Kiara POV:
Uma dor ofuscante e incandescente atravessou todo o meu corpo quando aterrissei em um amontoado no final da escada. Minha cabeça bateu contra o chão de mármore e, por um segundo, o mundo ficou preto.
Quando minha visão clareou, a primeira coisa que vi foi Heitor, parado no topo da escada, Yasmin ainda embalada em seus braços.
"Heitor", eu ofeguei, minha voz um sussurro quebrado. "Me ajude."
Minha perna estava torcida em um ângulo antinatural. Mas não era essa a dor que me aterrorizava. Uma agonia profunda e cólica estava tomando conta do meu baixo-ventre, uma sensação viciosa e dilacerante que roubava meu fôlego.
O bebê.
Ele olhou para mim, seu rosto uma máscara fria e indecifrável. Não havia preocupação, nem pânico. Apenas irritação.
"Pare com o melodrama, Kiara", disse ele, sua voz ecoando no saguão subitamente silencioso. "Você faz qualquer coisa por atenção, não é?"
Ele ajustou seu aperto em Yasmin, que espiava por cima do ombro dele, um pequeno sorriso triunfante no rosto.
"Estou levando a Yasmin para o hospital", ele anunciou aos espectadores horrorizados que se reuniram no topo da escada. "Minha esposa vai ficar bem. Ela só está tentando estragar a minha noite."
E com isso, ele me deu as costas e se afastou.
Ele não olhou para trás. Nenhuma vez.
Observei sua figura se afastando até desaparecer pelas portas giratórias, deixando-me sozinha no chão frio e duro. Um desespero profundo e sem fundo me invadiu, e eu fechei os olhos, deixando a escuridão me levar.
Mas a dor não me deixava ir. Ela me rasgou novamente, mais aguda desta vez, uma sensação brutal e inegável de rompimento lá no fundo.
Meus olhos se abriram de repente. "Ajuda", eu coaxei, estendendo uma mão trêmula para ninguém. "Por favor, alguém me ajude."
Meu vestido branco, aquele que eu tinha escolhido com tanto cuidado para o nosso aniversário, não estava mais impecável. Uma mancha escura e carmesim se espalhava rapidamente pelo tecido entre minhas pernas.
Sangue. Tanto sangue.
"Oh, meu Deus", eu solucei, todo o peso do horror desabando sobre mim. "Meu bebê. Não, não, não..."
A percepção foi uma guilhotina, cortando o último fio de esperança. Tinha acabado. Ele se fora. A pequena vida que eu havia estimado e protegido por três meses estava escorrendo de mim no chão frio do saguão de um hotel.
"Alguém chame uma ambulância!", a voz de uma mulher gritou de cima.
Passos desceram as escadas correndo. Rostos entravam e saíam de foco. Mas nenhum deles era o dele.
A viagem na ambulância foi um borrão de dor excruciante e orações desesperadas. Agarrei a mão do paramédico, meus nós dos dedos brancos.
"Por favor", eu implorei, lágrimas escorrendo pelo meu rosto. "Por favor, você tem que salvar meu bebê. Por favor."
"Estamos fazendo tudo o que podemos, senhora", disse um médico de rosto gentil, sua voz suave. "Precisamos contatar seu marido. Qual é o número dele?"
Eu recitei o número de Heitor entre dentes batendo. A esperança, traiçoeira e estúpida, tremeluziu em meu peito. Ele viria. Quando soubesse o quão sério era, ele viria. Ele tinha que vir.
O médico discou o número e colocou o telefone no viva-voz. Tocou uma, duas vezes, e então foi atendido.
"Alô?" Não era a voz de Heitor. Era a de Yasmin.
"Olá, aqui é o Dr. Esteves do Hospital Sírio-Libanês. Estou ligando para o Sr. Heitor Cardoso a respeito de sua esposa, Kiara Barros. Ela sofreu um acidente grave."
Houve uma pausa. Eu podia ouvir a voz açucarada de Yasmin ao fundo, abafada. "Heitor, querido, é do hospital. É para você."
