Isabela
Três dias. Três dias se passaram desde que fui arrancada da minha casa, e Lucas, meu irmão, não deu sinal de vida. O desespero me consumia como fogo. Será que ele sabia o que estava acontecendo? Será que ele sequer se importava? Eu me perguntava, entre soluços abafados, se ele estaria escondido, com medo, ou simplesmente havia decidido me abandonar à própria sorte.
Durante esses três dias, Carlos e seus homens me mantiveram presa em um quarto pequeno e sem janelas, com paredes de concreto gelado. Não havia cama, apenas um colchão fino jogado no chão. A comida era escassa, e a água vinha em garrafas plásticas que eles jogavam no chão, como se eu fosse um animal. Meu corpo estava exausto, mas minha mente não conseguia descansar. A todo momento, eu pensava em uma forma de fugir, mas sempre que ouvia o som das chaves na porta, o medo me paralisava.
Na manhã do quarto dia, a porta se abriu com um estrondo. Carlos entrou, seguido por dois de seus capangas. Seu rosto era uma máscara de frieza, mas seus olhos brilhavam com algo que me deixou enjoada.
- Parece que o Lucas não tá nem aí pra você, hein? – ele disse, cruzando os braços. – Três dias e nada. Acho que é hora de fazer alguma coisa útil com você.
Meu estômago revirou.
- O que você quer dizer com isso? – minha voz saiu fraca, quase um sussurro.
Carlos deu um sorriso torto e balançou a cabeça.
- Você vai descobrir.
Antes que eu pudesse reagir, os dois capangas me levantaram à força e me arrastaram para fora do quarto. Tentei lutar, gritei, chutei, mas era inútil. Eles eram muito mais fortes do que eu. Meus gritos ecoaram pelos corredores enquanto eu era levada para um lugar desconhecido.
Quando a porta se abriu, meus olhos foram ofuscados pela luz brilhante. Era um salão enorme, iluminado por lustres de cristal que contrastavam absurdamente com o que eu estava vivendo. Haviam sofás de couro espalhados pelo ambiente, e várias mulheres andavam de um lado para o outro, vestindo apenas calcinha e sutiã. Algumas delas estavam chorando; outras pareciam resignadas, como se já tivessem aceitado o destino cruel que lhes aguardava.
Antes que eu pudesse processar o que estava acontecendo, uma mulher alta e loira, com maquiagem impecável, se aproximou de mim. Ela me olhou de cima a baixo, franzindo o nariz como se eu fosse algo sujo.
- Tire essa roupa – ela ordenou, jogando um conjunto de calcinha e sutiã pretos na minha direção.
- O quê? – perguntei, chocada.
- Tire essa roupa e vista isso – ela repetiu, impaciente.
- Não! – exclamei, recuando instintivamente.
Os dois homens que me trouxeram riram, e um deles deu um passo à frente, olhando para mim com um sorriso sinistro.
- Vai trocar por bem, ou a gente vai ter que rasgar a roupa que você está no corpo ?
Minhas mãos tremiam. Eu sabia que não tinha escolha. Lágrimas escorriam pelo meu rosto enquanto eu agarrava as peças de roupa que me haviam dado.
- Eu vou trocar – sussurrei, derrotada.
Eles me levaram até uma sala pequena, onde fiquei sozinha para me trocar. A calcinha e o sutiã eram ridiculamente pequenos, feitos de renda fina e quase transparentes. Vestir aquilo me fez sentir mais exposta do que nunca. Quando terminei, olhei para o meu reflexo em um espelho na parede. Quem era aquela mulher? Certamente não era eu. Não era a Isabela que passou anos lutando para proteger seu irmão, que dedicou sua vida à sua família. Essa mulher parecia quebrada, vulnerável.
Logo, a porta se abriu novamente, e eu fui levada para outra sala. Lá, havia uma espécie de vitrine, como se fosse uma exposição. As mulheres, incluindo eu, eram colocadas ali, uma ao lado da outra, enquanto homens bem vestidos observavam do outro lado. Eles tinham taças de champanhe nas mãos e sorrisos desinteressados, como se estivessem escolhendo objetos e não pessoas.
Quando chegou minha vez, fui empurrada para o centro da vitrine. Minha respiração estava descompassada, e meu corpo tremia. Eu queria gritar, mas minha voz não saía. Tudo o que eu sentia era vergonha, uma sensação sufocante de ser usada, de não ser nada além de um produto à venda. Meus braços instintivamente tentaram cobrir meu corpo, mas um dos capangas bateu no vidro, me fazendo parar.
