Charlotte
Eloá era uma criança muito tranquila e não era difícil cuidar dela. Enquanto morava no orfanato, eu costumava auxiliar as freiras nos cuidados com as crianças menores e não considerava muito diferente o que estava fazendo agora, pois era até mais fácil, dado que eu só precisava cuidar de apenas uma criança, diferentemente de lá, que eram muitas.
Eu estava trabalhando como babá da Eloá já há seis meses e nem mesmo a questão do cronograma foi um empecilho para a minha adaptação na casa dos Mackenzie, pois no orfanato nós também tínhamos horários rigorosos para todas as atividades, evitando assim que virasse uma confusão, dada a quantidade de crianças.
O que de fato eu não gostava, era como Martina tratava a própria filha, parecendo até sentir desprezo pela criança, visto que ela dificilmente se dirigia a Eloá e quando o fazia era com pouco caso ou irritação, e eu acabei por me identificar muito com a pequena, pois também cresci sem o amor de uma mãe.
Mas a Eloá tinha seu pai, que era sempre muito carinhoso com ela e a própria Nicole amava aquela menina como se fosse a própria mãe dela, algo que era compreensível, pois já cuidava dela fazia quase dois anos, e a menina também acabava direcionando todo o seu amor para a babá.
Eu era muito tímida e o ambiente em que estava trabalhando era tão opressor quanto o próprio lugar em que cresci, me fazendo sentir que pouca coisa havia mudado na minha vida e eu continuava vivendo apenas uma existência modesta, sem grandes amizades ou acontecimentos.
— Você gosta de ficar o tempo todo aqui nessa casa, sem sair para lugar algum?
Era normal aquela curiosidade da Nicole, pois desde que eu cheguei à casa dos Mackenzie para trabalhar, eu ainda não havia saído para lugar algum. Mesmo quando tinham os passeios que o senhor Mackenzie fazia com a filha, sempre quem o acompanhava era a Nicole, por ter mais experiência com a menina e saber como se portar nos lugares, dado que eu não tinha o hábito de sair durante o tempo que vivi no orfanato.
Nós estávamos agora à beira da piscina, observando enquanto a Eloá fazia sua aula de natação com o instrutor que vinha três vezes por semana a sua casa, quando a Nicole fez a pergunta. Além da natação, a pequena ainda fazia aulas de balé, piano e francês.
— Eu não tenho muita escolha, Nicole. – Falei, dando de ombros.
Eu gostava bastante da Nicole, ela era muito simpática e sempre me tratava bem. Na verdade, ela e o senhor Mackenzie eram os únicos a me tratarem de forma cordial naquela casa, pois tanto a senhora Martina quanto os demais empregados eram distantes, quando não eram rudes mesmo.
Eu apenas tentava me manter o mais invisível possível e percebi ser exatamente isso que a minha patroa esperava de mim, pois ela não parecia gostar quando era incomodada e muito menos quando ela se sentia pressionada a dar atenção para a própria filha.
Isso geralmente acontecia quando o senhor Mackenzie estava em casa, pois eu já havia constatado que ela fingia ser uma pessoa totalmente diferente na frente do marido e, para agradá-lo, ela abria algumas exceções, se aproximando da Eloá e a tratando com o carinho que ela não parecia sentir.
Ao contrário do seu marido, que todo o tempo que tinha livre, procurava passar com a Eloá, até mesmo saía para passear com a pequena. Claro que levava a babá também consigo, mas ele fazia quase tudo para a menina, como a Nicole já me contara, requisitando a sua ajuda apenas quando absolutamente necessário.
— Você poderia passar sua folga com a minha família.
— Eu não conheço sua família, Nicole. – Foi a mesma resposta que dei das outras vezes em que ela havia feito o oferecimento. – Como posso simplesmente chegar lá na sua casa e passar o fim de semana?
— Eu já te contei tudo sobre a minha irmã Emily e os meus dois sobrinhos. Também já contei tudo sobre você para ela.
— Ainda assim, não posso. – Recusei mais uma vez.
— A Emily quer te conhecer! – Ela falou empolgada. – Ela mesma pede para eu insistir que você vá para a nossa casa. Você irá gostar muito, tenho certeza.
Quando eu estava de folga, a Nicole estava trabalhando e vice-versa. Então, não era possível que nós duas pudéssemos fazer algo juntas, e ela tentava, a todo custo, me aproximar de sua família, visto que eu não possuía ninguém.
Não foi possível continuar o assunto, pois o senhor Mackenzie chegou ao terraço.
— Boa tarde, senhoritas. - Ele nos cumprimentou.
Ele se aproximou de onde estávamos, mas olhava diretamente para Nicole, como sempre fazia e até mesmo eu, que não possuía experiência alguma sobre relações entre homem e mulher, já havia notado que eles sempre se olhavam de uma maneira que não poderia ser considerada apropriada.
— Boa tarde, senhor Mackenzie. — Nós duas respondemos simultaneamente.
— Olha, papai! Eu tô nadando! – Eloá gritou de onde estava, chamando nossa atenção para si.
— Está muito linda, a pequena do papai!
Ele correspondeu a alegria da pequena, exibindo um sorriso contagiante. Quando Eloá voltou a prestar atenção às orientações de seu professor, ele voltou em nossa direção novamente.
— Está tudo bem com vocês?
Ele sempre se preocupava em saber o que aconteceu em sua ausência e não parecia ser apenas por educação que ele sempre perguntava também sobre como eu e a Nicole estávamos.
— Estamos bem, não é, Charlotte? – Nicole respondeu, sorrindo e olhando para mim, aguardando pela confirmação de suas palavras.
— Tudo bem por aqui, senhor Mackenzie. – Eu apenas confirmei.
