Capítulo 2

Lisa Mary 

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Em um vestido romântico rendado, atraí a atenção dos fiéis na principal igreja de Metz, a tão respeitada igreja matriz. Os bancos de madeira se preenchiam com pessoas que esperavam educadamente pelo início da missa, dividindo o espaço entre os ricos e os pobres. Em um salto modesto, foi a primeira vez em que eu estava usando algo abaixo dos joelhos. O sol que reluzia sobre meus cabelos recém pintados em castanho claro realçava o tom da minha pele pela manhã. Eu emanava pureza. Em tons discretos e frios, minha presença contrabalanceava com as pessoas em suas roupas com cores divertidas para a missa no domingo de manhã. 

Indo em direção ao banco próximo ao altar, sentei-me educadamente, sempre sorridente. Eu estava frequentando as missas durante uma semana e consegui me aproximar de algumas pessoas na intenção de parecer amigável. Uma parte dos meus cabelos caiu sobre meus ombros, mas logo tratei de passá-lo para trás da orelha, mantendo a ingenuidade aparente. Todos se viraram indiscretamente para verem a invejável família entrar. Assim como famosos em um reality show, eles estavam em grupo. Se sentaram nos primeiros bancos longos de madeira, ao lado de onde eu estava. Mantive os pés juntos e as mãos sobre os joelhos, segurando a pequena bolsa de cor branca, e evitei olhá-los, como se mantivesse a atenção no padre que acabara de rezar o Pai Nosso, iniciando a missa. Enquanto analisava o padre e fugia dos sermões religiosos, organizava os pensamentos para parecer sorridente e emanar pureza durante o evento que aconteceria após a missa. 

Por favor, que isso dê certo... 

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Vicente François 

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Revirando alguns contratos sobre a mesa, no escritório de meu pai, ajeitei-me na cadeira, inalando profundamente. 

—Isso é loucura. Ele não percebeu que assinou um plano falido? O que pensa que somos? —Reclamei, prestando atenção no olhar de meu pai sobre mim. Apoiando os cotovelos sobre os braços da majestosa poltrona, cruzou os dedos, me desafiando com o olhar. 

—Filho, precisa se acalmar. Teremos uma reunião hoje à noite e eu não quero que estejamos com os nervos à flor da pele guardando ressentimentos com eles. Além do mais, você não tinha um evento religioso pra ir? —Disse, arrumando os papeis sobre a grande mesa oval. 

—Missa. 

—Como? —Papai piscou me olhando, erguendo as sobrancelhas para mim.  

—Não chame de simples “evento religioso”. —Fiz as aspas com os dedos no ar, estreitando os olhos. —É uma missa. Por que insiste em se distanciar de Jesus? 

—Filho, eu apenas estou tentando ser modesto com você, não acredito nessas coisas. 

—Vamos conosco? A mamãe e a Charlotte estão se aprontando. Por que não vem? 

—Eu estou morrendo, mas não significa que decida mudar de ideia e comprar um triplex no além. Vá ao seu evento e se divirta bastante, mas não exagere com as bebidas. Você sempre fica muito maleável quando isso acontece. 

—Nós oramos, pai. —Desistente, relaxei os olhos e encarei um ponto aleatório no escritório espaçoso. 

—Que seja. Apenas retorne sóbrio, eu quero tratar de negócios com você durante o almoço. —Ressaltou. 

Não era fácil permanecer dentro do mesmo ambiente que meu pai e manter os pensamentos frios e organizados. Eu me esforçava até mesmo para manter um tom de voz agradável, quando sabia seu temperamento agressivo e arrogante. Inclinado a comparecer à missa, levantei-me da cadeira e saí de seu escritório, o deixando rodeado por papeis. Meu pai não era uma pessoa que gostava de outras pessoas, ele sempre disse que o ser humano é desprezível aos olhos de qualquer pessoa racional. Ele se referia até mesmo a própria imagem. 

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A caminho da porta da sala, encontrei Charlotte e mamãe descendo o lance de escadas e esperei pelas duas, parado de mãos postas. Charlotte me analisou dos pés à cabeça, sorrindo de canto de boca. 

—Se eu não te conhecesse diria que você vai se casar. Por que insiste tanto nessas formalidades? —Reclamou, se aproximando em passos largos que fizeram barulho sobre o chão de madeira. Charlotte tombou a cabeça para trás e revirou os olhos, sorrindo. —Eu odeio tanto você por isso... 

