Capítulo 2

Helena não dormiu. Ela sentou no chão no canto do quarto, observando o homem inconsciente, esperando. O sol começou a nascer, lançando longas sombras cinzentas pela cidade. Assim como Breno havia prometido, dois homens em ternos escuros e discretos chegaram. Eles eram silenciosos, eficientes e profissionais. Limparam o sangue, removeram o homem e deixaram o quarto exatamente como estava antes. Como se nada tivesse acontecido.

Algumas horas depois, uma empregada bateu em sua porta. Era Marta, uma mulher que trabalhava na cobertura há anos e sempre fora gentil com ela. Hoje, seu rosto era uma máscara fria e formal.

"O Sr. Monteiro instruiu que você retire seus pertences deste quarto", disse Marta, sem encontrar os olhos de Helena.

Helena apenas assentiu, seu coração uma pedra entorpecida e pesada no peito.

"Uma nova hóspede chegará em breve para ocupar esta suíte", acrescentou Marta, sua voz seca.

"Eu entendo", disse Helena. Ela não sentia nada. Nenhuma raiva, nenhuma tristeza. Apenas um vazio vasto e oco. Ela tomou um banho, deixando a água quente escorrer sobre ela, tentando esfregar a sujeira dos últimos oito anos. Vestiu um simples par de jeans e um suéter, roupas que pareciam mais sua própria pele do que os vestidos de grife jamais pareceram.

Enquanto ela estava embalando o último de seus materiais de arte em uma caixa, a porta da suíte se abriu. Uma mulher estava lá, banhada pela luz da manhã. Ela era linda, com os mesmos cabelos escuros e traços delicados de Helena. Era como olhar para um reflexo distorcido.

"Então você é a substituta", disse a mulher, sua voz pingando uma mistura de diversão e desprezo. Ela entrou, olhando ao redor do quarto como se fosse a dona. "Eu sou Karina Lacerda. É um prazer finalmente ver a isca pessoalmente."

Helena finalmente entendeu. Não era apenas sobre proteção. Arthur a escolhera porque ela se parecia com Karina. Ele passara oito anos transformando-a em uma cópia perfeita, uma substituta para a mulher que ele realmente queria.

Os olhos de Karina percorreram Helena da cabeça aos pés. "Arthur estava ficando impaciente para eu voltar da Europa. Acho que olhar para você não era mais suficiente para ele."

Helena não disse nada. Pegou sua caixa, com a intenção de passar por Karina e deixar este pesadelo para trás.

Ela tentou oferecer um aceno educado, um gesto final e sem sentido.

Ao passar, Karina de repente ofegou e tropeçou, seu braço se agitando como se tivesse perdido o equilíbrio. Foi um ato desajeitado e óbvio.

"Oh!", gritou Karina, caindo em direção ao chão.

Naquele exato momento, Arthur apareceu na porta. Ele se moveu com a velocidade de um raio, seu rosto uma máscara de puro pânico. Ele passou correndo por Helena, empurrando-a para o lado para pegar Karina antes que ela atingisse o chão.

O empurrão foi forte. Helena tropeçou para trás, sua cabeça batendo na quina afiada de uma mesa com tampo de mármore. A dor explodiu atrás de seus olhos, e ela viu estrelas. Ela deslizou para o chão, sua visão embaçando.

"Karina! Você está bem?", a voz de Arthur estava cheia de um terror frenético que Helena nunca tinha ouvido antes, nem mesmo quando ela sofreu um acidente de carro. Ele segurava Karina como se ela fosse feita de vidro fiado.

"Estou bem, Arthur", murmurou Karina, agarrando-se a ele e lançando um olhar triunfante e venenoso para Helena por cima do ombro dele. "Acho que... acho que a Helena pode ter me empurrado. Foi um acidente, tenho certeza. Ela deve estar chateada por eu ter voltado."

A cabeça de Arthur se virou para Helena, seus olhos ardendo com fúria fria.

"Peça desculpas a ela", ele ordenou.