Então, ela falou diretamente no telefone, seu tom escorrendo falsa preocupação. "Oh, céus. A Kiara está bem? O Heitor está tão preocupado comigo, a queimadura é muito pior do que pensávamos."
"Senhora, a Sra. Barros está com uma hemorragia. Ela está perdendo o bebê. Precisamos do marido dela aqui imediatamente."
"Deixe-me falar com ele", sussurrei, minha voz mal um fio de som. O médico segurou o telefone no meu ouvido.
"Yasmin", eu grasnei. "Por favor. Diga ao Heitor... diga a ele que estou perdendo nosso bebê. Ele precisa vir. Por favor."
"Você ouviu isso, Heitor?", a voz de Yasmin era um ronronar cruel. "A Kiara diz que está perdendo o bebê. Ela sempre foi tão dramática, não é? Tentando chamar sua atenção."
Eu podia ouvir a voz de Heitor agora, distante e impaciente. "Diga a ela para parar com isso. Estou com você. O médico está prestes a te ver. Não tenho tempo para os joguinhos dela."
As palavras me atingiram com a força de um golpe físico. Não. Não podia ser.
"Ele disse que não tem tempo para os seus joguinhos", Yasmin repetiu, saboreando cada palavra. "Ele está comigo agora, Kiara. Onde ele pertence."
"Diga a ele...", engasguei em um soluço, a cólica em minha barriga se intensificando em uma onda insuportável de agonia. "Diga a ele que eu preciso dele."
Houve um ruído, e então a voz fria e furiosa de Heitor preencheu o pequeno espaço. "Kiara, eu juro por Deus, se você não parar com esse teatrinho patético, eu peço o divórcio amanhã. Cansei de você. Entendeu? Cansei."
A linha ficou muda.
Silêncio. O único som era o lamento da sirene e o bipe frenético do monitor cardíaco.
O médico, um homem que eu nunca tinha visto, olhou para mim com mais compaixão do que meu próprio marido me mostrou em três anos.
"O celular dele está desligado agora", disse ele, sua voz gentil. "Ele desligou."
Ele pegou minha mão. "Senhora, eu sinto muito. Esse homem é um canalha."
Outra onda de dor, mais aguda e final do que todas as outras, me rasgou. Senti uma profunda e devastadora sensação de liberação, de vazio.
Eu sabia. Na parte mais profunda e quebrada da minha alma, eu sabia.
"É tarde demais", sussurrei, olhando para o teto da ambulância, as luzes piscando lavando meu rosto. "Ele se foi."
Kiara POV:
Acordei com o cheiro de antisséptico e o bipe abafado das máquinas. Uma luz cinza e fina se filtrava pelas persianas da janela do quarto do hospital, pintando listras nos lençóis brancos e estéreis.
Por um momento feliz e nebuloso, eu não me lembrava.
Então, eu me movi. Um vazio surdo e dolorido em meu útero fez a memória desabar sobre mim.
Minha mão voou para o meu abdômen. Estava liso. Devastadoramente, irrevogavelmente liso.
O bebê tinha ido embora.
Uma única lágrima quente escapou e traçou um caminho até meu travesseiro. Depois outra. E outra. Logo, eu tremia com soluços silenciosos e convulsivos, uma dor tão profunda que parecia um peso físico esmagando meu peito.
Ele se fora. Meu bebê, aquele por quem eu rezei, aquele que amei com cada fibra do meu ser desde o momento em que vi aquelas duas linhas rosas, se fora.
Pensei nos anos de tentativas. Nos olhares condescendentes da mãe de Heitor, que deixou claro que achava que eu não era boa o suficiente para seu filho brilhante, e minha "infertilidade" era apenas mais uma prova. A criança deveria ser meu ramo de oliveira, minha maneira de finalmente garantir um lugar em seu mundo frio e rico.
Agora, sem o bebê, eu não tinha nada. Eu não era nada.
A porta rangeu ao se abrir e o Dr. Esteves entrou, seu rosto gravado com simpatia. "Sra. Barros. Kiara. Como você está se sentindo?"
Eu não conseguia falar. Apenas balancei a cabeça, minha mão ainda pressionada contra meu estômago vazio.
