Capa do Romance Você nunca vai me deixar

Você nunca vai me deixar

9.6 / 10.0
No dia mais importante de sua vida, Camila enfrenta a humilhação de ser abandonada pelo noivo em pleno altar. Consumida pela indignação e pela dor da ausência do companheiro, ela toma uma decisão impulsiva e entrega-se a um desconhecido na noite de núpcias. O que deveria ser apenas um encontro casual para esquecer o trauma transforma-se em algo persistente, pois o homem misterioso agora recusa-se a sair de sua rotina. Será que ela deve dar uma chance?

Você nunca vai me deixar Capítulo 1

Camila Haynes se casou naquele dia. Infelizmente para ela, o noivo não deu as caras.

Camila olhou para o quarto vazio, o rosto branco como papel.

Sentiu-se profundamente humilhada. Recusava-se a aceitar aquela afronta!

Mas o que poderia fazer?

Desde que nascera, todos os aspectos de sua vida haviam sido controlados por outros. Naturalmente, isso incluía a questão do matrimônio.

Fora obrigada àquela união pelo pai, um homem movido pela ganância.

Seu avô trabalhara como motorista de Robin Johnston, o patriarca da poderosa família Johnston. Num trágico acidente, o avô de Camila perdeu a vida ao salvar Robin.

Nos últimos meses, a pequena empresa da família acumulara dívidas por todos os lados. Estavam à beira da falência. Mesmo assim, o pai astuto recusara-se a pedir ajuda aos Johnston, pois isso cancelaria a dívida que a família Johnston tinha com os Haynes. Em vez disso, arquitetou um plano: casar Camila com Isaac Johnston, o neto de Robin.

Diante da fortuna dos Johnston, era certo que pagariam uma boa soma pela mão de Camila.

E, como bônus, estabeleceriam uma ligação mais sólida com os Johnston, agora vinculada por lei.

Claro, a família Johnston não podia recusar a proposta sem perder a face.

Isaac, por sua vez, expressou seu descontentamento com todo o arranjo faltando ao banquete, ainda que apenas as duas famílias estivessem presentes. Também negou a Camila o uso do sobrenome Johnston e proibiu-a de contar a qualquer um que era sua esposa.

E, do início ao fim, ninguém se preocupara em perguntar a Camila o que ela achava.

Agora, ela estava de pé, coluna ereta, ombros para trás. Os cílios podiam tremer ligeiramente, mas no olhar havia um resquício de teimosia. Não se renderia à humilhação.

Mas como prosseguir? Ainda refletia sobre como passaria o que deveria ter sido sua primeira noite quando uma mensagem de uma colega chegou.

Pedia que Camila assumisse seu plantão.

Sem hesitar, Camila saiu do quarto, pegou um táxi e, momentos depois, já estava na sala de descanso do hospital, de jaleco branco, analisando prontuários.

Com um estrondo, a porta foi arremessada contra a parede.

Antes que pudesse erguer os olhos, a porta fechou-se novamente. Ouviu o clique do interruptor. A escuridão tomou conta.

Um calafrio percorreu-lhe a espinha.

"Quem —"

O resto da frase morreu na garganta quando a empurraram sobre a mesa. Material de escritório espalhou-se pelo chão no exato instante em que sentiu o gume frio e afiado de uma faca no pescoço. "Quieta!", sussurrou o agressor com ferocidade.

Camila mal distinguia o rosto do homem, mas os olhos se destacavam. Brilhavam na penumbra, a vista alerta.

Um cheiro metálico familiar pairou no ar. Ele estava ferido.

Graças aos anos de formação e experiência como médica, Camila manteve a calma.

Lentamente, dobrou um joelho, preparando-se para atacar. Ele, porém, percebeu a intenção. Mal ela se moveu, ele prendeu-lhe as pernas com força, imobilizando-a contra a mesa com as coxas.

De repente, passos apressados ecoaram no corredor. Dirigiam-se à sala de descanso.

"Rápido, vi ele entrar aqui!"

Bastaria um grito, e invadiriam o quarto.

Desesperado, o homem baixou a cabeça e beijou Camila.

Ela debateu-se, surpresa por tê-lo afastado com relativa facilidade. Mais surpresa ainda ficou quando ele não tornou a ameaçá-la com a faca.

A mente de Camila acelerou.

Do outro lado da porta, alguém já agarrava a maçaneta.

