Continuação...
"— O que nós vamos fazer com ele?"
Uma voz grossa e grave ecoou pela minha cabeça. Simplesmente tomei um susto daqueles e cai da cadeira, batendo com tudo no chão, até pensei que o cadáver iria acordar de cima da minha cama de tão barulhento que foi o tombo.
— Quem está aí? — olhei para o meu quarto inteiro procurando quem tinha dito aquilo, mas não via ninguém, estava tudo meio escuro, pois não havia ligado a luz, deixando o clima ainda mais assustador.
— Agora somos só um, Lucy. — responde a voz rouca e ecoante, a mesma de antes. Parecia que ela estava dentro da minha mente como se fosse meu pensamento. Que aterrorizante! — Sim, estou mesmo dentro da sua mente...
Logo pensei naquele bicho feio dentro de mim e o desespero começou a tomar conta, meu corpo novamente começou a suar frio. Como isso era possível?
— Ah! Como esse bicho entrou dentro de mim? — gritei e comecei a me levantar, minhas costas doíam, mas, em questão de segundos a dor parou como se não tivesse acontecido nada comigo.
— Bicho?! — a voz pareceu ficar com raiva e nervosa, soou mais alta e grossa, até doeu minha cabeça como se fosse explodir. — Eu sou Veneno! Não sou um bicho, Lucy, agora pare de resistir, deixa eu te corromper por completo.
— O que você quer dizer com isso?
— Juntos nós podemos ser mais fortes e se você não cooperar vai morrer. — disse a voz novamente em um tom sério, o que fez meu corpo estremecer. — Pode confiar em mim, Lucy. — a voz se acalmou, mas eu não.
— Você pode me explicar o que está acontecendo? — perguntei, era até engraçado porque parecia que estava falando sozinha em meu quarto e parecia uma louca que acabou de fugir de um hospício.
Não demorou muito até a voz me responder novamente.
— Estava procurando um hospedeiro bom o suficiente para usar. — começou a contar, arrumei a cadeira e voltei a me sentar novamente aceitando o fato de que eu tinha uma coisa dentro de mim e que não era fantasia, nem pesadelo, muito menos sonho. — Estou aqui para dominar a terra, viemos para cá sem querer em um foguete, esses seus amiguinhos daqui gostam muito de se meter em encrenca e são bastante curiosos pelo visto... Dois de nós foram libertados. Agora estamos aqui para acabar com o seu planeta, enviando mais de nós. E você vai me ajudar com isso, Lucy.
Meu corpo estava tremendo por inteiro, eu não sabia o que fazer. Apenas fiquei em silêncio, pensando em várias maneiras de acabar com isso, mas, não tinha como, ele estava dentro de mim, aliás, nem sei como entrou, deve ter sido na hora que eu apaguei, mas como?
As perguntas não paravam de triplicar na minha mente, tinha tanta coisa que queria perguntar, mas, isso me dava medo, ter uma coisa dentro de você era muito esquisita, isso é normal? Minha barriga roncava de fome, não sei por que tanta fome numa hora dessas. A coisa deve estar fazendo isso com minha mente, quer dizer esse Veneno.
— Você sabe o que estou pesando? — a pergunta sai naturalmente.
— Sei de tudo sobre você, Lucy. — responde imediatamente, engulo em seco ao ouvir a resposta. Então ele sabe tudo que penso também... — E estou com fome.
Ouço o barulho de uma porta se fechando pelo apartamento logo após Veneno terminar de falar em minha cabeça, um silêncio percorreu tudo. Minha mente esquece-se das coisas e logo se foca em meu padrasto, ele havia chegado. Como eu ainda consigo morar com uma pessoa dessas? Já eram duas horas da manhã e ele chegou assim do nada, como se fosse ele que mandava em tudo... Meu medo começa a aumentar ao ouvir os passos dele andando pelo apartamento.
— Me deixa comer ele? — a voz ecoou de novo dentro da minha cabeça, me arrepiei da cabeça aos pés.
