Ela ri de novo, rodopiando enquanto caminha pelo restante do caminho. Chegamos ao fim, o sinal de que é hora de voltar e regressar ao conforto de nossos lares. Eu tenho outra ideia para esta noite. Refazemos o caminho e, quando chegamos ao final, paro diante de Lea e olho diretamente em seus olhos.
"Hoje à noite vou para casa sozinha", anuncio. "Preciso de alguns momentos comigo mesma."
"Elara, isso não é uma boa ideia. Está escurecendo, você não pode voltar sozinha..."
"Lea, por favor..." digo em súplica. "Não me resta muito tempo, logo não terei mais essas caminhadas, não terei tempo para mim. Nem para pensar."
O farfalhar da barra do vestido dela soa na brita quando ela se aproxima e me abraça com força. Deixo que ela me conforte, inalando o doce cheiro de violeta dos cabelos. Sinto o tremor em seus ombros e então sei que ela está chorando. Tento não deixar as lágrimas nublarem meus olhos. Somos amigas a vida inteira e uma de nós tem que se despedir para sempre da outra, mesmo que ela não saiba das minhas intenções definitivas. Ela não receberá minhas cartas, porque estou tão apavorada com meu destino que planejo fugir dele como uma covarde.
"Pronto, pronto..." Acariciei suas costas num gesto de consolo. "Vai ficar tudo bem, vou escrever para você e contar como é minha nova casa. Vai ser como se eu estivesse aqui."
A mentira tem gosto de cinzas.
Ela se afasta de mim, incapaz de conter o soluço que escapa. Enxugo com os polegares as lágrimas que descem pelas bochechas dela e lhe dou um pequeno sorriso.
"Vou lhe escrever tantas cartas", promete. "Tantas que você vai se cansar de mim."
"Isso é impossível."
"Vou te contar tudo o que eu descobrir nos meus livros, vou te falar do Felippo e de qualquer outro que aparecer durante as nossas caminhadas..."
"Quero os detalhes do casamento com o Felippo", provoco. "Você está corando de novo!"
"Você é uma idiota!"
Ela me abraça de novo e encerra a despedida com um pequeno aceno de mão e uma exclamação.
"Até amanhã!"
Enquanto ela segue pelo caminho, vira-se várias vezes para me ver, e eu fico no lugar até que suas ondas alaranjadas desapareçam.
Solto o ar que mantinha preso no peito e desabo no chão, onde a vegetação é opaca e seca. Não me dou ao trabalho de juntar as saias - quão sujo meu vestido vai ficar já não importa.
O céu lentamente se torna de um azul escuro e os únicos sons que me acompanham são a brisa, a água em movimento e as copas das árvores sendo sacudidas. O lago fica numa ponta da aldeia, na área mais deserta. A primeira casa habitada deve estar a centenas de metros. Não é próprio para moças virem aqui, muito menos ficarem sozinhas em um lugar tão remoto e solitário. Meus pais não aprovariam.
Tiro os sapatos de bico arredondado e, depois, as meias. Sinto a terra sob os pés enquanto começo a andar em direção à margem.
Quando a água toca meus dedos, um arrepio percorre meu corpo todo, entorpecendo-o. Dou outro passo, e depois mais um.
Meu corpo não se acostuma ao frio a água gélida de dezembro parece centenas de agulhas me apunhalando. Por mais doloroso que seja, não vou parar. Tenho um objetivo e não vou abandoná-lo.
Meu peito protesta enquanto meu corpo tremendo pressiona os aros do corpete contra mim. Sigo avançando; a água me cobre além do peito e meus dentes não param de bater. Não sinto meus dedos dos pés e é difícil mover as mãos. Continuo avançando um pouco mais, lutando para me manter na superfície.
Cada minuto é como um grão caindo de uma ampulheta, marcando a contagem regressiva.
Pouco a pouco, todo o meu corpo fica dormente, o frio turva até minha mente. Pequenas nuvens de vapor escapam dos meus lábios trêmulos.
Chega um momento em que meus pés ficam tão pesados que paro de movê-los e permaneço imóvel, deixando minha cabeça afundar, centímetro a centímetro.
O ar escapa de mim quando mergulho. O choque de estar totalmente naquela água fria é brutal. A calma excessiva nela é ainda mais inquietante.
Afundo devagar, suspensa na água, observando meu cabelo flutuar ao redor enquanto nem meus braços nem minhas pernas conseguem o esforço para nadar e voltar à superfície. O frio me perfura como estacas de gelo.
Meu peito protesta. Arde, e juro que mãos pressionam nele, comprimindo-o.
Abro a boca involuntariamente, procurando ar e encontrando apenas água. Engasgo. Um espasmo me sacode, minha visão embaralha-se, e o peso do meu corpo continua me arrastando cada vez mais para o fundo.
Mais espasmos me atravessam, quebrando a imobilidade da água, e por mais que eu tente mover os braços, eles não respondem.
