Capítulo 2

NARRAÇÃO DANILO

Olho em volta para ver se não é nenhuma brincadeira, alguma piada das pessoas da Suzana.

- Você não trabalha para o Sr. Rech.

Digo voltando minha atenção para a bela mulher á minha frente.

- Conhece todos os funcionários do Sr. Rech?

Questiona com a sobrancelha erguida e não gosto do olhar superior que vem junto. Sim, conheço todos que trabalham para ele, pelo menos diretamente já que possui muitas empresas espalhadas. Pelo menos os que trabalham na central com ele, conheço muito bem. O prédio da empresa Rech possui dez andares que estabelece o nível de hierarquia ali dentro. Os cinco primeiros andares não são importante ao meu ver, mas conheço todos os 40 funcionários que ali estão, ele são os soldados da linha de frente.

Conhecer cada um me dá maiores vantagens para conquistar e derrubar o império. Conheço suas historias, alguns de seus segredos, seus desejos, suas fraquezas. Por um ano montei o arquivo de funcionários daquele lugar e Dra. Baldan não faz parte dele. Meu arquivo foi atualizado recentemente com a contratação da Olívia, no setor de marketing. Alguns funcionários até o quinto andar podem mudar sem problema, mas dali pra cima nada muda, tudo se mantém na base da confiança e lealdade.

Quinto andar ficam os contadores, sexto andar chamo de lavagem de dinheiro, pessoas responsáveis por entregar o dinheiro antes ilegal, mas agora limpo aos contadores.

Sétimo andar ficam os advogados, o jurídico que por um tempo venho desejando fazer parte. Oitavo andar ficam os parceiros fantasmas que ninguém tem acesso. Nono andar pertence ao braço direito do Sr. Rech, o seu maior homem de confiança, Carlos Brandão e seus seguranças. Ele é responsável pela barreira que impede o mundo de tocar César Rech, o que tem infiltrados na polícia, em todo lugar. No topo do mundo está meu alvo, que pretendo derrubar muito em breve e queimar todo seu reinado.

- Vai ficar me olhando como se fosse arrancar todo meu histórico de vida? Não te interessa quem sou, mas sim quem me mandou e porque.

- Me prova que veio em nome do Sr. Rech!

- Isso é um absurdo! Direi ao Dr. Ferraz que você se negou a me ouvir, ele que procure outra forma de conversar com você.

Fala irritada e quando se vira para ir embora, seguro seu braço.

- Juliano Ferraz quem te mandou?

- Sr. Rech deu uma ordem ao Dr. Ferraz, que me mandou porque é um incompetente de merda.

- Não acho que seu chefe ficaria feliz ao ouvir chamá-lo assim.

Volta a se virar pra mim, tira do bolso o celular e procura alguma coisa. Aperta o áudio e a voz do Juliano surge.

- Aline, estou lhe dando uma ordem e deve cumpri-la. Sr. Rech deseja que o Dr. Spinoza esteja aqui nesta manhã.

Sorri e então um segundo áudio começa.

- A ordem foi para que você procure o Dr. Spinoza e não eu. Se é incompetente, um bosta de um advogado que não levanta a porra da bunda da cadeira pra merda nenhuma, a culpa não é minha. Me chame de Dra. Baldan, não sou sua amiga para me chamar de Aline.

Não contenho a risada alta, desacreditando da coragem dessa mulher em bater de frente assim como Juliano Ferraz. Paro de rir ao ver sua expressão séria e me pergunto se essa mulher é sempre fria assim.

- Então se chama Aline Baldan!

- Meu nome não te interessa, mas o motivo de estar aqui sim.

Puxa seu braço pra se soltar da minha mão e arruma seu cabelo.

- Sr. Rech deseja conversar com você.

- Interessante! Quando?

- Agora!

- Preciso tomar um banho, irei assim que me arrumar.

- Espero aqui!

Cruza os braços e volta os óculos escuro para o rosto.

- Aqui?