— Você não pode fazer isso... — respondi arregalando os olhos, imaginando aquele bicho enorme comendo alguém com aquela boca cheia de dentes enfileirados e pontudos, prontos para matar qualquer um.
— Se você me deixar no comando, isso tudo logo acaba!
— Veneno, ele é meu padrasto... — falo logo em seguida e olho para baixo um pouco entristecida.
Mesmo que supostamente tivesse matado minha mãe e fosse o principal suspeito, ninguém merecia morrer, era isso que eu pensava. Afinal, ele pagava o apartamento e as contas até o dia que eu pudesse morar sozinha.
— Ele matou sua mãe. — respondeu friamente. — Quer mesmo deixa-lo vivo sabendo disso, Lucy?
— Esse é o certo a se fazer, não precisamos matar ninguém. — respondi o mesmo.
Mas, logo fui surpreendia por batidas fortes na porta. Era meu padrasto bêbado de novo.
— Luuucy, com quem está falando a essa hora da noite? — disse em tom irônico e riu em deboche. — Sabe que eu não gosto que fique acordada até muito tarde, não é querida? — meu coração acelerou de repente.
Ele me dava nojo às vezes.
— Rick, vai dormir, você está bêbado! — gritei para que ele pudesse ouvir e parar de me perturbar.
— Porque você não destranca a porta para que possamos conversar, minha querida? — a voz dele estava embriagada, muito lenta por sinal, tinha bebido mais do que nos outros dias. — Você não quer que eu pegue a chave reserva e entre, não é?
— Não abra! — a voz de dentro da minha mente falou outra vez, mas, eu não liguei.
Era melhor eu abrir e dizer para meu padrasto ir dormir do que ele pegar a chave, entrar no meu quarto e ver o corpo do garoto desacordado em minha cama.
Fui até a escrivaninha pegar a chave com dificuldade porque parecia que meu corpo não queria ir, devia ser por causa de Veneno me controlando, depois me dirigi até a porta e abri a mesma, meu padrasto sorriu malicioso, o mesmo queria ver o que estava em meu quarto, mas, eu tranquei a porta atrás de mim na mesma hora, passando para o outro cômodo.
O mesmo aproveitou a oportunidade que eu estava de costas, para segurar minha cintura e encostar seu corpo no meu. Aquele corpo nojento e com cheiro de bebida.
— Você parece muito com sua mãe... Sabia? — o mesmo começou a movimentar suas mãos pelo meu corpo.
Meu corpo congelou, já era a segunda vez que minha respiração ficava pesada naquela noite, meu coração acelerou de medo e não sabia o que fazer. Ele estava me assediando, não era a primeira vez que isso acontecia quando estava bebado.
Me virei rapidamente tentando me soltar de suas mãos fortes, o mesmo me prensa contra a parede, encostando seu corpo nojento contra mim.
— Você não vai querer fazer isso... — comentei, já sabendo a confusão que iria causar.
— Fica quietinha se não vai ser pior, Lucy. — fecho meus olhos arrasada com a situação e com a maldita frase do meu padrasto, alguns segundos depois, lágrimas começam a escorrer sobre minhas bochechas, eu era tão inútil.
Veneno, faça o que for preciso...
— Já estava na hora, Lucy!
Sem demorar muito, sinto meu corpo começar a se deformar, mas isso não doía nada do que eu havia pensado. A sensação era como se um escudo gigante começasse a se formar sobre mim, eu já não sentia mais o corpo do meu padrasto colado no meu, ele havia caído para trás e estava se arrastando para longe, com medo. Começo a ver o mundo de outra forma, como se eu estivesse dentro de uma pessoa, dentro de Veneno. Apenas fecho meus olhos e deixo o mesmo fazer seu trabalho.