Ele suspirou, um som pesado com um cansaço que ia além de um longo turno. "Eu sinto muito, muito mesmo, pela sua perda."
Ele verificou meu prontuário, sua testa franzida. "Tentamos contatar seu marido novamente durante a noite. O celular dele estava desligado. O... o pai da criança foi notificado?"
A pergunta pairou no ar. O pai da criança. O homem que me empurrou escada abaixo. O homem que chamou meus apelos desesperados por ajuda de "teatrinho patético".
Uma fúria fria e dura começou a queimar através da névoa da minha dor.
"Não", eu disse, minha voz surpreendentemente firme. "O bebê não tem pai."
Dr. Esteves ergueu os olhos do prontuário, sua expressão confusa. "Mas os registros dizem... Heitor Cardoso?"
"Ele não é o pai", repeti, as palavras com gosto de cinzas e ferro. "Ele nunca foi."
O médico olhou para mim, depois de volta para o prontuário, folheando as páginas. Ele era um homem gentil, mas era minucioso. "Vejo aqui que o Sr. Cardoso não esteve presente em nenhuma de suas consultas pré-natais."
O comentário, que pretendia ser uma observação, foi outra facada. Heitor esteve na primeira, seus olhos grudados na imagem granulada em preto e branco na tela. Ele até pareceu feliz, à sua maneira distraída e egocêntrica.
Mas então Yasmin voltou para a cidade.
De repente, ele estava "atolado de trabalho". Uma "reunião crítica do conselho" o impediu de ir ao ultrassom de doze semanas, aquele em que ouvimos o batimento cardíaco pela primeira vez. Fui sozinha, ouvindo aquele ritmo minúsculo e pulsante, e chorei no carro depois.
Mais tarde, vi uma foto no Instagram. Yasmin havia postado um story de um bar na cobertura no centro da cidade, o braço de um homem com um relógio familiar em volta de seu ombro. O horário batia exatamente com o da minha consulta.
Ele havia mentido. De novo, e de novo, e de novo. Eu encontrei recibos de almoços em que não estive, quartos de hotel reservados para "reuniões" que nunca estiveram em sua agenda. Cada descoberta era um pequeno corte, outra chance que eu lhe dava, outra promessa que fiz a mim mesma de que o deixaria se ele fizesse de novo.
Cinco chances. Essa era a regra estúpida e desesperada que eu havia criado para mim mesma. Cinco grandes traições. O pedido de casamento público foi a quinta. O empurrão, o telefonema... eram apenas o epílogo de uma história que já havia acabado.
Eu não lhe daria uma sexta chance de me machucar.
"Eu quero o divórcio", eu disse, as palavras claras e frias na sala silenciosa.
Eu tinha desistido de tudo por ele. Eu vinha de uma família cujo nome estava gravado nas fachadas de pedra de bibliotecas e museus por todo o Sudeste, um mundo de dinheiro antigo e discreto que ofuscava a fortuna chamativa de Heitor em tecnologia. Mas ele se sentia inseguro com isso, então eu escondi. Tornei-me a Sra. Kiara Cardoso, a esposa solidária e despretensiosa. Cortei amizades com pessoas que ele achava intimidantes. Decorei nossa casa ao seu gosto, aprendi a cozinhar seus pratos favoritos, suprimi minhas próprias ambições para alimentar as dele.
Por três anos, eu me tornei cada vez menor, esperando que, se eu ocupasse menos espaço, ele finalmente teria espaço para me amar.
Foi uma busca inútil.
O médico pigarreou, me trazendo de volta ao presente. "Kiara, suas informações do plano de saúde não estão no arquivo. Precisamos que você acerte a conta dos serviços de emergência e da sua estadia antes de receber alta."
Claro. Heitor cuidava do plano de saúde. Ele cuidava de tudo. E agora, ele se fora, e eu fui deixada para limpar sua bagunça, como sempre.
Lentamente, dolorosamente, me coloquei em uma posição sentada. Cada músculo gritava em protesto. O vazio dentro de mim era uma ferida aberta e crua.
Mas pela primeira vez em muito, muito tempo, senti um lampejo de algo além da dor.
Era determinação.