Ao acordar de manhã, a primeira coisa que Anna olha é para o colchão ao chão do quarto e, para sua surpresa, lá estava Mabel no que parecia um sono profundo. Viu apenas os cabelos cacheados da garota, pois ela estava coberta do pescoço para baixo e dormindo de costas para ela.
Anna sente alivio, porém o alívio dura pouco quando não vê Bruna em nenhum lugar do quarto. Olha o telefone: 6:42 da manhã, levanta devagar, troca de roupa em silencio para não acordar Mabel, liga várias vezes para Bruna, a ligação chamava mas ninguém atendia, então sai do quarto. Vê a porta entre aberta de um dos quartos, dentro, uma mesa com um livro grosso de capa dura preta, vários dados de cores diferentes, vários papeis espalhados, alguns bonecos espalhados, velas de cores diferentes, cheiro de insenso... Anna não sabe por quanto tempo ficou observando aquela mesa, que parecia um tanto macabra, de repente:
“Bom dia”
Ao se virar, vê os olhos grandes de Thomas que segurava uma escova de dentes e estava posicionado no lado oposto ao que ela estava olhando.
“Bom dia. Eu estava distraída e...”
“Já jogou RPG?” interrompeu ele
“Não...”
Anna não fazia ideia do que RPG era, mas pelo uso do verbo “jogar” imaginava que podia se tratar de um jogo.
“Jogamos todas os sábados a noite, se não gostar das festas, pode nos acompanhar”
“precisa de bonequinhos e velas para isso? É macumba?” aquela pergunta simplesmente saiu, sem reflexão previa.
Ouve-se batidas na porta principal da casa.
“a campainha está quebrada” fala Thomas com um sorriso tímido. Passa por Anna, fecha a porta do quarto que a moça observava e desce as escadas, ignorando a pergunta.
Anna caminha até o banheiro, molha o rosto com a água da torneira, se olha no espelho. Pensa no dia que está começando. Pensa no carnaval, no que deveriam fazer antes, no sumiço das amigas... Fazia pouco tempo que conhecia Mabel, inicialmente a achou legal, soube que a moça tinha acabado de terminar um relacionamento longo, mas depois começou a estranhar certas atitudes, como alterações repentinas de humor, em alguns momentos Mabel estava melancólica, até triste, e subitamente parecia estar bastante feliz, até eufórica. Transtorno bipolar? Não sabia... só era estranho isso e o sumiço de ontem. Os pensamentos são interrompidos por batidas na porta do banheiro.
“Anna?” era a voz da Bruna.
Anna abre a porta do banheiro, vê Bruna com roupas diferentes de quando dormiu.
“Onde você estava?”
“Depois te conto”
Na cozinha, as garotas encontram Leniel e Thomas sentados, bebendo café, sonolentos.
“Bom dia” diz Anna. “Tem algo interessante para fazer hoje, antes do carnaval começar?”
“Você diz de manhã? Tem a cachoeira e a trilha que chega até ela, é muito bonito” responde Leniel ainda acordando devagar.
“Hmm... interessente, vou conversar com as meninas pra a gente passar lá” diz.
“Temos prova hoje no primeiro horário, depois estamos livres, se der, damos uma passada lá também” diz Leniel olhando para Anna.
Anna e os garotos passam um tempo conversando sobre a cidade, o festival, elas adicionam os garotos em uma rede social. Até que os garotos precisam ir para a faculdade, se despedem. Estava uma manhã linda de sol, prometendo máxima de 30 graus segundo a meteorologia local. Só bastava saber se Mabel as acompanharia.
Ao voltarem para o quarto, as garotas veem Mabel sentada no colchão, olhando para o celular, expressão bastante assustada. Ao perceber a entrada das colegas, Mabel desliga o celular e repousa o aparelho no colchão, ao seu lado.
“Bom dia, flor do dia” fala Anna descontraída. “Como foi seu dia ontem?” pergunta tentando usar um tom de voz o mais neutro possível, disfarçando a curiosidade.
“É... por aí... fui andar pela cidade e acabei me distraindo... tão bonita...”
“Te procuramos em todo lugar, ligamos... viu as mensagens?” pergunta Bruna, tentando disfarçar a chateação pela falta de resposta dela e achando estranhíssima aquela resposta.