VENENO POV
Rick, Rick, chegou a sua hora. Minha boca salivava, como seria sentir um gostinho de um homem embriagado que matou a própria mulher? Era o que os pensamentos de Lucy me diziam, pobre garota... Com medo de um ser humano tão repugnante como todos os outros que já matei antes de chegar aqui. Pelo menos ele iria encher minha pança. Eles se achavam tão poderosos, mas, não sabiam o que faziam, tinha muita pena.
Vejo o homem se arrastar para longe de mim, isso me dá mais prazer de mata-lo, solto minhas garras e vou em sua direção. Seus olhos estão quase pulando para fora, adorava dar essa sensação de medo para eles. Seguro seu ombro com minha outra mão e lhe olho.
— Vai me empurrar da escada agora, Rick?
Ouço as falas do mesmo pedindo para não morrer, suplicando, pedindo perdão e falando de um Deus por aí, não conhecia nenhuma dessas coisas. Seres humanos eram tão interessantes. Em questão de segundos, rasguei seu peito com minhas garras, aquele sangue saindo de sua barriga e seu corpo perdendo a vida lentamente me pareciam tão suculentos. Minha boca se abre para começar a engoli-lo.
Hmmm, hora da refeição!
[...]
Não sabia o que tinha acontecido, só ouvi gritos de dor e frases soltas pedindo perdão e falando para Veneno parar com aquilo, foi a coisa mais assustadora que já ouvi em toda minha vida. Quando Veneno havia terminado, ele apenas voltou a ser uma voz na minha cabeça. Eu sabia que ele havia se transformado naquela coisa que eu não sei explicar, essa era a forma real dele, um monstro. Olhei para o chão do apartamento e havia muito sangue, não tinha tempo para pensar nisso agora, mas, eu estava realmente triste com tudo o que aconteceu.
— Não chore, Lucy... Não gosto de te ver chorar. — disse Veneno em minha mente, aquilo soou bem carinhoso para um bicho que havia matado e comido o meu padrasto agora a pouco. Ele estava me consolando, pelo menos isso não era assustador. — Será que você consegue descansar um pouco?
— Não sei, V. — me sento encostada na parede, olhando para o nada, meus pensamentos acabam dessa vez, não sei mais nem o que pensar.
Me sinto cansada, mas a fome passou... Deve ser porque eu comi meu padrasto inteiro.
— V?
— É, V de Veneno... — respondo novamente, me sentindo cansada e fecho meus olhos. Logo depois disso, lembro que eu peguei no sono totalmente e o Veneno não me incomodou mais dentro dos meus pesadelos, nem nos meus sonhos enquanto eu dormia.
Mas uma coisa me atrapalhava mais do que ele e do que tudo, como iria ficar vivendo sozinha a partir de agora? Será que vou ter que sair a procura do meu pai biológico?
Acordei, me levantei do chão, meu corpo não estava doendo nem um pouco de ter dormido ali de mau jeito, mas a fome tinha voltado. Caminhei até o banheiro lentamente, me olhei no espelho, parecia que era um zumbi, comecei a lavar meu rosto, tinha olheiras embaixo dos meus olhos, nem sei como vieram parar ali. Me sinto tonta por alguns segundos, olho para o meu braço e vejo minhas veias ficando pretas, começo a sentir meu corpo suar.
— Temos que limpar aquele sangue lá na sala. — a voz de Veneno soa na minha cabeça.
— Já estava demorando a aparecer... — respondo, desligo a torneira e saio do banheiro.
Caminho até a dispensa do apartamento, pronta para pegar um balde e uma esponja, Lucy Walle iria limpar o sangue de seu padrasto que acabou de ser digerido, ele deve estar mais feliz aqui na minha barriga com certeza.
Entro na dispensa, acendo a luz e vou em direção à escada que era de madeira e não parecia muito nova, mas o balde estava muito alto na prateleira precisaria subir pra pegar. Encosto a escada na parede.
— Tenha cuidado, esse negócio não me parece muito confiável. — ele falou como se tivesse sentimentos se algo acontecesse de errado.
