Ponto de Vista: Alice Telles
Minha Cerimônia da Escolha foi realizada no grande salão de festas do Grupo Barreto, um espaço cavernoso com lustres de cristal que brilhavam como constelações no teto. Deveria ser uma celebração do meu futuro, um reconhecimento formal da aliança entre as famílias Telles e Valença. Para mim, era o primeiro passo para desmantelar a vida que me destruiu.
Caio chegou atrasado, claro. Ele fez sua entrada com Joana Braga agarrada ao seu braço, um sorriso triunfante no rosto. Ela usava um vestido um tom apertado demais, e as leves marcas arroxeadas em seu pescoço, aparecendo logo acima da gola, eram uma declaração deliberada e vulgar. Uma marca de sua posse.
Alguns dos executivos mais jovens riram por trás das mãos. A mensagem era clara: Caio Valença podia ter sua noiva e sua amante na mesma sala, e ninguém ousaria questioná-lo. Ele era intocável.
Na minha vida passada, essa cena exata aconteceu. Eu fiquei neste mesmo lugar, o coração batendo com uma mistura de esperança e humilhação, lágrimas ardendo em meus olhos enquanto ele exibia sua infidelidade. Eu queria tanto acreditar que era um mal-entendido.
Desta vez, meu coração era um bloco de gelo. Eu não sentia nada além de um distanciamento frio e clínico.
Caio notou minha imobilidade. Ele se aproximou, deixando Joana fazendo beicinho perto da porta. Seus olhos, da cor de uísque escuro, me percorreram. Ele estava procurando pela dor, pelo ciúme. Ele se alimentava disso.
"Você está linda esta noite, Alice", ele murmurou, sua voz uma carícia baixa que costumava fazer meus joelhos fraquejarem. "Pronta para oficializar? Prometo que a sua noite vai valer a pena." Seu olhar desceu significativamente.
A insinuação grosseira pairou no ar entre nós.
"Caio, você não vai me pegar uma bebida?", Joana choramingou do outro lado da sala, sua voz afiada de inveja.
Ele lançou um olhar irritado para ela antes de se virar para mim, seu sorriso voltando, liso e praticado. "Não ligue pra ela. É só uma criança. Você é o evento principal." Ele se inclinou mais perto, seu perfume, um cheiro que agora eu associava a medo e náusea, invadindo meu espaço. "Você é quem será a Sra. Valença."
O rosto de Joana corou com uma mistura de raiva e humilhação. Ela me fuzilou com os olhos, prometendo retaliação. A multidão assistia ao drama com um prazer indisfarçado, seus sussurros um zumbido baixo que enchia a sala. Alguém soltou um assobio baixo.
Eu me lembrava deste momento. Eu me lembrava da vergonha ardente, da necessidade desesperada de correr e me esconder.
Dei um passo deliberado para trás, criando um abismo de espaço entre nós. Eu pretendia ir embora, encontrar Horácio Barreto e acabar logo com isso.
Mas a mão de Caio disparou, seus dedos se fechando em meu pulso como uma algema. Seu aperto era forte, doloroso. "Onde você pensa que vai?"
Seu sorriso desapareceu, substituído por um lampejo de fúria. "Pare com os joguinhos, Alice. Essa atitude fria está ficando chata. Você me quer. Você sempre me quis."
Encarei seu olhar, minha expressão indecifrável. "Me solta, Caio."
Seu aperto se intensificou. "Eu te conheço. Por baixo de todo esse gelo, você ainda é a mesma garota patética que costumava me seguir como um cachorrinho perdido. Você só está tentando me fazer te querer mais. E está funcionando."
Uma onda de repulsa me invadiu. Puxei meu braço para trás, a força do movimento o surpreendendo. "Eu disse, me solta."
"Você acha que tem escolha?", ele zombou, sua voz se elevando. "Isso é um acordo de negócios. Meu pai precisa das suas ações, e você precisa do nosso nome. É só isso."
"Não", eu disse, minha voz ressoando com uma finalidade que silenciou os sussurros próximos. "Eu não vou me casar com você."
O silêncio que se seguiu foi absoluto. Era como se o ar tivesse sido sugado da sala. Até o quarteto de cordas no canto parecia ter parado.
Então, uma risada baixa e rouca vibrou no peito de Caio. Ela se espalhou por sua comitiva, uma onda de ridículo dirigida inteiramente a mim.
"Não vai se casar comigo?", ele repetiu, seus olhos arregalados em falsa incredulidade. "Minhas desculpas, querida. Eu não sabia que você tinha outras opções. Quem você vai escolher? Meu irmão?"
A multidão explodiu em gargalhadas.
"O Bruno?", a voz de Caio estava pingando desprezo. "O tubarão corporativo? O carniceiro? O homem que nosso pai mantém trancado no departamento de fusões e aquisições porque ele é implacável demais para a alta sociedade?"
Ele se inclinou novamente, sua voz um sussurro venenoso. "Dizem que ele destruiu seu último concorrente de tal forma que a família do homem perdeu tudo. Dizem que ele não tem coração, apenas uma calculadora onde deveria estar. É isso que você quer, Alice? Um monstro?"
Ele me olhou de cima a baixo, um sorriso cruel em seus lábios perfeitos. "Ou isso é apenas mais uma tentativa patética de chamar minha atenção? Você acha que ameaçar escolher meu irmão marginalizado vai me deixar com ciúmes?"
