Capítulo 2

Dia após dia, há dois anos, eu preciso provar que estou apto novamente a exercer minha profissão e raramente me colocam para fazer os procedimentos. Posso orientar a equipe, fazer observações, dar instruções, mas nunca me deixam atuar sem que uma equipe gigantesca esteja preparada ao meu redor, como se eu fosse cometer um deslize a qualquer momento.

E pensar que um dia fui o nome mais forte para ser o CEO desse lugar…

Mas dessa vez eu não pude esperar pela assistência médica, só contei com a ajuda da equipe de enfermeiros. A pressão da paciente caiu, ela chegou a apresentar convulsões, tomei a frente e mandei que preparassem tudo o mais rápido possível, senão a perderíamos.

Toda vez que estou à trabalho no centro cirúrgico, uso uma cadeira de rodas diferenciada: mais alta e que me dá melhor mobilidade, já que as camas e macas do hospital podem ser bem altas e não estarem devidamente

adaptadas para um funcionário que é PcD[3], como eu.

— Bom dia — digo assim que a porta do elevador abre.

Os dois homens me olham com desdém e não dão muita importância para a minha presença, não sei se é porque estou sem jaleco ou somente porque pareço um paciente de cadeira de rodas – mesmo com pijama cirúrgico.

Aperto o botão para o penúltimo andar e fito a abertura metálica se fechar e imediatamente abrir no andar acima.

— Lamarphe, seu puto! — Ayslan, também conhecido como “O Viking”, também conhecido como o desgraçado do meu melhor amigo, vem em minha direção e me dá um soco forte no peito.

— Bom dia, doutor — os outros dois dizem sincronizados e dão espaço para o cabeludo se posicionar ao meu lado. Ele os ignora, no máximo dá um aceno de cabeça.

Existe uma hierarquia silenciosa em todo lugar – não seria diferente em um hospital de elite. Os “de baixo”, tratam os “de cima” com respeito e submissão. O Viking sempre teve esse efeito sobre os outros, desde quando éramos residentes aqui. Eu também, afinal de contas, um homem de 1,90 em um jaleco não passa despercebido.

Bem... até passa... se estiver de cadeira de rodas...

— Qual foi a emergência que te colocou na linha de frente? — Ayslan

aperta meu ombro. — Parabéns, cara! Quebrando regras e salvando vidas. Esse é o meu herói.

— Algum desses incompetentes deixou um alicate dentro de uma paciente e a fechou — Informo e o vejo deslizar a mão direita pela barba, tão chocado quanto eu. — Se não a tivesse reaberto e agido logo...

— Estou surpreso de que ela não tenha vindo a óbito. Já descobriu quem fez tamanha cagada?

— Não. O pessoal da administração está investigando, de repente atas e registros sumiram...

— Que conveniente... Isso aí vai dar uma justa causa para o

descabeçado e uma dor de cabeça para o hospital.

Os dois que estavam na frente saem primeiro, o elevador segue até seu destino final. Assim que abre, Ayslan me leva para fora e me empurra com toda a velocidade que consegue, atravessamos o corredor em questão de segundos e eu me agarro com todas as forças a cadeira.

— Você tem quantos anos, cara? — reclamo quando paramos no hall da Vice-presidência.

— Só para te deixar esperto e dar uma emoçãozinha nessa sua vida pacata — ele ri como um moleque e me empurra até o balcão elevado da secretária, preciso esticar o meu pescoço para enxergá-la sentada detrás dele,

de tão alto. — Doutor Lamarphe se apresentando! — Ayslan diz.

A mulher se levanta, apoia as mãos na madeira escura e espia como se eu fosse um anão.

Não sei porque ainda me impressiono por parecer um intruso aqui.

Este hospital, como a maioria dos lugares, não foi preparado para receber um funcionário que é pessoa com deficiência.

E provavelmente eles achavam que me venceriam pelo cansaço e me fariam desistir, pedir para voltar a ser docente em tempo integral, quem sabe uma aposentadoria ou ficar o dia inteiro em uma sala confortável gerenciando papelada...

Não.

Meu trabalho é a única coisa que me mantém vivo, o fio que segura minha sanidade. Não dediquei mais de uma década de estudo, prática e tormentas para sucumbir a qualquer dificuldade. Eles vão me vencer pelo cansaço? Não se eu puder vencê-los pela insistência.