Não sabia mais o que pensar sobre Veneno, mas, parecia ser misterioso e assustador, não que eu tinha medo dele... Sei lá. Era um sentimento estranho.
— Não sou mais uma criança. — respondi e comecei a subir degrau por degrau a escada.
Assim que cheguei numa parte da escada que já dava para alcançar o balde com minhas próprias mãos, levantei o pé um pouco e senti o degrau por baixo de meus pés quebrarem. Pensei que iria cair de costas, mas, senti Veneno sair, me abraçando por trás me impedindo de bater com tudo no chão, percebi que ele tinha me protegido pela segunda vez, comecei a pensar que ele não era tão ruim assim como eu imaginava.
Talvez, ele possa querer mudar essa ideia de dominar a Terra e governar tudo por aqui. Talvez eu possa muda-lo.
— Quer pegar aquele balde, porque não me disse antes? — sinto algo elástico sair do meu braço esquerdo como se fosse um líquido viscoso preto, se esticar e pegar o balde, trazendo o mesmo até minhas mãos. — Baixinha!
— Obrigada, mas você consegue ler minha mente, né alienígena... — respondo meio sem jeito e faço um bico.
Veneno entra dentro do meu corpo novamente e minhas costas finalmente se encostam no chão com cuidado.
— Eu acho que agora você entendeu que a gente é um só.
Ao ouvir aquilo, meu rosto fica um pouco sem jeito, ninguém nunca tinha usado aquela frase comigo antes, parecia até romântico, mas, logo me levanto rapidamente, seguro o balde e a esponja que estava dentro dele.
— Eu não precisava da sua ajuda! — falo indo em direção à porta do meu quarto e à sala, o sangue estava espalhado pelo chão em quase todos os lugares.
Não gostava muito de sangue, mas, fazer o que né... Não podia deixar aquilo tudo melado.
Veneno ficou quieto por bastante tempo enquanto eu limpava o chão, também não sabia o que conversar depois daquele momento na despensa, estava muito confusa para inventar um assunto qualquer.
Tinha bastante sangue espalhado, Veneno tinha feito uma bagunça literalmente, não aguentava mais esfregar o chão, minhas mãos já estavam doendo, parecia que estava ali a umas meia hora. O sangue era bem difícil de sair. Já estava ficando bem estressada, logo fiz um bico com os lábios sem perceber, era uma mania minha.
— Me desculpa por comer seu padrasto... — disse Veneno em minha mente.
Aquela voz rouca ainda continuava assustadora mesmo tentando se redimir.
— Tudo bem, V. — continuei esfregando o chão lentamente, meus cabelos pretos caíram nos meus olhos, eles estavam bastante bagunçados desde ontem. — Ele iria fazer coisas piores comigo se você não tivesse feito algo... E eu que te dei liberdade para entrar no controle. Só não achei que você estava falando sério quando você disse “me deixa comer ele”.
— Ele não tinha um gosto muito bom, mas, matou minha fome durante umas quatro horas. — ele fala como se isso fosse a coisa mais normal de todo universo. Minha barriga ronca. — Espero que possamos ter uma próxima refeição em breve...
O barulho do despertador toca em meu quarto, o que me faz virar a cabeça para o lado, olhando diretamente para a porta do mesmo. Alguns segundos depois o despertador para. A porta se abre lentamente, lá estava o garoto da noite passada, um dos hospedeiros dessa coisa insuportável, dava para ver em seus olhos que estava bem perdido e assustado.
Quem não ficaria, né? Ele aponta o dedo para mim, parecendo estar meio grogue. A boca dele se abre.
— Onde está Veneno?
— Ele conhece você? — pergunto, logo meu “bichinho de estimação” me responde dentro da minha mente.
— Nós conversamos um pouco, mas, ele é tedioso.
Me levanto e jogo a esponja dentro do balde que estava no chão, o mesmo já estava quase limpo, mas, resolvi que não iria ficar ali esfregando por mais tempo.
