Capítulo 2

Nana, minha assistente, percebeu o quanto eu estava exausta e abatida. Na verdade seu nome é Nancy Galles, sempre sabe do que preciso, alem de minha assistente é minha amiga e confidente. Mais no momento preferi não contar-lhe o ocorrido.

— Por que não descansa um pouco, Srta. Lya? — sugeriu gentilmente ela. — Vá para casa. Posso tomar conta do serviço sozinha. Se tiver alguma dúvida, eu lhe telefono.

— Obrigada, Nana. Estou mesmo precisando descansar. Só que não vou para casa. Ficarei aqui mesmo, em minha sala.

— Então lhe trarei um capuccino para que a senhora possa relaxar um pouco e se sentir a vontade. — fala ela.

Aqui no trabalho ela insiste em me tratar como sua chefe. Mais fora daqui somos mais que colegas de trabalho, por assim dizer.

Vagarosamente, eu caminhei em direção ao meu pequeno escritório, logo na entrada da biblioteca. Sentando-me à mesa, coloquei os olhos na enorme pilha de cartas que esperavam para ser respondidas. Talvez aquela tarefa me ajudasse a esquecer um pouco aquele problema. Tomei fôlego, e começei a ler, uma a uma.

— Entre, Nana — respondi, ao ouvir batidas na porta.

Quando levantei meus olhos para atender à minha amiga, me deparo com Vincent Stewart, parado de pé bem à minha frente.

— Sr. Stewart! — exclamei, surpresa, enquanto ele fechava a porta atrás de si.

— A Srta. Galle insistiu para que não a perturbasse, mas... — começou ele, divertido.

Perturbar? Perturbar era muito pouco para expressar o que eu estava sentindo naquele momento. As minhas pernas ficaram bambas, o coração batia descompassado e as minhas mãos trêmiam mal eu conseguia segurar a folha de papel.

— Sente-se, por favor — convidei, educadamente, quando na verdade minha vontade era colocar ele dali para fora.

Vincent sentou-se de frente para mim, me olhando intensamente.

— Em que posso ajudá-lo? — pergunto, tentando parecer natural, sem tirar os olhos daquele rosto impenetrável.

— Então não sabe por que vim até aqui? — perguntou ele, irônico. Eu fiquei sem ação.

— Pensei que teríamos combinado que eu lhe daria uma resposta por telefone.

— Achei melhor vir até aqui para esclarecer que não estava brincando quando lhe propus casamento — ele falou, sério, sem tirar os olhos de mim. — Case-se comigo e seu pai terá o prazo que tanto deseja.

— Não acha que está sendo... digamos, um pouco severo conosco? — pergunto, escolhendo as palavras certas.

— Tenho razões mais do que suficientes para agir assim! — rebateu, pegando um charuto que ele tinha em seu bolso. — E uma delas é que Leoncio Flaming assinou promissórias comprometendo-se a pagar a dívida até o próximo domingo.

Em seguida ele tirou uma baforada no charuto, agora mais do que nunca eu estava convencida de que havia algum segredo entre aqueles dois homens.

— Quanto o meu pai lhe deve? — perguntei, corajosa tentando ainda arranjar uma saida.

— Meio milhão de dólares — respondeu Vincent calmamente. O escritório começou a rodar e eu precisei respirar fundo para não perder o ar. Meio milhão de dólares! Aquilo era uma fortuna! Não era à toa que aquele homem estava pressionando o meu pai.

— Sr. Stewart... não há outro modo de resolvermos o problema?

Ele deu de ombros.

— Claro! Vendam tudo o que têm e o assunto será dado por encerrado.

— Não pode imaginar o que aquela casa significa para meus pais — falei amargurada. — Ela faz parte das nossas vidas.

— Felizmente não sou do tipo sentimental, Srta. Lyanna — ele falou, seco. — Tenho os pés no chão, lido com os fatos! Aprendi, há algum tempo, que não se devem misturar sentimentos com negócios.