— Pode entrar, doutor Lamarphe. O vice presidente está à sua espera

— a secretária informa.

Antes que eu agradeça ou deseje um bom dia, o Viking volta a controlar para onde vou e me empurra até a entrada, abre a passagem e me joga ante a longa mesa do meu tio e padrinho, Alfredo Lamarphe.

— Guido! — Vejo-o abrir os braços e vir até mim. Me cumprimenta com demora e me faz questionar se fui convocado aqui para tomar um café ou receber uma repreensão sobre meu ato deliberado há pouco.

— Enfim, acharam motivo para me demitir? — Encurto logo o assunto e vou direto ao ponto.

— Do que está falando?

— Sobre a cirurgia de emergência que precisei fazer por um erro da sua chefe de cirurgia — relato.

— Bobagem — o velho minimiza. — Aliás, parabéns, ouvi dizer que foi uma bela operação. Você sempre foi um rebelde com causa, não esperava menos de você.

— Grazie![4] — Semicerro os olhos, ainda sem entender o que estou fazendo aqui então, já que não serei advertido.

— Prego[5]. Meu velho Viking, aceita um whisky?

— Agora não, ainda tenho trabalho pelo resto do dia — ele agradece com a mão. — Tem gente esperando para ter a virgindade de volta lá embaixo e eu só vim porque você me bipou.

Ah, ele está aqui porque foi chamado também? Pensei que só queria me infernizar.

— E a doutora Han? — Meu tio olha para nós dois e por fim percebe que falta alguém.

— Teve uma emergência também — Ayslan informa.

— Muito bem, então direi a vocês dois... — o homem diz orgulhoso, caminha até a janela de cortinas escancaradas de um azul marinho elegante e sofisticado, como tudo o que representa sua vida.

Consigo ouvir o rufar de tambores ao fundo e a expressão dele, quando se vira para nós, é um misto de alívio e decepção.

— Eu vou morrer.

O silêncio que se segue é um tanto agridoce, para não dizer esquisito.

Aguardo que ele prossiga e diga o restante, mas tudo o que faz é comprimir o lábio em um sorriso contido. Não sei se espera que digamos algo... Na dúvida, tento ser analítico:

— Todos nós vamos morrer um dia. Todo ser humano tem duas coisas em comum: nasceu e vai morrer, faz parte do ciclo da vida.

— Já há algum tempo, em um exame de rotina, o meu médico descobriu que eu estava com um tumor maligno.

Engulo em seco e para tentar abrandar a raiva, aperto o apoio de mão da cadeira com muita força.

A família é muito grande, mas a única pessoa com quem sempre tive real proximidade foi o meu padrinho. Foi ele quem insistiu que eu deixasse a Itália e viesse para o Brasil, ser seu braço direito. Ele me ajudou e me apoiou em todos os momentos, ainda mais após o meu acidente.

Não consigo acreditar no que estou ouvindo… Sinto um misto de raiva e um embargo na garganta.

A vontade é de sair daqui agora mesmo, certamente faria isso se pudesse… se Ayslan não estivesse segurando minha cadeira.

— Não havia muitas opções... E eu estava atarefado cuidando de algumas coisas... — Sua voz sai tão macia e despreocupada que me deixa nervoso.

— Estava ocupado demais para cuidar da saúde? Che cazzo![6] Como que não detectaram isso antes? De quanto em quanto tempo são esses seus exames de rotina? — me altero.

—... O importante é que tenho algum tempo de vida... — Ele ignora completamente o que eu digo.

— Quanto tempo? — Ayslan até se senta, cruza as pernas e apoia o cotovelo na de cima.

— Algumas semanas... dias... Possivelmente...

— E você joga essa bomba assim? No nosso colo? Vai morrer em alguns dias? Você tem noção do que está dizendo?

É estranha a sensação que um médico que estudou a vida inteira para salvar vidas sente, ao ouvir ou saber que não pode salvar uma. Ainda mais uma tão próxima e conectada à sua própria vida... Já passei por isso uma vez no passado... E estou revivendo esse sentimento em uma montanha russa de emoções agora.

