Bom dia, Alysson! Tudo pronto por aqui? Podemos começar? — Ele tenta manter o controle, mas falta pouco para descobrirmos o que tanto o está deixando desta forma. — Está sim, Richard, fique à vontade. Ele pega o microfone e pede a todos que se sentem para dar início a reunião. Após uns cinco minutos, todos estão acomodados e o auditório está em silêncio. Richard suspira e começa agradecendo a todos pela presença. Ele discursa um pouco sobre a história da empresa, o tempo em que está à frente da matriz, e então nos conta que no último ano alguns contratos foram cancelados, pois, a falta do CEO da empresa os fez perder vários clientes que negociam somente com ele, mas que por problemas pessoais ele está impossibilitado de voltar. Então ele solta a bomba no colo de todos: — Sinto informar que precisaremos reduzir drasticamente nosso quadro de funcionários por algum tempo. — Forma-se uma agitação na sala, mas ele não demora para retomar seu discurso: — Peço por favor a calma de todos, nos sentaremos com os gerentes de cada setor para resolver o que faremos, mas de antemão aviso que estagiários e temporários serão dispensados de imediato. Todos terão seus direitos garantidos. Ele anda pelo palco, parecendo pensar e então finaliza seu discurso: — Informo a todos também que dentro de alguns dias o CEO da Grant Investimentos, o Sr. James Grant, voltará da França para assumir a empresa em definitivo. Obrigado! — Ele vem até mim e entrega o microfone, mas não antes de me dizer: — Alysson, venha à minha sala assim que terminar aqui, precisamos conversar. Assinto, com meu coração batendo freneticamente. Espero que minha mente não esteja divagando, mas seu tom parece de pesar. Pouco tempo depois, bato à porta de Richard aguardando que me autorize a entrar, e assim que o vejo, com os cotovelos apoiados na mesa, ele me olha e acena para que eu sente. Faço o que me pede, mas já não sinto as minhas pernas, minhas mãos tremem e sei que o que tem a me dizer não são boas notícias. — Alysson, serei direito e sem rodeios. Você é a melhor assistente que a Grant já teve nestes últimos anos, dedicada, inteligente e responsável, se eu pudesse fazer algo para que isso não acontecesse eu faria, mas infelizmente não posso. — O que quer dizer com isso? Ainda não entendo. — Baixo a cabeça e observo meus sapatos, pensando no quanto me esforcei para parecer apresentável, e o quanto eles me custaram. Volto a encará-lo e ele desvia o olhar. — Terei que dispensar todas as assistentes, foi um pedido direto do James. Vamos cortar tudo que pudermos para resolver este imenso problema em que nos encontramos. Nós também seremos afetados. Sinto muito. — Ele se joga contra o encosto de sua cadeira. Solto com força o ar que nem percebia prender. Tento ser o mais racional possível, sei que não é culpa dele, porém, por dentro a raiva me consome. Não posso entender, me dediquei tanto no último ano, e agora sem mais, nem menos o todo-poderoso CEO, resolve que até os que dedicaram tanto de sua vida por esta empresa, podem ser dispensados. Minha vontade é caçá-lo onde quer que esteja, e lhe dizer umas boas verdades. Pode ser que seja uma boa ideia. Ao notar sua expressão pesada e ver que é um caminho sem volta, solto: — Richard, amo trabalhar aqui, sonhei em crescer nesta empresa, pensei que teria mais tempo, mas entendo. Não posso ficar feliz com isso, mas sei que se pudesse, você faria algo, acredito em você. — Meus olhos já estão marejados, mais seguro a vontade de chorar. — Preciso que você passe hoje mesmo no RH, já foi tudo providenciado com antecedência, não precisará voltar. — Ele desvia o olhar mais uma vez, agora em direção à janela. — Sinto muito mesmo, Aly. — E desde que chegou, é a primeira vez no dia que ele me chama dessa forma carinhosa. Sinto a sinceridade em sua voz. — Eu também sinto, Richard. — Levanto-me sem mais o que dizer e saio da sala, fazendo meu caminho até o RH para dar um fim ao meu sonho na Grant. Meu dia começou com um turbilhão de informações da Sede em Nova York. Este é um dos piores anos da minha vida desde que descobri que minha própria noiva tramou pelas minhas costas. Ela desviava quantidades bastantes relevantes dos cofres da empresa com ajuda do gerente financeiro, com o qual mantinha um caso. Chloe sempre deixou claro que, além de bonita, era bastante ambiciosa. Quando nos conhecemos, ela prestava serviço para a Grant como auditora. A empresa de sua família, fazia anualmente a audição dos contratos, e foi