Capítulo 2

A cozinha foi se esvaziando aos poucos.

Meu avô saiu primeiro, ajeitando o chapéu de palha, reclamando do sol que já castigava cedo demais. Minha avó foi atrás, levando uma cesta de pano e a lista mental dos afazeres do dia: galinhas, horta, roupas no varal.

Meu pai caminhou devagar até a varanda e voltou a se sentar na cadeira de sempre, como se aquele fosse o único lugar onde ainda se sentia inteiro. Ficou ali, observando o nada, com os cotovelos apoiados nos joelhos e o olhar perdido no pasto.

Fiquei na cozinha, terminando de lavar a louça. O barulho da água caindo na pia era quase hipnótico. Pratos simples, copos antigos, tudo no seu devido lugar. Sempre foi assim. Ordem era a forma que encontrei de manter o caos longe.

Senti o olhar dela antes mesmo de virar o rosto.

Ana Paula estava encostada no batente da porta, em silêncio. Sem celular, sem pressa. Só me observava, como se tentasse entender como alguém podia viver assim ou, talvez, criando coragem.

Ela acompanhava meus movimentos com atenção. Minhas mãos molhadas, o avental já gasto, o cabelo preso de qualquer jeito.

Eu terminei de enxaguar o último prato e o guardei no armário.

Foi então que ela falou:

- Preciso falar com você. Sozinha.

O tom baixo e contido fez meu estômago se contrair.

Não era um pedido, era um aviso.

Enxuguei as mãos com calma, mesmo sentindo o coração acelerar.

- Agora?

Ela assentiu, já se afastando pelo corredor.

O quarto antigo nos recebeu com o mesmo cheiro de madeira e de lembranças. Ana Paula fechou a porta atrás de nós e, por alguns segundos, ficou parada no meio do cômodo, como se tivesse esquecido o motivo de estar ali.

Então, a máscara caiu.

- Clara, eu não aguento mais! - disparou. - O Pedro quer me vender! Ele e aquela aliança maldita de empresários!

Caminhava de um lado para o outro, as mãos trêmulas.

Ela parou, abriu a bolsa e tirou o celular. Encarou a tela apagada por alguns segundos, como se buscasse coragem.

- Eu vou me casar.

Senti o mundo girar.

- O quê?

- Não por escolha - apressou-se. - É um acordo antigo. Entre famílias.

- Com quem?

Ela engoliu em seco.

- Leonardo Montenegro.

O nome soou como uma sentença.

Eu o conhecia pelas notícias. O "Czar de Gelo" do mercado financeiro. O homem que perdera a noiva semanas antes do casamento, em um acidente que chocara o país. Desde então, diziam que seu olhar era feito de lâminas.

- Paula, ele tem quase dez anos a mais do que você. Dizem que ele é...

- Um monstro de terno? - ela interrompeu, a voz quebrada. - Sim. Ele é. Quer uma esposa troféu enquanto tenta derrubar as regras daquele grupo de velhos poderosos. Sem esposa, não pode continuar liderando as empresas.

Ela começou a chorar. Não era um choro calmo, mas de quem chegou ao limite.

Então me contou sobre o pacto. Sobre como a fortuna do padrasto dependia desse acordo. Então, lançou a bomba.

- Eu sei sobre o papai. Vi as contas médicas. Ouvimos boatos sobre o sítio. Vocês vão perder tudo, não vão?

Baixei a cabeça. O silêncio respondeu por mim.

- Eu tenho um plano - ela segurou minhas mãos. - A mamãe já concordou. Ela vai garantir o dinheiro.

Meu coração disparou.

- Troque de lugar comigo. Só por alguns meses. Leonardo não quer uma esposa de verdade; ele odeia a ideia desse casamento. Ele vai te deixar em um canto da mansão e esquecer que você existe. Em troca, a mamãe transfere o dinheiro para o tratamento do papai e quita as dívidas do sítio. Hoje mesmo.

Imagens da infância invadiram minha mente. Nós duas trocando roupas, nomes, identidades. Enganando professores, confundindo adultos.

Olhei para minhas mãos calejadas. Imaginei anéis de diamante.

Olhei pela janela. Vi meu pai curvado pela tosse.

- Ele vai perceber - sussurrei.

- Ele nunca me olhou nos olhos por mais de dois segundos. Para ele, sou apenas um item em um contrato.

Parecia absurdo.

Perigoso.

E talvez fosse a única saída.

Naquele momento, entendi: o 'sim' que eu diria no altar não seria para Leonardo Montenegro.

Seria para salvar a vida do meu pai.

Eu seria a esposa errada, no mundo errado, torcendo para que o Czar de Gelo jamais descobrisse que a mulher em sua casa era apenas uma impostora do interior.

Capítulo 3

Balancei a cabeça devagar, tentando organizar os pensamentos que se atropelavam dentro de mim.

- Paula... não é só vestir suas roupas e repetir seu nome - falei, finalmente. - Sua vida é outra. Seus amigos, seus hábitos, sua forma de falar... Eu não sei viver naquele mundo.

Ela respirou fundo, como se já esperasse por aquilo.

