Capítulo 2

Pov Lucia V. Cooper's.

O tal do Jones ficou ali comigo, alguns minutos até meu pai voltar.

Esse homem... não é estranho, será que é um CEO ou algo assim? Parece bem rico.

Roupa elegante, tem um relógio caro no braço esquerdo, a colônia dele é forte, cabelos bem arrumados, com certeza é rico.

Coisa boa que meu pai se meteu, não é.

Um tempo depois, em total silêncio, consigo ver meu pai e meu irmão ao lado dele, meu pai parecia zangado, estava dando algum sermão no Pedro, coitado.

Quando eles estão na nossa frente, o homem do meu lado, Jones, olha fixamente para meu pai, expressão séria.

— Rodolfo, boa noite.

Meu pai fica meio travado, parece que ficou até branco.

Isso não é um bom sinal.

— Oi, Jones. Que prazer em vê-lo. — Meu pai o cumprimentou.

Eu ergui meus braços e Pedro veio até mim, o abracei e beijei sua cabeça, ele estava frio, tinha que ir tomar banho rápido.

— Podemos conversar? — perguntou Jones.

Meu pai olha para mim e para meu irmão antes de concordar com um meneio de cabeça e diz:

— Claro. Filho entra com sua irmã. Podem comer sem mim. Eu já entro. — disse, tombando a cabeça um pouco.

Só espero que nessa situação, ele consiga conversar com esse homem.

Eu e meu irmão nos entreolhamos e obedecemos.

Sentamos e tomamos nossa sopa. Depois que meu irmão termina de tomar o caldo, ele diz todo contente.

— Estava muito gostoso, amei, irmã.

Sua voz é tão doce que lembra-me um pouco a mamãe. Só Deus sabe o quanto de saudade sinto dela. Queria tanto que ela estivesse aqui e o visse crescer.

Não tenho dúvidas de que meu irmão será um grande homem. Mesmo sem ter nossa mãe por perto para nos aconselhar, eu que vou ter que instruí-lo em um bom caminho.

Esse era o papel de nosso pai, porém, infelizmente, ele anda precisando de instrução sobre qual caminho deve-se andar, infelizmente. Ele precisa de ajuda. Mas quem pode ajudá-lo?

Ele não ouve ninguém.

Eu digo ao meu irmãozinho:

— Que bom que gostou, pode repetir, maninho. — Digo, sorrindo e o olhando.

— Já estou cheio. Agora vou brincar um pouco. — Ele beija meu rosto e vai até seu quarto todo contente.

— Lembre-se do banho. — falo antes dele virar o corredor, ele apenas disse um tá bom e foi para seu quarto.

Ele ama o brinquedo que meu pai comprou para ele, e esse brinquedo que ele ganhou foi antes da mamãe morrer, ele é muito apegado ao brinquedo.

Às vezes pergunto-me se estou fazendo certo em deixá-lo crescer tão rápido. Digo, amadurecimento precoce. Mas aí lembro que o mesmo está acontecendo comigo, então não se tem muito o que fazer. Infelizmente, nossa âncora se foi e não nos resta mais nada, a não ser lutarmos diariamente para mantermos a casa e nossa barriga cheia. Como dizia a mamãe "saco vazio não para em pé".

Após o jantar, eu fico na sala esperando os dois lá de fora terminarem a conversa. Confesso que sou uma menina curiosa.

Porém, veja bem; meu pai não é um homem a quem eu deva confiar cem por cento. Depois de seus últimos comportamentos, tenho mais que me preocupar, sim, com o que ele faz e com quem anda.

Levanto-me e fico em pé atrás da porta escutando.

Consigo escutar as vozes deles.

— Como eu vou pagar? Não tenho nada para dar ao Senhor — Essa é a voz do meu pai. Ele parece nervoso.

Mas, ouvi a resposta do Jones.

— Você tem uma coisa, a qual você ofereceu para todos, se lembra? E bom… essa é a única preciosidade que tem. Você tem pouco tempo para aceitar minha oferta, se não, sabe o que acontece com devedores. — Ele parece um homem perigoso, com certeza é.

Meu pai está devendo a ele, mas o que ele poderia vender a ele? Nossa casa? Era tudo que nos restava...

Volto a colar meu ouvido atrás da porta e reconheço a voz exaltada do Jones.

— E o que vai fazer com ela? A machucar?

Ela quem? Estou ainda mais confusa.

— Isso não é da sua conta. — Ele parece ameaçador. — Você tem um mês para cumprir minha oferta, caso contrário, irá pagar com a sua vida. — sua voz ficou mais firme, grave... assustadora.

Do que será que estão falando, meu Deus? O que meu pai fez dessa vez?

— Até breve. — Jones despede-se de meu pai.

Fico perdida em pensamentos. Quando escuto o carro arrancar, parece que está com pressa ou irritado com algo.

Rapidamente, eu sigo até a pia devagar, sem fazer muito barulho, e começo a lavar as louças para disfarçar que estava os ouvindo.

Não posso deixar que descubra que eu estava ouvindo sua conversa atrás da porta. Ele já deixou bem claro que não gosta que eu me intrometa em assuntos particulares. Se não fizesse tanta besteira, eu não me preocuparia tanto.

Meu pai entra e tranca a casa como se estivesse com medo de algo. Nunca lhe vi assim. Quando a mamãe morreu, dormimos até com a casa aberta porque nossa única preocupação naquele momento foi chorar, e hoje, vendo-o fechar tudo desesperado, me deixa assustada.