ela quem esteve à frente com o Edgar, nosso gerente financeiro. Ela sempre se mostrava disponível, então um belo dia a convidei para jantar. A auditoria durou alguns meses, e na maioria dos dias ou estávamos jantando, ou na cama. Após terminado o trabalho na empresa, começamos a nos ver com mais frequência, e em menos de um ano estávamos noivos. Nas semanas que antecederam a descoberta do roubo, eu sempre a encontrava me esperando no escritório. Só depois notei o quanto era estranho. No tempo em que trabalhava aqui, nunca foi de me procurar pela empresa. Mesmo tendo assuntos a tratar, ela deixava com Edgar as informações a serem passadas sobre a auditoria. Qual não foi a minha surpresa ao encontrar os dois aos beijos na sala do meu gerente. Depois daquele dia, nunca mais a vi, porém, nada me preparou para o que eles fizeram a minha empresa. Descobri que ambos desviavam quantias significativas dos contratos, e que camuflavam isso nas auditorias. Os dois não se conheciam a tanto tempo, segundo o detetive que contratei. No entanto, isso não foi um problema. E Após serem acusados de roubo e fraude, simplesmente sumiram do mapa e a polícia não tem nenhuma pista do paradeiro dos dois. Os valores desviados foram transferidos para diversas contas, praticamente impossíveis de rastrear, e com isso, ganhei um imenso problema com os acionistas. Agora estou aqui no escritório da minha casa na França, aguardando para conferência com a diretoria. Depois daqueles dias conturbados e de toda a descoberta de ter sido manipulado facilmente, resolvi me dar um ano sabático, se é que este termo serve para empresários. Quem se dá um ano sumido por que levou um chifre? Pois, é. Fiz isso. E me arrependerei o resto da minha vida. Isolei-me e deixei a empresa nas mãos de Richard, mas o que eu não contava é que o rombo fosse tão prejudicial. Meu ego falou mais alto e isso fez com que minha empresa pagasse o preço. Vejo a chamada no notebook. Aceito a ligação e a primeira pessoa que aparece é meu amigo. Pela cara, não está de bom humor. — Boa tarde, Richard! Estão todos com você? — Lembro que por aqui ainda é manhã, mas em Nova York, já passam das três da tarde, e o expediente na filial está para terminar. — Olá, James. Sim, reuni todos, podemos começar. Richard está sentado na cadeira ao centro da mesa. Do seu lado direito, dois dos mais antigos acionistas, e do esquerdo outro par deles, além da gerente financeira da sede. Ele está furioso comigo e não tiro sua razão. Cedi à pressão de tudo que aconteceu e isso acabou no cancelamento de vários contratos importantes para a Grant. Agora, preciso reaver o controle e consertar as coisas. — Senhores, sem mais demora, serei o mais objetivo possível. — Esperamos que sim, Sr. Grant, precisamos saber se esta empresa ainda tem um CEO.
Claro que o Sr.Bennet não deixaria passar esta oportunidade de me alfinetar. Ele nunca foi a favor da minha nomeação e sempre deixou isso bem claro. Por ele, a empresa teria um conselho administrativo, mas com a morte do meu pai, me tornei o principal acionista da empresa, então não houve a necessidade de escolher outra pessoa para o lugar. — Continuo sendo o principal acionista desta empresa, então, sim, ela ainda tem. Sr. Bennet cruza os braços sobre a barriga avantajada que destoa no seu terno caro. — Estamos esperando — ele fala e Richard suspira ao seu lado. Tenho certeza que está segurando uma barra com estes sanguessugas em sua cola, mas isso acaba hoje. — Após conversar com a Clair — me dirijo a nossa gerente financeira. — Levantamos algumas possibilidades, e quero saber qual será a melhor delas? — Senhor, a melhor será a redução do quadro de funcionários por, pelo menos, seis meses. Eu tinha esperança de que essa possibilidade fosse descartada. — Tem certeza, Clair? Não podemos, rever? — A culpa se instala em mim, não queria ter que dar esse passo, mais é isso ou a falência da empresa. — Infelizmente é isso, Sr. Grant. Com o desligamento de estagiários e temporários, teremos um folego de, pelo menos, seis meses. É o tempo que o senhor terá para tirar a empresa do vermelho. — Ela entrega relatórios aos acionistas e Richard me encaminha por e-mail. — O.k. Vamos fazer o máximo para minimizar o impacto com essas demissões. — Senhor — Clair se dirige a mim — Aconselho que as assistentes também sejam dispensadas. Elas têm salários bastante elevados. — Isso será mesmo necessário? Levei anos para conseguir uma assistente competente. Alysson foi de