Mesmo querendo morrer, o instinto de sobrevivência é forte, mas lembro-me repetidas vezes de que é isso que eu quero.
Minha visão fica traiçoeira, mostrando o que parece um rosto que desaparece tão rápido quanto eu pisquei.
As bordas da minha visão escurecem, como as margens de uma fotografia pegando fogo.
"Você deve viver, você tem que viver..."
As palavras sussurram na água.
"Você tem que viver, você deve viver."
O peso das minhas pálpebras aumenta, e também a sensação de que algo vem em minha direção.
"Este ato de covardia me decepciona."
Algo nessas palavras me faz ferver por dentro.
Elas me invadem como ácido corroendo minhas veias.
Uma onda de vergonha me domina.
Eu não consigo fazer isso. Não posso fazer isso com meus pais. Com meus irmãos.
O Libris não está selado Silas terá que entrar no Leilão Carmesim por minha causa. Não posso condená-lo a isso esse é meu fardo, só meu.
Tento abrir os olhos, lutar contra a água, mas é tarde demais.
Por mais que me esforce, meu corpo recusa-se a responder.
"Garota estúpida."
A histeria me faz abrir a boca de novo, e a água jorra para dentro de mim, enchendo meus pulmões e silenciando meus gritos.
Cabelos cruzam minha visão, enrolam-se em volta do meu pescoço como um laço.
Olho para cima e tudo o que vejo é preto. Estou longe da superfície.
Aquele rosto misterioso se aproxima, mais e mais...
Perco a consciência por um momento e, quando volto, meu rosto está contra a margem do lago, manchado de terra molhada.
Meu vestido ainda boia na água, e minhas pernas continuam dormentes.
Apoio os cotovelos na terra para arrastar o que resta do meu corpo para fora.
Minhas mãos tremem e, ao olhar meus dedos, vejo que estão roxos.
Viro-me de costas, com o céu escurecendo e a lua mais presente.
Minha respiração não está normal - é ofegante - e meu peito faz sons de agonia.
Tento levar as mãos à boca para aquecê-las.
Minhas pernas não obedecem às ordens e meus pés têm um tom arroxeado.
A brisa sacode as copas das árvores e, com ela, um novo sussurro me alcança.
"Aceite o seu destino."
Olho em todas as direções procurando a origem da voz, mas só as árvores e o caminho solitário me respondem.
As palavras me atingem com um peso, e meus ombros tremem enquanto caio em prantos.
Fui tão egoísta, uma filha e irmã terrível...
Quase condenei meus irmãos ao meu destino e minha família à desgraça.
Cubro os olhos com as mãos, tentando segurar as lágrimas, mas elas saem com força, sem querer parar.
Não sei quanto tempo fico sentada ali antes de Silas aparecer.
"Elara!" Os passos do meu irmão ficam cada vez mais altos. "Elara! O que aconteceu?"
O calor dos seus braços me envolve e, instintivamente, minhas mãos tentam agarrá-lo, buscando consolo.
Enterro meu rosto no peito dele, encharcando sua camisa com meu cabelo e roupas molhadas.
Ele murmura algo que não consigo entender enquanto nos embala suavemente.
"Calma, calma, Elara... Está tudo bem agora."
Sinto seus dedos enredarem-se no meu cabelo enquanto o acaricia.
Seu abraço é exatamente o que eu precisava - e eu não sabia disso até aquele momento.
Pequenas nuvens de vapor se formam no ar a cada uma das minhas respirações ofegantes.
Suas mãos massageiam meus pés e tornozelos, tentando recuperar minha circulação e dissipar a cor doentia.
"Quer me contar o que aconteceu?"
Balancei a cabeça, e ele não insiste.
Isso é o que eu gosto nele: o vínculo que temos, o acordo mútuo de não pressionar o outro quando as perguntas são dolorosas demais para responder.
Passamos muito tempo à beira do lago - eu agarrada a ele tentando absorver algum calor, e ele verificando se a circulação nos meus membros volta ao normal.
"Espero que saiba que vai causar um rebuliço quando chegarmos em casa."
Um dos seus braços envolve minhas costas, o outro passa por baixo dos meus joelhos, e ele me ergue do chão.
"Mamãe e papai vão pirar quando te virem assim."
Assinto. Meus pais certamente farão escândalo por eu não ter voltado antes do anoitecer, e aparecer desse jeito não vai ajudar.
Silas não fala mais; carrega-me em silêncio pelo caminho até as ruas vazias da aldeia.
O frio ainda persiste nas minhas entranhas e não sei mais o que fazer para me aquecer.
Suspiro aliviada ao ver nossa casa à distância, lançando luz alaranjada pelas janelas.
Quando chegamos à porta, Silas a chuta e a avalanche de preocupação da minha família começa.
"O que aconteceu?" pergunta meu pai, levantando-se da cadeira junto à lareira.
"Elara!" O grito da minha mãe corta o ar. "Minha menina! O que houve? Você está encharcada!"
