Capítulo 2

《Sthephania》

Quando completei dezoito anos, decidi estudar em Londres.

A convivência com meu pai se tornava cada vez mais insuportável, especialmente por causa de Selma, minha madrasta. Além disso, ele jamais apoiou minha escolha profissional, insistindo para que eu cursasse Direito a fim de, um dia, herdar seu prestigiado e renomado escritório de advocacia em Nova York. Por dois anos, vivi presa a uma graduação que nunca desejei, até que, finalmente, fui aceita na Queen Mary University of London - a universidade dos meus sonhos. Essa foi minha chance de partir.

Londres me acolheu exatamente como eu esperava. Longe da sombra do meu pai, pude, enfim, seguir meu próprio caminho. Formei-me em Engenharia de Software e Hardware, um campo que sempre me fascinou. Conquistar esse diploma por mérito próprio me proporcionou uma satisfação indescritível.

Agora, anos depois, estou de volta a Nova York.

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O som abafado das rodinhas da minha mala deslizando pelo piso do aeroporto quase se perde em meio ao burburinho ao redor. Anúncios ecoam pelos alto-falantes, convocando passageiros para seus voos. O aroma de café recém-passado se mistura ao cheiro artificial do ambiente, enquanto pessoas passam apressadas - algumas sorrindo em reencontros calorosos, outras se despedindo com olhos marejados.

Meu coração acelera ao reconhecer uma silhueta familiar à minha espera. Wendy.

Ela está próxima à saída, segurando um copo de café em uma das mãos e acenando freneticamente com a outra. Seu sorriso radiante ilumina seu rosto delicado, destacando seus olhos amendoados e os fios negros e lisos que caem elegantemente sobre seus ombros. Sua pele clara parece ainda mais luminosa sob as luzes artificiais do aeroporto.

Assim que me aproximo, ela abandona o copo no primeiro balcão que encontra e praticamente se joga em mim, envolvendo-me em um abraço apertado.

- Não acredito que você está de volta! - exclama, apertando-me contra si.

Wendy é minha melhor amiga desde a infância. Crescemos juntas, unidas pela amizade de nossas mães, que se conheceram ainda no ensino fundamental. A senhora Meiying Yujin imigrou da Coreia do Sul para os Estados Unidos na juventude e construiu um verdadeiro império no ramo jornalístico. Inspirada por essa trajetória, Wendy seguiu seus passos e se tornou uma jornalista brilhante.

- Eu também senti saudades - respondo, rindo ao me afastar ligeiramente para encará-la.

Ela me analisa dos pés à cabeça, como se quisesse se certificar de que sou real.

- Olha só para você! Senhorita Londres, toda chique. Mas cadê o sotaque britânico?

Reviro os olhos e lhe dou um leve empurrão.

- Nem vem!

Ela ri e pega minha mala, puxando-a enquanto caminhamos para fora do aeroporto.

- Antes que pergunte, Melyssa está ocupada com a inauguração do restaurante - diz Wendy, como se adivinhasse minha próxima pergunta.

- Imaginei. Ainda bem que consegui chegar a tempo.

- Ainda bem mesmo, porque ela teria te matado se perdesse esse momento.

- Sei bem.

Wendy balança a cabeça, divertida, e logo muda de assunto.

- Ela deixou a chave do apartamento comigo, já que você me traiu indo morar com ela.

Arqueio uma sobrancelha, cruzando os braços.

- Eu te traí indo morar com ela? O apartamento é uma das poucas coisas que minha mãe me deixou, e confiei a Melyssa o cuidado dele enquanto estive fora. Além disso, eu não queria ser vela para você e Vini, já que agora vocês moram juntos.

Wendy suspira e ergue as mãos em rendição.

- Ok, você tem razão.

- E muita - provoco.

Ela revira os olhos, soltando um suspiro teatral.

- Amiga, eu não acreditei quando você me contou que ia estudar em Londres. Eu jamais teria essa coragem! Ainda mais sem dinheiro, já que seu pai bloqueou todos os seus cartões e aquele seu salário da cafeteria mal dava para comprar uma bolsa da Gucci.

