Alessa
Entrei na boate com o peso do mundo nos ombros, sentindo o peso da música alta vibrando em meus ossos. O cheiro de álcool e perfumes baratos me envolvia, e logo fui engolida pela escuridão da casa, onde as luzes piscavam incessantemente e a pista de dança estava lotada. O caos estava em cada canto, mas isso já não me assustava mais. Era o meu trabalho, o meu sustento, e já estava mais do que acostumada com tudo aquilo.
Passei pelos bastidores, onde as outras meninas se arrumavam e se preparavam para a noite. Marisa, uma das minhas colegas, se aproximou de mim com um olhar que eu bem conhecia: preocupada, mas sem querer demonstrar muito.
– Alessa, você chegou... – ela disse, fazendo um gesto discreto para que eu me aproximasse. – Olha, fica esperta. O chefe está estressado hoje. Não parece estar com paciência para nada.
Eu soltei um riso sem humor e dei de ombros. Já sabia como ele ficava nos dias assim. Não era novidade.
– Já me acostumei – respondi, tentando não deixar transparecer o quanto essas palavras eram vazias para mim.
Marisa continuou, mais séria agora, com uma expressão preocupada.
– Só toma cuidado, tá? Ele está dando uns olhares meio... tortos nas garotas que ficaram mais perto da mesa dele ontem. Não quero que você se meta nisso.
Olhei para ela, uma mistura de cansaço e indiferença nos olhos. Não era a primeira vez que ouvia esse tipo de conselho, mas eu sabia o que estava fazendo. Eu sabia onde colocar os limites, ou pelo menos, onde tentar.
– Valeu, Marisa. Vou ficar de olho – murmurei, afastando-me sem mais palavras. Eu não tinha tempo para conversas agora. O relógio estava correndo, e a noite só estava começando.
O chefe era um homem que eu nunca realmente aprendi a decifrar. Antonio Ricci. Um homem de presença imponente, que entrava na sala como se o lugar fosse dele - e na maioria das vezes, era. Ele não era o proprietário da boate, mas controlava tudo o que acontecia ali, como se tivesse um acordo silencioso com o dono. Seu poder vinha do medo, e ele sabia usá-lo com maestria. Com os olhos duros e o sorriso gelado, Ricci não era o tipo de homem que você ignorava ou contrariava. Cada movimento dele exalava controle.
Ele se sentava em sua mesa no canto mais afastado da boate, sempre cercado por alguns dos seus homens de confiança e, é claro, por uma seleção de garotas que ele mantinha por perto - garotas como eu, que sabiam que o trabalho era complicado, mas a alternativa parecia ainda pior. Ricci não precisava pedir nada. Ele só dava um olhar, e a casa se ajeitava ao seu redor. Era um jogo de poder, e ele sempre ganhava.
Quando o vi pela primeira vez, eu soubera imediatamente que ele era um daqueles homens que não se importavam com o que acontecia em volta deles, desde que seu império permanecesse intacto. Eu não sabia o que ele queria de mim, mas percebi rapidamente que ele gostava de observar, de controlar, e de testar os limites de quem estivesse à sua volta. Seu olhar era como uma lâmina afiada, cortando sem se preocupar com quem ou o que fosse atingido.
A boate ficou mais animada à medida que a noite avançava, mas eu não conseguia desviar os olhos dele por muito tempo. Ele estava sentado em sua mesa, como sempre, com um copo de uísque na mão e um olhar distante. Quando nossos olhares se cruzaram, senti um calafrio, mas tentei manter minha expressão neutra. Não podia deixar que ele percebesse o quanto eu estava tensa. Ele gostava disso - da tensão, da sensação de que todos estavam ao seu alcance.
Ricci não era apenas o chefe aqui, ele era a sombra que pairava sobre cada um de nós. E, de alguma forma, ele sabia exatamente como fazer com que eu me sentisse pequena, sem que eu pudesse escapar.
Passei a noite servindo as bebidas, um copo após o outro, tentando me manter o mais distante possível dos homens mais insuportáveis da boate. Mas, como sempre, não demorou para que alguém ultrapassasse os limites.