Eu levantei-me e fui até a janela que dava para a rua. De fato, aquele homem parecia mais um robô do que um ser de carne e osso. Lá fora, no parque, crianças brincavam sem preocupações às crueldades que as cercavam. Eu senti até um pouco de inveja delas!

— Bem, e... e se eu me casar com o senhor? — perguntei, de volta à realidade daquela sala.

— Nesse caso, darei o tempo que seu pai me pede. Se ele me pagar tudo dentro desse novo prazo, você estará livre.

— Caso contrário... — pergunto, contendo a respiração.

— Terá sua liberdade ao final de doze meses, em qualquer circunstância, se é isso que a apavora, Srta. Lya. Antes, porém, espero que me recompense devidamente.

Ele disse aquilo com malícia e cinismo, descendo o olhar atrevido até os meus seios enquanto eles arfavam incontrolavelmente por conta da minha respiração.

— É revoltante! — desabafei, com voz sufocada.

— Sou um homem de trinta e oito anos, Lyanna, e não um romântico adolescente! Não me diga que, por algum momento, lhe passou pela cabeça que nosso casamento seria apenas no papel?

fiquei olhando enquanto ele se levantava, impaciente. A virilidade que emanava daquele corpo másculo despertava em meu íntimo, como nenhum outro homem havia despertado antes. Nem minhas paixões mais antigas conseguiu me deixar tão excitada.

— E quanto aos meus sentimentos? — perguntei, indignada, com o orgulho ferido e o coração magoado.

— Tenho observado você há alguns meses, bela dama, e concluí que, se realmente possui algum sentimento, está muito bem escondido.

— Parece estar certo de que vou aceitar sua proposta. Por quê?

— Você não tem outra escolha, minha flor! Traçou seu próprio destino ontem à noite, ao entrar no escritório de seu pai. Agora, só me resta descobrir o que há por detrás desse coração de gelo.

— E que diferença faria se ontem eu não tivesse entrado na conversa?

Ele riu, divertido, naquele momento um misto de ódio e prazer invadiu meu ser

— Seria lamentável, mas a esta altura seu pai já teria colocado a casa à venda.

Eu admito que ele dizia a verdade e que não teria pena de meu pai.

— Como você é mesquinho! — acuso-o, revoltada. — Está mesmo decidido a explorar o ramo de construções de toda a região, não é? Não importa se está prejudicando outras famílias, destruindo seus lares, desde que você satisfaça à sua maldita ambição! Mas existe uma coisa que jamais poderá comprar: a felicidade. Nunca, ouviu bem?

Ele não se assustou com o que eu disse.

— E quem está se preocupando com isso? Não estou em busca da felicidade, mas sim de justiça, e pouco me importa se você aprova ou não os meus métodos.

Achei que aquilo que ele falou já era demais.

— O quê? Justiça? E o que meu pai tem a ver com isso? Que mal ele lhe fez para que você queira arruiná-lo? — Falo exaltada

— Será que já não é o bastante o fato de não ter cumprido a palavra, pagando.a dívida dentro do prazo estipulado? — argumentou ele.

— Pois não vejo crime algum em dever dinheiro para alguém — revidei.

— Não? Pois saiba que, se eu quiser, posso colocar seu pai na cadeia! É só recorrer aos meios legais para receber o que por direito me pertence — disse Vince, agora bastante irritado.

— Meu pai não está fugindo do compromisso. Será que não entende? Só precisa de mais algum tempo. Se recorrer à Justiça, terá que se conformar em receber um pouco por mês — lembrou ela, tentando amenizar a conversa.

Ele calou-se por um momento. Depois voltou a falar calmamente:

— Pelo visto, não sabe mesmo como está a situação do seu pai. Fique ciente de uma coisa: você e sua mãe estão vivendo exclusivamente da antiga reputação de Leoncio. Ele está devendo à cidade inteira e, se eu abrir a boca, será o fim...

