviu. A Kimberly precisa de você. Ela é muito mais importante agora. Minha esposa está instável."
"Mas... o paciente..." Dr. Henderson protestou, olhando para meu pai.
"Não é mais uma preocupação", Cris finalizou, sua voz final. "Agora, vá. A Kimberly está esperando."
Os guardas me arrastaram em direção à porta. Eu os arranhei, desesperada para voltar para meu pai. "Não! Não toquem nele! Ele é meu pai! Vocês não podem simplesmente deixá-lo aqui!"
"Você deveria ter assinado o termo antes, Alana", disse Cris, sua voz desprovida de pena. "Suas escolhas têm consequências."
Minha cabeça bateu no batente da porta enquanto eles me puxavam. Uma dor aguda. Levei a mão à cabeça, meus dedos saindo pegajosos de sangue. Mas mal registrei. Tudo o que eu via era meu pai, sozinho naquele quarto frio, sua vida cruelmente extinta pelo homem que eu amei. Eu não deixaria isso assim. Eu lutaria por ele, mesmo que significasse minha própria destruição. Eles me roubaram tudo, mas não me roubariam minha vingança.