extrema eficiência, ela é uma profissional exemplar, perdê-la será uma falta inestimável para a Grant. — Richard sempre elogiou essa garota, e em algumas reuniões antes de me afastar, pude perceber o quanto é competente, mas este discurso enfático sobre as qualidades dela me deixa intrigado. — Entendo, Richard, mas precisamos mesmo colaborar, quando tudo isso acabar, podemos trazê-la de volta. — Acredito que não vá ficar muito tempo disponível no mercado, ela é uma excelente profissional. Depois da fala de Richard, fico bastante curioso sobre ela. Já a vi algumas vezes, é uma moça bonita e perspicaz. Pena que não terei tempo de conhecê-la melhor. Como isso foi acontecer? E pensar que devido à minha vida particular, de ter me afastado por um ano para sofrer sozinho por alguém que não merece a minha consideração, será preciso desligar meus funcionários! Durante anos, o orgulho do meu pai foi manter esta empresa de pé. Agora serei eu a primeira decepção desta empresa em anos. Talvez fosse melhor salvar um ou outro profissional deste desastre, como a assistente que Richard tanto valoriza, espero que em seis meses eu consiga reverter, e quem sabe ela ainda possa voltar. Agora é a hora de ser enfático como nunca fui: — Teremos que arriscar. Ele me encara. — Se é isso que temos que fazer, que seja. — Diz nem um pouco de acordo. Terminamos a reunião com as primeiras decisões tomadas. Espero que a imagem da Grant não fique manchada, e que esse furacão não dure muito tempo. Por anos acreditei que minha fortuna, seria meu passaporte para ter o que quisesse. Depois da morte de papai, me senti perdido, e acreditei que ter um relacionamento com alguém ambiciosa como Chloe, seria um ganho inestimável. Um casamento de conveniência. Esse foi o meu maior erro. Pensei ser o certo a ser feito, mesmo que não existisse amor entre nós. Não poderia estar mais errado. Um dia Chloe me pagará por tudo. Só preciso saber onde encontrá-la. É chegada a hora de voltar em definitivo para Nova York. Preciso estar por perto. Apesar de tudo, será bom voltar para casa. Depois que saio da sala de Richard, pego minhas coisas e faço meu caminho até o RH para assinar os papéis da demissão, não antes de ser abordada por alguns funcionários. Todos querem saber quem será demitido, e quando, além das especulações e alguns xingamentos baixos ao CEO. O que eles não sabem é que já não faço mais parte desta empresa e não sei se tenho vontade de contar a alguém, na verdade, quero fazer o que me foi pedido e sair desse lugar o mais rápido possível. Quando cheguei, era uma recém-formada e a Grant me deu a oportunidade dos meus sonhos, começar minha carreira em uma grande empresa. Agora nem tenho ideia do que fazer, como conseguirei algo como esse emprego? Será que contratariam alguém que só teve um emprego em toda a vida? A minha vontade é de voltar aqui amanhã e dizer poucas e boas para o Sr. Grant. O homem fica um ano fora, deixa as coisas chegarem ao ponto de ter que demitir praticamente metade da equipe e então resolve voltar e mandar em tudo, como se nada tivesse acontecido? Ainda bem que não precisarei olhar para a cara dele. Apesar de ser uma cara bem bonita, no momento, minha vontade, é pegar sua foto de rosto e fazê-la de alvo. A menina enfim volta com os papéis dentro de uma pasta. Sigo até a mesa da gerente de Recursos Humanos. Ela me entrega. Abro e analiso rapidamente o conteúdo. Assino e devolvo sem dizer uma palavra, e ela faz o mesmo. Encaminho-me até a saída, mas não antes de ouvi-la dizer: — Sinto muito, Alysson, espero que consiga se recolocar logo. Eu me viro, sabendo que ela queria dizer muitas coisas, menos aquilo. Ela não ia com a minha cara. — Obrigada. Apesar de saber que boa sorte, é a última coisa que você me deseja. — Me sinto triste, mas não consigo controlar as palavras. Deixo a sala escutando-a resmungar. Caminho até o elevador e chego na porta de saída. Me despeço de todos, mas só quando coloco o pé do lado de fora é que a ficha cai realmente. A partir de hoje, não pisarei mais aqui. Então acho melhor não ficar me remoendo. O melhor a fazer é esquecer, e tentar seguir adiante sozinha. Não sei o que será de mim de agora em diante. O salário que a Grant Investimentos me pagava era responsável por mais de noventa por cento das minhas despesas. Nem sequer tenho dinheiro guardado para uma emergência. Preciso arrumar outro emprego e rápido. Penso na casa deixada pelos meus avós. Como vou resolver essa situação sem emprego?