Helena POV
Liguei para o receptador às 9:00 da manhã.
O nome dele era Marco, um homem engordurado que geralmente vendia relógios roubados para os soldados de baixo escalão. Ele ficou surpreso ao ouvir da esposa do Chefe, mas a ganância tem um jeito de silenciar perguntas.
Eu as coloquei sobre a cama. As bolsas Hermès. As pulseiras de diamantes. O casaco de chinchila que Dante me comprou depois de matar três homens em uma reunião e precisar lavar a consciência suja de sangue com dinheiro.
— Quero dinheiro vivo — eu disse a Marco. — E quero que seja por fora dos livros.
Ele olhou para a pilha, calculando. — Isso é perigoso, Sra. Costello. Se o Chefe descobrir que eu comprei os presentes dele...
— Ele não vai — eu disse, minha voz oca. — Ele não olha mais no meu closet.
Marco saiu com três malas de lona. Fiquei com uma pilha de dinheiro amarrada com elásticos, grossa o suficiente para engasgar um cavalo. Parecia sujo em minhas mãos, mas era a única moeda que importava agora.
Meu celular apitou. Uma notificação do Instagram.
Era Lorena. O perfil dela não era privado. Ela queria ser vista. A foto era uma selfie tirada no espelho de um banheiro. Ela usava um robe de seda, a mão repousando na pequena protuberância de sua barriga. Ao fundo, pendurada no gancho, estava uma jaqueta de couro de edição limitada.
A jaqueta de Dante.
A legenda dizia: Sã e salva. #SeuHerdeiro #FuturaRainha.
Eu não chorei. Acho que meus dutos lacrimais secaram junto com minha esperança.
Júlia chegou uma hora depois. Ela era a esposa do Subchefe de Dante, uma mulher feroz com brincos de argola e um canivete na bolsa. Ela era a única pessoa nesta vida que olhava para mim e via Helena, não apenas “A Esposa”.
— Vamos às compras? — ela perguntou, olhando para os cabides vazios no meu closet.
— Não — eu disse. — Vamos dar uma volta de carro.
Eu a guiei para longe da cidade, para longe do território controlado pelo Comando. Dirigimos para a periferia, para um cemitério municipal tranquilo e discreto. A grama estava alta e as lápides eram placas modestas de granito.
— Helena, que diabos estamos fazendo aqui? — Júlia perguntou, estacionando sua Range Rover. — O mausoléu dos Costello fica no Cemitério da Consolação. Você sabe disso. Há um lugar ao lado do pai de Dante.
Saí do carro. O vento cortou meu pescoço exposto.
— Eu não vou ser enterrada com eles — eu disse.
Entrei no escritório. O zelador era um homem velho que cheirava a naftalina. Paguei pelo lote em dinheiro. Quando ele pediu o nome na escritura, não hesitei.
— Helena Rossi — eu disse. — Meu nome de solteira.
Júlia agarrou meu braço, suas unhas cravando na minha pele. — Helena, pare com isso. Dante vai matar todo mundo neste prédio se vir isso. Você é uma Costello. Por que está comprando um túmulo?
Virei-me para ela. A dor no meu abdômen era um rugido surdo agora, uma companhia constante.
— Porque eu tenho um mês de vida, Júlia. Câncer de pâncreas.
A cor sumiu do rosto dela. Ela parecia que eu a tinha esbofeteado.
— Não — ela sussurrou. — Não. Vamos aos melhores médicos. Vamos para a Suíça. Dante tem o dinheiro. Ele pode consertar isso.
— Dante me disse para morrer em silêncio — eu disse.
Júlia soltou um som que era meio soluço, meio grito. Ela tentou me arrastar de volta para o carro. — Vamos para o hospital. Agora. Vou ligar para ele.
Agarrei suas mãos. Elas tremiam.
— Se você ligar para ele, nunca mais falo com você. Quero morrer como Helena Rossi. Não como a esposa estéril do Chefe. Não como a mulher que ele traiu. Por favor, Júlia. Me dê isso.
Ela me encarou, lágrimas escorrendo pelo rosto, arruinando sua maquiagem. Ela viu a determinação em meus olhos. Ela viu o esgotamento.
— Tudo bem — ela engasgou. — Tudo bem, querida. Eu te ajudo.
Voltamos para o carro. Eu me senti mais leve. Eu tinha um lugar para descansar onde a sombra do império Costello não poderia me tocar.
Mas então a dor veio. Não era mais um rugido surdo; era uma faca se torcendo na minha barriga. Meus joelhos cederam. O cascalho correu para me encontrar.
— Helena! — Júlia gritou.
Tentei ficar acordada. Tentei dizer a ela para não me levar ao hospital da Família, onde eles relatam tudo a Dante. Mas a escuridão era pesada e doce.
A última coisa que ouvi foi Júlia gritando ao telefone.
— Trás essa sua bunda pra casa, seu filho da puta! Ela está morrendo!
Helena POV
Acordei com o frio cortante do soro na minha veia.
O quarto principal estava escuro, o ar denso de tensão. O Dr. Ricci estava arrumando sua mala, seus movimentos bruscos e frenéticos. Todos pareciam nervosos perto de Dante, mas Ricci parecia um homem enfrentando um pelotão de fuzilamento.