"Tragam o máximo de mantas que puderem", ordena Silas enquanto me conduz em direção ao fogo.
Nem chego a sentir o alívio de estar perto da lareira.
Desmaio a caminho dela, e a última coisa de que tenho consciência é a cabeça caindo para trás com um choque agudo.
Como era de esperar, passei meu aniversário e os dias seguintes na cama com pneumonia que fazia o ar sair do meu peito com um relincho. Quatro dias depois, minha aparência não melhorou muito, e espero que isso sirva de desculpa para que ninguém me compre esta noite.
Meu cabelo preto e grosso está cuidadosamente preso na nuca com pequenos grampos florais. Minha pele tem um tom sem vida e duas ranhuras roxas repousam sob os olhos.
"Minha menininha..." diz mamãe entre lágrimas enquanto belisca minhas bochechas para lhes dar cor. "Não estou pronta para este momento. Nenhum de nós está."
Meu peito aperta a cada palavra; pisco várias vezes para afastar a vontade de chorar. Minhas lágrimas só tornariam tudo mais difícil.
"Não se preocupe, mamãe. Talvez eu tenha sorte e ninguém me ache apetecível o bastante hoje à noite."
Os olhos da minha mãe me encaram sem humor, vermelhos e inundados de lágrimas.
"Quer queira ou não, esta é a última noite que passará sob o nosso teto." As mãos dela pousam nos meus ombros e ela me puxa para um abraço. Acaricia minhas costas levemente. "Fique saudável - não por eles, mas por você, Elara. Escreva para nós, nos diga de alguma forma que você ainda está viva."
"Vou tentar", respondo sem convicção.
A maioria de nós já sabe o destino que nos aguarda uma vez comprados.
Cada vampiro deveria ter um certo número de "alimentadores" conforme sua patente. Nem mais, nem menos, desde que eles permaneçam saudáveis e capazes de cumprir seu dever.
Não lhes é permitido nos ferir, exceder ou apressar nossas mortes. Mas são só palavras, leis escritas por seus ancestrais e pelos nossos para garantir uma paz.
Na prática, muitos deles bebem em excesso, nos deixam secos, descartam-nos e logo encontram um substituto, com a colaboração, é claro, de leilões Carmesins corruptos.
Mamãe me deixa sozinha por alguns instantes, que uso para gravar na memória cada detalhe do que foi meu quarto por dezoito anos - meu lugar de descanso e confissões.
Estou usando o vestido mais bonito e novo do meu armário.
Aquele que aperta meu peito tão fortemente que é difícil respirar.
É de veludo verde com bordados em fio dourado; o decote quadrado revela as curvas dos meus seios. Levanto-me do banquinho diante da penteadeira e pegou o xale.
Dou-me uma última olhada no espelho e involuntariamente passo os dedos pela curva do meu pescoço, como se já soubesse que nunca o veria intacto outra vez. Envolvo o xale sobre os ombros, seguro-o com força e saio do quarto.
Desço as escadas, ouvindo cada ranger da madeira, e vejo todos os rostos da família à espera lá embaixo.
"Você está linda", diz Silas, os olhos brilhando.
"Elara está sempre linda."
Papai prende minha mão ao descer o último degrau e me puxa para o peito, abraçando-me com força até que meus ossos protestem.
Ainda assim, não digo nada.
Fico ali por vários instantes, sabendo que esta será a última vez que estarei nos braços do meu pai.
É dolorosamente difícil me afastar.
"Elara?" uma voz infantil chama.
Minha irmãzinha olha para mim de entre as cabeças mais abaixo. Seus grandes olhos cor de mel me observam, amedrontados, e eu sorrio para tranquilizá-la. Abraço-a, aninando seu rosto contra o meu peito e fazendo-lhe carinho nos cachos acobreados.
Vou sentir tanta falta...
Não estarei presente para curar os joelhos ralados da próxima vez que ela cair brincando; não haverá mais histórias à luz de velas, e não verei o sorriso dela por causa de algum rapaz.
Nossos pais assistem à cena com angústia verdadeira, e Silas se junta ao abraço, envolvendo-nos e nos protegendo do mundo com a extensão do seu corpo.
Inalo o cheiro de casa enquanto contenho as lágrimas.
O som de um sino quebra o silêncio.
O Leilão Carmesim está aberto para nos receber.
Cada badalada cai sobre nós como um balde de água fria.
Mamãe prende a mão de Abigail, e meu pai oferece o braço para eu andar.
Silas fica à minha direita e abre a porta, deixando entrar uma rajada de ar gélido.
Todos prendemos a respiração por um segundo e então começamos a andar.
A rua está vazia, embora dezenas de pares de olhos nos observem pelas janelas.
Toda lua cheia é um evento que todos assistem da segurança de suas casas, com arrepios e corações apertados, pois cada vez que alguém entra no Leilão Carmesim, lembra aos outros do que um dia acontecerá em suas próprias casas.
Muitos outros leilões acontecem esta noite em centenas de aldeias amaldiçoadas como a nossa.