Sua pergunta pairou no ar, um desafio e um insulto, tudo em um.
Ponto de Vista: Alice Telles
A risada de Caio ecoou no salão silencioso, cada gargalhada um golpe pequeno e afiado. Ele estava se divertindo, atuando para sua plateia, saboreando minha humilhação pública. "O gato comeu sua língua, Alice? Percebeu o quão ridícula você soa?"
Joana deslizou para o seu lado, sua expressão uma mistura perfeita de pena e preocupação. Era um olhar que ela havia aperfeiçoado ao longo de anos de prática. "Caio, não seja tão duro com ela", ela arrulhou, alto o suficiente para que todos ouvissem. "Ela só está nervosa. É um grande dia." Ela se virou para mim, seus olhos brilhando com malícia. "Alice, querida, você precisa ter cuidado. Ouvi coisas terríveis sobre o Bruno. Dizem que ele uma vez levou uma empresa à falência só por esporte. Você não gostaria de acabar como uma de suas vítimas, não é?"
A multidão murmurou em concordância, um coro de avisos abafados e ameaças veladas. "Ela tem razão, sabe." "Aquele homem é um tubarão." "Caio é a aposta segura. A única aposta."
Na minha vida passada, as palavras deles teriam sido facas, cortando minha determinação. Eu teria desmoronado, pedido desculpas e implorado para que Caio perdoasse minha explosão tola. Mas a garota que temia o julgamento deles já havia partido há muito tempo, substituída por uma mulher que enfrentou monstros muito piores do que alguns executivos fofoqueiros.
"Minha escolha é minha", eu disse, minha voz firme. Não era uma resposta, mas uma declaração. Um limite.
O rosto de Joana se fechou. Minha compostura estava arruinando sua performance. Ela precisava de uma vítima. Ela deu um passo em minha direção, sua mão tremulando perto do peito como se de repente estivesse se sentindo fraca. "Oh, Alice, eu só me preocupo com você..."
Seu movimento foi fluido, praticado. Ela tropeçou, não para longe de mim, mas em minha direção. Seu ombro roçou no meu com o mais leve dos toques.
E então ela estava no chão.
Um suspiro teatral escapou de seus lábios, seguido por um soluço alto e de cortar o coração. Ela embalou o braço, o rosto contorcido em agonia. "Alice! Por que você me empurrou?"
A sala explodiu. Caio estava ao seu lado em um instante, seu rosto uma máscara de fúria trovejante. Ele a ajudou a se levantar, embalando-a como se fosse feita de vidro.
"Você está louca?", ele rosnou para mim, sua voz tremendo de fúria. "Ela estava tentando te ajudar! Qual é o seu problema? Seu ciúme é tão consumidor que você atacaria sua própria prima?"
Sua prima. A mentira estava tão enraizada na narrativa de nossa família que até ele acreditava. Meus pais acolheram Joana, deram-lhe um lar, uma educação, tudo o que ela tinha. Mas ela não era minha irmã. Ela nem era do meu sangue. Ela era filha de um parente distante, uma víbora alpinista social que nós tolamente acolhemos em nosso ninho.
Joana, escondida atrás da estrutura protetora de Caio, me lançou um olhar de puro e absoluto triunfo.
Uma risada seca e sem alegria escapou dos meus lábios. "Eu não toquei nela."
"Mentirosa!", Caio cuspiu. "Eu vi! Todo mundo viu! Você tem agido como uma pirralha mimada a noite toda, e agora isso. É porque eu dei um pouco de atenção à Joana? Meu Deus, Alice, eu sabia que você era obcecada por mim, mas isso é patético."
"Caio, por favor", Joana choramingou, puxando sua manga. "Não fique com raiva dela. A culpa é minha. Eu não deveria ter... eu só queria que fôssemos todos uma família feliz." Suas palavras eram perfeitas, pintando-a como a vítima magnânima e a mim como a agressora desequilibrada.
Os sussurros ao nosso redor ficaram mais altos, mais venenosos. "Você viu aquilo?" "Empurrou ela direto para o chão." "A filha dos Telles tem um lado cruel."
O rosto de Caio estava a centímetros do meu, suas feições distorcidas de nojo. A máscara encantadora se foi, revelando o monstro que eu conhecia tão bem. Por um segundo aterrorizante, pensei que ele ia me bater, bem aqui, na frente de todos. A memória de seus punhos, da dor aguda e ofuscante, enviou um choque de gelo por minhas veias.
Sua mão disparou, não para me bater, mas para agarrar meu queixo, forçando-me a olhá-lo. Seus dedos cravaram em minha pele.
Então, o impensável aconteceu.
Ele me deu um tapa.
O som estalou pelo salão como um chicote, silenciando cada sussurro. A ardência na minha bochecha foi aguda, imediata. Minha cabeça virou para o lado com a força do golpe.
Um suspiro coletivo e horrorizado encheu a sala.
"Se você alguma vez", ele sibilou, sua voz um rosnado baixo e aterrorizante, "colocar a mão na Joana de novo, eu pessoalmente vou garantir que o Horácio jogue você e seu precioso legado na rua. Você me entendeu?"
A ameaça era clara. A linha havia sido traçada. E aos olhos dele, eu a tinha acabado de cruzar.