“Fiquei sem bateria. O que você vão fazer hoje?” pergunta Mabel mudando abruptamente de assunto.
Anna e Bruna se entreolham. Para ambas era bizarro aquela garota que estavam conhecendo agora passar aquele tempo todo conhecendo a cidade, mas não tinham intimidade para continuar perguntando e ela claramente não queria falar sobre isso.
“Vamos à cachoeira, quer ir? Talvez os garotos apareçam depois.” responde Anna.
Mabel aceita o convite. Vestiram biquínis e roupas por cima, ajeitaram as bolsas com protetor solar, toalhas, sanduíches, bebidas, celulares, mandaram mensagens para suas famílias informando que estavam bem e foram. Pegaram o ônibus e desceram no ponto orientado pelos garotos, fizeram o resto do percurso que não era coberto por transporte público à pé, após uma caminhada de aproximadamente 30 minutos, chegam à cachoeira. As garotas já tinham visto fotos dela na internet, mas agora, estando lá, parecia ainda mais bonita. As garotas tiram algumas fotos juntas e do local, postam algumas em redes sociais, estendem uma toalha, colocam as bolsas e começam a curtir o dia que prometia ser lindo.
Todas as vezes que as garotas tentavam conversar sobre o dia anterior de Mabel, ela desconversava. Após um tempo aproveitando o sol, comendo os sanduíches e frutas que levaram, os garotos chegam:
“Não entraram na água ainda?” perguntou Thomas descontraído.
As meninas veem Thomas e Leniel se aproximarem com suas mochilas nas costas. Eles se sentam junto a elas.
“Ainda não. O Vítor não veio?” pergunta Anna olhando para Bruna.
“Não, ele cursa direito, vai ter aula o dia todo” responde Thomas. “Vamos entrar na água?” pergunta.
Mabel confirma com um gesto afirmativo de cabeça e olha para Bruna, que também concorda em entrar. Os 3 caminham alguns passos e já estão nas margens da lagoa, deixando Anna e Leniel sós sentados sobre a toalha de picnic. Fica um silêncio incomodativo, até que Leniel tenta quebrar o gelo:
“Então, porque essa humilde cidade e não a capital? Dizem que lá é o maior carnaval da América do sul.”
“Falta de grana mesmo, os gringos vão todos pra lá no Carnaval, ai inflaciona tudo, fica muito caro para estudante, pra conseguir vir pra cá fiz alguns bicos por alguns meses” lamenta ela. “Mas ainda vou passar um carnaval no Rio. Você é de lá?”.
“Não... sou de uma cidade próxima daqui, cidade menor do que essa, mas lá não tem faculdade, aí vim pra cá estudar engenharia. Mas não penso em morar aqui pra sempre, quero morar em uma cidade maior quando terminar a faculdade, conhecer outros lugares”
“Sei como é” diz ela “eu nasci em cidade pequena também, só me mudei pra capital quando comecei a faculdade, você vai para o Carnaval hoje? Podemos ir juntos”
“Hoje tenho jogo de RPG, jogamos todos os sábado, não posso faltar. Eu também não curto muito Carnaval”.
Anna achou um pouco estranho, mas nada disse. Ela o observou enquanto falava e pensou que apesar da aparência nerd, ele era muito, mas muito bonito. Seu rosto era proporcional, os cabelos combinavam muito bem com os olhos e a boca. Era um rapaz tímido, mas bastante charmoso e Anna sentia que o conhecia a muito tempo. Eles continuam conversando sobre suas origens e planos para o futuro, até que os 3 voltam da água. Durante o resto do dia Anna percebe que Bruna olha excessivamente para o celular.
“Vamos gente!” chamava Anna impaciente aguardando sentada no último degrau da escada da republica. “Estamos perdendo a festa!” Olha para Leniel e Thomas jogando vídeo game na sala de estar e pergunta “vocês não vão mesmo?”
“Vamos jogar RPG hoje, todo sábado jogamos” responde Thomas sem tirar os olhos da tv. “vamos talvez amanhã”
“Mas hoje é dia de festa! A festa mais famosa da região... “ Anna é interrompida com os passos de Bruna e Mabel descendo as escadas. “Finalmente!” diz ela.
