Capa do Romance Vontade: Sujo, Honesto e Desesperador.

Vontade: Sujo, Honesto e Desesperador.

9.5 / 10.0
Michael Brandt vive um tormento psicológico após um surto em Nova York quase terminar em desastre. Diagnosticado com vício em sexo, ele agora enfrenta uma barreira física e mental que o impede de atingir o ápice, levando-o a comportamentos autodestrutivos em busca de alívio. Esse cenário caótico é agravado pela chegada de Katherine Hamilton. A presença intimidadora da nova colega desperta impulsos sombrios, tornando sua obsessão pelo prazer ainda mais perigosa.

Vontade: Sujo, Honesto e Desesperador. Capítulo 1

“Você tem a menor ideia do quanto é gostosa? Do quanto todos os homens nesse buraco de rato chique querem entrar na sua calcinha?”.

O timbre grave masculino chegou aos ouvidos, falando diretamente em seu cérebro, ainda que num sussurro a convicção era evidente e embriagante.

— O que te faz pensar assim? — perguntou ela. Dúvidas há muito carregadas em sua consciência, enroscadas fortemente em suas concepções autodestrutivas como a mão de um amante dominador a fechar os dedos em seu pescoço fino e alvo no clímax.

"Não, você não faz a menor ideia", ele continuou a falar ignorando a pergunta. Ele não poderia responder de qualquer forma, mas ela quis acreditar que sim, que ele estava ali ao seu lado murmurando, hipnótico como um demônio sobre seu ombro, esgueirando seus dedos por baixo da camisola para agarrar um seio. “Não consegue imaginar quantas vezes entro no banheiro de manhã e abuso do meu pau pensando em como seria foder você. Ouvir você gemer, sentir o gosto do suor e da sua boceta melada na minha boca”.

Um formigamento emergiu do meio das pernas, alastrando-se para as nádegas próximo ao seu ânus, curiosamente estimulado sem nenhum toque ou sugestão deste na posição em que se encontrava. Deitada na cama, enroscada em seus lençóis pretos sem querer encarar o teto branco do quarto. Tudo o que sua imaginação desejava era satisfazer-se com aquela patética fantasia realçada pela voz. Não havia toque além do seu próprio na penumbra silenciosa e fantasmagórica, contrastando com os impulsos que a estavam levando debilmente a um orgasmo fraco demais, ainda que com dedos experientes a enfiar-se dentro de si. Estimulando onde só ela mesma conseguia chegar.

A sensação subia vertiginosa por seu baixo ventre, fazendo-a engolir os próprios dedos longos e delicados entre as pernas. Precisava sentir alguma coisa. Qualquer coisa. Um único sinal de que conseguiria gozar apenas com isso.

"Você é perfeita para mim”.

Ela abriu os olhos. Parou de se tocar. A sensação se foi e os dedos dentro de si não faziam mais sentido. Retirou-os, bufando de frustração por fim encarando o teto sem as sombras dos carros passando nas avenidas trinta andares abaixo. Curvou a cabeça para o lado, para as janelas panorâmicas abertas de onde qualquer um do prédio vizinho com um binóculo idiota podia vê-la se masturbando. Via Nova York sob a luz gélida da madrugada, ouvia os sons das sirenes e carros que nunca paravam. Perguntou-se num acesso aleatório de curiosidade quantas pessoas naquela megalópole estariam tendo um orgasmo alucinante naquele exato momento em que o dela fora negado.

"Sua boceta é minha, entendeu? Minha!", a voz disse autoritária em seu ouvido e logo a fez desligar a gravação no celular de um completo estranho se masturbando. Já havia tentado tudo o que parecia remotamente saudável e normal. Vibrador com incontáveis velocidades, de variados tipos e formas para tentar ter algum prazer. Zero orgasmo, ao menos não como queria. Pornô. Das categorias mais genéricas às mais absurdas. Zero orgasmo. Oito anos de casamento com um homem que um dia já a fez delirar em meio aos lençóis. Zero orgasmo. Nem mesmo naquela época, percebia no momento vendo o táxi amarelo minúsculo ultrapassando perigosamente um BMW lento demais na avenida.