O barulho da música, as risadas e o cheiro de álcool no ar não me impediam de sentir o olhar do rapaz sobre mim. Ele veio sorrindo, já visivelmente embriagado, e antes mesmo que eu pudesse desviar, sua mão, quente e suja de um desejo arrogante, deslizou pela minha perna. A repulsa foi instantânea, e sem pensar, virei-me bruscamente.
- Que diabos você acha que está fazendo? - minha voz saiu mais alta do que eu queria, mas não me importei. Ele me ignorou, como se fosse natural, e puxou-me para mais perto.
- Relaxa, gata - ele disse, rindo baixo, tentando me agarrar.
O ódio cresceu em mim. Ele não se dava conta de que estava lidando com a pessoa errada. Em um movimento rápido, peguei o copo de vodka que estava na minha mão e joguei todo o líquido nele. O som do vidro quebrando e o líquido escorrendo pela sua camisa foram quase satisfatórios.
Ele olhou para a própria roupa manchada, a raiva tomando conta do rosto dele. - Você vai se arrepender dessa, sua vadia! - Ele gritou, tentando se levantar, mas a falta de coordenação fez com que quase caísse.
Antes que pudesse fazer mais alguma coisa, senti uma mão firme agarrando meu braço com força. Olhei para cima e encontrei os olhos de Ricci, frios e mortais.
- O que diabos você pensa que está fazendo? - Ricci rosnou, puxando-me com brutalidade para longe do homem ainda tentando se recompor. - Aqui não é lugar para suas cenas, Alessa. Você tem noção de onde está? - Ele apertou meu braço, a pressão insuportável, como se me lembrasse do meu lugar ali.
Eu não consegui mais olhar para o rosto do rapaz, nem para Ricci, que me arrastava pelos corredores escuros. Meu coração batia rápido, mas não tinha escolha.
Ricci me puxou com tanta força que quase perdi o equilíbrio, os dedos dele cravando em minha pele com violência. Eu queria gritar, queria sair correndo, mas sabia o que isso significaria. A última coisa que ele queria era ser desafiado na frente dos clientes.
- Você acha que pode fazer o que quiser aqui? - a voz dele estava carregada de desprezo. Ele me empurrou contra a parede fria do corredor, os olhos fulminando com um ódio que eu conhecia bem. - Não me importa o quanto você odeie esse lugar. Eu pago você para servir, não para causar confusão.
A dor no meu braço era quase insuportável, mas o medo de agravar as coisas me fez permanecer em silêncio. Eu sabia que não podia falar demais ou ele perderia completamente a paciência.
Ele se aproximou, o cheiro de cigarro misturado ao perfume barato que ele usava me fazia engolir a repulsa. - Se fizer mais uma cena, vou garantir que nunca mais trabalhe em lugar algum.
Eu queria gritar, me defender, mas tudo o que consegui fazer foi manter os olhos fixos no chão, sentindo a humilhação rasgar o pouco de orgulho que restava em mim.
- Agora, levanta e vai voltar a servir os clientes - Ricci ordenou, sua voz gélida e autoritária. - Faça exatamente o que eles pedirem, e se não agradar, será ainda pior.
Ele se afastou, e com um empurrão final, me mandou de volta para a área principal. O som da música já não parecia tão distante, e as luzes piscavam, quase zombando da minha situação. Eu precisava continuar, não tinha escolha. A raiva estava lá, queimando por dentro, mas sabia que nada disso iria mudar.
Voltei para a parte principal da boate, a sensação de humilhação e raiva corroendo minha alma a cada passo. Fui até o balcão, com um sorriso forçado, atendendo aos clientes como sempre fiz. Mas, por dentro, eu estava em guerra comigo mesma.
Enquanto servia mais uma rodada de bebidas, o ambiente parecia se distorcer ao redor de mim. Eu estava tão absorta nos meus pensamentos, tentando manter a calma e fazer o meu trabalho, que mal percebi o olhar fixo sobre mim até que ele se tornou impossível de ignorar. Um olhar profundo, como se atravessasse minha alma.
