Capítulo 2

Valentina

A mão que me agarrou não era de Giovanni.

Esse foi o primeiro pensamento que atravessou minha mente enquanto meu corpo era puxado para trás com força suficiente para arrancar o ar dos meus pulmões. Não havia cheiro conhecido, não havia voz doce sussurrando desculpas. Só um aperto firme no meu braço e o peso de alguém que sabia exatamente o que estava fazendo.

— Solta! — tentei gritar, mas a voz saiu quebrada, engolida pela noite.

O homem não respondeu. Não precisou. Ele me virou com um movimento seco, rápido, e por um segundo eu vi apenas sombras e o brilho frio de olhos atentos demais para alguém que estivesse improvisando.

— Quietinha, garota. — disse, baixo. Controlado. — Se gritar, piora.

Eu congelei.

Não por obediência. Por cálculo.

O jardim dos Moretti era grande, escuro, cheio de caminhos que se cruzavam como um labirinto bonito demais para alguém pedir socorro. As luzes da casa principal estavam acesas. Havia carros chegando. Homens circulando.

E ninguém… ninguém estava olhando para mim.

— Por favor… — escapou, sem que eu tivesse planejado. O orgulho vacila quando a sobrevivência bate na porta. — Eu não fiz nada. Eu só quero ir embora.

O homem me observou por um segundo a mais. Um segundo perigoso, silencioso. Ele parecia avaliar algo além do meu rosto como se estivesse medindo não o meu medo, mas o quanto eu valia.

— Não depende de mim. — respondeu, por fim.

A frase caiu como uma sentença.

Ele me soltou de repente, e por um instante meu corpo reagiu antes da mente. Dei dois passos para trás. Me virei. Corri.

Corri sem direção, sem fôlego, sem saber se havia saída ou só mais muros. Meus pés escorregaram na grama úmida. O coração batia tão alto que parecia querer saltar do peito. O mundo se reduziu a duas coisas: fugir e respirar.

Passei por uma lateral da casa, por uma área mal iluminada onde havia uma pequena porta de serviço. Forcei a maçaneta.

Trancada.

— Merda… — murmurei, sentindo o pânico começar a subir como maré.

Continuei correndo. Pulei um pequeno canteiro, arranhei a perna num arbusto, senti a dor arder, mas não parei. Dor ainda era vida.

Alcancei o portão lateral do terreno. Alto. Fechado. Câmeras girando lentamente, como olhos mecânicos que nunca piscam.

Eu estava cercada.

Encostei as costas no ferro frio e deslizei até o chão, ofegante. Minhas mãos tremiam. Minha cabeça girava.

Foi ali, sentada na terra de uma família que eu achei que fosse minha, que a verdade se instalou de vez:

Eu estava sozinha.

Não havia número para ligar. Nenhum nome para gritar. Nenhuma porta amiga para bater no meio da noite. Meus pais morreram quando eu tinha três anos. Não havia memórias suficientes para doer só fotos antigas e histórias contadas por outros.

Meu tio… ele tentou. Deus sabe que tentou. Me deu teto, carinho, limites. Me ensinou a não baixar a cabeça fácil. Mas o câncer levou ele rápido demais, como se o mundo tivesse pressa em me lembrar que nada dura.

Depois disso, eu virei boa em sobreviver.

Boa em não depender. Boa em não criar raízes.

Até Giovanni.

Até eu acreditar que amor também podia ser abrigo.

Soltei uma risada curta, quase histérica.

— Que idiota… — sussurrei para mim mesma.

Acreditei em promessas. Em jantares de domingo. Em “futuro”. Acreditei quando ele disse que eu era diferente. Quando disse que jamais permitiria que alguém me machucasse.

E foi ele quem me entregou.

Levantei com dificuldade. Não podia ficar ali. Mesmo sem plano, mesmo sem saber para onde ir, ficar parada era aceitar.

Passei pelo portão menor, que dava para a rua lateral. Não estava trancado. Saí.

O ar da cidade bateu no meu rosto como um tapa. O som distante de carros, uma sirene longe demais, um casal discutindo na calçada oposta. A vida seguia.

Menos a minha.

Caminhei rápido, tentando parecer normal. Uma mulher andando sozinha à noite não chama atenção se finge que sabe exatamente para onde vai. Meus passos doíam. Meu corpo inteiro doía.

Parei numa esquina iluminada. Vi uma pequena igreja aberta, luz acesa, porta entreaberta.