"Você é perfeita para mim". Já havia ouvido aquilo. Muitas e muitas vezes, em vários e vários timbres. Vezes suficientes para achar aquela frase nojenta, um prelúdio para a completa desgraça e abandono.

Seu corpo parou de tentar excitá-la, voltando à tensão da insônia e dos pensamentos.

Era duro ter de admitir a derrota. Gostava de trepar, talvez fosse a esposa que mais pressionava o próprio marido para fazer sexo do mundo enquanto ele se dedicava à tarefa de recusá-la. Recordava-se de como Hutton começou a estranhar sua preferência pelas mãos dele em seu pescoço ao invés de carinhosamente deslizando por sua face. Seus olhos azuis ficaram chocados quando largou o cinto dizendo “eu não posso fazer isso” após apenas dois golpes.

Ele costumava ser lindo. Alto, cabelos loiros e ternos impecáveis. Pupilas azuis cheias de ternura e voz grave, porém macia. De acalmar os sentidos para dormir. Para chamá-la de “meu amor”, e para hesitar em chamá-la de “cachorra”.

— Eu sei porque não pode — disse na ocasião, esparramada à cama como um manequim enrolado em seda e decepção. Inanimado, patético como um corpo numa cena de crime dramática e mórbida. — Você não conseguiria lidar com a culpa de dar uns tapas na mulher que jurou que amaria e que agora trai com a vadiazinha do andar de baixo. Ela tem cara de que gosta de transar de frente, olhando nos olhos. Do jeito que você gosta.

— O quê? — Ele a encarava perplexo.

— Você deveria ir até lá e foder com ela do jeito relaxado e puritano que sempre tenta fazer comigo. — Hutton a olhava com nada além de choque, com a luz da madrugada podia até mesmo ver um brilho úmido de desgosto em seu olhar. — Vai, porra! Você sabe onde fica o elevador! Se manda!

Ele estava parcialmente vestido, tão patético com aquele pau amolecido para fora do short de dormir que ela quis chutá-lo. A inquietação que a assolara naquele dia, antes disso em todos os anos, e no momento presente sozinha no quarto, era a mesma. Nunca conseguiu sentir o que todas as suas amigas e conhecidas prometiam. Prazer insano e animalesco. Suor e espasmos, arrepios e delírio. Também nunca conseguiu tirar na cabeça as palavras de Hutton antes de pegar seu casaco e sair atrás da tal vadiazinha.

— Você é nojenta, Kate.

As palavras de um crítico. Pomposo e arrogante, cruel.

Um crítico que não conseguia dar prazer à própria mulher e que culpava suas preferências ousadas por isso.

— Agora sei porque nenhum universitário quis trepar com você — disse ele ainda. — Sempre vai ser aquela aberraçãozinha que eu “salvei” do ostracismo.

A respiração começou a pesar, espalhando-se pelo quarto como uma melodia sinistra. A raiva subia-lhe o peito, as lágrimas caíam molhando a raíz dos cabelos, o travesseiro. Arrancou a calcinha fina, ouvindo o elástico estirar-se com a violência do puxão e se apoiou num dos cotovelos, separando os joelhos ao máximo. Não lubrificou os dedos, apenas os enfiou dentro de si mesma com força, curvando-os para cima, procurando o prazer que seu próprio corpo a privava. Procurando o maldito ponto G do qual falavam tanto.

Com grunhidos esganiçados de dor, Kate fodia a si mesma, perseguindo um clímax que não chegava nunca! Parava naquele formigamento irritante que nunca progredia, apenas arrepiava seus pêlos e esquentava seus músculos, mas não dava sinais de elevar-se. Estava ardendo, mas ela não parava. Sentia mais dor que excitação, mais raiva que tesão.

"Eu não posso fazer isso”.

Com um último urro grave e rouco, quase masculino de puro ódio, retirou os dedos e deixou o choro invadir o peito, inundar seus pulmões e pulsar seu cérebro. Com as mãos no rosto, sentia o cheiro do próprio sexo.

Agridoce, quente.

Sentou-se num pulo e o grito bestial de sua garganta delicada ecoou pelos arranha-céus de Nova York, presenteando Manhattan com fúria.

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