—Isso é fé, uma coisa que você não entende. —Senti em meu peito suas mãos arrumando meu blazer preto puro. Logo se afastou quando percebeu mamãe vindo em minha direção. 

—Okay, devemos nos apressar. Charlotte, minha filha, não perturbe tanto o seu irmão. O seu pai já consegue fazer isso muito bem-feito. —Mamãe me olhou com carinho, garantindo seu amor para mim, com um olhar doce acompanhado um sorriso sincero e modesto. —Eu não acredito nele, mas se você acredita, então ele se torna real para mim. —Disse ela e me depositou um beijo na bochecha quando Charlotte se afastou. 

 Não demoramos muito para sair de casa. Charlotte reclamou durante toda a viagem e minha mãe tentou defender os meus argumentos. Fiz questão de dirigir, mas sempre mantinha o carro entre os seguranças, que faziam um comboio perfeito para qualquer lugar que fôssemos. Essa era a lei na família François. 

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Não demorou muito e nós finalmente chegamos à igreja. Charlotte sentou-se ao lado de nossa mãe nos primeiros bancos de madeira próximos ao altar e eu caminhei bem atrás, passando os olhos pelos detalhes da igreja decorada para a grande missa. Seria o evento de ação de graças após a missa e eu estava pronto para ofertar uma generosa quantia, visando beneficiar os fiéis. 

Estava acostumado a ser conhecido e me sentir amado em todos os lugares que eu entrava, mas uma pessoa intrigante pareceu permanecer olhando para o padre, prestando atenção em cada palavra do Pai Nosso, sem que, sequer, me percebesse chegar. Eu me recompus endireitando os ombros, e então me sentei na ponta do banco próximo ao banco dela. 

Passei os olhos por ela, discretamente, a analisando: Tom de pele aparentemente macio, branca, mas não pálida. Uma parte de seu cabelo caía sobre o ombro direito enquanto a pele do pescoço no lado esquerdo ficara exposta para mim, inocentemente. Percebia as pessoas falando com ela e sendo retribuídas sorridentes. Ela parecia gentil e paciente; e os outros gostavam se ficar ao seu lado. 

Decidi esvaziar a mente para poder orar pelo meu pai e implorar ao Deus supremo que o deixasse ficar vivo por um pouco mais tempo. Eu queria que ele vivesse por longos anos. Eu queria que ele vivesse. 

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A missa terminou e todos fomos encaminhados para a parte externa da igreja. Um jardim imenso com grama verde, flores coloridas e algumas mesas que compunham as barracas que precisavam de voluntários para ajudar nas vendas de alguns doces, produzidos artesanalmente pelos membros da igreja na esperança de arrecadarem fundos para a grande reforma. 

Charlotte e mamãe se refrescavam sob uma tenda intencionada para bebês e pessoas sensíveis ao sol, se distanciando das pessoas. Havia moradores de rua recebendo doações, e pessoas comprando doces por todos os lados. Em meio aquelas muitas pessoas espalhadas pelo jardim da igreja, eu me distraía quando senti meu celular vibrando dentro do bolso e tive que verificar. Era uma mensagem do meu pai, que me forçara a responder. Enquanto digitava, ouvi uma voz feminina aparentemente feliz oferecendo-me Profiteroles.  

Enviei a mensagem que estava digitando para meu pai e joguei o celular dentro do bolso da calça, erguendo o queixo na direção daquela voz doce e gentil. 

É ela... A garota que fez nascer uma ruga em minha testa. 

Bobo, pisquei rapidamente, passando a língua entre os lábios. Meus passos aceleraram, encarando os doces para não olhar diretamente para ela. 

—E então, senhor? Você prefere esses aqui? Dizem que eles são os melhores. Particularmente eu gosto deles durante um chá, eles servem muito bem. —Falou, apontando pelos doces perfeitamente alinhados sobre a mesa. 

Limpei a garganta quase me escondendo atrás da timidez, e finalmente direcionei o olhar para ela. Bochechas ruborizadas pelo sol e lábios naturalmente avermelhados. Ela parecia ter saído diretamente de um comercial... Ou talvez eu apenas estivesse exposto ao sol por tempo mais que suficiente. Estávamos entre muitas pessoas, mas ainda assim o cheiro suave de seu perfume alcançou minhas narinas, fazendo-me inalar profundamente em câmera lenta, sentindo o frescor na boa sensação. 