Entrei.

O cheiro de incenso e madeira antiga me envolveu. Havia uma senhora sentada nos primeiros bancos, rezando em silêncio. Um homem mais velho organizava papéis perto do altar.

Por um segundo, eu quase chorei.

— Com licença… — minha voz saiu baixa, quebrada. — Eu… eu preciso de ajuda.

O homem levantou os olhos. Me avaliou. Rápido demais. Como se já tivesse aprendido a reconhecer problemas.

— Está tudo bem, filha?

Eu abri a boca. E fechei.

Como explicar que eu tinha sido vendida? Que homens armados me procuravam? Que eu não tinha documento comigo, nem dinheiro, nem casa para voltar?

— Eu… preciso usar o telefone. — foi o que consegui dizer.

Ele hesitou. Olhou para a senhora. Olhou para a porta.

— Não é uma boa hora. — respondeu, gentil, mas firme. — Estamos fechando.

Fechando.

Tudo estava sempre fechando.

Assenti, engolindo o nó na garganta.

— Desculpa. — murmurei, antes de sair.

Do lado de fora, a noite parecia mais fria.

Caminhei mais algumas quadras. Tentei entrar num hospital. Segurança na porta. Perguntas demais. Olhares desconfiados. Eu parecia exatamente o que era: uma garota sem nada.

Passei por um ponto de táxi. O motorista me olhou de cima a baixo.

— Tem dinheiro?

Balancei a cabeça.

Ele virou o rosto.

Continuei andando até as pernas ameaçarem falhar. Parei perto de um pequeno parque vazio, sentei num banco de concreto e abracei os próprios joelhos.

Foi ali que a ficha caiu de vez.

Não importava o quanto eu fosse forte.

Não importava o quanto eu quisesse sobreviver.

Quando alguém decide que você é mercadoria… o mundo inteiro colabora.

Fechei os olhos por um segundo. Só um segundo. Para respirar. Para organizar a cabeça. Para pensar no próximo passo.

Quando abri, o carro preto estava estacionado do outro lado da rua.

Meu coração afundou.

A porta se abriu devagar. O mesmo homem do jardim desceu. Paletó escuro. Postura calma. Olhar atento.

Ele caminhou até mim sem pressa.

— Eu disse que não dependia de mim. — falou, parando a poucos passos. — Agora depende menos ainda.

Levantei devagar. Endireitei os ombros.

— Eu não vou gritar. — avisei. — Não adianta.

Um canto da boca dele se ergueu, quase imperceptível.

— Inteligente.

— Posso saber pra onde está me levando?

Ele abriu a porta traseira do carro.

— Pode.

Esperei.

— Mas não vai mudar nada.

Entrei sozinha.

A porta se fechou com um som pesado, definitivo.

E enquanto o carro arrancava, eu entendi, com uma clareza dolorosa:

Ninguém vinha me salvar.

E eu estava oficialmente fora do mundo que conhecia.

Capítulo 3

Valentina

O carro seguia pela estrada como um caixão em movimento.

Vidros escuros. Silêncio pesado. O motor ronronando baixo, constante, como um aviso de que nada ali era improvisado. Eu estava no banco de trás, mãos apoiadas no colo, coluna ereta, o olhar perdido no reflexo do vidro que me devolvia uma versão pálida de mim mesma.

Uma garota de vinte e dois anos, olhos secos, alma em ruínas.

Não chorei.

Não porque não doía... doía em cada osso, em cada memória, mas porque havia um tipo de dor que não encontra saída pelos olhos. Ela se acumula no peito, vira pedra, vira lâmina. E eu ainda precisava dela inteira para sobreviver.

O homem que dirigia não falou nada desde que saímos. Nem música. Nem rádio. Nada além da estrada escura cortando a noite. Ele era grande, ombros largos, postura rígida. Um profissional. Não um capanga qualquer. Alguém treinado para executar ordens sem curiosidade.

— Quanto tempo falta? — perguntei, depois de longos minutos.

Ele me olhou pelo retrovisor. Só isso.

— Não muito.

Monossilábico. Frio. Como tudo naquela noite.

Encostei a cabeça no banco, sentindo o couro gelado contra a pele. Minha mente insistia em voltar para Giovanni. Para o sorriso. Para as flores espalhadas no chão como sangue. Eu poderia ter gritado mais? Corrido melhor? Confiado menos?

Perguntas inúteis.

O que estava feito, estava feito.

