Capa do Romance Vendida - Parte 1

Vendida - Parte 1

8.0 / 10.0
No aniversário de dezessete anos, a doce Emma é entregue pelo próprio pai como pagamento de dívidas. Levada por figuras perigosas, ela acaba sob o domínio de Pedro Henrique, um homem violento e impulsivo que atua no crime. O que deveria ser apenas uma garantia financeira torna-se uma obsessão quando ele se vê atraído pela jovem. Enquanto Emma luta contra o medo, uma paixão proibida surge. Contudo, a rendição de Pedro trará consequências fatais, deixando um rastro de corações partidos.

Vendida - Parte 1 Capítulo 1

Afinal, quantas vezes e de quantas maneiras uma pessoa pode apanhar até que ela desmorone? Quanto vale a alma de um criminoso?

Estava pensando sobre isso enquanto ouvia a senhora Karen dizer sobre como acabara de ser assaltada em plena luz do dia. Falar sobre como já lutou muito na vida, sendo mãe solteira e desempregada há dois anos, foi uma forma dela aliviar o susto que tinha sofrido. Mesmo as lágrimas em seus olhos não tinham respostas para essas perguntas complexas.

Clara, a filha da dona Karen, a mesma com quem eu trabalho como babá, estava assistindo algum desenho animado no qual eu nunca havia ouvido falar, enquanto a sua mãe me mostrava alguns arranhões que tinham ficado em seus braços como consequência da sua relutância na hora da ação. O que não é surpresa para mim, pois mesmo agora sendo casada com um médico rico, a mulher é uma selvagem quando se trata de dinheiro. Digo no bom sentido. Acho que depois de tanto tempo vivendo em motéis, ela tem um sério trauma e entra em desespero quando a situação financeira se torna desfavorável.

Mas... antes perder alguns trocados do que a vida, não é?

— Ah, minha querida. Desculpe por tomar muito do seu tempo, sei que logo estará anoitecendo e você tem que estar em casa antes disso. — Ela diz enquanto enxuga suas lágrimas com um pequeno lenço que eu havia oferecido, numa forma de consolá-la, já que eu não sabia o que dizer. — Bom, mesmo com esse dia desastroso... tome isso aqui para você.

Vejo ela se virar de costas e pegar algo dentro de uma carteira que se encontrava dentro da gaveta da sala de estar. Quando Karen se vira e eu vejo a nota de cinquenta reais em sua mão, arregalo os meus olhos, embasbacada por ela estar me oferecendo dinheiro depois de tudo isso.

— O que? Por favor, não precisa... — Digo enquanto movo minhas mãos na frente do meu corpo, sentindo minhas bochechas esquentarem.

Um sorriso brilha em seus olhos, e ignorando minhas palavras, ela agarra o meu pulso e põe a nota na palma da minha mão.

— É o seu aniversário, não é? Você nem comentou isso comigo mais cedo, mas a Clara estava animada pois pensava que você poderia abrir os seus presentes com ela, por isso não foi difícil de eu lembrar. E também... eu vejo o quanto você cuida dela com bastante carinho.

Suspiro me virando na direção da garotinha que continua entretida na televisão, com uma roupa completamente rosa e o cabelo bagunçado. Nada diferente do normal. Um sorriso surge em meu rosto e eu volto a olhar para Karen, que se afasta dando de ombros e pegando o seu casaco de cima da mesa.

— Você está liberada, Emma. Se quiser sair com suas amigas ou ficar com a sua família pode tirar o dia de folga. Agora se me der licença, vou tomar um banho e contar a desgraça pela qual passei hoje para o meu marido. Clara, se despeça de Emma e venha comigo.

Clara pula em meus braços para um abraço que eu retribuo com um sorriso.

— Tchau, titia... Não esqueça de avisar para o moço que está te esperando para ser bonzinho.

Ela sai correndo escada acima junto com a sua mãe, me deixando completamente confusa. "Moço que está me esperando"? O que ela quis dizer com isso? Estaria ela falando do meu pai? Não é como se eu já tivesse contado qualquer coisa para ela sobre a minha vida pessoal. E como poderia saber logo da minha realidade? Estou cansada de mentir sobre uma vida familiar dos sonhos, quando na verdade... eu nem sei explicar o que acontece lá em casa.

Definitivamente deve ser mais uma daquelas falas de crianças que nunca conseguimos compreender. Talvez ela ache que eu tenho um namorado? Pensar nessa hipótese me faz rir. Não é como se algum dia eu tivesse coragem de me entregar a alguém além de mim mesma.

E com esse pensamento eu saio da casa de classe média em direção a delicatessen mais próxima da minha casa, situada em um bairro nada favorável, conhecido pelos surgimentos de vários crimes como roubos e até assassinatos. Todos acontecem de uma forma diferente da outra, mas todos ligados por uma única pessoa. A pessoa que comanda o tráfico que até agora tem seu nome em desconhecimento. Ao menos é o que diz Nathália com todas as suas teorias da conspiração.