—Senhor? 

Pisquei por um par de vezes, recobrando a consciência. 

—Ugh, sim. Claro. Eu vou querer um de cada, por favor. —Me esforcei para manter um tom de voz agradável. Ela parecia tão frágil que sentia vontade de tirá-la daquele lugar rodeado por pessoas apressadas. 

Com um sorriso nos lábios e olhos brilhantes, ela me serviu os doces em sacolas de papel, e me entregou um por um, cuidadosamente. Era caprichosa, atenciosa, tão bonita de se ver que me deixou intrigado.  

—Quanto? —Perguntei, tirando o celular do bolso. Tentando ser imparcial eu acabei parecendo frio. 

—Ôh, senhor... Apenas trinta e oito euros. —Espremeu os lábios, desviando o olhar de mim. 

Por que aparenta ficar tímida diante de um assunto que envolve dinheiro? É apenas dinheiro... Meus pensamentos trabalhavam para me manter paciente e calmo, embora dentro de mim, as coisas estivessem confusas e questionáveis. 

Eu estava me preparando para pagar, buscando a carteira dentro do bolso do blazer, quando percebi um homem estranho tomar minha frente. Ele pôs as mãos sobre a mesa e encarou a garota inocente, com um olhar intimidador sobre ela. Virei em sua direção e o encarei, topando em seu ombro. 

—Você é cego? —O questionei, mantendo o olhar frio sobre ele. 

—O que disse? 

—Não percebe que não é a sua vez? 

—E daí? —Olhou-me com desdém, dando de ombros. 

—E daí que você precisa esperar. 

—E se eu não quiser? —Virou-se totalmente para mim, equilibrando sua altura à minha. 

—E daí que se você não esperar eu serei obrigado a chamar meus seguranças... 

—Claro, você se esconde atrás dos escravos. 

—... Para afastarem as pessoas e me deixarem quebrar a sua cara, em paz. —Argui a cabeça, o olhando com superioridade. 

Estávamos prestes a nos desafiar, quando a moça saiu de trás da mesa, vindo para perto de nós apressadamente. Ela ficou entre o homem com aparência descuidada, e eu, e aquilo fez nascer dentro de mim, um sentimento de dó. 

—Por favor, por favor... Não façam isso aqui. A igreja precisa muito dessa arrecadação para fazermos a grande reforma, e além do mais têm pessoas humildes e sofridas que precisam de comida também. Nós estamos fazendo de tudo para termos um evento pacífico. Por favor... Não façam isso. —Pediu, amedrontada. 

O homem passou os olhos por ela e depois por mim, desistindo de suas atitudes. Percebi a garota respirar aliviada e dei um passo para a frente, pondo a mão sobre sua testa. 

—Moça, você parece quente e cansada. Não quer descansar um pouco? —Perguntei, preocupado, encolhendo a mão de volta ao corpo. 

—Não. Não é justo. Eu me inscrevi para ajudar essas pessoas e preciso fazer isso até o final dessa manhã. Eu não quero fracassar, eu não poderia. —Explicou, ainda amedrontada pelo que quase aconteceu. 

—Muito bem, então eu vou lhe ajudar com isso. —Ela me olhou, estreitando os olhos de cenho franzido. —Eu vou ficar na barraca e te ajudar a vender todos os seus doces.  

A garota limpou a garganta, passando a mão pelo braço. 

—É que... Você precisa se inscrever e ter a autorização do diácono para fazer isso. —Passou os olhos pela grama, quase encarando os próprios pés. 

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O padre estava falando com alguns fiéis enquanto se aproximava do jardim, rodeado por pessoas que queriam lhe cumprimentar. Humildemente, me distanciei da garota bonita e me aproximei ao padre, chamando sua atenção. Passei a mão pela nuca, esfregando a pele levemente nervoso. 

—Senhor padre, eu poderia falar com vossa santidade? 

Ele passou os olhos por mim, e esticou o braço em minha direção. Fomos nos distanciando das pessoas e eu o levei até a barraca da moça enquanto conversávamos. 

—Pode falar, filho. —Respondeu, mantendo o mesmo tom de voz baixo e grave. 

—Senhor padre, eu poderia participar das vendas do evento? Eu não tenho interesses econômicos lucrativos, apenas a boa ação e um interesse pessoal me basta. —Confessei. Não poderia mentir para um padre em solo sagrado. Eu jamais me perdoaria. 