Eu me virei lentamente, e ali, no canto da mesa, havia um homem observando-me com intensidade. Seus olhos, sombrios e calculistas, estavam fixos em mim, como se me conhecesse, como se soubesse o que eu estava tentando esconder. O brilho de seu olhar fez meu corpo se tensionar instantaneamente.
Ele não disse uma palavra, mas o olhar... aquele olhar pesado e penetrante, parecia me rasgar por dentro. Por um segundo, ele notou meu braço, o hematoma roxo que Ricci havia deixado ao me arrastar. O homem inclinou a cabeça, como se estivesse analisando cada detalhe, mas antes que eu pudesse processar qualquer coisa, ele se afastou, virando-se para a conversa com os outros na mesa.
O choque foi imediato. Algo sobre aquele olhar... Ele me conhecia? Ou apenas estava me estudando como um predador observa a presa? Eu me afastei rapidamente, sentindo o coração bater mais rápido. Mas, à medida que ele voltava à conversa, me perguntava se ele sequer tinha percebido o quanto me incomodou sua presença.
No fundo, eu sabia que algo não estava certo. Mas o que poderia ser? Ele era apenas mais um cliente, certo? Como todos os outros. Porém, esse homem... algo nele parecia diferente.
Tentei afastar o pensamento e continuei meu trabalho, mas o olhar dele ficou na minha mente, martelando a cada movimento que eu fazia.
O relógio na parede indicava quase 5 da manhã quando finalmente consegui sair da boate. Meus pés estavam pesados, o corpo exausto, e a mente sobrecarregada por tudo o que aconteceu naquela noite. A cidade ainda estava adormecida, com as ruas vazias e a luz do amanhecer começando a pintar o céu de um tom suave de azul. Eu caminhava lentamente, sem pressa para chegar em casa, como se a única coisa que quisesse fosse um pouco de paz, um pouco de silêncio.
Quando cheguei em frente à casa, vi Leo parado na porta, esperando. Ele sempre ficava acordado até eu voltar, uma forma de se garantir de que eu estava segura. Ao me aproximar, ele me olhou com aqueles olhos preocupados, como sempre fazia, mas algo naquela noite parecia diferente. Seu olhar foi direto para meu braço, que ainda estava roxo e inchado, fruto da violência de Ricci.
- Alessa... - Sua voz saiu baixa, quase um sussurro. Ele deu um passo em direção a mim, com a expressão de quem já sabia o que havia acontecido, mas não queria perguntar.
Eu tentei sorrir, tentando afastar o medo que começava a crescer dentro de mim, mas era difícil mentir para ele. Ele já sabia.
- Não é nada, Leo - falei, forçando um tom leve. - Só... uma queda. Nada demais.
Ele não acreditou. Seus olhos estreitaram, e sua mão foi até o meu braço, tocando o hematoma com cuidado, como se temesse que pudesse me machucar mais.
- Alessa, isso não é normal. Quem fez isso?
Eu respirei fundo, tentando encontrar uma resposta, mas nada que eu dissesse poderia aliviar o peso daquela noite. Olhei para o céu, como se ele pudesse me dar alguma resposta, alguma saída.
- Não importa, Leo - falei finalmente, com uma voz cansada. - Eu só... preciso de um pouco de descanso, ok?
Ele me encarou por um momento, a frustração visível em seu rosto, mas ele não insistiu. Era sempre assim. Eu dizia que estava tudo bem, e ele acreditava. Pelo menos por enquanto.
- Só me promete que vai tentar não se machucar mais - ele murmurou, soltando um suspiro pesado e me dando um abraço rápido. - Eu não quero ver você assim de novo.
Eu fechei os olhos por um instante, sentindo o calor do abraço, e então sussurrei:
- Prometo, Leo. Eu prometo.
Entrei na casa, sentindo o peso da noite me arrastando para a cama. Leo já tinha entrado e se deitado, mas ainda estava acordado, como sempre. Fiquei parada por um momento, olhando para ele, com o cansaço tomando conta do meu corpo. Cada movimento parecia mais lento do que o anterior, e eu só queria dormir, esquecer por algumas horas a dor e o peso da noite.