Helena o encarou do chão, sua cabeça latejando. A injustiça era tão profunda que era quase absurda. "Eu não a toquei", disse ela, sua voz fraca.

"Eu disse, peça desculpas." Sua voz foi um estalo de chicote.

Ela balançou a cabeça, a incredulidade lutando com a dor. "Não."

"Ótimo", rosnou Arthur. Ele pegou Karina nos braços como se ela não pesasse nada. "Você pode ficar na sala de reflexão até aprender boas maneiras."

Ele levou Karina embora, murmurando palavras suaves e reconfortantes para ela. Ao saírem, Karina olhou para trás, para Helena. Seus olhos brilhavam de vitória, um pequeno sorriso cruel brincando em seus lábios.

Dois seguranças apareceram e puxaram Helena bruscamente para seus pés. Eles a arrastaram por um longo corredor até um quarto no final da cobertura. Era um espaço pequeno, sem janelas, mobiliado com nada além de uma única cadeira dura. Eles a empurraram para dentro e trancaram a porta.

Uma das empregadas, uma mulher mais jovem que sempre tivera ciúmes de Helena, destrancou a porta alguns minutos depois.

"O Sr. Monteiro disse que você não merece conforto", a empregada zombou, puxando a cadeira para fora do quarto. "E sem comida ou água até que você esteja pronta para se desculpar com a Srta. Lacerda."

A porta bateu novamente, mergulhando Helena na escuridão absoluta. O ar estava frio e viciado. Ela deslizou pela parede até o chão, abraçando os joelhos. A dor latejante em sua cabeça era uma batida surda e constante. Ela estava com fome, com frio e presa no escuro.

Ela pensou no passado. Arthur tinha fobia do escuro. Ele não conseguia dormir sem uma luz acesa. Uma vez, durante um apagão, ele ficou quase frenético, e ela segurou sua mão a noite toda, contando-lhe histórias até a energia voltar. Ele a chamara de sua luz.

A memória era uma ferida fresca e profunda. Era tudo mentira.

Lágrimas que ela não sabia que ainda tinha começaram a escorrer por suas bochechas. Ela chorou silenciosamente no frio e no escuro, lamentando a garota que fora e o amor em que acreditara.

Horas depois, a porta finalmente se abriu. Arthur estava lá, silhuetado contra a luz do corredor. Seu rosto era ilegível.

"Levante-se", disse ele, sua voz seca. "Vista-se. Vamos sair."

Helena tentou se levantar, mas suas pernas estavam fracas de fome e frio. Ela tropeçou, seus joelhos cedendo.

Karina apareceu atrás de Arthur, parecendo fresca e bonita em um vestido novo. "Oh, Helena, olhe para você", disse ela, sua voz cheia de falsa simpatia. "Você deveria ter apenas se desculpado. Arthur estava tão preocupado comigo."

Ela olhou para um relógio na parede. "Vamos nos atrasar para o leilão de caridade. É um evento muito importante."

Os olhos de Arthur estavam frios. "Vistam-na", ordenou ele à empregada que estava atrás de Karina. Duas empregadas vieram e puxaram Helena bruscamente para seus pés, tirando suas roupas simples e forçando-a a vestir um vestido elegante e desconfortável. Elas arrumaram seu cabelo e maquiagem com mãos rudes e impacientes, como se ela fosse uma boneca.

O leilão foi um borrão de luzes brilhantes e vozes altas. Helena se sentia tonta e enjoada. Sua cabeça ainda doía, e seu estômago era um nó apertado de fome. Ela sentou-se ao lado de Arthur, um acessório silencioso e bonito.

Ela não prestou atenção às joias reluzentes e à arte cara que estavam sendo vendidas. Nada daquilo importava.

Então, um novo item foi apresentado. Era uma peça pequena e despretensiosa. Um medalhão de prata em uma corrente simples.

A respiração de Helena ficou presa na garganta. Ela o reconheceria em qualquer lugar. Tinha um arranhão minúsculo e único no fecho. Era de sua mãe. Fora roubado de seu antigo apartamento anos atrás, uma perda que ela lamentara profundamente.