Dou uma risada baixa e sacudo a cabeça.

- Eu precisava provar a mim mesma que conseguiria alcançar meus objetivos sem depender dele. E consegui. Meu foco era me formar, e eu fiz isso.

Wendy assente, mas seus olhos brilham com aquela expressão típica de quem está prestes a soltar uma fofoca.

- Ele ficou uma fera na sua ausência. E os Oliveira também, já que fugir significava recusar o casamento.

Solto um suspiro.

- Eu não ia me casar com Pablo, e meu pai sabia disso muito bem.

- Valesca não perdeu tempo depois da sua partida. Fontes me disseram que os dois estão saindo, mas Pablo não quer nada sério com ela.

Deixo escapar um riso irônico.

- Era de se esperar. Aquele lá não é do tipo que se prende a alguém. O que eu não entendo é por que ele aceitou essa ideia absurda de casamento.

Wendy me lança um olhar sugestivo.

- Você realmente não sabe?

- Não me venha novamente com esse papo ridículo de que aquele idiota é apaixonado por mim.

- Você sabe que é verdade. Enquanto todas caíam aos pés dele, você sempre foi indiferente. Acho que foi isso que fez com que ele se apaixonasse. E, convenhamos, você é gata.

Reviro os olhos.

- Menos. Muito menos. Tudo o que ele queria era me adicionar à sua lista infinita de ficantes. Por isso se prestava a fazer aquele teatro absurdo de noivado.

Wendy estreita os olhos, pensativa.

- Eu não sei, não...

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Capítulo 3

《Sthephania》

Chegamos ao meu apartamento. Fico parada por um instante, observando cada detalhe. Eu havia me esquecido de quanto esse lugar carrega lembranças. Minha mãe sempre contava, com orgulho, sobre como conseguiu adquiri-lo com muito esforço e trabalho. Vinda de uma família simples, sua realidade era completamente diferente da do meu pai, que nasceu em berço de ouro. Ela precisou economizar e se dedicar muito aos seus projetos para finalmente comprá-lo.

Lembro-me do dia em que decidi morar aqui, no início da minha faculdade de Direito. Eu tinha apenas dezesseis anos, e meu pai ficou furioso, afirmando que jamais concordaria com essa mudança. Mas, determinada, peguei minhas coisas e vim do mesmo jeito. Ele ficou indignado, mas, no fim, acabou aceitando. Passei momentos incríveis aqui e, agora, percebo o quanto sinto falta de cada um deles.

Enquanto desfazemos as malas, Wendy conversa animadamente.

- Estou tão feliz que finalmente foi transferida para mais perto! E, melhor ainda, conseguiu um cargo importante na melhor empresa de tecnologia de Nova York - diz ela, com um sorriso de satisfação.

- Eu também não acreditei quando a senhora Renesmée Lady me ofereceu a promoção. Ela sempre acreditou em mim e foi essencial para o meu crescimento profissional. Deu-me a oportunidade de mostrar meu trabalho e sempre esteve aberta a ouvir novas ideias dos subordinados. Além de tudo, é uma pessoa respeitosa e humilde.

- Eu sei. Você sempre fala muito bem dela. Acabaram ficando bem próximas, né?

Assinto com um pequeno sorriso.

- Sim. Ela é como uma tia para mim, como se fosse parte da minha família.

- Fico feliz de verdade por você - diz Wendy, sincera.

- Eu também. Estou ansiosa para começar nesse novo cargo. A senhora Renesmée é sócia dessa empresa de games e softwares e queria alguém de confiança para representá-la. É uma grande responsabilidade, e me sinto honrada.

- Você merece. Graças aos seus projetos, eles ganharam uma fortuna. Suas ideias são geniais! O aplicativo que você desenvolveu atingiu milhões de usuários. Não poderia ser diferente.

- Quem diria que eu me sairia tão bem? Comecei como estagiária e, agora, estou prestes a assumir o cargo de gerente de Desenvolvimento de Software e Hardware. Além disso, vou representar a senhora Renesmée em uma das muitas empresas das quais ela é sócia.

Wendy arregala os olhos, surpresa.