- Dorme, Leo - falei baixinho, jogando a mochila no canto e me sentando na cama. - Eu vou dormir um pouco agora, mas à tarde a gente vai estudar, ok?
Ele respondeu com um simples "tá bom", mas seu olhar permanecia preocupado, fixo no meu braço. Sabia que ele sabia que algo estava errado, mas ele também sabia que eu não iria falar mais sobre isso. Não agora. Talvez nunca.
Me deitei, fechando os olhos e tentando acalmar a mente, mas o cansaço me dominou rapidamente. O sono veio em ondas pesadas, e logo eu estava imersa em um sono profundo, esperando que as poucas horas de descanso me renegassem para o que viria.
Naquele momento, o que mais queria era apenas um dia tranquilo. Mas sabia que, na minha vida, tranquilidade era um luxo que eu não podia me permitir.
Acordaria de tarde para mais uma aula para Leo, depois teria que me preparar para a noite. O ciclo nunca parava. Aula durante a tarde, trabalho de noite, e poucas horas de sono pela manhã. Só tinha uma folga, no domingo, mas até lá, a rotina me consumia. Eu me perguntava até quando conseguiria continuar assim, vivendo entre a esperança e a sobrevivência.
Alessa
O sol já estava alto quando eu abri os olhos, a luz filtrando pela cortina rasgada. O quarto pequeno e abafado estava vazio, exceto por Leo, que ainda dormia pesadamente ao meu lado, como se o peso do mundo não o alcançasse. Senti um aperto no peito ao observá-lo. Eu sabia que ele não queria que eu carregasse o peso de tudo sozinha, mas a realidade não era tão simples.
Levantei-me devagar, tentando não fazer barulho, e fui até a cozinha improvisada. O cheiro de café queimado misturado com o mofo da parede me dava a sensação de que, não importa o quanto eu tentasse, nunca conseguiríamos escapar. Mas não podia pensar nisso agora.
Coloquei a chaleira no fogo e comecei a preparar um café fraco, como sempre fazia. Meus olhos se fixaram na janela quebrada. Eu sabia que a vida de Leo poderia ser melhor do que isso. Ele merecia mais. Mas, por mais que eu me esforçasse, a vida nunca parecia seguir o caminho que eu queria.
Quando o café estava pronto, Leo acordou, ainda sonolento, mas com o olhar de quem sabia o que estava acontecendo. Ele se levantou e foi até a mesa, onde sentou-se como sempre fazia, já pegando o livro de história que eu deixara ali na noite anterior. Era a nossa rotina.
- Você sabe que não precisa fazer tudo isso, né? - ele falou, as palavras arrastadas, mas sinceras. - Eu posso ajudar mais, trabalhar... Já te disse, eu poderia... - Ele hesitou, mas seus olhos mostravam que já havia pensado em tudo isso antes.
Eu respirei fundo, tentando não deixar a frustração tomar conta de mim, mas não consegui. Bati com força na mesa, o som do impacto ecoando no pequeno quarto.
- Leo, já falei que não! - Minha voz saiu mais alta do que eu queria, mas a raiva que se acumulava dentro de mim não permitia outra reação. - Você tem que estudar, tem que ter um futuro. Não vou deixar você perder isso! Não vou deixar você fazer as mesmas escolhas que eu fiz! Você tem que ser diferente!
Ele me encarou com os olhos de sempre, como se estivesse absorvendo cada palavra, mas eu podia ver que a impaciência começava a tomar conta dele. Ele não queria ouvir isso. Não queria ser tratado como uma criança que precisava ser protegida o tempo todo.
- Eu só... - Leo parou, como se buscasse as palavras certas, mas parecia que já estava cansado de discutir sobre isso. - Eu só quero ajudar, Alessa. Eu não quero ver você se matando trabalhando, indo para aquele lugar onde eles não te respeitam. A gente já está sofrendo demais, você sabe disso.
Meu coração apertou. Ele estava certo em tantos pontos, mas a ideia de vê-lo desistir dos estudos, de ver a esperança se esvair, me fazia sentir como se eu tivesse falhado. Eu não sabia mais o que fazer para protegê-lo. Para dar a ele algo melhor.