- Sim!

- Por que?

- Se eu for embora vai demorar ou até mesmo não ir. Não quero correr o risco de não efetuar algo por sua falta de inteligência, qualquer outro tipo de erro seu.

- Estou dizendo que irei em breve, pode ir.

Mantém-se parada feito uma mula empacada e respiro fundo.

- O carro da empresa está nos esperando, seja rápido.

Ordena como se fosse minha dona.

- Quem você pensa que é para me dar ordens?

Pergunto me aproximando e ficando bem próxima de seu rosto. Ela abaixa os óculos e me olha por cima.

- Sou Aline Baldan e odeio esperar! Se não voltar em vinte minutos vou embora e digo que se negou a me acompanhar.

- Estou me sentindo um prisioneiro com seu carcereiro grosso em cima. Quer vir comigo e garantir que eu não fuja?

- Uma ótima idéia!

Sai da minha frente e caminha pra dentro do meu prédio.

- O que?

Fico em choque e corro pra alcançá-la.

- Aquilo foi ironia!

- Eu sei!

- Não era realmente para vir junto.

- Só que eu vim!

Entra no elevador e aperta o botão do meu andar.

- Como sabe meu andar?

- Você faz muitas perguntas.

- É claro que faço, tem uma louca que conhece a minha vida e não sei nada sobre ela.

- Sabe meu nome e sobrenome, é o suficiente.

- Aposto que deve ser odiada por todos.

- Não procuro aprovação e amor de ninguém, Sr. Spinoza! Me odiar é reflexo de sua incompetência, burrice e falta de controle da situação.

Chegamos ao meu andar e ela caminha até minha porta.

- Você é sempre prepotente e arrogante assim?

- Sim!

Responde e pela primeira vez sorri com satisfação.

- Quinze minutos, melhor se apressar.

Bufando, resmungando e com uma vontade absurda de mandar essa mulher para o inferno, abro a porta e entro.

- Já volto!

Aviso e vou para o meu quarto, tentando entender a mulher mais irritante, grossa, prepotente, arrogante, mandona, folgada, sem noção e linda que já vi na vida. Sim, sua beleza deve ser o que atrai os homens até ela, pra depois comer suas partes intimas, capando suas masculinidades.

******************

Termino de me arrumar, ajeito minha gravata e sinto um cheiro bom de café. Ela está usando a minha cozinha? Coloco meu relógio e saio do quarto pronto para dizer algumas coisas a insuportável Dra. Baldan. Paro de andar quando vejo no balcão dois lugares para tomar café. Tem ovos mexidos, torradas, frutas, café, suco...

- Sr. Rech vai se atrasar, ganhou mais vinte minutos.

- Você mexeu nas minhas coisas?

- Não precisa me agradecer pelo café da manhã, estou com fome também.

Se senta em um dos bancos e começa a se servir.

- Você é... é... é...

- Procure uma ofensa enquanto come, não quero perder tempo.

Respiro fundo para me acalmar, tento de verdade tentar fazer meu corpo relaxar, mas não consigo.

- Quer saber o motivo de te chamarem?

Sua pergunta faz tudo sumir e a curiosidade tomar conta de tudo. Quando menos percebo estou sentado ao seu lado como um cachorrinho obediente aguardando algo. Merda! Ela deve ser alguma encantadora de pênis, não e possível. Me serve o café e fico encarando cada detalhe de seu rosto. Parece um anjo, mas deve ser assim que o diabo envia seus demônios para nos confundir.

- Sr. Rech soube de sua vitória no processo em que o Dr. Ferraz representava a empresa.

- Soube?

- Sim!

Hum! Então se está me chamando é porque deseja me colocar na empresa e não sabe que Suzana comprou aquela sentença.

- A raiva do Dr. Ferraz deve ser por imaginar que perderá sua posição, após essa derrota.

Bebo meu café, me sentindo muito, muito bem. O segredo da sentença comprada está em segurança.