— Ele… — comecei, e minha própria voz me pareceu estranha, distante. — Ele sabe que eu tentei fugir?

O homem demorou um segundo antes de responder.

— Ele espera isso.

Engoli seco.

Ele.

Aquela palavra tinha peso. Não precisava de sobrenome. Não precisava de título. Naquele carro, naquele silêncio, “ele” era suficiente para ocupar todo o espaço.

— E o que acontece com quem tenta fugir? — perguntei, mantendo o tom firme, mesmo com o coração disparado.

O homem respirou fundo. Parecia escolher as palavras.

— Depende do humor dele.

Aquilo devia me assustar mais do que assustou. Mas a verdade era que, em algum ponto da estrada, algo dentro de mim tinha se desligado. Um fio fino, invisível, que ligava esperança à realidade.

Eu já tinha entregue os pontos.

Não no sentido de desistir de viver, mas no sentido de aceitar que aquele encontro era inevitável. Que não adiantava implorar, chorar, barganhar. Pessoas como ele não compravam coisas para depois negociar com elas.

Cruzei as pernas com cuidado, ajeitei a postura. Se eu ia ser levada como objeto, não seria um objeto quebrado.

— Qual é o nome dele? — perguntei, mesmo já sabendo a resposta.

O homem hesitou. De novo aquele segundo perigoso.

— Dante Vitale.

O nome caiu no banco entre nós como uma sentença formal.

Dante Vitale.

Don da máfia italiana. Temido por políticos. Respeitado por criminosos. Conhecido por matar com as próprias mãos quando necessário.

E agora… dono do meu destino.

A estrada começou a subir. Curvas fechadas. Muros altos surgindo dos dois lados, como se a própria cidade tivesse sido deixada para trás. Câmeras. Portões. Guardas armados.

O carro diminuiu a velocidade.

Meu coração acompanhou.

Passamos pelo primeiro portão. Depois pelo segundo. O último se abriu em silêncio absoluto, como uma boca que engole sem fazer barulho.

A mansão surgiu à frente.

Enorme. Escura. Silenciosa demais para ser um lar. Mais parecia uma prisão de luxo, erguida para lembrar a todos que entravam ali que nada escapava. As luzes eram poucas, estratégicas. O mármore refletia tudo inclusive o que eu não queria ver em mim mesma.

O carro parou.

— Chegamos. — o homem disse.

Desci sem ajuda. O ar ali parecia mais denso, como se pesasse nos pulmões. Dois guardas se aproximaram. Nenhum tocou em mim. Não precisavam. O lugar inteiro já me mantinha sob controle.

Caminhei entre eles, passos ecoando no chão polido. Cada som parecia carregar um julgamento. Eu sentia olhares, mesmo sem vê-los. Pessoas escondidas nas sombras. Observando. Medindo.

Eu estava sendo levada como um objeto.

Mas mesmo com medo, levantei o queixo.

Se era isso que restava de mim, então pelo menos… eu cairia de pé.

Entramos no saguão principal.

Foi então que o vi.

De costas, no centro do espaço. Alto. Imponente. Os ombros largos cobertos por um paletó negro impecável. A postura de quem não espera é esperado. A luz do lustre refletia no relógio prateado em seu pulso e nos cabelos perfeitamente penteados.

Ele não se virou de imediato.

Falava com alguém em voz baixa, calma demais para um lugar daqueles. Cada gesto era econômico, preciso. Um homem acostumado a ser obedecido sem precisar levantar o tom.

Eu parei a alguns metros de distância.

O silêncio se esticou.

Então ele se virou.

Meu coração congelou.

Cabelos escuros. Barba marcada. Um rosto esculpido por linhas firmes e uma expressão que não entregava nada. Os olhos… cinzentos. Frios. Atravessavam tudo o que eu era como se estivessem avaliando matéria-prima.

Dante Vitale tinha o tipo de beleza que não devia existir em homens perigosos.

Mas ali estava ele.

Lindo.

E mortal.

Ele me analisou de cima a baixo. Não com pressa. Não com desejo explícito. Como quem avalia um investimento. Um ativo recém-adquirido.

— É isso? — perguntou, sem emoção. A voz grave, controlada. — Foi isso que me mandaram?

A pergunta ecoou no saguão como um golpe seco.

E foi ali, sob aquele olhar que não prometia nada além de domínio, que eu entendi:

Minha vida, como eu conhecia, tinha acabado.

E tudo o que viesse depois… dependeria dele.

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