- Não, Leo - respirei fundo, mais calma agora, embora a raiva ainda queimasse por dentro. - Você vai terminar a escola, vai se formar, vai ser alguém. Não vou permitir que essa vida te arraste. E eu vou fazer tudo o que for preciso para garantir isso, entendeu?
Ele cruzou os braços, o olhar desafiador, mas o que eu mais temia era que ele realmente não acreditasse mais em mim. Na nossa luta.
- Eu entendo - ele disse baixinho, mas o tom de frustração ainda estava lá, mesmo que ele tentasse esconder. - Só não sei até quando vou aguentar.
Eu sabia que ele estava exausto. Eu também estava. Mas não havia outra opção. Eu não podia deixar ele desistir.
Ficamos em silêncio por alguns minutos, antes que eu pegasse os livros de história e os colocasse na mesa, empurrando-os de volta para ele.
- Agora, vamos estudar. Não temos tempo a perder.
Ele resmungou algo, mas finalmente pegou os livros e começou a folhear. Não foi fácil, mas era o que restava. Nossa rotina continuava, e eu sabia que não podia deixar que o desespero nos consumisse.
Passaram-se algumas horas até que o sol começasse a se pôr, e a tarde foi se esvaindo lentamente entre o som das páginas viradas e as palavras que eu tentava ensinar a Leo. Eu podia ver que ele estava cansado, mas se esforçava. No fundo, ele queria entender. Queria mais. Mas eu podia sentir que ele estava se sentindo cada vez mais preso na rotina que, de alguma forma, parecia não ter fim.
Eu também me sentia assim.
Quando finalmente fechamos os livros e a tarde se despedia, Leo foi até a cozinha preparar algo simples para nós, como sempre fazia. Eu, por outro lado, me preparei para o turno na boate. Não havia outra opção. O dinheiro que ganhávamos mal cobria as necessidades mais básicas, e meu trabalho como bartender era tudo o que restava.
O pensamento de ter que voltar para aquele lugar, onde o ar era pesado de promessas quebradas e olhares lascivos, me fazia querer sumir. Mas não podia. Minha vida estava no fio da navalha, e eu sabia que o que eu fizesse ou deixasse de fazer poderia mudar tudo para nós.
A última coisa que eu queria era que Leo visse tudo o que acontecia lá. Eu fazia o possível para que ele não soubesse dos meus sacrifícios. Mas, às vezes, era impossível esconder o desgaste.
Quando me olhei no espelho, já vestindo a roupa de trabalho, notei as olheiras profundas. O cansaço físico era uma coisa, mas a dor dentro de mim era uma constante. O que eu estava fazendo com minha vida? Até quando eu poderia continuar dessa maneira?
Fui interrompida pelos passos de Leo se aproximando da porta.
- Eu vou dormir cedo hoje - ele disse, me lançando um olhar cansado. - Tente não se estressar lá, ok? Você sabe o que fazer, só não se envolva em briga.
Eu sorri fraco, tentando passar a ideia de que estava tudo bem, que tudo ficaria bem. Mas no fundo, eu sabia que ele já via mais do que eu queria que ele visse.
- Vou tentar, Leo. Fica tranquilo - respondi, me virando para pegar minha bolsa e meu casaco. O caminho de volta à boate me esperava, e eu tinha que encarar mais uma noite.
E mais uma vez, o relógio giraria em um ciclo vicioso, com a esperança escapando pelos dedos e a sensação de que a qualquer momento, o chão poderia desabar de vez. Mas eu não tinha escolha. Eu precisava continuar.
Dante
Eu estava sentado à mesa de meu escritório, o olhar fixo na pilha de papéis espalhada à minha frente. Não me importava com os números ou as siglas que apareciam em cada página, mas eu sabia que era necessário, que tudo aquilo tinha um propósito. A máfia, como a maioria das coisas na vida, era feita de números, contratos e, claro, ameaças.