- Não sei porque o Sr. Rech chamaria você para assumir um cargo na empresa, já que a sentença foi comprada pela Dra. Vincent como presentinho ao seu amante.

Capítulo 3

NARRAÇÃO DANILO

Olho para a Dra. Baldan que tem um sorriso maldoso ganhando seus lábios carnudos.

- Achou mesmo que ninguém descobriria sobre a sentença?

Seu tom de voz é irritante e quando pega a xícara para beber o café, paira os lábios na borda e assopra lentamente.

- Acho que está mais chocado com o fato de saber do seu caso com a Dra. Vincent.

Sussurra e então bebe seu café, fechando os olhos e apreciando bem o sabor. Me mantenho calado, tendo apenas meu cérebro focado em como ela descobriu meu caso.

- Vou te deixar pensando sobre como eu sei do seu caso, te espero lá embaixo. Vamos no meu carro, depois volta de táxi.

- Vou com o meu carro.

Respondo firme e ganho uma suspirada alta.

- Você não tem acesso ao prédio, tão pouco ao ultimo andar.

- E você tem?

Indago e seus olhos azuis que poderiam ser de um anjo se mostram cruéis, raivosos, sombrios como o inferno.

- Vai aprender com o tempo que eu tenho acesso a tudo que desejo.

Pisca, sorri e coloca seus óculos escuro.

- Não demore!

********************

Saio do prédio e encontro a Dra. Baldan em um belíssimo Porshe Boxter 25, que se não me engano pertence a Carlos Brandão, braço direito do Sr. Rech. Olho a placa e confirmo a quem pertence esse carro incrível. Olha só! Parece que usei a Suzana para conseguir algo e a Dra. Baldan faz o mesmo com o Sr. Brandão.

- Entra...

- Belo carro!

Elogio entrando no veículo, fechado a porta e puxo o cinto.

- Pela forma como olhou o carro, depois me observou e julgou toda a cena, imagino que precipitadamente me deu o cargo de amante do Sr. Brandão.

Sua cabeça se vira, sua boca vem para o meu ouvido e sua respiração quente me faz prender o ar.

- Não uso meu corpo para conseguir as coisas, Dr. Spinoza, não sou como você! Deus me deu cérebro pra trabalhar e não uma vagina quente. Só os imbecis escrotos usam seus órgãos genitais para subir na vida.

Volta para o seu lugar e me sinto um gigolô sendo humilhado por uma freira por usar o corpo para ganhar dinheiro. Dra. Baldan coloca o carro na avenida e sei que vamos demorar dez minutos para chegar á empresa, por isso escolhi esse apartamento, o mais próximo possível do mundo Rech. Tenho pouco tempo para arrancar dessa mulher alguma informação importante sobre essa ida a empresa.

- Há quanto tempo trabalha para o Sr. Rech?

Sem resposta a minha pergunta, parece que nem existo no carro.

- Você é funcionária ou alguém especial de um funcionário?

Ela pode ser namorada, algo sério do Sr. Brandão e justificaria seu acesso ao carro dele. Novamente sem resposta e parece que não vou arrancar nada.

- Para de fazer perguntas idiotas pra tentar chegar à resposta da pergunta certa.

- Não me responde as perguntas idiotas, tenho certeza que não vai responder também a certa.

- Tenta!

- Por que estão me chamando?

Dra. Baldan sorri, leva a mão até o aparelho de som e coloca uma música.

- Eu disse que não responderia!

- Acho incrível quão ingênuo é ao imaginar que só porque mandei tentar, conseguiria alguma coisa. Dr. Spinoza precisa melhorar seu lado negociador, deixá-lo mais bruto e menos sonhador.

- Alguém no seu mundo te suporta? Alguém consegue ficar mais de cinco minutos ao seu lado sem desejar morrer a te suportar?

