Nicole
Após deixar Eloá na escola, encontrei com Emily e Charlotte para um café, conforme tínhamos combinado por telefone. Eu precisava conversar com alguém e ninguém melhor que as minhas irmãs para isso.
— O que houve? — Emily perguntou antes mesmo que eu conseguisse sentar.
— Preciso de um café — Desconversei.
Emily e Charlotte conseguiram esperar que fizéssemos os nossos pedidos, mas logo que o garçom saiu, elas voltaram sua atenção totalmente para mim.
— Notei que você tem andado estranha — Charlotte comentou — O que Martina aprontou dessa vez?
Foi impossível conter as lágrimas naquele momento. A minha amiga me conhece bem o suficiente para saber que eu não estava bem, mesmo eu tentando enganar a todos.
— Charlotte comentou comigo, mas pensei que seria apenas tensão pelo início do semestre na faculdade.
A minha irmã não poderia estar mais longe da verdade.
— A faculdade é o menor dos meus problemas, Emily — consegui dizer, limpando o rosto discretamente.
— Então fala logo o que aquela bruxa da Martina fez — Emily pediu.
Mesmo sem saber o que aconteceu, Emily já estava com raiva da ex-mulher do meu namorado, o que é bastante compreensível, afinal, aquela não seria a primeira vez que Martina me importuna e tampouco a última.
— Ela me encontrou no parque, quando fui passear com Eloá — contei, tomando um gole generoso do café — Martina me disse coisas horríveis! Falou que tem provas de que Oliver e eu tínhamos um caso antes mesmo da separação entre eles. Que isso vai ajudá-la a conseguir a guarda da filha.
— Não posso acreditar em tamanho disparate! — O rosto de Emily estava vermelho de raiva — Eu não consigo entender por que Martina insiste tanto em obter a guarda da nossa pequena, quando todos sabem que ela não está nenhum pouco interessada em ficar com a filha.
— Ela não quer a guarda de Eloá por amor à filha, isso é claro para todos — Charlotte apontou com o seu costumeiro bom senso — O que ela quer é infernizar a vida do Oliver e da Nicole. E nada melhor que usar a própria filha para atingir os dois.
— Mas vocês não tinham um caso! Vocês só se envolveram depois da separação.
— Ela tem pessoas que podem depor a favor dela, Emily — Apontei o óbvio — Todos os funcionários da casa são fiéis a Martina. Assim como também pode distorcer vários fatos em seu favor. Ela já fez isso antes, pode fazer novamente.
Martina tinha usado algumas fotos de passeios onde eu acompanhava Oliver e Eloá, mas foram tiradas quando estávamos apenas nós dois, e elas se tornaram bastante comprometedoras por terem flagrado momentos em que nós estávamos nos encarando. É nítido para qualquer um que vi aquelas imagens que há sentimento entre nós, Oliver tinha contado.
— Eu sei que Martina só está fazendo tudo isso porque ela não aceita perder Oliver para alguém como eu — desabafei com tristeza — Uma garota pobretona e sem glamour algum, como ela já repetiu várias vezes.
— A babá da própria filha, como ela faz questão de dizer — Charlotte lembrou.
Algumas semanas atrás, em um evento ao qual eu acompanhei Oliver, acabamos encontrando Martina e ela me cercou no banheiro, me humilhando diante de algumas mulheres que lá estavam. Foi um momento horrível e perturbador. Cheguei a pensar em deixar Oliver, para o bem de todos nós, mas não tinha conseguido fazer isso. Como na noite anterior também aconteceu.
Enquanto Oliver estava viajando, eu pensei seriamente em terminar tudo entre nós e deixá-lo resolver sua situação e, quem sabe, no futuro, quando eu já tivesse terminado a minha faculdade, trabalhando e independente financeiramente, eu me sentisse à altura do homem distinto e maravilhoso que ele é.
Mas bastou vê-lo parado na sala de estar do apartamento, abraçado a Eloá e me convidando a juntar-me a eles, que as minhas resoluções foram esquecidas. Eu não poderia deixar Oliver agora. Eu não consigo fazer isso ainda.
— Está pensando mais uma vez em deixar o Oliver? — Charlotte perguntou com pesar na voz.
— Eu gostaria de fazer isso — concordei — Mas eu não sou tão forte assim. Mesmo sabendo que tudo seria mais fácil para ele, eu não consigo.