Marco, meu segurança de confiança, estava na minha frente, olhando com atenção para os papéis enquanto eu fumei o último cigarro de uma longa série. Ele sempre soube que eu preferia lidar com as coisas de forma mais direta, sem rodeios, mas havia algo nos últimos dias que estava me incomodando.
- As ameaças aumentaram - Marco disse, sua voz grave e calma. Ele nunca era de fazer suposições, então quando ele falava assim, eu sabia que não era só conversa fiada.
Olhei para ele, sem surpresa, mas com um leve aperto no peito. Cada palavra que ele falava só confirmava o que já sabia. Os recados anônimos. Os olhares furtivos. As conversas nas ruas. Tudo apontava para a mesma coisa: estavam tentando me derrubar.
- Eles estão cada vez mais ousados - respondi, o olhar fixo no fundo da minha bebida. - Mas vão se arrepender. Não sou alguém fácil de derrubar, e vão perceber isso em breve.
Marco assentiu. Sabia que eu não gostava de perder tempo com explicações, mas ele me conhecia o suficiente para saber que, quando eu falava assim, o risco era real. Ele estava mais preocupado com a pressão que sentia no campo político. A paz que tentávamos alcançar com a Itália estava começando a desmoronar. Um erro, um passo errado, e tudo viraria pó.
- E o acordo de paz com a Itália? - Marco perguntou, seu olhar mais sério agora.
Eu fechei os olhos por um momento, respirando fundo. Esse acordo era a chave para muitos dos meus planos. Mas não podia ser ingênuo. Não confiava nem mesmo nos meus próprios aliados, quem dirá em quem estava do outro lado da mesa.
- Está indo bem, mas não posso baixar a guarda. Alguns querem me ver na lona, e é só questão de tempo até que tentem fazer alguma besteira. Vamos nos manter alertas.
Eu me levantei da cadeira e caminhei até a janela, olhando para a cidade. Cada luz, cada movimento, cada sombra, era uma peça nesse jogo de poder e violência. Eu precisava manter o controle, ou tudo o que construí tinha chance de desmoronar.
- Está tudo sob controle. Mas à noite, eu vou à boate do Ricci. Ele tem algo que preciso ver de perto. Quem sabe um pouco de diversão também não faz bem... - soltei a frase como se fosse uma mera constatação, mas ambos sabíamos que o que estava por trás daquela visita não era só um simples prazer. A boate de Ricci poderia ser uma fachada, mas em algumas noites, as informações mais valiosas vinham de onde menos se esperava.
Eu observava a cidade pela janela, com os olhos fixos nas luzes distantes. A cidade nunca dorme, e eu tampouco. Mas, ao contrário de muitos, a noite não era meu refúgio. Não havia descanso para um líder como eu, alguém constantemente em guerra, seja com outras famílias ou consigo mesmo. Cada movimento na minha vida era calculado, cada decisão tinha um preço. A minha jornada foi feita com sacrifícios que poucos poderiam entender.
Desde pequeno, fui treinado para ser implacável. O sangue em minhas mãos não é apenas figurativo. As cicatrizes em meu corpo, tanto físicas quanto emocionais, são marcas de uma vida onde a fraqueza não tinha lugar. Meu pai, Lorenzo, me preparou para isso, me moldou para ser o homem que sou. Mas foi a morte de minha mãe, Sofia, e a perda de Matteo, meu melhor amigo, que realmente me fizeram entender que este mundo é cruel demais para aqueles que têm coração. Eles me ensinaram a duras penas que a lealdade é algo raro e que, se você quiser sobreviver, precisa ter o controle absoluto.
Eu não tinha amigos. Eu não sabia o que era confiança. O que me restava era poder, e era disso que eu me alimentava. Eu era o chefe da família Romano, o último bastião da nossa linhagem, e ninguém ousaria desafiar minha autoridade, ou pagaria o preço. A morte do meu pai foi um golpe que ainda ecoa dentro de mim. Ele sempre foi distante, mas sua morte me deixou com mais perguntas do que respostas. O veneno que o matou foi uma lição amarga: o perigo estava em todos os lugares, até mesmo dentro de nossa própria casa.