Eu estremeci só de imaginar. Vincent reparou na minha reação e ergueu as duas mãos.

— Mas fique tranqüila, porque não pretendo processá-lo. Posso dar-lhe mais uma chance. Adiarei a dívida, mas quero você como garantia. Embora saiba que ao final de um ano seu pai continuará sem condições de me restituir o dinheiro, e que tudo ficará como antes...

Eu tentei defender o meu pai daquela situação.

— Isso é o que você pensa! — protestei, irritada.

— Acha que estou errado? Então me responda como é que seu pai pretende me pagar? Não me diga que Leoncio está pensando em participar da concorrência para a construção da nova siderúrgica.

Ele parecia estar lendo os meus pensamentos. Meu segundo de silêncio fez ele responder.

— Se for isso, é bom desistir.

— Se meu pai pretende concorrer é porque tem condições de vencer: Ele sabe o que faz — murmurei, tentando convencer a mim mesma.

— Pare de dizer tolices — cortou ele, seco.

— Por quê?

— Por um motivo muito simples: a obra será minha! — disse, confiante.

Eu mordi o lábio inferior, com raiva, quase me ferindo. Jamais conheci um homem tão arrogante, mas ao mesmo tempo tão firme em suas decisões. Eu poderia até o admirar se a situação fosse outra.

— Você já ganhou tantas outras concorrências. Deixe essa oportunidade para o meu pai — humilhei-me mais uma vez, levada pelo desespero.

Mais ele não teve piedade.

— Vivemos num país democrático, portanto os direitos são iguais e vencerá o melhor.

— Como pode ser tão perverso! — exclamei, horrorizada, meus olhos cheios de lágrimas.

Vincent parecia nem reparar.

— Avise a seu pai que vou telefonar à noite, lá pelas oito horas, e quero uma resposta — concluiu ele, calmamente.

Depois, levantou-se decidido e saiu do escritório, fechando a porta.

Ainda sentada na cadeira, eu tremia incontrolavelmente. E agora? Precisava me decidir. Teria de se casar com Vincet para proteger o pai e salvar a família. Mas... e eu? O que seria do meu futuro, dos meus sonhos, dos meus sentimentos? Oh Deus! Era um preço alto demais a se pagar.

Capítulo 3

Diante do espelho, minha mãe fecha gentilmente o zíper do meu vestido de noiva, um longo vestido de seda branco com uma fenda na lateral que deixava a mostra uma de minhas pernas, e me olha pelo eapelho com ar suspeito.

— Ainda não entendi a razão desse casamento tão precipitado minha filha.

Apenas lhe dei um sorriso, tentando demonstrar felicidade.

— Nem ao menos tiveram tempo para ficar noivos — prosseguiu ela, desapontada. — Sempre sonhei com seu casamento numa bela igreja, cheia de flores, com músicas e muitos convidados...

Juntando as forças que ainda possuía, eu procurei não fraquejar. Eu tinha vontade de gritar que aquele casamento não passava de uma farsa para salvar a eles.

— Desculpe, mamãe. Sinto muito por ter estragado seus planos, mas Vincent e eu preferiamos uma cerimônia simples, no cartório.

Falei aquilo esforçando-me para conter as lágrimas.

— Que bobagem! — exclamou ela, me olhando de frente. — Você... não está grávida, não é? — ela perguntou, assustada.

— Ora, mamãe, que idéia! — rebati, indignada. — Como pôde imaginar uma coisa dessas?

— Não precisa ficar zangada. Eu só estava brincando — falou ela, ajeitando o meu lindo vestido branco. — Será que a irmã de Vincent vem de Joanesburgo, para assistir ao casamento?

— Vincent garantiu que sim — afirmei com naturalidade, como se eu participasse da intimidade familiar do meu futuro marido. Quando na verdade não faço ideia de quem seja a irmã de Vincent.