- Espera... Você também vai fazer parte do conselho dessa empresa?

- Sim. Como ela é a principal investidora e não tem tempo para viajar e resolver determinados assuntos, nomeou representantes em cada país com carta branca para agir em sua ausência.

- Nossa, amiga, você arrasou! Mas, mudando de assunto... Estou curiosa para saber quem é o chefe gato por trás da L&V Technology.

Franzo a testa, cruzando os braços.

- E como você sabe que ele é gato?

Ela dá de ombros, com um sorriso travesso.

- Intuição! E estou ansiosa para descobrir. Ainda bem que tenho uma amiga infiltrada que vai me contar assim que souber, né?

Solto uma risada, negando com a cabeça.

- Claro que não. Com a primeira dose de bebida, você vai acabar contando para alguém. Sem contar que você é jornalista, o que torna tudo ainda mais arriscado. Ficaria evidente que eu fui sua fonte. Além disso, assinei um termo de confidencialidade.

Wendy revira os olhos, teatralmente.

- Não nego que ficaria tentada a escrever uma matéria sobre isso, mas minha curiosidade é enorme.

- Pois continue curiosa. Eu nem conheci o senhor V ainda, e você já está me enchendo.

Ela dá um sorriso divertido.

- Senhor V? Excelente! Melhor do que CEO misterioso.

- Você não existe... - murmuro, rindo.

De repente, meu celular vibra. Olho para a tela e vejo o nome do meu pai. Meu sorriso desaparece, e meus dedos hesitam antes de recusar a chamada.

Wendy me observa com atenção.

- Não vai atender?

Sinto um aperto no peito.

- Para quê?

Sei que ele já deve estar sabendo que estou na cidade e, provavelmente, quer me ver.

- E você vai ignorá-lo?

Solto um suspiro pesado.

- Não estou fazendo nada diferente do que ele já fez comigo. Você sabe o quanto estou chateada pelo que ele me obrigou a fazer. Ele me ameaçou e, como sempre, não quis me ouvir. Preferiu acreditar em Selma e ainda espalhou aquela notícia falsa sobre meu suposto noivado com Pablo, afastando qualquer possibilidade de eu me entender com Matteo. Além disso, fez de tudo para que eu deixasse Londres. Estou cansada e sem cabeça para mais uma discussão.

E eu, por um instante, me permito fechar os olhos, tentando afastar o peso das lembranças.

Minha mãe faleceu quando eu tinha doze anos, após anos de uma luta incansável contra o câncer. Infelizmente, ela não conseguiu vencer a batalha.

Dois anos após sua morte, meu pai decidiu se casar novamente. Até aí, tudo bem. No início, Selma me tratava com gentileza enquanto ainda era apenas sua namorada, mas, assim que se tornou sua esposa, sua postura mudou drasticamente. Sua filha, Valesca, seguiu pelo mesmo caminho. Ambas eram rudes com os empregados e comigo, além de Valesca frequentemente inventar mentiras ao meu respeito, que meu pai aceitava sem questionar.

Como se isso não bastasse, foi Selma quem revelou a ele meu relacionamento com Matteo, tornando sua aceitação ainda mais difícil. Nunca consegui entender como ela o manipula tão facilmente, nem como ele pode ser tão cego.

- Você tem razão, é melhor ignorá-lo. Tente focar na sua vida, seu pai precisa entender que você é adulta e que ele não pode te controlar - disse Wendy, tentando me confortar.

- Exatamente! - concordei. - Agora, não é querendo te expulsar, mas estou exausta da viagem.

- Ok, já terminamos de organizar tudo, vou te deixar descansar. Passo para te buscar mais tarde. Melyssa deve passar aqui para se trocar para a inauguração. Aqui estão suas chaves - disse Wendy, me abraçando antes de sair do apartamento.

- Ok, até mais tarde.

Depois que ela sai, decido preparar algo para comer. Após a refeição, me jogo no sofá e coloco uma das minhas séries favoritas: The Big Bang Theory. Sim, já assisti inúmeras vezes, mas quem nunca? Escolho um episódio aleatório e me deixo levar, até que, sem perceber, adormeço.

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