— Mas nunca é tarde demais para algumas coisas... — ele suspira. — Então eu vou me casar e vou revelar o meu testamento. E vocês dois, assim como a doutora Han, estão nele. Então... Compareçam...

— Casar? — A voz sai até embargada ao dizer a palavra. — Será que o senhor tem noção do que acabou de nos dizer? Será que percebe o quão relapso e descuidado foi consigo mesmo e agora só diz que quer... Casar?!

— É a vontade dele, Guilhermo — Meu amigo tenta me abrandar. — O que podemos fazer por você, senhor Lamarphe? — Ele até o trata com formalidade agora.

— Quero que estejam em meu casamento. E escutem as minhas últimas vontades... Informem a Han, por favor. Lembrem-se, eu não tenho muito tempo...

De repente tudo volta outra vez.

Capítulo 3

A negação, a raiva e a sensação de perder o controle, sem ao menos sair do lugar.

— Se me dão licença, eu tenho trabalho a fazer até encerrar o meu plantão. — Manobro para dar meia volta.

— Você deveria considerar se casar um dia, Guilhermo — a voz do meu padrinho me deixa imobilizado mais uma vez. — Nunca é tarde para o amor.

Não sei quantas conversas tivemos nos últimos anos. Mas a minha posição nunca mudou e eu permaneço incisivo.

Antes de me casar eu sempre fui mulherengo. Sempre gostei de me aventurar, sair com quantas mulheres fosse possível e viver no limite.

Agora tenho outros desafios, e o mais importante:

— Eu não acredito no amor. — Viro-me sutilmente para encará-lo. — Eu não tenho tempo para trivialidades. Não preciso de um sentimento estúpido para perseguir ou dar razão à minha vida...

— Lá vai ele... — Ayslan se diverte.

— Eu já amei, uma vez. E isso me foi arrancado, junto com o meu bem mais precioso, assim como minha capacidade de andar e ser reconhecido como o melhor cirurgião desse hospital. Non parlarmi dell'amore[7], tio

Lamarphe. Já não sou adolescente há muito tempo.

Aguardo alguns segundos para dar direito à réplica. Como ela não vem, dou o assunto por encerrado e dou meia volta para seguir o meu caminho.

Tenho ocupações reais para me preocupar.

“Aquilo que está escrito no coração, não necessita de agendas porque a gente não esquece. O que a memória ama, fica eterno”.

— Rubem Alves.

— Ninguém vai te tratar melhor do que um homem tentando te comer.

Patrícia Sanches, minha melhor amiga, irrompe da meia luz da sala toda bagunçada, com calças jeans e vestidos por cima do sofá, mesa e vaso de petúnias, para me dizer isso.

Não consigo segurar o suspiro de lamento.

Noite passada, quero dizer, há poucas horas, estive em mais um desses encontros furados com um desses caras de aplicativo de namoro. A lembrança embrulha meu estômago, evito pensar sobre isso e me concentro nas malas vazias e as roupas espalhadas.

Santo Deus, que bagunça...

... a minha vida.

A casa acho que tem jeito.

— Esse pelo menos queria te comer, não é? — Ela estica o pescoço para me encarar, enrola as camisas e trajes de banho de qualquer jeito e arremessa na bagagem.

— A maioria deles sempre quer. — Estalo a língua e dedilho a capa transparente que guarda um vestido branco. — E caem fora logo em seguida quando descobrem que eu tenho um filho pequeno.

A expressão azeda que a minha amiga faz, me diverte. Jogo a cabeça para trás e rio em silêncio, ou não sei se choro para expulsar toda essa frustração.

Para ser sincera, eu gostaria muito de que essa primeira excitação da descoberta de um novo amor nunca se perdesse.

Adoro aquele frio na espinha do primeiro contato com alguém estranho... o rosto enrijecido e as mãos suadas ao ver, enfim, o rosto da pessoa ao vivo e em cores, depois de ter imaginado e descartado o photoshop e facetune que colocam...

E, é claro, se tudo isso for coroado com um vinho que esquenta o coração e me faz rir fácil, enquanto descobrimos os interesses um do outro... isso se torna o match perfeito.

O meu interesse é conhecer alguém que valha à pena e viver tudo o que temos direito.