— Se não me engano, ela é médica e solteira — mamãe continuou.

— Isso mesmo. Disso eu sabia, pois Vincent comentou por alto.

— Lyanna... — mamãe falou baixinho, me segurando pelos ombros e me olhando nos olhos. — Tem certeza de que é isso mesmo o que quer?

"Não! Oh, mamãe, se você soubesse!", pensei comigo mesma, angustiada, controlando-me para que aquelas palavras não saíssem de minha boca. Precisava guardar meus sentimentos comigo, em sacrifício de minha família. Papai havia implorado que eu não contasse nada para mamãe.

— É claro que sim, mamãe — respondi, admirada com a calma que eu conseguia manter. — Agora é melhor você descer e fazer companhia ao papai. Enquanto isso, vou me maquiar. E pare de se preocupar comigo.

— Você é minha única filha, querida, e quero muito que seja feliz. Oh, acho que vou precisar de um lenço, pois vou acabar chorando igual uma manteiga derretida. — concluiu ela com os olhos marejados de lágrimas, dirigindo-se para a porta.

Sozinha no quarto, eu peço a Deus para não fraquejar olho novamente para o espelho. Os meus cabelos negros estavam presos num delicado coque no alto da cabeça, enfeitado por pequeninas flores silvestres. Comecei a pintar as pálpebras de meus olhos num tom azul claro, passei em meu rosto um pouco de base tentando esconder as olheiras que denunciavam as noites mal dormidas. Nunca mais voltaria a ser aquela mulher de antes, alegre, despreocupada, cheia de vida. Eu seria, a partir daquele momento, uma pessoa marcada pelo destino. Estaria eu cometendo um grande erro ao concordar com aquela farsa? Quem poderia garantir que, ao fim do novo prazo, o pai dela conseguiria, enfim, liquidar a dívida?

Por outro lado, jamais conseguirei esquecer o sofrimento estampado no rosto de meu pai, naquela noite, quando Vincent Stewart apareceu pessoalmente em busca de uma resposta? Ao mesmo tempo que temia pelo meu destino, ele parecia se sentir intimamente aliviado de um enorme peso.

Mais agora, era tarde demais para ponderações. Faltavam poucas horas para mim estar casada com aquele homem cruel, e só Deus sabe a quais humilhações serei submetida para satisfazer os caprichos dele.

Instintivamente balançei a cabeça, como se com isso pudesse afastar aqueles pensamentos, que só serviam para aumentar ainda mais minha agonia. Ficar me lamentando não resolveria nada. O que eu precisava agora era me preparar para representar o papel de mulher apaixonada diante dos poucos convidados.

Esatava terminando de passar batom nos lábios quando alguém bateu à porta. Abri e dei de cara com meu pai que foi entando no quarto.

— Já está pronta, minha filha?

— Quase papai... — murmurei um pouco, tensa, colocando umaa luvas que combinavam com o vestido.

Estava sentindo a garganta seca e as mãos começaram a suar, tamanho era o meu medo.

— Esta talvez seja a nossa última oportunidade de conversarmos a sós — começou papai, pegando as minas mãos.

— Papai, por favor, é melhor não. . . Papai me interrompe, nervoso:

— Preciso falar, minha filha. Quero que saiba o quanto lamento tudo isso. Se por um lado estou aliviado por estarmos salvos da ruína, por outro jamais me perdoarei por ter permitido que você se sujeitasse a tamanho sacrifício.

Ele disse aquilo com amargura, e eu não quis dizer mais nenhuma palavra. Estava decidida a ir até o fim e não queria piorar ainda mais o sofrimento do meu pai. Naquele instante ouvi a voz de mamãe, chamando do andar de baixo.

— Ei, vocês dois! Vamos Jogo ou chegaremos atrasados ao cartório.

— Já estamos descendo — respondeu papai, dando o braço para que eu segurasse.