- Eu sei. - Aproximou-se da janela, apoiando as mãos no parapeito. - Você sempre foi... inteira. Eu sempre fui moldada.

Virei o rosto para ela.

- Isso não é verdade.

- É, sim - respondeu, sem me olhar. - Você sabe quem é. Eu sei o que esperam que eu seja.

O silêncio caiu entre nós.

- E sua profissão? - perguntei. - Seus colegas, seus contatos... Eu não posso fingir entender coisas que nunca vivi.

Ela se virou então, com um meio sorriso cansado.

- Nossas áreas são diferentes, mas conversam entre si. Você entende o suficiente para não levantar suspeitas. E o resto... - deu de ombros - ninguém realmente presta atenção quando acha que já sabe quem você é.

Aquilo me arrepiou.

- E seus amigos? - insisti. - Eles te conhecem. Sabem como você age.

- Os mais próximos já se afastaram desde que esse casamento foi anunciado - respondeu, amarga. - E os outros... gostam mais do que eu represento do que de mim.

Caminhou até a cama e se sentou.

- Clara, eu pensei em tudo.

Essa frase nunca é reconfortante. Nunca.

- Antes de voltarmos pra cidade, vamos fingir um acidente doméstico.

Meu coração falhou uma batida.

- Um... o quê?

- Uma queda - disse com naturalidade demais. - Nada espetacular. Escada, banheiro, algo comum. Mamãe vai anunciar tudo com aquele tom dramático que ela sabe usar tão bem.

Engoli em seco.

- Você bate a cabeça - ela continuou. - Fica desacordada por um dia inteiro. Na clínica particular de uma amiga dela. De confiança.

- Eu?

- Sim. Você. Sedada. Quando acordar, vai dizer que está confusa. Pequenos lapsos. Esquecimentos pontuais. Nada grave demais para justificar um afastamento, mas o suficiente para explicar mudanças.

Meu estômago embrulhou.

- Isso explica, caso eu não reconheça algumas pessoas... - murmurei, começando a entender.

- Exatamente. - Os olhos dela brilharam. - Médicos adoram zonas cinzentas. E pessoas ricas não gostam de questionar diagnósticos quando eles são convenientes.

Fiquei em silêncio.

- Temos a semana toda pela frente. Nós vamos estudar juntas - Paula continuou. - Meus gostos, minhas manias, meus amigos mais citados. A mansão. Os empregados. O que cada um espera ouvir.

- E Leonardo? - perguntei, sentindo o nome pesar na língua.

Ela deu de ombros.

- Não temos muito contato. E isso joga a nosso favor.

A ideia crescia diante de mim, assustadora e cada vez mais possível.

- E nossos avós? - minha voz saiu baixa. - E papai?

Ela hesitou pela primeira vez.

- É a parte mais difícil - admitiu. - Talvez... não contemos tudo. Inventamos uma desculpa para sua ausência. Um trabalho. Um projeto temporário.

- Você quer que eu minta para o homem que nunca me escondeu nada?

- É para salvá-lo, Clara! Se dissermos a verdade, ele morre antes da doença. Deixe que ele pense que você está feliz, realizando seu sonho.

- E o dinheiro?

- Pagamento adiantado. - respondeu rápido. - Algo que seja justificado por uma proposta de emprego ou por um projeto remunerado.

Fechei os olhos.

Mentir para estranhos era uma coisa.

Mentir para quem me criou... era outra.

- Eu não posso ficar aqui - Paula acrescentou, quase em defesa. - Não aguentaria. Isso me sufocaria.

- Então você vai pra onde? - perguntei.

Ela respirou fundo, como quem finalmente fala de algo que ama.

- Vou viajar. Como sempre planejei. Um descanso sabático. Europa, Ásia, África... - sorriu de leve. - Termino no Canadá.

Meu peito apertou.

- Tudo já está organizado - continuou. - Agência, roteiro, hotéis. Só vou mudar o nome do pacote.

- Para o meu.

- Sim.

Olhei para ela. Para o mesmo rosto que o meu refletia. Para a distância invisível entre nossas escolhas.

- Você nem vai viver minha vida... enquanto eu vivo a sua - murmurei.

- Quase. Pelo que me lembro, você também sempre quis conhecer o mundo. Estar entre as culturas e os povos que você tanto estuda. Serão apenas alguns meses. É só uma troca temporária.

A palavra "temporária" nunca pareceu tão frágil.

Lá fora, ouvi a tosse do meu pai. Seca. Dolorosa.

Abri os olhos.

- Se eu fizer isso - falei, sentindo o peso da decisão esmagar meus ombros -, não é por você. Nem por esse acordo maldito.

Ela se aproximou.

- Eu sei.

- É por ele - completei. - E só por ele.

Ana Paula assentiu, emocionada.

Naquele quarto simples, entre lembranças de infância e um futuro que eu jamais planejei, entendi que minha vida acabara de se dividir em duas.

A que eu conhecia.

E a que eu estava prestes a roubar.

E, pela primeira vez, senti medo não do que eu perderia, mas de quem eu poderia me tornar.

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