Decidida, Camila puxou o homem para perto e envolveu-lhe o pescoço com os braços. Desta vez, foi ela quem o beijou.

"Posso ajudá-lo", murmurou, esperando que o medo não transparecesse.

O homem engoliu em seco. Precisou de um instante para decidir. Então, ela sentiu o hálito quente em seu ouvido. "Eu assumo a responsabilidade." A voz era baixa e ímã.

Mas ele parecia tê-la entendido mal. Ela só queria encenar. Ele não precisava assumir nada.

No segundo seguinte, a porta abriu-se outra vez.

Camila e o homem chocaram os lábios novamente. Ela soltou até um gemido longo e sensual, daqueles que ouvira em filmes pornô. Apesar da situação, o corpo do homem reagiu ao som.

Ele teria se perdido naquilo se os homens à porta não tivessem falado.

"Droga! É só um casal se pegando. Cara, tão fazendo isso no hospital. Um pouco de decência!"

A luz do corredor invadiu a sala, iluminando o casal entrelaçado. O corpo do homem envolvia Camila, ocultando-lhe o rosto dos intrusos.

"Bom, definitivamente não é o Isaac. O desgraçado está ferido demais. Por mais gostosa que a mulher seja, duvido que ele tenha disposição para nada."

"Mas olha só, a mina tá gemendo gostoso, hein?"

"Cala a boca e anda! Precisamos achar o Isaac logo, senão a gente se fode!"

Houve um ruído de passos apressados, e a porta fechou-se.

O homem sabia que os perseguidores haviam ido embora, mas a consciência de estarem sozinhos quebrou seu autocontrole. Ele simplesmente cedeu. Uma onda inesperada de desejo tomou-o.

Aquela corrente de luxúria não poupou Camila. Talvez fosse a proximidade, a intimidade da posição, ou a súbita descarga de adrenalina, mas uma rebeldia que ela mesma desconhecia veio à tona.

Até ali, vivera na monotonia cinzenta, sempre seguindo regras e planos alheios.

Naquela vez — pela primeira vez — iria se permitir.

Camila abandonou as inibições e deixou que o homem fizesse o que quisesse. Foi assim que lhe entregou a primeira vez, numa relação intensa e dolorosa.

Quando terminaram, o homem beijou-lhe suavemente a face. "Volto para você", sussurrou, a voz ainda rouca do prazer. E partiu, tão abruptamente quanto chegara.

Camila levou um bom tempo para conseguir erguer-se. A cintura e as costas doíam, sem falar na ardência entre as pernas.

O silêncio foi quebrado pelo toque do celular. Ela olhou em volta e viu-o à beira da mesa.

Camila agarrou-o antes que caísse e atendeu. "Doutora!", soou uma voz frenética. "Acabou de chegar um politraumatizado na emergência! Acidente de carro. Precisamos que você venha agora!"

Camila limpou a garganta para firmar a voz. "Estou a caminho."

Desligou e dirigiu-se à porta, mas parou. Olhou para si mesma.

As roupas, amarrotadas e manchadas. Uma sensação pegajosa entre as coxas. Um estremecimento percorreu-a ao dar-se conta. Acabara de fazer sexo com um estranho em sua noite de núpcias.

Era a coisa mais absurda que já fizera!

Mas não era hora de comemorar ou ponderar consequências. Camila recompôs-se como pôde e seguiu para a emergência.

O resto da noite foi de trabalho incessante.

Quando finalmente pôde parar, o dia já clareava. Retornou à sala de descanso e encontrou-a tão desarrumada quanto deixara.

As mãos de Camila cerraram-se quando as memórias da noite anterior a invadiram.

"Obrigada por assumir meu plantão, doutora Haynes." A colega de Camila, Debora Griffith, entrou com um sorriso grato.

Camila retribuiu com um sorriso tenso. "De nada.

Agora eu cuido daqui. Você pode ir descansar." Debora lançou um olhar aos papéis espalhados pelo chão e arqueou uma sobrancelha. "O que aconteceu aqui? Por que está tudo no chão?"

Camila desviou os olhos, constrangida. "Ah, deixei cair sem querer. Pode arrumar para mim? Estou exausta, vou indo."

Debora estranhou a resposta, mas não deu importância. Despediram-se, e Debora começou a recolher os objetos do chão.

Mal havia começado quando o próprio diretor do hospital apareceu à porta, seguido pelo assistente de Isaac.

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