—Pode sim, filho. Mas, não sei se seria seguro para alguém como você. Eu sou padre, mas sei que você e sua família não são pessoas comuns, e tenho consciência de que se estão aqui podem, possivelmente, atrair pessoas má intencionadas. —Explicou, pondo a mão sobre meu ombro. 

—Eu corro esse risco, senhor.  

Ele sorriu para mim, e balançou a cabeça, aceitando minhas explicações. —Encontre uma barraca na qual você se identifique com as vendas e a igreja lhe agradecerá pela boa ação, meu bom rapaz. Feliz Dia de Ação de Graças, filho. —Disse ele e então se despediu de mim, indo em direção a tenda projetada para os membros da igreja. 

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Eu estava pronto para revelar a boa notícia para a garota bonita, quando avistei um dos meus seguranças falando próximo ao ouvido de Charlotte, e franzi o cenho, parando os passos entre as pessoas. O que está acontecendo?  

Confuso e petrificado, observei a cena não percebendo que a garota acenava em minha direção. Se eu ficar e ajudá-la, posso não saber o que está acontecendo com minha mãe e minha irmã. Mas, se eu for até elas, eu perco a chance de ajudar a garota e a igreja. E agora? O que eu faço com isso? 

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Capítulo 3

Lisa Mary 

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Não tinha nada pelo que eu tivesse mais desprezo que fiéis conservadores me olhando prontos para chicotearem com suas línguas contra meus pecados. Estando naquela igreja, eu apenas queria correr o mais rápido possível para longe dos membros idiotas daquele inferno, e acabei me inscrevendo para me voluntariar na venda dos doces. Eu ficaria com o dinheiro de tudo o que vendesse, fácil, fácil. 

Eu percebi Charlotte e a senhora François passando em frente à barraca da qual eu estava cuidando, e as duas se direcionaram até a tenda que o padre mandou fazer para as mães com crianças e pessoas sensíveis. Meus olhos buscavam por Vicente quando o celular vibrou dentro da pequena bolsa branca, obrigando-me a atender. 

—Cadê o idiota do seu irmão? —Perguntei, ranzinza. Ele ainda não estava por perto. 

—Está tão pura, Lisa Mary... Se eu não te conhecesse diria que se converteu. —Sua voz pareceu sarcástica, debochando. —Diga, esse tom de cabelo tão claro não combina muito com você, não é? Está muito longe da piranha que eu conheci. Qual é? Vestido com renda? Abaixo dos joelhos? Você é quem? Minha avó? Ou saiu diretamente de um comercial protestante? 

—Não vou fazer isso sem o meu dinheiro, você não me deu nada. —Minha voz quase rosnou entre os dentes. 

—Demonstre algum tipo de poder sobre ele, aqui, e eu te dou um milhão hoje.  

—E o outro milhão de dólares? 

—Você ganha quando se casar. Lembre-se: eu quero o serviço completo. 

A ligação foi encerrada e eu tive que guardar o celular para poder atender algumas pessoas que se aproximaram da barraca. Estava terminando de atender um pai com seu filho quando percebi Vicente vindo em minha direção, e fingi não o ver. Antes que ele chegasse perto, limpei a garganta e mantive o sorriso bondoso nos lábios, ensaiando a bondade no tom de voz. 

Seus olhos sobre mim, me analisavam milimetricamente como se seu cérebro estivesse coletando informações para esclarecer suas dúvidas, mas ele mantinha a ruga no centro da testa, impaciente com algo. Depois da compra de alguns doces, com toda minha gentileza, Vicente se viu estressado quando um homem musculoso se aproximou da barraca e começou a encarar os meus peitos de uma maneira desagradável. O que ele não sabia era que o homem era o meu amigo gay, e estava apenas ganhando uma grana extra fazendo aquilo.  

Ele o provocou até que Vicente, no ato de sua coragem, desbravou do sentimento de raiva que nasceu em seu peito na intenção de me defender. Eu precisava ser a boa moça que Charlotte me ensinou a ser, e precisava agir exatamente da maneira como nós havíamos ensaiado uma semana antes daquele evento. Então, eu fiquei entre os dois implorando pela paz, para que “preservássemos” os humildes; usando de toda falsidade que eu havia desenvolvido a irmã dele. 