- Mantenha os braços abaixados – ele ordenou.
Fiquei ali, imóvel, com os olhos fixos no chão, tentando ignorar os olhares lascivos que queimavam minha pele.
- Senhores, vamos começar o leilão – anunciou uma voz masculina.
Eu não queria acreditar no que estava ouvindo. Leilão? Eles realmente estavam me vendendo como se eu fosse uma mercadoria? Meu coração disparou, e lágrimas escorriam pelo meu rosto sem controle.
- Essa jovem tem 23 anos, é saudável e... bastante interessante. O lance inicial será de cem mil reais – continuou a voz.
Houve um burburinho entre os homens. Lances começaram a ser dados, e eu me senti cada vez mais envergonhada e desumanizada. Cada vez que alguém aumentava o valor, era como se mais um pedaço de mim fosse arrancado.
- Quinhentos mil – uma voz firme e autoritária ecoou na sala.
O salão ficou em silêncio por um momento. Olhei para cima, curiosa, e vi um homem alto, de terno perfeitamente ajustado, com um rosto sério e olhar penetrante. Ele exalava poder e confiança.
- Alguém dá mais? – perguntou o leiloeiro.
O silêncio permaneceu, e então o martelo foi batido.
- Vendida por quinhentos mil reais ao senhor Arantes.
Meu corpo ficou tenso. Eu tinha sido comprada. A realidade daquela frase me atingiu como um soco no estômago. Quem era Leonardo Monteiro? Por que ele havia pago tanto por mim? E, mais importante, o que ele queria de mim?
Quando fui retirada da vitrine e levada para o lado de fora, o homem que havia me comprado estava esperando. Seu olhar era intenso, mas, ao mesmo tempo, havia algo nele que parecia mais complexo, como se ele estivesse avaliando cada detalhe da situação.
- Então, você é Isabela – ele disse, sua voz baixa e controlada.
Eu não consegui responder. Minhas palavras estavam presas na garganta, junto com o medo e a raiva. Tudo o que eu sabia era que minha vida havia mudado mais uma vez – e, agora, eu estava sob o controle de um homem que eu não conhecia.
Meu nome é Leonardo Arantes. Tenho 29 anos e sou o herdeiro da Arantes Corporation, uma das maiores empresas do ramo imobiliário no país. Eu deveria ser o exemplo de responsabilidade, o tipo de homem que todos admiram e respeitam, mas a verdade é que passei boa parte da minha vida aproveitando o que o dinheiro podia me oferecer. Festas, mulheres, viagens... vivi sem limites e, por muito tempo, parecia que nada disso teria consequências.
Até que teve.
Os tabloides me transformaram em um alvo constante. Qualquer deslize, qualquer escândalo, virava manchete no dia seguinte. E eu não me importava... até que as ações da empresa começaram a despencar. Meu comportamento não estava apenas arruinando minha reputação, mas também colocando em risco o legado que meus pais trabalharam tanto para construir.
E foi então que meus pais decidiram agir.
- Leonardo, nós não vamos mais tolerar essa irresponsabilidade – meu pai disse, sua voz dura como pedra. – Se você continuar assim, não terá mais a nossa confiança. E sem isso, você perderá o controle da empresa.
Minha mãe, sempre mais diplomática, tentou suavizar o golpe.
- Você precisa mostrar ao mundo que é um homem maduro, alguém digno de liderar. Um bom casamento poderia ajudar nisso, Leo.
Naquele momento, eu percebi o quão sério era o ultimato. Eles não estavam blefando. Meu primo Augusto, sempre à espreita, aproveitava cada erro meu para ganhar força dentro do conselho. Ele já tinha aliados suficientes para me tirar do jogo, e eu sabia que, se não fizesse algo rápido, perderia tudo.
Foi aí que surgiu a ideia de arrumar uma noiva.
Eu não sou o tipo de homem que acredita em casamento por conveniência. Mas, naquelas circunstâncias, parecia a solução mais rápida e eficiente. Meu plano era simples: encontrar alguém, assinar um contrato, manter as aparências por tempo suficiente para recuperar a confiança do conselho e, depois, seguir caminhos separados.
O problema era que eu não tinha tempo. Augusto estava ganhando terreno a cada dia, e eu precisava agir imediatamente. Foi assim que acabei em um lugar onde jurei nunca colocar os pés: um leilão.