Caminho devagar até o garoto, ele não parece ficar com medo, ainda bem que ele era uma pessoa normal e não uma gosma preta que se transforma num monstro de três metros de comprimento.
— Esse bicho está dentro de você? — o garoto solta mais uma pergunta, ele tinha as mesmas características que eu, quando Veneno entrou em meu corpo.
Olheiras, cabelo castanho bagunçado, cara de quem morreu e voltou a vida do nada. Mas, eu já estava me recuperando disso tudo... É, pode se dizer que rolou muita coisa num dia só.
— Já posso comer ele?
— Ele não é um bicho, nós somos amigos. — respondo dando um sorriso e ignorando o que Veneno havia dito, chego bem perto do garoto e coloco as mãos na minha cintura.
Esse garoto não podia ficar por muito tempo desse jeito, se não iria começar a fazer mais e mais perguntas, ainda mais que o chão não havia ficado totalmente limpo, logo iria reparar nisso. Resolvi mudar as coisas com perguntas direcionadas a ele. — Agora, me responde, quem é você mesmo?
— Meu nome é Zack e... Eu não devia estar aqui. — o garoto começa a caminhar para a porta de saída do meu apartamento, ele devia estar bem confuso.
Isso me faz ter mais curiosidade sobre ele.
— Ei! Espera... Para onde você vai? — corri para frente do garoto e o parei com as mãos.
Seus olhos se encontram com os meus, posso ver que realmente tinha razão da cor castanha dos olhos que havia visto ontem à noite no meio daquela escuridão do beco.
— Em qual cidade que eu estou? — ele olha para os lados meio desnorteado, percorre a sala inteira e anda até uma das janelas.
— Você tá em Brooklyn, meu amigo... — respondo o mesmo. — E agora você não pode ir embora sem se explicar.
O garoto olha pela janela, percebe que tem vários prédios em todo lugar, tudo e todos fazendo barulho pelas ruas. Percebo que ele faz uma cara de espanto, percebi que não era daqui. O assunto podia se encurtar se ele falasse tudo de uma vez, onde ele morava, o que tinha acontecido e outras coisas mais.
Não o apressei em nada, porque acho que quando sai um bicho do seu corpo, deveria ser um alívio total, se é que me entende... “Não é Veneno?”
“Bicho?!”, ele respondeu na minha mente de imediato.
[...]
Alguns minutos depois de eu ter conseguido acalmar o garoto, ele se senta no sofá e entrego um copo de água para o mesmo, me apresentei também. Ele olha para a janela novamente, como se tivesse tentando pensar em algo para poder começar a falar tudo que aconteceu com sua vida. Acho que eu fiz bem em trazê-lo pra casa... Se não ele estaria perdido por aí a fora. Mas, afinal, daqui a alguns dias eu também estarei assim.
— Eu moro em Manhattan, esse bicho atravessou a ponte pra vir até aqui. Eu me lembro que estava no parque perto de casa brincando com meu irmão, ele tem uns seis anos, daí uma pessoa bem estranha pulou em cima de mim, depois disso senti coisas esquisitas acontecendo com meu corpo, esse monstrengo começou a falar na minha cabeça e não consegui me controlar, deixando meu irmão para trás e sozinho... — quando ele acabou de falar, respirou fundo e deu uma golada de água, a raiva que sentia de Veneno era nítida. Olhou para mim com uma expressão séria no rosto. — Ele estava com muita pressa, acho que seu amigo está fugindo de alguém.
F-fugindo de alguém? Veneno soltou:
— Não liga para o que esse garoto fala! É Besteira.
Começo a ficar pensativa com o que ele disse no final, fiquei um pouco em silêncio pensando no que eu deveria fazer, se estivessem atrás do Veneno, estariam atrás de mim também e não queria me meter em confusão. Comecei a caminhar até a cozinha para que eu e Veneno ficássemos a sós. Parei de andar assim que chego até lá.