Eu vi em seus olhos a satisfação com minha reação, enquanto o meu amigo saiu como se nós não nos conhecêssemos. Revelando a necessidade em garantir que eu não seria assediada, Vicente se propôs para o padre em ajudar nas vendas e acabou se distanciando de mim, indo em busca do homem católico. No entanto, enquanto ele falava com o padre, percebi que os seguranças ficaram agitados com algo, e Charlotte esganiçou silenciosamente para avistar o aceno que um deles fez, indicando algo. Não sendo suficiente, o segurança alcançou Charlotte e sua mãe, falando algo. Foi o momento em que ela pegou o celular rapidamente, mandando que o segurança voltasse para o carro. Eu senti o celular vibrar em uma mensagem de texto depois disso. 

“Mantenha Vicente entretido, eu manterei minha mãe longe. Nós estamos com um problema. Vou tirar minha mãe daqui e você cuida de Vicente. Eu tenho algo importante para resolver.” 

Na dúvida, perguntei: 

“O que aconteceu?” 

E a resposta de Charlotte para mim, causou um choque em minha reflexão. 

“Alguém próximo a Vicente quer vê-lo, e eu deixei um alerta para que essa pessoa fosse bloqueada. Cuide dele e o mantenha na linha, eu vou tirar minha mãe daqui, mas o carro dele ficará por perto. Seja competente e não fracasse.” 

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Mantive a calma e guardei o celular, aguardando pelo retorno de Vicente. Ele estava prestes a se aproximar da barraca quando eu fingi ter esquecido outros tipos de doces e pedi que outra pessoa ficasse em meu lugar, me distanciando. Ele me “flagrou” em frente à barraca, pronta para sair, e me parou. 

—Ei, espera... Para onde está indo com tanta pressa? —Ele me olhou diretamente e esperou por minha resposta, educadamente. 

—Eu esqueci alguns doces na paróquia, você consegue procurar comigo?  

Ele me olhou confuso e seus olhos quase buscaram por sua família ao longe, mas segurei em sua mão, tirando sua atenção para mim. Inclinado a ceder, ele apenas desistiu de procurar com o olhar e me acompanhou. 

—São muitas caixas? —Perguntou, caminhando ao meu lado em direção às portas dos fundos da paróquia. 

—Não são muitas. 

Eu estava dispersa, tentando entender quem estava procurando por ele. Afinal de contas, eu tinha que manter sua atenção presa a mim.  

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Entrando na paróquia, busquei decifrar o caminho até a dispensa para ver se dava a sorte de encontrar alguma caixa com doce aleatório dentro, mas mal conseguia acertar o caminho. Vicente estava caminhando de um lado para o outro, me acompanhando, então eu tive que improvisar. Estava quase desfazendo a máscara de boa moça, mas logo tratei de revestir dela novamente, e tornei a dar atenção para Vicente. 

—Você tem certeza de que essas caixas estão por aqui? Eu posso voltar e perguntar para o padre onde ficam... 

—Não! —Disparei, esganiçando. Ele ficou parado olhando para mim, confuso. —É que... O padre é um pouco mal-humorado quando muitas pessoas estão em sua volta. Ele quase não me deixou participar... 

—Nossa... Ele pareceu gentil comigo lá fora. Ele deve estar sob muito estresse. —Comentou. 

O clima ficou tenso e eu finalmente havia encontrado uma sala de armazenamento. Algumas caixas estavam sobre as cadeiras velhas, porém, todas vazias. Sentei-me sobre a ponta de uma mesa velha, espremendo os lábios. Passei as mãos sobre as coxas e percebi que Vicente estava me observando enquanto eu o fazia, logo, tratei de me recompor e esquecer todas as provocações das quais estava acostumada a fazer. Eu precisava que ele iniciasse com coragem, e não que isso partisse de mim, como sempre tinha sido com outras pessoas. 

—Nós não estamos com sorte. —Reclamou, se sentando na ponta de outra mesa, no canto da sala. 

—Não fique chateado, alguém deve estar arrecadando bons resultados para a igreja. Pense nas pessoas humildes que terão a oportunidade de comer hoje, e na reforma pela qual a igreja passará. —Sorri para ele como forma de consolá-lo, e ele retribuiu para mim. 

—Você parece ser uma boa pessoa, não é sempre que eu encontro pessoas assim. —Descansou as mãos sobre a superfície da mesa, deixando seu corpo mais exposto e apetitoso.  