Vasculhei o quarto. Não vi Júlia.
Dante estava de pé junto à janela, de costas para mim, olhando para o vasto gramado. Ele usava seu terno, o tecido ainda impecável, embora sua gravata estivesse afrouxada no colarinho. Ele não parecia um marido de vigília ao lado da cama de sua esposa doente. Parecia um CEO incomodado por um pequeno erro logístico.
— Júlia está banida da mansão — ele disse, sem se virar.
— Por quê? — Minha voz era pouco mais que um grasnido seco.
— Ela estava histérica. Gritando mentiras. Desrespeitando-me na frente dos meus homens.
Ele se virou então. Seu rosto era esculpido em granito, impenetrável e frio.
— Ela disse que você está morrendo, Helena. Esse é o novo jogo? Você paga o Ricci para falsificar um laudo? Você desmaia em um estacionamento para chamar minha atenção porque eu perdi o jantar?
Olhei para o Dr. Ricci. Ele não encontrava meus olhos. Concentrou-se intensamente no fecho de sua maleta médica. Dante pagava seu salário. Dante era dono de sua clínica. Se Dante quisesse que o laudo médico fosse uma página em branco, Ricci queimaria o verdadeiro sem hesitar.
— Não estou jogando — sussurrei.
Dante caminhou até a cama. Ele se agigantou sobre mim, roubando a luz restante do quarto.
— Você está desnutrida. Está estressada. Foi o que o médico disse. Você precisa comer. Precisa parar de obcecar com a Lorena.
A porta se abriu com um clique.
Lorena entrou. Ela usava um suéter de caxemira que custava mais que o carro do meu pai, macio e imaculado contra sua pele radiante. Ela segurava uma bandeja de sopa.
— Ouvi dizer que você não estava se sentindo bem — ela disse. Sua voz era puro xarope, enjoativa e venenosa. — Eu disse a Dante que deveríamos ver como você está. Coitadinha.
Ela caminhou até o lado de Dante e colocou a mão em seu braço. Ele não a afastou. Ele se inclinou levemente em sua direção. Um reflexo. Um hábito.
— Saia — eu disse.
— Helena, seja educada — Dante avisou, seu tom baixando uma oitava.
— Ela é uma vagabunda, Dante. Ela está dormindo na minha casa. Ela está carregando o filho que você me prometeu. E você a traz para o meu quarto?
Os olhos de Lorena se encheram de lágrimas instantâneas e ensaiadas. Ela olhou para Dante, tremendo perfeitamente.
— Eu só estava tentando ajudar — ela fungou. — Sei que ela está com ciúmes, Dante, mas não queria chateá-la. O bebê... consigo sentir o estresse.
A expressão de Dante escureceu. Ele agarrou a cintura de Lorena, puxando-a protetoramente contra seu lado.
— Chega, Helena. Você é tóxica. Esta casa deveria ser um santuário, e você a está enchendo de veneno.
— Meu veneno? — Eu ri, mas o som se partiu em uma tosse que sacudiu meu peito profundamente. — Você me prometeu, Dante. Você disse: ‘Onde quer que você esteja, essa é a minha casa.’
— Isso foi antes de você se tornar isso — ele cuspiu, gesticulando para meu corpo frágil na cama. — Amarga. Ingrata.
Lorena sorriu de lado. Foi rápido, escondido atrás do ombro de Dante, mas eu vi. Ela olhou ao redor do quarto, seus olhos demorando na minha penteadeira, na nossa foto de casamento.
— Está um pouco frio aqui — ela disse suavemente. — Talvez devêssemos movê-la para a ala de hóspedes? É mais quente. E mais perto das enfermeiras.
Ela estava tentando me despejar da minha própria cama de casamento.
Sentei-me. A adrenalina atravessou a névoa da morfina, me dando uma explosão fugaz de força. Balancei minhas pernas para fora da cama e me levantei. Cambaleei, o quarto girando em seu eixo, mas me mantive de pé.
Caminhei até ela. Ela arregalou os olhos, interpretando a vítima com perfeição.
Eu a esbofeteei.
Não foi um tapa forte — eu estava fraca demais — mas foi o suficiente para deixar uma marca vermelha em sua bochecha perfeita e maquiada.
— Você nunca será eu — sibilei.
Lorena gritou, agarrando o rosto como se eu a tivesse esfaqueado.
Dante se moveu instantaneamente. Ele me empurrou.
Ele não queria me machucar, talvez. Ele só queria nos separar. Mas eu era o fantasma de uma mulher, frágil e leve. Voei para trás, batendo forte na parede. Deslizei até o chão, ofegando por ar enquanto a dor explodia nas minhas costelas.
Dante não veio ver como eu estava. Ele envolveu seus braços em volta de Lorena, suas mãos cobrindo a barriga dela.
— Você está bem? — ele perguntou a ela, sua voz frenética. — O bebê?
— Ela é louca! — Lorena soluçou em seu peito. — Ela tentou matar o herdeiro!
Dante olhou para mim. Não havia amor em seus olhos. Apenas nojo.
— Fique neste quarto — ele ordenou. — Se você tocar nela de novo, Helena, eu vou esquecer quem você é.