Nós conversamos por mais algum tempo, até que Charlotte precisou voltar para casa, afinal, ela tem não apenas um bebê em casa, mas sim três bebês! Que loucura, pensei com um sorriso terno.
— Eu também preciso ir — Emily disse enquanto conferia as horas — Tenho cabeleireiro e maquiador marcado daqui a meia hora. Não posso me atrasar.
— O aniversário de casamento dos pais do Douglas é hoje? — perguntei, ficando surpresa diante da confirmação — Eu tinha esquecido completamente! Deve se apressar, então. Você precisa estar perfeita nesse evento hoje.
Os pais do Douglas é um casal esnobe da alta sociedade nova iorquina que não estava nenhum pouco satisfeito com a escolha do filho. Portanto, Emily estava enfrentando alguns momentos bastante desagradáveis com os sogros e aquela festa seria mais uma prova de fogo para ela.
— Eu realmente preciso ir — Emily repetiu — Mas saiba que estarei ao seu lado, não importa o que aconteça, está bem?
Emily segurou a minha mão com força e depois de um abraço de irmãs bem apertado, ela pegou a bolsa de mão e caminhou apressada até a saída.
— Sei que já repeti isso milhões de vezes, mas eu não queria estar no lugar da Emily — falei com preocupação.
Nós tínhamos resolvido dividir um táxi, pois o prédio em que moramos fica a caminho da faculdade. Enquanto Charlotte ficaria em casa, eu seguiria para as minhas aulas do dia.
— Todos têm suas dificuldades, Nicole — Charlotte pontuou — Veja o seu caso, não existem sogros desagradáveis, mas tem uma ex que é uma verdadeira bruxa.
— Nem me fale… — lamentei com um suspiro cansado — Mas você não tem sogros, nem muito menos ex causando problemas entre você e o Brian.
Eu não estava com inveja de Charlotte. Ao menos eu esperava que não. Mas aquele é um fato incontestável sobre a relação da minha amiga e o seu marido.
— Mas tenho um homem teimoso e que se considera um idoso aos trinta e três anos! — Charlotte relembrou — Brian ainda se sente culpado pelo que ele acredita que está me privando de viver. Já disse-lhe que isso é uma grande bobagem.
— Tem razão, cada uma com as suas dificuldades — concordei, me sentindo menos infeliz.
— Mas também recebemos a dádiva de ter alguém que nos ame — Charlotte complementou — Obstáculos fazem parte, mas o principal é que estamos vivendo ao lado de quem amamos.
— Você está certa, como sempre. Não posso deixar que Martina vença essa guerra. Ela não vai ficar com Eloá. Não posso deixar que isso aconteça.
Naquele momento o táxi parou em frente ao endereço em que moramos. Eu não estava nenhum pouco animada para um dia de aula, eu precisava dessa "distração".
— Não vamos deixar! Eloá já sofreu muito nas mãos daquela mulher maldosa — Charlotte ainda disse, antes de descer do táxi.
Eloá é uma criança alegre agora que não tem mais contato com a mãe, mas tudo pode mudar se Martina conseguir a sua guarda na justiça. Mas eu me sentia ainda mais indignada por saber que Martina realmente não se importa com filha. Tudo o que ela quer é fazer maldades. A maior prova disso é que mesmo quando ela me encontrou no parque, fez questão de só se aproximar em um momento em que Eloá estava distraída com outras crianças e nem mesmo se importou de falar com a filha.
Depois de dizer tudo o que queria e me ameaçar, ela simplesmente virou as costas e foi embora, sem nem sequer um segundo olhar em direção de Eloá.
Preciso continuar a ser forte e ficar ao lado de Oliver, o homem que eu amo e que me ama também. Eloá é um presente especial e que torna tudo o que vivemos ainda mais especial.
Oliver
Olhei para a garota ao meu lado e tenho certeza de que os meus olhos brilharam nesse momento. A minha Nicole está cada dia mais deslumbrante.
— Pensei que seria impossível você ficar mais linda, mas vejo que me enganei — comentei ao entrar em nosso closet.
Tínhamos um evento de gala para ir naquela noite e como sempre acontece naquelas ocasiões, Nicole estava maquiada e penteada de modo impecável e deduzi que tinha marcado hora com os profissionais indicados pela tia Melanie. Independente disso, ela é linda naturalmente e aquele era apenas um detalhe para mim, mas sei que ela se sente mais segura quando eu exponho isso em palavras.
— Está exagerando — Foi sua resposta tímida — Conseguiu chegar cedo. Ainda não estou pronta.