Ele até que era atraente. Discretamente enquanto ele desabafara, o analisei. Tinha um corte de cabelo charmoso com um topete em cima que insistia em sobre cair em sua testa, de maneira teimosa. E quando ele ficava nervoso, passava a mão sobre o topete o jogando para trás. Ele o fez enquanto eu o analisava, e permaneceu falando coisas que eu não dei atenção. Seus ombros eram largos, os braços fortes e dono de uma cintura fina perfeitamente modelada. Ele era o exemplo perfeito de como ficar bem em um terno ou blazer. Pernas levemente grossas e na frente um volume... 

—Oi? Você ouvindo? 

Pestanejei por um par de vezes e ergui o queixo para encará-lo, encontrando uma expressão confusa de Vicente. 

—Desculpe, eu sinto muito. Acho melhor nós irmos, precisamos vender um pouco mais pela igreja. —Falei e me levantei, arrumando a postura. 

Ele se levantou da mesa e endireitou os ombros, vindo em minha direção para poder me acompanhar até porta. Estávamos prestes a sair da sala quando tudo escureceu. As luzes da paróquia se apagaram e nós não vimos mais nada, senão o lado de fora através de uma pequena janela de um metro de largura e um metro de altura. Os corredores eram escuros e nenhum local possuía janelas, apenas tubos de ventilação. 

O escuro começou a me deixar “nervosa” e eu passei a encenar um ataque de pânico, despertando o lado protetor de Vicente. 

—O... O que foi isso? —Minha voz soara trêmula e amedrontada. 

—Aparentemente a energia caiu... Vai voltar. Eu sinto que vai voltar, vamos sair daqui.  

Estava tão escuro que mal conseguíamos nos ver, então eu tive que improvisar. A mesinha estava cheia de caixas vazias, mas ainda assim tinham caixas. Eu as derrubei e “caí” no chão, encenando me atrapalhar na escuridão. Eu pude sentir seu desespero no tom de sua voz. 

—Ei! O que houve? Cadê você? Se machucou? —Perguntou. Pude perceber sua voz se aproximando e permaneci no chão, encenando um acidente.  

—Eu... Ai! Estou aqui... —Reclamei com a voz embargada por uma falsa dor. Ele seguiu o som da minha voz e conseguiu me encontrar, se abaixando diante de mim.  

—Vem aqui, vem. Eu vou ajudar você. Vem, segura em mim. —Pediu, segurando-me pela cintura. Era forte, e o aroma de seu perfume possuía um tom amadeirado. Era quase viciante de inalar.  

—Você não precisa fazer isso, eu vou ficar bem... Eu apenas fui atrapalhada demais para me distrair assim... Eu consigo ir sozinha, não se preocupe comigo. Por favor, você deve ser um garoto importante, não tem que ficar comigo aqui... 

Meus lábios foram silenciados pelo seu indicador, e um momento tenso se criou naquele momento. Porém, eu apenas conseguia pensar que jogaria ele por aquela sala inteira, fodendo descaradamente. No entanto, precisava manter a boa-moça dominando, então, eu tinha que permanecer no personagem. 

—Eu... Ainda não sei o seu nome. —Falei em um sussurro, sentindo o seu corpo um pouco mais perto de mim. 

—Vicente François. E o seu? —Seu indicador deslizou dos meus lábios e passeou pela pele do meu rosto, acariciando carinhosamente. 

—Lisa Mary... Eu... Eu não consigo ficar aqui. Por favor, eu preciso sair. Não consigo. Eu não consigo ficar, está escuro demais... Eu... 

—Sssh... Eu estou aqui. —Em um tom de voz rouco, ele se distanciou daquele garoto inocente e eu pude sentir o seu abdômen mais perto de mim, enquanto sua mão dominava em minha cintura. —Eu estou aqui. —Aproximou os lábios ao meu ouvido, dizendo: —Eu peço que me perdoe. 

—Eu... Eu não entendi. Perdoar pelo quê? —Me fingi de inocente, mantendo os braços recuados e encolhidos próximos ao corpo. 

—Por isso. 

E naquele momento eu senti seus lábios espremidos contra os meus, abrindo um pouco mais minha boca. Delicadamente, enroscou sua língua sedosa contra a minha, mordiscando o meu lábio no final. No entanto, retribuí o beijo caloroso me limitando apenas a isso. 

Talvez eu possa gostar disso... Você até que é atraente... Vicente François. 

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