Se antes eu tinha dúvidas de que ele fez algo de errado, agora tenho certeza de que meu pai aprontou alguma coisa. Só não sei o que é ainda. Não vou perguntá-lo agora para dar bandeira que estava escutando atrás da porta.

— Pai! — Seu olhar me assusta um pouco. Mas volto à minha postura de antes e completo no que estava falando: — A janta ainda está quente.

— Ah… eu já vou. — falou pensativo, olhando para frente.

Ele liga nossa televisão e eu termino a louça e antes de subir para meu quarto vejo meu pai pela última vez naquela noite e vou me deitar.

Capítulo 3

Pov Lucia V. Cooper's.

Um mês depois....

Passou um mês e agora sou a gerente da loja, as coisas melhoraram um pouco. Não ganho tanto como em outras lojas, porque essa loja ainda é pequena e nossa cidade também. Mas consegui quitar as dívidas, pelo menos as contas e algumas coisas que comprei para a casa. Agora, posso comprar carne duas vezes por mês, isso já é ótimo.

Meu pai é o mesmo, confesso que às vezes parece que ele se preocupa comigo, me olha de um jeito estranho, triste… mas depois, ele sai para beber. Ele não soube lidar bem com o luto e agora sua vida é assim.

Meus horários de serviço agora são melhores, trabalho somente à parte da tarde. Parte da manhã, dedico a arrumar a casa e, de noite, faço a janta mais cedo e vou ler alguns livros.

Minha mãe tem alguns livros na sua estante, estão empoeirados, mas nada que uma limpeza não resolva. E amo muito ler esses livros, mesmo que as histórias não sejam reais, eles me dão esperança no "amor".

Eu nunca amei ninguém além da minha família, não sei se isso é pra mim.

Pelo que sei, minha mãe cresceu na igreja ouvindo de Deus e serviu a Ele até a morte. Ela encontrou o amor, foi amada, nos amou. Mas ela partiu, Deus a levou. Nunca me indignei com ele. Foi a hora dela, mas tivemos tão pouco tempo.

Lembro de uma frase que ela sempre falava:

" NÃO DESISTA DE DEUS, ELE NÃO DESISTE DE VOCÊ. "

Isso sempre fica martelando na minha cabeça. E sempre digo isso ao meu irmão. Oramos toda noite juntos e tentamos sempre não reclamar da nossa vida e sim agradecer. Queremos parecer com nossa mãe, sermos uma boa pessoa.

******

No dia seguinte, é minha folga.

Vou até o mercado com meu irmão e compramos algumas roupas, estávamos precisando. Pedro ficou contente, havia muito tempo que não compramos nada, só pagamos.

Comprei para ele dois pares de roupa e um tênis de que ele ficou apaixonado, e para mim dois simples vestidos, gosto de roupas simples, combina comigo.

Depois, Pedro fica encarando um lindo caminhão verde. Ele fecha a cara e sabe que suas economias não vão pagar o caminhão que tanto deseja.

Eu coloco minha mão em seu ombro. Ele se vira para mim e eu digo:

— Pode pegar. — Digo sorrindo para ele.

Ele fica espantado e diz:

— Mas e suas economias?

— Bom… eu junto de novo, meu livro pode esperar, depois você me paga o livro.

Eu pisco para ele, e meu irmão me abraça forte e enche meu rosto de beijos.

Compro o caminhão para ele e, quando estávamos indo para a estrada de pedra que segue até a nossa amada vila, somos surpreendidos...

Aparece um carro escuro, bem chique, na nossa frente. Pego na mão do meu irmão e respiro fundo, atenta.

O vidro se abaixou e percebi quem era na mesma hora.

— Boa tarde, jovens.

Seria difícil não reconhecer aqueles olhos verdes, cabelo perfeito, aquela colônia. É o Jones.

Reparo que ele continua com o mesmo jeito elegante.

— Que tal uma carona? — eu não respondi, não o conhecia, então por que ir com ele?

Mas, ele pareceu entender meu olhar.

— Bom, Lúcia, eu sou o dono do bar onde seu pai se encontra todas as noites. Ele nos deve uma boa grana, preciso lembrar a ele de pagar, se não, fico no prejuízo. — ele soltou um leve sorriso, me olhando.

Que droga! Por que meu pai faz isso comigo?

Todo nosso dinheiro vai para ele. aff

— Hummm, tudo bem. — assenti.

Ele abre a porta pra mim e eu e meu irmão entramos.

Ficamos em silêncio durante o percurso até chegar à nossa vila.

De vez em quando, percebi Jones me olhando.

E isso me deixou nervosa... com vergonha, na verdade. Por que ele me olha assim? Desvio o olhar, prestando atenção do outro lado do vidro.

Minutos depois, chegamos... não moro longe do trabalho.

Eu saio do carro com Pedro e segurando as sacolas.

Pedro entra em casa e vai guardar seu caminhão, todo animado.

Encontro meu pai do lado de fora, perto do jardim.

Quando ele percebe que Jones está ali, os dois se cumprimentam, secamente.

— Que coincidência, Rodolfo. Encontrei seus filhos, mas os trouxe em segurança para você.

— Obrigado.

Meu pai responde seco e segura meu braço.

O que está acontecendo?

— Ora. Ora. O que acha que está fazendo? — Diz Jones, sério, fitando meu pai.

— Levando minha filha para dentro, para a gente conversar. — Ele arfa para o Jones, eu francamente não sei o que está havendo.

— Não temos nada para conversar. — Jones chama um de seus guardas-costas que estava no carro conosco, eu nem prestei atenção nele.

Meu Deus, o que está acontecendo aqui afinal?

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