— Começa a falar... — digo em tom baixo para que Zack não ouvisse lá da sala. — Anda, desembucha logo!
— Você vai mesmo acreditar naquele garotinho? — responde com um certo tom de deboche.
— De quem está fugindo, Veneno?
— Você está se preocupando demais com isso, Lucy. Vamos mata-lo de uma vez e isso acaba. Estamos com fome... — imagino Veneno sorrindo maléfico nessa hora, mas afasto meus pensamentos daqueles dentes pontudos.
— Sem segredos, Veneno. Você disse que éramos um só.
Um silêncio percorre minha mente, parecia até que Veneno havia saído de meu corpo naquele instante.
— Eu fugi de uns cientistas malucos, Lucy. E agora estou aqui. Está satisfeita?
— E eles estão atrás de você? — perguntei novamente, mas fui interrompida antes que Veneno pudesse me responder.
— Eles estão atrás dele sim... — uma voz masculina preenche a cozinha, o garoto estava encostado na porta, o que me fez olha-lo diretamente. Ele continuou. — Você lembra daquele foguete que caiu e passou no jornal a alguns dias atrás que trazia coisas desconhecidas de outros planetas?
— Sim... Foi a notícia que mais passou no jornal esse dia. — concordei.
— Aquela empresa o quer de volta. Digo, quer o Veneno.
— Esse garoto é bem espertinho, pro meu gosto.
— Cala a boca, Veneno! — gritei. — Você fazia parte disso e agora eles podem vir te buscar a qualquer momento? — o garoto se assustou com meu tom de voz e se afastou um pouco. Mas, estava me dirigindo à Veneno.
— Lucy, nada vai acontecer com você, irei protegê-la. — fico em silêncio com sua resposta, uma dúvida imensa surge na minha cabeça, será que ele está dizendo isso para poder me usar? Não poderia confiar em suas palavras, ele era um monstro. — Eu prometo. Se você morre, eu morro também.
— Você sabe alguma coisa sobre essa empresa? — olhei para Zack, querendo respostas.
— Ela se chama Fundação Vida, eles fazem experimentos com simbiontes, mas, isso é muito confidencial. Eles acreditam e estão preparando pessoas para o fim do mundo... — Zack me surpreende por saber tantas coisas sobre a empresa, algo não me cheirava bem, será que ele trabalhava lá e mentiu esse tempo todo sobre o que aconteceu e Veneno estava tentando me dizer para não acreditar no que ele dizia? Dúvidas começaram a surgir na minha cabeça, mas, o garoto voltou a falar. — Minha mãe já trabalhou lá dentro, se é o que quer saber... — isso me aliviou bastante.
— Eles têm outros como o Veneno? — perguntei aterrorizada. Logo imaginei o mundo todo sendo dominado por vários monstros igual à Veneno, matando as pessoas e destruindo tudo que podiam no caminho.
— Lucy, da última vez que minha mãe foi trabalhar, ela me disse que os cientistas matavam as pessoas, pois elas não eram fortes o bastante para aguentar as experiências dentro de seus corpos que faziam lá. — o semblante de Zack pareceu ficar mais sombrio, aquilo estava me dando medo.
— Nós temos que impedir isso... — falei logo em seguida.
— Lucy, é muito perigoso ir para lá. — ouvi a voz de Veneno, pela primeira vez, ele me pareceu preocupado de verdade.
Mas, meu pensamento dizia que tínhamos que fazer algo e impedir que mais pessoas morram com substancias e experimentos dentro de seus corpos... O corpo daquelas pessoas eram fracos demais para receber coisas como essa, tínhamos que salvá-los. E se Veneno citou que essa empresa recuperou outros dois simbiontes que caíram do foguete, pode ser que eles também iriam uni-los às pessoas e algo muito ruim pode acontecer, não podemos ficar aqui parados.
Veneno soltou:
— Porém, gostei dessa ideia, algo me diz que teremos mais lanchinhos...