Era uma bonita e ensolarada tarde de outono, mas para mim o céu estava cinzento, triste, como se fosse acontecer uma desgraça. Sentia-me como uma prisioneira que, condenada, deixava-se levar, sem direito a protesto, submissa, ao carrasco implacável. As folhas secas das velhas castanheiras cobriam o chão ao longo das ruas de Murrayville, formando um tapete dourado. A cidade tinha crescido muito, desde a construção da primeira siderúrgica. Havia muitos edifícios, construídos da noite para o dia, sem contar o grande número de casas que surgiam rapidamente na periferia, para acomodar os trabalhadores e suas famílias. Conseqüentemente, o ar saudável e puro de antes aos poucos iam se tornando poluído devido à fumaça das chaminés das fábricas. Os mais velhos assistiam, impotentes, à transformação das calmas e ensolaradas tardes, que, davam lugar à agitação e ao barulho.

Sem dúvida, um dos grandes culpados por aquela situação caótica era ninguém menos que o seu futuro marido, o grande Stewart, homem ambicioso e obstinado, que estava determinado a vencer. Naturalmente ele se achava o "todo-poderoso", dono de tudo.

Silencisamente parecíamos que estávamos a caminho de um funeral, mãe, papai e eu. Pouco depois, quando meu pai estacionou o carro ao lado do cartório, eu tremia incontrolavelmente.

Imediatamente Vincent apareceu, acompanhado da irmã, para receber-nos assim que descemos do automóvel. Vanessa Stewart era uma mulher atraente, alta e esbelta, tinha negros cabelos curtos e com os mesmos traços marcantes do irmão. A Pele tambem era de cor morena e altamente hidratada pelos cremes mais caros, dava para perceber pelo brilho de sua pele. Quando Vincent apresentou a moça para meus pais, eu esforçei-me para parecer tranqüila. Após as apresentações, todos nos dirigimos à ante-sala do cartório, onde o casamento seria realizado.

O noivo, muito elegante, vestia um terno cinza-chumbo, gravata preta e camisa branca, contrastando com o bronzeado da pele. Ao observá-lo discretamente, eu não pude deixar de reconhecer que ele era muito bonito e atraente.

Por um instante, nossos olhos se encontraram então ele segurou forte minha mão, como se quisesse impedir que eu escapasse.

— Vamos, meu bem, sorria ou todos vão pensar que não está feliz — ele pediu, baixinho, então comecei a sorrir tímidamente, sufocando o impulso de sair correndo daquele lugar.

Foi naquela pequena sala, diante do juiz que falava em tom solene o contrato nupcial, que eu senti algo morrer dentro de mim: meu próprio "eu". Daquele momento em diante, eu não seria mais simplesmente Lyanna, mas sim a Sra. Stewart, e o que o futuro me reservava ao lado daquele estranho só Deus poderia saber, ninguém mais.

— De acordo com as leis atribuídas a mim, eu vos declaro, marido e mulher. — Finaliza o juiz.

Vicent tenta pousar um beijo em minha boca, discretamente viro o rosto fazendo com que o beijo seja dado na bochecha.

A cerimônia acabou e, olhando para a minha mão esquerda, vi o anel de ouro todo trabalhado. Não havia mais remédio. . .

Naquele momento, enquanto eu admirava aquele anel senti os lábios gelados de Vincent sobre os meus, me pegou de surpresa me esforçei para não o empurrar. Vi ele sorrir vitorioso pois conseguiu me pegar desprevenida e beijar em meus lábios. Em seguida, sorrindo radiante, voltei-me para abraçar mamãe e papai. O rosto de meu pai estava marcado pelo sofrimento.

"Pobre papai...", pensei comigo, amargurada, enquanto me dirigia a Vanessa, que me cumprimentou com frieza.

Pouco depois eu estava assinando o livro do cartório. Finalmente, todos fomos para a mansão de Vincent, onde haveria uma recepção simples oferecida aos parentes e amigos mais chegados.

