Capítulo 2

A cobertura não era apenas um lar; era uma jaula dourada.

Dante havia postado dois guardas do lado de fora da porta da frente. Ele chamou isso de proteção. Eu sabia o que era: contenção.

Mas ele me subestimou. Eu não fiquei para apodrecer.

Ignorei completamente a entrada principal. Eu conhecia os códigos do elevador de serviço melhor do que os guardas conheciam seus próprios nomes.

Uma hora depois, eu estava sentada em um boteco mal iluminado na Rua Augusta, o tipo de lugar onde a fumaça pairava baixa como uma mortalha e os rostos eram convenientemente obscurecidos pelas sombras.

Lola deslizou para o banco oposto ao meu. Ela era um fantasma na máquina, uma informante que me devia uma dívida de vida.

Ela não perguntou como eu sobrevivi. Não perdeu tempo com gentilezas. Apenas deslizou uma pasta de papel pardo pela mesa pegajosa.

"Você estava certa", disse ela, a chama de seu isqueiro iluminando seus traços afiados. "Registros médicos do Dr. Esteves. Letícia o consulta há sete meses. A data da concepção foi duas semanas antes do confronto com o Comando."

Abri a pasta. As datas me encaravam em preto e branco.

Não foi um erro. Não foi uma noite de bebedeira e luto.

Foi um caso completo, mantido enquanto eu estava ocupada planejando nosso jantar de aniversário.

"Tem mais", disse Lola, sua voz baixando uma oitava. "O Comando não te pegou por acaso, Sofia. Eles receberam uma dica. Alguém disse a eles exatamente onde você estaria naquela noite."

Meu estômago revirou, o ácido subindo pela minha garganta. "Dante?"

"Talvez", disse Lola, soltando uma nuvem de fumaça. "Ou talvez a mulher que queria o seu lugar."

Peguei o arquivo e saí. O ar lá fora parecia pesado, sufocante, pressurizado pela verdade que eu agora carregava.

Eu precisava ir à fonte.

Cheguei à Mansão Vitti. A casa do meu pai.

Os guardas me deixaram entrar, seus olhos arregalados de superstição, como se estivessem olhando para um cadáver ambulante que voltou da sepultura.

Dom Vitti estava em seu escritório, fumando um charuto. Ele não se levantou quando entrei. Apenas me olhou com aqueles olhos frios e calculistas que avaliaram meu valor desde o dia em que nasci.

"Você causou uma cena no cemitério", disse ele, sem rodeios.

Nenhum *'Senti sua falta.'* Nenhum *'Graças a Deus você está viva.'* Apenas uma crítica à minha performance.

"Seu genro está dormindo com sua filha bastarda", eu disse, batendo o arquivo em sua mesa de mogno. "E ela está carregando o bastardo dele."

O Dom nem sequer olhou para os papéis.

"Letícia é da família. A criança é um Moretti. Isso a torna família."

Ele fez uma pausa, dando uma tragada lenta. "Você esteve fora, Sofia. Você esteve... com o Comando."

Ele disse a palavra como se fosse um contágio.

"Você é mercadoria suja. Dante é generoso em te aceitar de volta."

Senti o tapa de suas palavras mais forte do que qualquer golpe físico. "Ele me trocou", sussurrei, minha voz tremendo de fúria. "Ele me deu para eles."

"Ele tomou uma decisão tática", disse meu pai, a cinza de seu charuto caindo no tapete impecável. "Letícia estava grávida do futuro desta organização. Você era... descartável."

Eu ri. Foi um som seco e quebrado que arranhou minha garganta. "Descartável. É assim que você chama sua filha?"

"Eu te chamo de um risco", disse ele, encontrando meu olhar sem remorso. "Vá para casa, para o seu marido. Seja uma boa esposa. Crie o filho de Letícia como se fosse seu. Essa é sua penitência por ter sobrevivido."

Saí do escritório, tremendo de raiva.

Meu celular vibrou no meu bolso.

Era uma mensagem de um número desconhecido. Uma imagem carregou.

Era uma foto de Dante.

Ele estava de joelhos, beijando a barriga redonda e exposta de Letícia. Seus olhos estavam fechados, uma expressão de devoção pura e doentia em seu rosto.

A legenda abaixo dizia:

*Ele ama o que está dentro de mim mais do que jamais amou você. Renda-se, irmã. Pelo bebê.*

Apertei o celular até a tela rachar sob meu polegar.

Eles queriam que eu ficasse em silêncio. Eles queriam que eu fosse a esposa boa e obediente.

Eu ia queimar a casa deles até o chão.

Capítulo 3

Eu estava esperando no quarto principal quando Dante finalmente voltou. Ele parecia menos um homem voltando para casa para sua esposa e mais um soldado recuando de uma batalha perdida.

Ele cheirava a antisséptico de hospital e ao perfume doce e enjoativo de Letícia — um coquetel nauseante de esterilidade e traição.