Eu sabia muito bem o que esses eventos representavam. As mulheres que estavam ali não estavam porque queriam, mas porque foram forçadas por circunstâncias horríveis. Era cruel, desumano. Não era o tipo de coisa que eu apoiava, mas o desespero tem o poder de transformar até mesmo os valores mais sólidos.
Quando entrei no salão, o ambiente me causou repulsa. Homens rindo alto, comentando sobre as mulheres como se fossem mercadorias. Mulheres desfilando de calcinha e sutiã, seus rostos cheios de vergonha. Minha mandíbula se apertou, mas eu precisava me lembrar do motivo pelo qual estava ali.
Foi então que a vi.
Ela estava parada no centro de uma vitrine, tentando manter os braços ao longo do corpo enquanto lágrimas escorriam pelo rosto. Seus olhos estavam fixos no chão, mas mesmo assim eu consegui sentir o desespero e a indignação que emanavam dela. Não sei dizer o que exatamente me fez focar nela. Talvez fosse a forma como ela parecia estar lutando, mesmo em uma situação tão degradante.
- Senhores, vamos começar o leilão – anunciou o leiloeiro.
Eu sabia que era minha chance. Não podia hesitar.
- Cem mil reais – alguém gritou.
- Duzentos mil – veio outra voz.
Os lances começaram a subir, mas eu mantive a calma. Esperei até o momento certo.
- Quinhentos mil reais – minha voz cortou o salão como uma faca.
O burburinho cessou. Todos os olhares se voltaram para mim, e o leiloeiro hesitou por um momento antes de perguntar:
- Alguém dá mais?
O silêncio era ensurdecedor. Eu sabia que ninguém ousaria me desafiar. Meu nome, minha reputação, ainda tinham peso, mesmo que não fosse pelos melhores motivos.
- Vendida por quinhentos mil reais ao senhor Arantes.
Eu observei enquanto ela era retirada da vitrine e trazida até mim. Ela parecia tão frágil, tão vulnerável, que quase me senti culpado por tê-la comprado. Quase.
Quando finalmente a vi de perto, percebi que ela estava tentando manter a compostura, mas seus olhos denunciavam o pânico.
- Isabela, certo? – perguntei, tentando parecer o mais tranquilo possível.
Ela não respondeu, apenas desviou o olhar. Não a culpei por isso. Afinal, eu era só mais um homem em uma situação que ela não escolheu.
- Vamos sair daqui – disse, e acenei para que um dos seguranças nos conduzisse para fora.
O caminho até meu carro foi silencioso. Ela andava com os braços cruzados, como se quisesse se proteger, e eu respeitei o espaço dela. Quando entramos no carro, sentei no banco ao lado dela e pedi ao motorista que nos levasse para minha casa.
- Escuta, Isabela – comecei, depois de alguns minutos de silêncio. – Eu sei que isso é estranho e assustador, mas quero que saiba que não vou te machucar.
Ela finalmente me olhou, seus olhos cheios de desconfiança.
- Você me comprou. Como espera que eu acredite em qualquer coisa que você diga?
Aquelas palavras me atingiram como um soco. Ela tinha razão. Por mais boas que fossem minhas intenções, eu ainda era parte de algo horrível.
- Eu só... quero que você me ouça – continuei. – Eu comprei você porque preciso de ajuda. Preciso de alguém que finja ser minha noiva.
Ela arqueou as sobrancelhas, claramente confusa.
- O quê?
- É uma longa história – respondi. – Mas, basicamente, se eu não mostrar que sou um homem maduro e responsável, vou perder tudo.
Ela balançou a cabeça, incrédula.
- E o que eu ganho com isso?
Eu respirei fundo.
- Liberdade. Assim que tudo isso acabar, você estará livre para ir aonde quiser, fazer o que quiser. E eu posso te ajudar a recomeçar.
Ela ficou em silêncio, analisando minhas palavras. Não sabia se ela confiaria em mim, mas uma coisa era certa: essa situação estava longe de ser simples.
Quando chegamos à minha casa, abri a porta para ela e a conduzi para dentro.
- Você pode descansar aqui hoje. Amanhã, conversamos sobre o que fazer.
Ela me lançou um último olhar desconfiado antes de desaparecer entrando no quarto. Eu sabia que ganhar sua confiança seria um desafio, mas estava disposto a tentar. Afinal, minha vida – e meu futuro – dependiam disso.