As garotas estavam muito bem arrumadas, maquiadas e perfumadas. Usavam roupas leves de verão, saias e blusas coloridas. Caminham apressadas, aos poucos vão vendo cada vez mais pessoas e escutando a música cada vez mais alta a medida que vão se aproximando da praça principal. Elas podem ver o palco bem longe, as barracas que vendiam diversos tipos de alimentos e bebidas ao redor da praça, e quanto mais se aproximavam da praça, a multidão aumentava, elas começaram a segurar nos braços umas das outras no intuito de não se perderem entre as pessoas. A primeira banda já tinha começado a tocar e elas queriam se aproximar do palco o máximo possível.
Ali podia se perceber vários tipos de pessoas, de todas as classes sociais, bebendo, comendo, cantando, dançando. O som estava muito alto, sendo impossível a comunicação verbal. As garotas chegaram a um ponto da multidão que não conseguiam mais passar e perceberam que era o mais próximo que conseguiriam chegar do palco. Mabel grita alto para as amigas:
“O que vocês querem beber?”
“O que?!” dizem ambas ao mesmo tempo.
“BEBER???” grita mais alta.
“Cerveja” grita Anna.
“Duas” completa Bruna.
Demorou bastante para Mabel voltar com as bebidas. Cerca de meia hora quase. Ela volta com 3 cervejas. As garotas brindam. Antes de beber, Mabel pega um pequeno saquinho transparente de sua bolsa, onde podia se ver pequeninos comprimidos brancos. Anna e Bruna arregalam os olhos, surpresas. Mabel abre o saquinho, pega dois comprimidos, os expõe para as garotas com a ponta dos dedos, sorrindo os coloca na boca e bebe sua cerveja em um longo gole.
“O que é isso?” pergunta Bruna curiosa.
Mabel aponta para seu ouvido e faz um gesto com o dedo indicador de “não”, dando a entender que não a escutava. Pega um comprimido e com um gesto oferece as amigas. Anna e Bruna a princípio nada respondem, ambas ficam tentadas a aceitar, tinham uma suspeita do que seria aquilo, mas não tinham certeza. Depois ambas gesticulam com a cabeça que não.
A noite prossegue animada, muitas pessoas bebendo, de vez em quando as garotas sentiam cheiro de maconha, algumas pessoas mais alcoolizadas aqui e ali, algumas brigas esporádicas, mas nada sério. Eventualmente aparecia um garoto tentando conversar com alguma delas, porem nenhum que despertasse interesse. As garotas dançavam, se abraçavam, curtiam.
Após hora de festa, Bruna se sente cansada, aperta suavemente o braço de Anna e faz um gesto com a cabeça, indicando que queria sair, depois junta as palmas das mãos e as coloca no lado direito da face indicando que queria descansar ou dormir. Anna acena positivamente com a cabeça concordando, ambas olham para trás, procuram por Mabel, nada. Vazio. Elas olham ao redor, nada. Se entreolham, achando estranho, todas as vezes que Mabel precisou sair, seja para comprar bebida, comida, banheiro, ela indicava. As garotas procuraram por algum tempo, depois, desistiram. Devagar, cansadas e com sono, caminhavam até a república. Quando já estavam distantes do barulho:
“Ela deve estar na república, só acho sacanagem não avisar” fala Bruna já demonstrando insatisfação com a amiga.
Ao chegar na república, as amigas vão até a cozinha comer algo, já lutando contra o sono. Ao chegarem, veem Leniel de costas, ao perceber a presença de alguém, o rapaz se vira abruptamente em direção a elas assustado, ele estava com uma faca na mão. Anna levanta as mãos para a cima e fala em tom de brincadeira:
“Somos nós, pode abaixar a faca”
Leniel ao perceber que eram as garotas se sente um pouco envergonhado pelo susto que teve.
“Oi, como foi na festa?” fala ele, mudando de assunto.
Ambas percebem manchas vermelhas, como se fossem pequenos respingos na blusa do rapaz, como a blusa era clara, os respingos estavam bastante evidentes.
“Foi ótimo, vocês perderam... Você abriu a porta para a Mabel entrar?” pergunta Bruna já bocejando.