— E a Eloá? Algo que eu precise saber?
— Ela nunca dá trabalho. – Nicole falou aquilo que eu pensei. – É sempre uma criança obediente e tranquila. Os meus dois sobrinhos são bem mais trabalhosos que a Eloá.
— E como estão todos? A sua irmã e os seus sobrinhos? — Ele perguntou, bastante interessado.
—Estamos todos ansiosos, pois meu cunhado está voltando de sua viagem na próxima semana.
— Faz bastante tempo que ele está viajando, não é mesmo, Nicole? – O senhor Mackenzie parecia conhecer bastante sobre a família da Nicole.
A verdade é que eles sempre conversavam bastante, e sempre que era necessário sair com a Eloá, a escolhida para acompanhar pai e filha, era a Nicole.
Nós estávamos todos olhando para os movimentos da criança, que estava sendo orientada pelo professor de natação, na piscina coberta, que ficava no terraço superior da residência.
— Ele já está há seis meses na Itália. – Nicole confirmou.
— Veja, eu tô nadando! – Eloá chamou a nossa atenção novamente, feliz por estar nadando de um lado para outro da enorme piscina.
— Não se diz "tô nadando", Eloá! – Martina a repreendeu, aparecendo de surpresa e acredito que até mesmo o senhor Mackenzie tenha se assustado com a sua chegada inesperada. – Você precisa falar: "Eu estou nadando! "
— Desculpe, Martina. – Eloá pediu, encostando-se na borda da piscina e eu cheguei a pensar haver lágrimas em seus olhos, mas como ela estava toda molhada, não pude ter certeza.
Martina não aceitava que a filha a chamasse de mãe e Eloá tinha que a chamar sempre por seu nome.
— Espero que tenha mais atenção da próxima vez. – Ela falou para a filha, e se virando na direção do marido, continuou: - O que está fazendo ao lado dos empregados?
— Não estou conseguindo entender o que está acontecendo, Martina. – Ele fingiu não compreender, pois, a pergunta havia sido bem clara. – Isso não são modos de tratar a Eloá.
— Por que está lado a lado com as babás da sua filha? Por acaso estava de conversinha com os serviçais?
Ela não se deu ao trabalho de responder à pergunta do marido, se atendo apenas ao fato de que ele estava conversando comigo e a Nicole, algo extremamente normal, dado sermos babás da filha dele. Mas não para a sua esposa, ao que tudo indicava.
Uma coisa que ele não sabia, e eu já havia percebido há algum tempo, era que a Martina era bastante arrogante e que, além de não demonstrar carinho algum pela própria filha e não aceitar que as babás o fizessem, ela sempre fingia na presença do marido.
O fato de agora ela ter agido daquela forma foi algo fora do normal
— Estava apenas acompanhando a aula de natação da nossa filha, Martina. - Ele justificou e seu tom era apaziguador.
O pai da Eloá era sempre uma pessoa atenciosa e gentil com todos e com a sua esposa não seria diferente.
— Não é necessário. Ela tem duas babás para fazerem esse serviço.
— Podemos conversar em casa?
— Pode ir na frente. – Ela fez um gesto indicando a porta que dava para a escada que levava ao piso inferior.
— Espero por você em nosso quarto.
O jeito como falou foi bem tranquilo, mas dava para perceber que ele estava bastante chateado com a atitude incomum da esposa. Ele apenas não sabia que aquele era, na verdade, o comportamento normal dela.
Depois que o marido saiu, Martina nos olhou de uma forma que parecia estar nos reduzindo a pó, apenas com seu olhar.
— Vocês duas estão proibidas de falar com meu marido. – Suas palavras conseguiram me surpreender.
— Mas nós... – Nicole tentou se defender.
— Não estou perguntando nada para você, sua oferecida! – Martina interrompeu a fala da jovem. – Caso não sigam as minhas ordens, serão demitidas sem nem mesmo pensar duas vezes.
Ela saiu pisando duro, parecendo bastante chateada.
Aquilo me preocupou bastante, pois não era possível trabalhar como babá da filha de alguém e não falar com essa pessoa. Mas eu também não poderia perder aquele emprego, quando fazia tão pouco tempo ainda que eu estava trabalhando e eu não consegui ainda juntar dinheiro suficiente para me manter por conta própria.
— Não fica assim, Charlotte. – Nicole falou, tocando em meu braço de maneira delicada. – O senhor Mackenzie jamais deixaria que a dona Martina demitisse a gente.
— Como você pode ter tanta certeza? – Perguntei insegura.
Apesar de a Nicole trabalhar para a família há bem mais tempo que eu, ela parecia não se dar conta que o senhor Oliver era totalmente influenciado por tudo que a esposa falava e se ela desejasse mesmo, poderia sim, fazer com que ele mesmo nos demitisse.
— Eu apenas sinto isso. – Nicole parecia tão confiante ao dizer aquilo, que eu quase acreditei estar me equivocando.
Mas eu temia que ela estivesse errada, pois, agora que saí do orfanato, eu não poderia mais voltar e como não tinha mais ninguém além de mim mesma nesse mundo, como eu poderia viver, sem casa, sem emprego e sozinha?
Senti um calafrio de horror, ao me imaginar morando na rua, pois até mesmo o auxílio do governo não era concedido tão rapidamente e tampouco era suficiente para eu conseguir me manter em uma cidade cara como Nova York.
Eu estava economizando todo o dinheiro do salário recebido na casa da família Mackenzie, mas ainda assim, eu tinha certeza de que não seria suficiente para eu me manter, pagando aluguel, comida e tantas outras coisas que eu teria que arcar ao viver sozinha.
Eu precisaria encontrar outro emprego rapidamente.