Seu rosto se mantém sério, nenhuma demonstração de que atingi seu ego, mas suas mãos apertando o volante com mais firmeza me diz que o alvo foi atingido com sucesso. Então ela é uma mulher solitária e isso parece incomodá-la

**************

O carro para em uma vaga especial, destinada ao Sr. Brandão. Saímos do veículo e sigo a Dra. Baldan para dentro do prédio que por alguns anos venho lutando para entrar e derrubar o poder Rech. Ninguém interrompe nosso caminho, apenas conversam entre si nos encarando como se fossemos assustadores. Acredito que eu não seja o motivo do medo e sim a mulher imponente a minha frente.

- Pararemos no sétimo andar para pegar o Dr. Ferraz, ele também fará parte desse encontro.

- Estarei junto com o Dr. Ferraz perante o Sr. Rech?

- Estará comigo e com o Dr. Ferraz em uma reunião com o Sr. Rech e o Sr. Brandão.

- Por quê?

- Logo vai saber!

Chegamos ao sétimo andar e as portas do elevador se abrem. Dra. Baldan apenas coloca o corpo entre as portas e ordena um jovem que chame o Juliano. Não demora muito para ele aparecer com uma cara nada boa. Passa pela advogada de postura firme e para ao meu lado, ignorando minha existência.

- Dr. Ferraz!

Cumprimento na intenção de incomodar e quando recebo uma bufada alta abro um enorme sorriso. Percebo que a Dra. Baldan também sorri, mas logo para ao ver que a observo. Aperta o décimo andar, subimos e meu coração começa a bater mais forte, mais rápido. Finalmente o encontro que aguardo há muito tempo. Chegamos ao andar e a secretária nos recebe, avisando que a sala de reuniões já está aberta para nós.

- Sr. Rech logo os encontrará.

Seguimos para a sala e assim que entramos nos sentamos. Juliano fica a minha frente e Dra. Baldan ao meu lado.

- Aline!

Sussurro e seus olhos encontram os meus.

- Bonito nome!

Não agradece o elogio e ainda revira os olhos.

- Você é sempre assim?

Juliano começa a rir e olhamos pra ele.

- Ela está aqui há 2 dias e já é chamada de Ceifadora.

Está aqui só há 2 dias e já anda no carro do Sr. Brandão? O que essa mulher fez para ter tanto poder assim?

- Adoraria andar com uma foice arrancando cabeças. É uma pena que a sua já foi arrancada e não pelas minhas mãos.

- Você sabe que minha queda tem um empurrão seu.

- Você tropeçou sozinho na sua incompetência, perdendo seu lugar para o advogado vaginal.

- Advogado Vaginal?

Pergunto rindo e ambos me olham furiosos.

- Sabia que você não era só sarcástica e debochada. Gosto mais desse seu lado humorista criando um novo ramo jurídico para mim.

- Fico feliz que tenha gostado de seu novo ramo, só espero que a empresa saiba gozar do seu dom.

Minha gargalhada ecoa pela sala e a Dra. Baldan tenta de verdade não rir comigo.

- Eu sei que quer rir!

- O doce som da minha risada é para poucos, Dr. Vagina.

- Calma que logo arrancarei suas risadas e muitas outras coisas Dra. Castradora.

- Realmente não entendo a sua calma.

Juliano diz quebrando o clima descontraído que estava com a Dra. Baldan. Acho que já posso chamá-la mentalmente de Aline, sem o peso do mundo jurídico.

- Olha pra ele! Acha mesmo que posso ficar com medo de um pênis que cursou direito?

- Esse pênis tem ouvido e muita curiosidade. Por que ficaria com medo de mim?

Ela me ignora e então Juliano assume a responsabilidade de me explicar.

- Um dia derrubei Suzana e agora é minha vez de cair. Só que pra me substituir o Sr. Rech decidiu chamar dois advogados e para tornar sua vida mais divertida vai fazer esses dois advogados duelarem pela vaga. Será a Dra. Castradora contra o Dr. Vagina. Queria tanto continuar aqui pra ver essa briga. Vocês dois brigando por espaço, o meu espaço!

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