"Os boatos", ele disse, a voz áspera enquanto afrouxava a gravata de seda. "Estão se espalhando como uma doença. As pessoas estão sussurrando que o bebê não é meu. Que Letícia é uma vadia."

"As pessoas falam", eu disse simplesmente, sentada na penteadeira e tirando meus brincos de diamante com movimentos lentos e deliberados.

Ele atravessou o quarto e agarrou meu braço, me virando para encará-lo. "Foi você quem vazou isso? Para os escalões mais baixos?"

"Eu só visitei uma amiga", respondi, meu pulso firme sob seus dedos apertados. "Lola manda lembranças."

Sua mandíbula se contraiu, o músculo se movendo sob a pele. Ele conhecia Lola. Mais importante, ele sabia que tipo de sujeira uma mulher como ela poderia desenterrar.

"Eu quero o divórcio, Dante", eu disse, minha voz cortando a tensão. "Ou eu envio o teste de paternidade pré-natal para o Consórcio. As Famílias não gostam quando os Capos mentem sobre suas linhagens. E certamente não gostam quando homens escolhem amantes em vez de suas esposas juradas."

Ele me encarou, procurando em meus olhos o medo que costumava morar ali, a garota trêmula que ele havia quebrado. Ele não a encontrou.

"Tudo bem", ele cuspiu, soltando meu braço como se eu o queimasse. "Eu assinarei seus papéis de separação. Mas não hoje."

Ele caminhou até a cômoda, tirando um documento dobrado de seu paletó. "Hoje à noite é o Baile de Gala. As Famílias estarão reunidas. Você entrará lá de braços dados comigo. Você vai sorrir. Você vai mostrar a eles que estamos unidos. Se você fizer isso, eu assino."

"Fechado", eu menti.

Ele assinou o papel na cômoda com um sorriso de escárnio, a caneta arranhando alto no silêncio, antes de guardá-lo de volta no bolso do peito. "Depois do Baile, Sofia. Então você terá sua liberdade."

Ele achou que tinha vencido. Achou que poderia controlar a narrativa como controlava todo o resto.

Mas ele se esqueceu de que uma mulher sem nada a perder é a criatura mais perigosa da Terra.

O Baile de Gala era um mar de diamantes e dinheiro sujo, o salão brilhando sob lustres que custavam mais do que a maioria das pessoas ganhava em uma vida inteira.

Eu usava um vestido vermelho com as costas nuas, um tom de carmesim que gritava poder. Cobria as marcas de cigarro nas minhas costelas — lembranças de seus dias ruins — mas expunha a crista afiada e faminta da minha espinha.

Dante desempenhou seu papel perfeitamente. Sua mão repousava possessivamente na base das minhas costas, seus dedos cravando apenas o suficiente para me avisar.

Ele sussurrava piadas no meu ouvido, fingindo intimidade para as câmeras. Letícia também estava lá, sentada à mesa da família, parecendo recatada em azul claro, interpretando a santa inocente.

Quando os discursos começaram, Dante subiu ao palco, comandando a sala com seu carisma habitual. Ele falou de lealdade, de família, da força inquebrável da aliança Vitti-Moretti.

"E agora", disse ele, erguendo sua taça de champanhe, seu sorriso tenso, "quero agradecer à minha esposa, Sofia. Seu retorno ao meu lado é nada menos que um milagre."

Ele gesticulou para que eu me juntasse a ele. Subi as escadas, o holofote me cegando, mascarando o fogo frio em minhas veias. Peguei o microfone de sua mão.

"Obrigada, Dante", eu disse. Minha voz estava firme, amplificada para ecoar pelo salão silencioso. "Milagres são coisas engraçadas. Às vezes... eles revelam a verdade."

Olhei para a multidão. Vi o rosto de pedra do meu pai. Vi os chefes das Cinco Famílias, observando como abutres.

"Meu marido fala de família", continuei, deixando as palavras pairarem no ar. "E ele está certo. Nossa família está crescendo. Quero propor um brinde."

Virei-me lentamente para olhar para Letícia. Ela congelou, a taça a meio caminho dos lábios, os olhos se arregalando em terror súbito.

"À minha irmã, Letícia", eu disse, minha voz cortando o silêncio como uma guilhotina. "Que está atualmente carregando o filho do meu marido."

Sussurros de espanto ondularam pela sala, uma inspiração coletiva que sugou o ar do salão. Dante avançou para pegar o microfone, mas eu recuei, fora de seu alcance.

"Eu me afasto", declarei, olhando Dante diretamente nos olhos, observando sua compostura se estilhaçar. "Para honrar a união deles. Porque um homem que troca a esposa com o Comando Vermelho para salvar a amante merece ficar com a mãe do seu filho."

Deixei o microfone cair.

Ele bateu no chão com um chiado de microfonia que combinava com o zumbido em meus ouvidos.

Saí do palco, de cabeça erguida, deixando a destruição para trás. A ilusão estava quebrada. O código de silêncio foi rompido.

E eu estava finalmente livre.

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