A ascensão ao poder não foi fácil. Traições, inimigos, e até mesmo aqueles que juraram lealdade à nossa família tentaram me derrubar. Mas, ao contrário do que muitos pensam, eu nunca fui apenas um homem de força. Meu pai me ensinou a jogar o jogo com inteligência, e foi isso que me manteve no topo. Não é apenas sobre ser o mais forte, mas ser o mais calculista.
E agora, com todos esses problemas que se acumulam, eu me encontrava mais isolado do que nunca. As ameaças à minha família e aos meus negócios estavam crescendo, mas eu não podia me dar ao luxo de mostrar fraqueza. O acordo de paz com a Itália era uma necessidade, mas uma necessidade arriscada. Todos ao meu redor estavam ansiosos, e eu não podia confiar em ninguém. Até Marco, que sempre foi leal, era apenas uma peça no grande tabuleiro de xadrez que eu jogava.
Eu precisava encontrar algo que me desse mais controle.
O casamento, para mim, sempre foi mais do que uma união de corpos ou um simples compromisso. Era um jogo de poder, uma aliança estratégica que garantia a estabilidade do meu império e a sobrevivência dos meus aliados. Casar-se não era uma escolha, mas uma necessidade, um símbolo de controle. Para um líder como eu, a paz não é algo que vem com palavras ou promessas. Vem com ação. E o casamento é o maior símbolo dessa ação.
Os clãs estão sempre em guerra, em busca de território, de influência, de poder. Manter os clãs unidos - ou, pelo menos, aparente união - é fundamental. Um casamento pode acalmar as tensões, pode apaziguar os ânimos e garantir que os inimigos não vejam uma oportunidade para atacar. E, acima de tudo, um casamento pode fortalecer a imagem de um líder, mostrando que ele está disposto a fazer qualquer coisa para garantir o futuro da sua linhagem.
Foi por isso que decidi me casar. Mas a escolha do meu casamento não foi simples. Eu poderia ter escolhido qualquer uma das filhas de clãs aliados, mas eu precisava de algo mais. Eu precisava de um acerto de contas. Um acerto com o passado. Um resgate. Algo que trouxesse justiça, mesmo que de uma forma tortuosa.
E Alessa foi a escolha. A ideia de casar com ela não foi apenas para garantir a paz entre os clãs. Foi para corrigir um erro que estava me assombrando. O assassinato dos pais dela não foi uma simples tragédia. Foi uma consequência de minhas próprias ordens, mesmo sem saber quem seriam as vítimas.
Eu não sabia na época, mas os pais de Alessa, aparentemente cidadãos comuns, estavam profundamente envolvidos com a nossa família. Eles haviam ajudado a esconder informações cruciais sobre um traidor dentro da organização. Eles estavam tentando proteger a minha família, sem sequer saber que estavam lidando com algo maior do que imaginavam. Quando dei a ordem para eliminar qualquer um que pudesse estar envolvido com a traição, não fazia ideia de que aqueles dois eram as vítimas.
Agora, eu tinha a oportunidade de corrigir isso, de pagar essa dívida. Casar-me com Alessa não seria apenas uma estratégia para acalmar os clãs. Seria um ajuste no equilíbrio que tinha sido quebrado. Um acordo com o passado, para garantir que o futuro da família Romano permanecesse intacto.
Mas, ao mesmo tempo, havia algo dentro de mim que me fazia questionar essa escolha. Eu sabia que ela não seria fácil de controlar se soubesse a verdade.
Sem contar o fato de que ela sequer sabe quem sou eu.
Eu me pergunto, em silêncio, como ela reagirá quando descobrir a verdade. Mas sei que isso é algo que eu não posso deixar acontecer.
Eu sou o líder da família Romano. Não sou mais o filho que perdeu sua mãe e seu amigo. Sou um homem que construiu um império com base em decisões implacáveis e muitas vezes dolorosas. O casamento com Alessa é mais um passo nesse jogo. Uma jogada estratégica para manter o controle e manter a paz. Mas se algo mais surgir entre nós, não sei o que acontecerá.
Ainda assim, uma coisa é certa: nada poderá me parar.