O ar da fazenda, que antes trazia o cheiro de terra molhada e mato fresco, agora pesava, denso como a fumaça de uma queimada que não se vê, mas que arde nos pulmões, João Carlos sentia isso cada vez que respirava fundo, tentando encontrar um alívio que não vinha mais, cinco anos, ele pensava, cinco anos desde que encontrou Maria Eduarda, uma mulher da cidade grande, do Rio de Janeiro, soterrada numa cova rasa, deixada para morrer pelos próprios sócios, ele a salvou, cuidou dela e, contra o bom senso e os avisos de sua mãe, se apaixonou.
Ele a ajudou a forjar a própria morte, um plano ousado para que ela pudesse voltar ao Rio e se vingar, e ela conseguiu, voltou triunfante, destruiu seus inimigos e, para surpresa de todos na pequena cidade, retornou para João Carlos, ofereceu um dote que poderia comprar a fazenda inteira dez vezes e se casou com ele, por um tempo, ele acreditou que era amor, que ela tinha escolhido a paz do campo em vez da guerra da cidade.
Agora, o silêncio na casa era a prova do seu erro.
João Carlos caminhava pelos cômodos, cada passo um eco de sua dor, ele entrava no quarto que deveria ser do bebê, o berço de madeira que ele mesmo lixou e montou continuava ali, vazio, intocado, na parede, uma pintura infantil de um sol sorrindo parecia zombar dele, ele passava a mão sobre o móvel, a madeira lisa e fria sob seus dedos, seu filho, um menino que viveu apenas sete meses dentro da barriga da mãe, foi sacrificado.
Seu corpo não estava ali, mas sua ausência preenchia cada centímetro do ar.
Ele se sentou no chão, o corpo pesado, e pegou um pequeno par de sapatos de lã azul que sua mãe, Dona Clara, havia tricotado, ele apertou o sapatinho na mão, a lã macia contra a pele áspera de seu trabalho, ele não chorava, as lágrimas pareciam ter secado junto com sua esperança.
A porta se abriu e Maria Eduarda entrou, ela usava um vestido caro, de seda, que parecia deslocado naquele ambiente rústico, seu rosto estava impecável, maquiado, sem nenhum vestígio de luto ou remorso.
Ela o olhou ali no chão, um misto de impaciência e desprezo em seus olhos.
"Você vai ficar aí se lamentando para sempre, João Carlos? Levante-se, temos coisas a resolver."
Ele ergueu o rosto, a voz saindo rouca, cansada.
"Resolver? O que mais temos para resolver, Maria Eduarda? Você já resolveu tudo, não foi?"
Ela cruzou os braços, o tecido do vestido farfalhando.
"Não comece com esse drama, eu fiz o que precisava ser feito, Pedro Henrique precisava daquele tratamento, o órgão do bebê era a única chance dele."
A menção do nome de Pedro Henrique foi como jogar sal em sua ferida aberta, Pedro Henrique, o amor de infância dela, o empresário poderoso que, segundo ela, adoeceu de tristeza porque foi forçado a se casar com outra mulher, tudo porque João Carlos, com seu amor humilde, a "impediu" de voltar para o Rio a tempo.
"Você não tinha esse direito", ele disse, a voz ganhando um pouco de força. "Era nosso filho."
"Nosso filho?", ela riu, um som frio e cortante. "Ele foi um sacrifício necessário, João Carlos, foi por sua causa, porque você me segurou aqui, que o Pedro adoeceu, você devia isso a ele, essa criança precisava ser sacrificada para consertar o seu erro."
A lógica dela era tão perversa, tão distorcida, que por um momento ele ficou sem ar, ele a olhou, tentando encontrar a mulher que ele pensou amar, mas só via uma estranha, uma predadora com o rosto de sua esposa.
"Você está louca", ele sussurrou.
"Não, estou sendo prática", ela rebateu, aproximando-se. "E agora, há outra coisa, Pedro Henrique precisa de um lugar com boa energia para se recuperar, o pajé dele disse isso."
Um calafrio percorreu a espinha de João Carlos, ele já sabia o que viria a seguir.
"A floresta sagrada da sua família", ela continuou, a voz casual, como se estivesse falando do tempo. "Parece o lugar perfeito, vamos construir uma casa para ele lá."
A floresta, o lugar onde gerações de seus ancestrais estavam enterrados, o coração de sua família, a fonte de sua força e de suas tradições, o último pedaço de sua identidade que ainda restava.