Perdida em meus pensamentos, não notei a chegada das empregadas que, adequadamente vestidas num uniforme de linho branco, serviam aos poucos convidados bolo e champanhe. Aceitei uma taça, mal sentindo o gosto daquela bebida, de tão nervosa que estava. Para tentar me acalmar, resolvi participar da conversa animada dos convidados, sempre me esforçando para parecer feliz e descontraída.

Vez por outra eu via o olhar de Vanessa, que estava a me observar. Será que minha cunhada desconfiava de alguma coisa? Estaria a par de tudo ou se tratava de uma simples curiosidade em razão do casamento do irmão?

— Façamos um brinde — propôs Vincent, aproximando-se e segurando-me pela cintura.

Imediatamente eu estremeci ao toque de suas mãos fortes. Senti o ar me faltar, mas, com muita classe, ergui o rosto corajosamente e sorri para o meu marido. Os olhos dele brilhavam como os de um guerreiro vitorioso diante do inimigo derrotado.

— Um brinde à minha jovem esposa! — sugeriu Vincent, sem despregar os olhos do meu rosto pálido e visivelmente amedrontado.

As taças tilintaram e eu absorvi um longo gole do champanhe, como se estivesse acostumada a beber.

— Acho que... vou chorar — murmurou mamãe, a poucos passos dali.

Aproveitando a oportunidade para se desvencilhar do meu marido, eu corri para o lado de minha mãe. Porém papai, chegou primeiro:

— Ora, pare com isso, mulher — ele a censurou, com brandura, olhando para o relógio de pulso. — Vamos, está na hora de irmos embora.

Mamãe bebeu o resto de champanhe que havia no copo e voltou a me olhar.

— Cuide-se, meu bem... — disse ela, abraçando-me, com os olhos cheios de lágrimas.

— Quem vê pensa que estou partindo para a guerra, por Deus mamãe— respondi, brincalhona, tentando tranqüilizar-la. — Tudo será como antes. Continuarei trabalhando na biblioteca e prometo visitá-la sempre que puder!

Em seguida me despeço do meu pai, cuja expressão sombria demonstrava claramente o quanto lhe custava deixá-me ali, naquela casa, à mercê do seu pior inimigo.

Vi o carro dos meus pais desaparecer pela alameda florida e fiquei ainda algum tempo ali, parada, contemplando os últimos raios de sol, que desaparecia no horizonte. Uma tristeza imensa invadiu meu coração e, levando a mão aos olhos, eu enxuguei as lágrimas que teimavam em escorrer borrando a maquiagem. Passados alguns instantes, decidi entrar, antes que Vincent fosse a minha procura.

O clima estava carregado quando eu voltei à sala, principal. Todos os convidados já haviam partido, mas felizmente Vanessa ainda se encontrava ali. Na presença da minha cunhada, seria fácil para enfrentar meu marido

— Acho que vou tomar um banho para me refrescar. Está fazendo um calor. — falei, no intuito de me afastar dali.

— Suba a escada, à direita — informou Vincent, indiferente. — Nosso quarto fica bem no meio do corredor. As empregadas já guardaram suas coisas no armário.

Dito isso, ele voltou a atenção para Vanessa.

Ao ouvi-lo dizer "nosso quarto", senti um arrepio percorrer meu corpo. Não podia acreditar que ele fosse tão ordinário, a ponto de exigir que nós fizéssemos amor.

— Obrigada — respondi, com naturalidade, e com o coração aos saltos subi as escadas apressada.

Várias portas davam para o enorme corredor. Indecisa, eu abri uma delas e me deparei com um pequeno e aconchegante aposento. Havia ali uma cama de solteiro encostada à parede e um armário laqueado de branco. As cortinas de babados iam até o chão, proporcionando ao ambiente um toque romântico.

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Vingança do Ceo

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