Era a única coisa no mundo que era verdadeiramente dela, a última peça de sua vida antiga, de seu verdadeiro eu. Mas ela não tinha dinheiro. Arthur controlava cada centavo. Ela era um pássaro em uma gaiola dourada, e a porta da gaiola estava trancada.

Ela se virou para Arthur, sua compostura cuidadosamente construída finalmente se quebrando. Ela agarrou sua manga, seus dedos cravando no tecido caro de seu terno.

"Arthur, por favor", ela implorou, sua voz um sussurro desesperado. "Você tem que conseguir isso para mim. Por favor."

Nesse momento, Karina se inclinou para o outro lado de Arthur. "Oh, que bonito", disse ela, sua voz leve e musical. "Acho que eu gostaria disso, Arthur."

Capítulo 3

O coração de Helena martelava contra suas costelas. Suas mãos estavam úmidas enquanto ela encarava Arthur, cujo rosto permanecia uma máscara de indiferença.

"Por favor, Arthur", ela sussurrou novamente, sua voz quebrando. "Era da minha mãe. É a única coisa que me resta dela."

Ela tentou explicar o significado do medalhão, as memórias ligadas a ele, a maneira como sua mãe o usava todos os dias.

Karina soltou uma risada leve e tilintante que cortou as palavras de Helena. "Oh, Helena, sempre tão sentimental. É apenas um pedaço de prata. Tem certeza de que não está apenas inventando uma história para chamar a atenção de Arthur?"

Ela virou seus olhos grandes e inocentes para Arthur. "Eu posso comprar para mim mesma, é claro. Só achei charmoso."

Com um movimento do pulso, Karina levantou sua raquete de leilão.

"Cem mil reais", ela anunciou, sua voz clara e confiante.

A esperança de Helena desmoronou. Ela se virou para Arthur, seus olhos suplicantes. "Arthur, eu faço qualquer coisa. Nunca mais vou pedir nada, eu prometo. Apenas esta única coisa."

Karina riu de novo, mais alto desta vez. "Ouça-a, Arthur. 'Nunca mais vou pedir nada.' Quantas vezes já ouvimos isso? Ela é uma mentirosa. Está apenas tentando te manipular."

A mandíbula de Arthur se contraiu. Seu olhar mudou do rosto desesperado de Helena para o rosto sorridente de Karina, e sua expressão ficou sombria.

Ele, lenta e deliberadamente, soltou os dedos de Helena de sua manga.

"Você envergonhou a Karina esta manhã", disse ele, sua voz perigosamente baixa. "Este será o meu pedido de desculpas a ela."

Ele acenou para seu assistente, que estava sentado atrás deles. O assistente imediatamente levantou sua raquete. Os lances aumentaram rapidamente, mas a riqueza de Arthur era ilimitada. Em um minuto, o martelo caiu.

"Vendido, para o representante do Sr. Monteiro."

Helena balançou a cabeça, um apelo silencioso e desesperado. "Eu não fiz nada de errado", ela sussurrou, lágrimas brotando em seus olhos. "Ela caiu de propósito."

"Fique quieta", sibilou Arthur, sua voz como uma lâmina. "Diga mais uma palavra e você vai se arrepender."

Alguns minutos depois, um funcionário do leilão trouxe o medalhão para a mesa deles em uma caixa de veludo. Karina o aceitou com um sorriso radiante.

"Obrigada, Arthur", ela arrulhou, lançando um olhar triunfante para Helena.

Helena não conseguia desviar o olhar do medalhão. Seus lábios estavam brancos, todo o seu corpo tremia.

Karina abriu a caixa, seus olhos brilhando de malícia. "Aqui, Helena", disse ela docemente. "Por que você não experimenta? Já que significava tanto para você."

Helena hesitou, dividida entre seu orgulho e a necessidade desesperada e dolorosa de tocar o medalhão mais uma vez. Lentamente, ela estendeu a mão.