"Não", ele disse, levantando-se de repente, a fúria finalmente quebrando sua apatia. "Você não vai tocar na floresta."
Os olhos dela se estreitaram, a máscara de civilidade caindo por um segundo.
"Eu não estou pedindo, João Carlos, estou avisando, a floresta será de Pedro Henrique."
"Nunca", ele rosnou, postando-se entre ela e a porta, como se pudesse proteger a mata com o próprio corpo. "Você terá que passar por cima de mim."
Maria Eduarda sorriu, um sorriso que não alcançou seus olhos.
"Isso pode ser arranjado", disse ela, "mas talvez haja uma maneira mais fácil."
Ela pegou o celular, discou um número e colocou no viva-voz, a voz de sua secretária, Lívia, soou do outro lado.
"Senhora?"
"Lívia, como está a Dona Clara hoje?", Maria Eduarda perguntou, mantendo os olhos fixos em João Carlos. "Ela tomou os remédios para o coração direitinho?"
O sangue de João Carlos gelou, sua mãe, sua mãe frágil e doente, que morava numa pequena casa na entrada da propriedade, sob os "cuidados" dos funcionários de Maria Eduarda.
Houve uma pausa do outro lado da linha.
"A enfermeira disse que ela está um pouco agitada hoje, senhora, talvez a dose do remédio precise de um ajuste."
"Talvez", disse Maria Eduarda, seu tom suave e ameaçador. "Ou talvez ela só precise de um pouco de paz, um susto pode ser fatal para alguém na condição dela, não é mesmo?"
A mensagem era clara, a ameaça, nua e crua, pairava no ar entre eles, a vida de sua mãe em troca da floresta.
João Carlos sentiu suas pernas fraquejarem, a fúria se esvaindo, dando lugar a um desespero profundo e gelado, ele olhou para o rosto dela, o rosto da mulher que ele salvou da morte, e viu apenas um monstro.
Ele tinha perdido seu filho, agora perderia sua herança, sua alma.
Com um aceno lento e derrotado da cabeça, ele cedeu, ele viu a satisfação brilhar nos olhos dela, a vitória fria de quem não tem nada a perder porque já perdeu a própria humanidade há muito tempo.
"Boa escolha, querido", ela disse, desligando o telefone. "Vou mandar os tratores amanhã de manhã."
Ela se virou e saiu, deixando-o sozinho no quarto vazio, com o sapatinho de lã na mão e os destroços de sua vida ao redor.
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O som dos tratores começou com o nascer do sol, um rugido metálico que rasgava a paz da manhã e entrava pela janela do quarto de João Carlos como um agouro, ele não dormira, passara a noite sentado na mesma cadeira, olhando para a escuridão que engolia a silhueta da floresta, sua floresta.
Cada ronco do motor era uma faca em seu peito, ele se sentia um prisioneiro em sua própria casa, os homens de Maria Eduarda, seguranças particulares com caras amarradas e armas na cintura, estavam por toda parte, Marcos, seu fiel capataz e único amigo, tentou falar com ele, mas foi barrado na porta da casa principal.
João Carlos estava sozinho, cercado pela traição, a raiva e a impotência queimavam em seu estômago como ácido.
Ele se levantou e foi até a janela, o que viu fez seu sangue ferver, as primeiras árvores centenárias, aquelas que seu avô costumava dizer que continham os espíritos dos antigos, tombavam com um estrondo surdo, levantando nuvens de poeira e terra vermelha, era uma profanação, um massacre.
Ele cerrou os punhos com tanta força que as unhas cravaram em suas palmas.
No meio da tarde, um dos seguranças bateu na porta, um homem corpulento que ele nunca vira antes.
"A senhora mandou avisar pra você não sair do quarto."
João Carlos não respondeu, apenas continuou olhando pela janela, o homem deu de ombros e ficou de guarda do lado de fora.
O tempo se arrastou, cada hora marcada por mais um estrondo de uma árvore caindo, a noite chegou, mas não trouxe silêncio, apenas o som mais distante das máquinas se preparando para o dia seguinte.
Foi quando a porta se abriu de novo, desta vez, era Marcos, seu rosto estava pálido, os olhos arregalados de pânico.
"João... João, é a sua mãe."
O coração de João Carlos parou, ele se virou, o medo tomando o lugar da raiva.