Já o interesse da maioria deles é... foder e fugir.

Eu não reclamo. Gosto também.

Flertar me diverte muito, todas as vezes que saio com um homem, parece que aprendo mais sobre mim mesma do que sobre eles. E eu simplesmente sou fascinada pelos malabarismos que fazem para tentar chegar em minha calcinha e a arrancar.

Eles são bem criativos nessa parte.

Nas cinco primeiras saídas foi legal. Eu podia ter sido desovada em um matagal? Sim. Poderia estar sem o fígado e um dos rins? É uma

possibilidade. Traficada para a Turquia? Acho que já cheguei bem perto disso.

Nas outras dez, parecia que eu conhecia o roteiro muito bem: qual o seu nome? Qual o seu telefone? Onde você mora?

Nunca sei se estou me inscrevendo para aquele programa do governo “Minha foda, minha vida” ou só dando meus dados para que alguém faça um cartão da Riachuelo...

— Yasmin, para de suspirar e se concentra! Coloca logo esse vestido de noiva na mala, nosso voo é em três horas! — Patrícia reclama, passa por mim na cozinha e pega uma maçã.

O início do outono em São Paulo trouxe aqueles dias bipolares onde frio e calor disputam território no relógio. Agora estou de moletom preto por cima do macacão vermelho que usei para sair em mais um desses encontros falidos... daqui algumas horas provavelmente vou querer ficar só de sutiã, derretendo de calor.

Mas sabe o que nunca vou usar de verdade, faça chuva ou faça sol?

Seja frio ou calor? Um vestido de noiva.

Suspiro ao pegar a peça de alta costura, tão alva e perfumada que reflete pureza. Confiro o busto ornado com pérolas e cristais, a cintura tão fina e delicada, e a parte inferior que se alonga em um volume que reflete

luxo e poder. Ajeito o véu diante do meu rosto e vejo toda a cozinha turva, o calor da minha respiração volta contra minhas bochechas.

Cada vez que saio com um babaca vejo que estou longe de colocar o véu e subir no altar.

Papai era costureiro da elite paulista há trinta anos. Trabalhou para grandes estilistas, produziu lindos vestidos de noiva, ternos para CEO’s e grandes empresários, todo tipo de indumentária luxuosa era sua especialidade. Há quatro anos, ele abriu o seu próprio ateliê e viveu toda a fama que merecia, após viver na sombra de estilistas que roubavam seu trabalho e que nunca lhe davam os devidos créditos.

Ano passado ele faleceu.

Acho que foi nesse momento em que de fato virei adulta, aos 23 anos, pois precisei tomar as rédeas da situação e me tornei arrimo da família. Mamãe caiu em uma depressão profunda e raramente sai da cama, Diogo, o meu irmão mais novo, agora chega tarde em casa, sempre bêbado e gritando comigo e eu me sinto culpada por ver os negócios da família indo por água abaixo.

As coisas estavam indo bem... papai parecia saudável e estava feliz por trabalhar junto comigo no ateliê e me ensinar seu ofício, que sua mãe lhe ensinou... agora não sobrou mais nada, além de dívidas e algumas peças

raras que ele nunca expôs ao público.

Como resultado disso, tive de engolir todo o meu orgulho e esquecer os meus sonhos, para ser o suporte da família, que está em pedaços. Não posso permitir que tudo se desmanche assim, não sem lutar.

— Ainda não colocou esse vestido na mala, menina? — Patrícia põe a mão na cintura e bate o pé. O suspiro parece alto demais, devido ao silêncio da casa.

— Estou tentando dizer adeus... — digo baixinho e sorrio para a peça de roupa. — Papai costurou essa peça originalmente para a filha de uma grande empresária daqui de São Paulo, mas no fim ficou tão bonito, que ele disse: vou guardar para você...

— E é justamente esse vestido que você vai vender para a Heloísa? — Ela se aproxima e observa.

— Foi o que ela escolheu. — Balanço os ombros. — E, afinal de contas, eu nunca vou me casar...

— Yasmin... — Patrícia semicerra os olhos e me lança um olhar de desafio e denúncia de minha dramaticidade. — Pega outro, vai... A Helô não vai nem reparar...

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