“Ahn? Não... ela não está com vocês?” pergunta ele meio perdido.
‘Não. Nossa que estranho. Ela sumiu outra vez” diz Bruna pensativa. “Ela tem uma chave daqui?”
‘A única cópia que temos para hospedes dei para vocês...” responde Leniel.
As meninas comem sanduiche na cozinha e conversam com Leniel. Depois os três vão para seus quartos. Já na cama, antes de dormir Anna diz para Bruna:
“Quando a gente acordar, ela vai estar deitada nesse colchão e vamos descobrir o que houve”
Garrafas, embalagens, latas, pratinhos plásticos espalhados por toda a calcada. “As pessoas não respeitam mais nem os cemitérios” pensa Matilda, ao chegar na calçada à frente do cemitério, devagar, usando a bengala ora como apoio, ora usando a para jogar para longe dela o lixo deixado pelos participantes da festa da noite anterior. Ela detestava o carnaval. Detestava as músicas altas e vulgares, sujeira, bebidas, promiscuidade... No fundo, ela detestava a liberdade que a juventude atual tinha, sentia inveja por não ter tido o mesmo em seu tempo de moça, porém nunca admitiria isso, não em voz alta.
Há 5 anos visitava o túmulo de seu falecido marido, sempre aos domingos. Sempre chegava muito cedo devido à insônia, por volta das 7 horas da manhã, logo após o nascer do sol. O portão do cemitério estava sempre destrancado. Ela entra e caminha com flores compradas na tarde anterior nas mãos.
Ao longe, vê algo estranho sobre um dos túmulos, algo que parecia a princípio um manequim. Curiosa, ela se aproxima devagar, porém, devido a miopia e a idade, teve que se aproximar bastante para entender que não se tratava de uma boneca, mas sim de um corpo feminino humano nu, deitada com a barriga para cima, pernas cruzadas, braços abertos, lembrando uma crucificação. No corpo é possível ver várias marcas de perfurações, a moça estava de olhos fechados, extremamente pálida, sangue em vários locais do corpo e ao redor dele. Do lado do corpo, tinham uma vela vermelha grossa ainda acessa e roupas cuidadosamente dobradas. Demorou alguns segundos para Matilda entender que aquilo era real mesmo e soltar um grito de horror mais alto que conseguiu. Se virou e tentou correr em direção contrária o mais rápido que pôde deixando as flores cair, até que tropeçou em uma lápide e caiu, machucando o joelho e a testa no chão. Desmaia.
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O despertador do celular. As garotas queriam aproveitar bem o dia, não sabiam o que fariam para aproveitar, mas estarem acordadas era um começo. Anna desliga e volta a dormir. E Mabel não estava lá. O colchão permanecia o mesmo, evidenciando que a garota nem mesmo tinha passado por ali aquela noite. Elas se entreolham.
“Será que ela conheceu alguém ontem?” pergunta Bruna tentando suavizar o momento.
Anna dá de ombros. Elas trocam de roupas, fazem a higiene bucal, Anna vai abrir a porta do quarto para irem tomar café da manhã, que devido ao horário, já seria quase almoço, quando Bruna fala:
“Espera, quero te contar uma coisa”
Anna tira a mão do trinco da porta e olha para ela. Bruna respira fundo, vai começar a falar quando escutam batidinhas na porta, Anna abre e vê Leniel com uma expressão um tanto estranha.
“Tem 2 policiais lá em baixo procurando por vocês” diz ele.
Anna franze o cenho e fala:
“Porque? “aquela pergunta sai quase que automática.
“Só falaram que precisam conversar com vocês” responde ele.
Com um pressentimento ruim, as garotas ao descer as escadas e veem 2 policiais de meia idade, com expressão cansada, trajando uniforme, podia se perceber que ambos estavam armados.
“Bom dia” diz um deles. As garotas respondem a saudação.
“Vocês são Anna e Bruna?”
Elas confirmam com um gesto de cabeça.
“Vocês poderiam nos acompanhar até a delegacia?” continua.
“Sim... mas porquê? ” responde Bruna.
“É um assunto delicado, gostaríamos de conversar com vocês na delegacia.”
Elas se entreolham.