No momento em que seus dedos tocaram a prata fria, a mão de Karina ficou frouxa. Ela "acidentalmente" soltou o medalhão. Ele caiu no chão de mármore e se estilhaçou, a delicada caixa de prata se partindo.

O tempo pareceu parar. Helena olhou para os pedaços quebrados, seu coração se partindo junto com eles. Karina soltou um suspiro teatral.

"Oh, meu Deus! Helena, como você pôde ser tão desajeitada? Você quebrou o presente de Arthur para mim!"

Helena caiu de joelhos, ignorando os suspiros e sussurros das mesas ao redor. Ela começou a juntar cuidadosamente os minúsculos pedaços quebrados da memória de sua mãe. Uma borda afiada cortou sua palma, mas ela mal sentiu. Ela mordeu o lábio com tanta força que sentiu o gosto de sangue.

Arthur olhou para ela, seu rosto uma máscara de nojo frio. "Pare de fazer cena", ele rosnou. "Vamos para casa."

Ele tentou levantá-la, mas ela resistiu, agarrando os fragmentos em sua mão. A combinação de fome, dor e coração partido era demais. Sua visão turvou, o quarto inclinou, e ela desmaiou, caindo em seus braços.

Ela acordou em seu antigo quarto, aquele que fora forçada a desocupar. A primeira coisa que viu foi Karina, sentada em uma cadeira ao lado da cama. Aos seus pés, enrolado, estava um Doberman grande e ameaçador, seus dentes à mostra em um rosnado baixo.

Helena sentiu um choque de medo. "Onde está o Sketch?", ela perguntou, sua voz rouca. Sketch era seu gato, um pequeno cálico que ela resgatara de um abrigo, seu único verdadeiro companheiro nesta casa solitária.

"Arthur não está aqui", disse Karina, ignorando sua pergunta. Ela acariciou a cabeça do Doberman. "Ele foi escolher um novo presente para mim, para substituir aquele que você quebrou tão descuidadamente."

Lágrimas encheram os olhos de Helena novamente. Sua vida, sua dor, significavam menos para ele do que uma joia.

"Mas ele mandou o chef preparar uma sopa para você", continuou Karina, gesticulando para uma tigela na mesa de cabeceira. "Ele disse que você deve estar com fome. Ele me pediu para trazer para você."

Helena olhou para a sopa, depois para o sorriso cruel no rosto de Karina. Ela soube, com uma certeza profunda, que algo estava errado. "Eu não quero."

Ao sinal de Karina, duas empregadas entraram no quarto. Elas agarraram Helena, segurando-a enquanto Karina pegava a tigela quente. Elas forçaram sua boca a abrir e começaram a derramar o líquido escaldante por sua garganta.

Helena engasgou e tossiu, a sopa quente queimando sua boca e peito. O Doberman latiu excitado, e Karina riu.

"Ele é um bom cão, não é?", disse Karina em tom de conversa. "Ele é muito bom em pegar coisas. Coisas pequenas. Como gatos."

O sangue de Helena gelou. Ela encarou Karina, uma suspeita horrível surgindo.

"Onde está o meu gato?", ela exigiu, agarrando o braço de Karina, suas unhas cravando em sua pele. "O que você fez com o Sketch?"

Karina puxou o braço, sua fachada doce finalmente caindo para revelar o monstro por baixo. "Me solta, sua vadia!", ela gritou. "Você quer saber onde está seu gato? Você acabou de bebê-lo."

Continue lendo
Apoie o autor e inspire mais histórias incríveis Moboreader
Desbloquear todos
Capítulo
Personalizar
Próximo Capítulo
Minishorts Logo
Leia web novels, ficção online e histórias românticas em alta no MiniShorts. Descubra romances de bilionários, fantasia de lobisomens, drama e novelas de fantasia, além de conteúdos selecionados de dramas curtos inspirados nas tendências de narrativa mais populares.
MiniShorts YouTube
PRODUTOS E SERVIÇOS
Sobre nós
support@minishorts.com
©2026 MiniShorts Todos os direitos reservados. CHASINGTOP HK LIMITED