"O que tem a minha mãe, Marcos? O que aconteceu?"
"Ela... ela teve um acidente, João", gaguejou Marcos, a voz embargada. "A enfermeira disse que ela escorregou no banheiro, bateu a cabeça, quando a encontraram... já era tarde."
O mundo de João Carlos desabou, o chão sumiu sob seus pés, ele agarrou o braço de Marcos para não cair.
"Não... não pode ser", ele sussurrou, a negação desesperada. "Ela estava bem, eles estavam cuidando dela."
Naquele momento, Maria Eduarda apareceu na porta, atrás de Marcos, ela olhava para ele, o rosto uma máscara de falsa compaixão.
"Eu sinto muito, querido."
João Carlos a fuzilou com o olhar, a dor se transformando em uma fúria cega.
"Foi você", ele rosnou, avançando em sua direção. "Você a matou!"
Marcos tentou segurá-lo, mas a força de João Carlos era a força do desespero.
"Você me ameaçou! Você disse que ia machucá-la!"
Maria Eduarda recuou um passo, o sorriso de escárnio voltando aos seus lábios.
"Eu? Eu não fiz nada, foi um acidente trágico, se você tivesse cooperado desde o início, talvez ela não estivesse tão 'agitada', talvez nada disso tivesse acontecido, a culpa é sua, João Carlos, sempre sua."
Aquelas palavras foram a faísca que incendiou o barril de pólvora, João Carlos se lançou sobre ela, as mãos buscando seu pescoço, ele não pensava, apenas sentia, uma necessidade primitiva de silenciar aquela voz cruel para sempre.
Ele não chegou a tocá-la.
Os dois seguranças que estavam no corredor o agarraram, o arrancando dela com violência, eles o jogaram no chão, um deles o segurou pelos braços enquanto o outro começava a socá-lo.
O primeiro soco atingiu seu estômago, roubando-lhe o ar, o segundo, seu rosto, fazendo sua cabeça estalar para o lado, o gosto de sangue encheu sua boca.
"Parem! Parem com isso!", Marcos gritava, tentando intervir, mas foi empurrado para o canto do quarto.
João Carlos tentou se defender, mas era inútil, os chutes vieram em seguida, nas costelas, nas pernas, em todo lugar, a dor era aguda, lancinante, ele se encolheu no chão, tentando proteger a cabeça.
Ele ouvia a voz de Maria Eduarda, calma e diretora, por cima dos ruídos surdos dos golpes.
"Cuidado com o rosto, não quero que fique muito marcado, apenas o suficiente para ele aprender a lição."
"Sua desgraçada!", ele conseguiu cuspir, junto com um bocado de sangue.
Um chute mais forte nas costelas o fez gritar, um som abafado e quebrado, ele sentiu algo estalar, a dor se intensificou, tornando-se uma agonia branca e ofuscante.
Os golpes pararam, ele ficou ali, no chão, tremendo, cada respiração uma tortura, o mundo girava, pontos pretos dançavam em sua visão.
"Levem-no para o galpão", ordenou Maria Eduarda. "Tranquem-no lá, sem comida, sem água, até que eu decida o que fazer com ele."
Os seguranças o arrastaram para fora do quarto, ele não tinha forças para resistir, seus pés se arrastavam pelo chão, deixando um rastro de poeira e dignidade perdida.
Marcos correu atrás deles.
"Ele precisa de um médico! Ele está ferido!", implorava ele.
Maria Eduarda o barrou com um braço.
"Ele vai ficar bem", ela disse friamente. "Ele é um homem do campo, é forte, um pouco de dor só vai ajudá-lo a pensar melhor."
Eles o jogaram no chão de terra batida do galpão de ferramentas, a escuridão o envolveu, o cheiro de graxa e ferrugem enchendo suas narinas, a porta de metal bateu com um estrondo final, a tranca girou, selando seu destino.
Ele tentou se mover, mas uma onda de dor nauseante o paralisou, ele sentia o sangue quente escorrendo de um corte na testa, suas costelas gritavam a cada tentativa de respirar mais fundo.
"Marcos...", ele chamou, a voz um sussurro fraco.
Não houve resposta, ele estava sozinho, quebrado, no escuro, o som dos tratores havia parado, mas em sua mente, o barulho da destruição e da perda ecoava, mais alto e mais terrível do que qualquer máquina. A vida, como ele conhecia, tinha acabado.
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