Quando volto para casa, com minha sacolinha carregada por um bolinho com uma vela e alguns salgadinhos e refrigerante para que eu possa aproveitar meu aniversário, mesmo que eu saiba que tem vários boletos que eu deveria estar priorizando pois sei que o meu pai vai gastar todo o seu salário com bebidas e todas aquelas drogas, já é de noite.

Abrindo lentamente a porta de entrada consigo sentir o cheiro insuportável da bebida invadindo minhas narinas, enquanto tento a todo custo não respirar esse ar tóxico. Tento correr na direção da escada assim que fecho a porta para evitar ser vista pelo homem bêbado que um dia já foi uma inspiração de homem, quando ainda era policial, quando interrompo os meus passos ao perceber um movimento estranho na sala de estar.

Mesmo com as luzes apagadas, eu conseguia o ver deitado no sofá da sala com uma mulher que fazia barulhos estranhos. Senti o meu estômago embrulhar e quase que imediatamente corri para o meu quarto, abrindo a janela do mesmo em busca de acalmar as batidas do meu coração.

Essa situação me despedaça... Lembrar que esse mesmo homem já foi um pai de verdade, que não ficava bêbado e que cuidava de mim... Isso realmente machuca.

Prendo o meu cabelo num coque e caminho até o banheiro, pronta para tomar um banho e me aliviar um pouco do peso de cada dia, mesmo que eu já esteja acostumada a lidar com situações parecidas...

Quando eu finalmente estou banhada, cheirosa e limpa, eu sento na minha cama com a sacolinha em mãos. Um sorriso surge em meus lábios enquanto dou um jeito de acender a vela. A foto da minha mãe no porta-retrato na minha cabeceira de cama faz com que lágrimas surjam na borda dos meus olhos.

O sentimento de impotência... vulnerabilidade... Esse é o meu aniversário de dezessete anos, e ainda assim... nada mudou. Não me sinto mais livre, exceto que agora me sinto ainda mais presa enquanto a saudade aumenta em meu peito.

Acho que nenhuma saudade é pior do que daquilo que você já viveu... Mesmo com a minha mãe tendo morrido no meu parto, eu posso dizer que até os meus sete anos eu tive uma família. Meu pai era a minha base, o centro da minha vida, até que...

Assopro a vela com os olhos fechados, sentindo as lágrimas deslizando enquanto deixo escapar pelos meus lábios a coisa que mais desejo do mundo...

— Faz isso parar, por favor... me devolve a minha felicidade.

Eu só não esperava que nessa mesma noite, o meu pedido iria se virar contra mim de forma que eu não conseguiria medir o impacto daquilo na minha vida.

Na mesma noite, durante a madrugada, o céu estava chorando. Tenho plena certeza disso pois o barulho da água da chuva colidindo contra o teclado da minha casa, e o trovão ressoando no céu realmente me assustava. Eu sequer conseguia fechar os meus olhos e me deixar levar pelo sono. Na verdade, estava ouvindo coisas vindo do andar de baixo da minha casa, o que é bem frequente pois meu pai bêbado sempre quebra coisas pela sala, mas dessa vez, essa combinação de barulho com a chuva realmente estava me aterrorizando.

Mesmo sendo uma garota de dezessete anos, carregando a responsabilidade de estudar, trabalhar e cuidar de uma casa, eu pareço uma criança quando se trata de medos. E esse é um deles...

Tão rapidamente, a luz de raio me cegou por menos de um segundo, me fazendo fechar os olhos e soltar um gritinho assustada. O meu coração estava num ritmo desregular e eu só queria correr até o meu celular e ligar para Nathália, numa forma de me acalmar já que eu não poderia contar com mais ninguém além dela.

Quando me sentei na cama, tentando acostumar-me com a escuridão que se encontrava no quarto, uma silhueta apareceu na frente da porta. O meu coração deu um salto e eu joguei meu corpo para trás, puxando o cobertor numa forma de proteção, enquanto eu tentava me convencer de que devia ser mais um daqueles "vultos" que nossa mente prega.

Mas quanto mais eu encarava a silhueta perfeitamente como a de um homem, mais eu tinha vontade de gritar, amedrontada com a possibilidade de alguém ter invadido o meu quarto. Quer dizer, o meu pai não apareceria em meu quarto a essa hora da noite, não é?

Eu senti o meu sangue gelar e mais uma daquelas pontadas na cabeça. A mesma que sinto momentos antes de perder o ar e entrar em pânico... isso estava prestes a acontecer. Eu sei...

Quem está aí? O que vai fazer comigo? São as perguntas que fazem minha cabeça girar, mas minha voz está presa na garganta.

A luz de repente acendeu e eu me deparei com três homens, completamente desconhecidos mas com rostos estranhamente familiares. Um sorriso malicioso surgiu nos lábios de um e eu senti o meu corpo tremer.

Mais uma pontada...

Antes de tudo ficar escuro, a última coisa que vi foi o olhar do homem que estava na frente. Eram impenetráveis e uma sensação reverberou pelo meu corpo...

Impiedade.

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