Ela estava parada em frente ao enorme espelho do closet, parecendo pensativa e até mesmo um pouco triste, notei neste instante. Aquela expressão em seu rosto tem se tornado recorrente e mesmo insistindo em saber o que está acontecendo para deixá-la daquele modo, não consigo descobrir o motivo do semblante sempre tenso e preocupado.
— A audiência foi mais rápida do que eu esperava — expliquei de modo breve — Eloá está com Emily?
— Sim — Confirmou com um sorriso terno — Ela estava muito animada com a ideia da festa do pijama.
— A minha pequena está sempre animada agora — A culpa trouxe um peso ao meu peito, mas a coloquei de lado novamente — Está tudo bem?
— Sim — A mesma resposta de sempre — Estou em dúvida sobre o vestido. São todos tão lindos!
Nicole estava agora fingindo uma animação forçada e, como das outras vezes, optei por não forçar nada. Quando chegar o momento certo ou quando ela se sentir mais confortável e segura, sei que irá dividir comigo o que a está preocupando.
— Sim. E qualquer um deles fará de você a mais linda daquele salão de festas — Toquei seu rosto com cuidado para não estragar a maquiagem perfeita.
Nicole sorriu em resposta, seus olhos agora estavam cativos do meu olhar. Independente do que esteja acontecendo, não tenho dúvidas dos sentimentos dela por mim. Assim como eu a amo, Nicole também me ama e vamos superar qualquer coisa. Não há dúvida.
— Temos mesmo que ir a esse evento?
— Infelizmente, sim — confirmei com pesar — O Liam está doente e Brian conta comigo para representar a Reloading.
Liam é um dos trigêmeos do meu amigo Brian e ele jamais coloca qualquer coisa a frente dos seus filhos. Mesmo quando se trata de algo como um resfriado, Brian faz absoluta questão de estar com a esposa e os filhos, garantindo que ela não fique sobrecarregada ou sozinha diante de alguma dificuldade maior. E como ele jamais poderia ir a uma festa quando um de seus pequenos está doente, nada mais justo que eu ou Douglas o substituir em tais momentos.
— Mas se você não se sente bem ou não deseja ir, posso ir sozinho — Eu sugeri, mesmo odiando dizer isso — Vou sentir sua falta, mas não quero que faça qualquer coisa que não deseje.
Nicole ficou em silêncio por alguns instantes, parecia refletir sobre a minha sugestão, mas logo ela recusou, se afastando de mim e voltando a sua contemplação dos vestidos dispostos em alguns cabides.
— Só estou um pouco cansada — Justificou-se, mas sem me encarar e logo mudando de assunto — Acho que fui um pouco longe na última compra que fiz com Melanie. Tenho muitos vestidos e não sei qual deles devo usar.
Eu sabia que o problema não estava no excesso de opções de vestidos de noite, mas aceitei a sua frágil explicação.
— Gosto desse vestido rosa — falei enquanto tocava na seda macia — Combina com a sua personalidade.
O vestido ao qual eu estava me referindo era um modelo longo e de saia ampla, sem decote e sem mangas, com aplicação de pedrarias discretas no busto. Muito bonito e clássico.
— Confio mais nas suas escolhas do que nas minhas, então vou usá-lo.
Nicole ficou me encarando com um sorriso congelado no rosto e entendi que ela esperava que eu saísse para então trocar o roupão felpudo que estava vestindo pelo vestido que eu tinha acabado de escolher.
Aquela atitude falou mais do que mil palavras e tive certeza de que há algo de errado acontecendo. Nicole não estava se sentindo à vontade nem mesmo para trocar de roupa na minha presença, algo que já havia feito várias vezes. Até mesmo em nossa primeira vez Nicole não se sentiu intimidada na minha frente e foi ela a tomar a iniciativa.
Mesmo consciente daquele fato, caminhei até onde Nicole estava e a beijei delicadamente nos lábios e a encarei com preocupação.
— Também preciso me arrumar — falei, sorrindo para amenizar o clima tenso que tinha se formado entre nós — Vou tomar um banho antes.
Fiquei mais leve ao ver o sorriso agora totalmente sincero em seu rosto e só então caminhei para fora do closet, a deixando sozinha para trocar de roupa à vontade.
Duas horas depois estávamos no evento de premiação na qual a Reloading estava concorrendo ao prêmio na categoria mais importante da noite. Nicole continuava com o seu comportamento estranho e decidi que eu precisava ter uma conversa muito séria com a minha namorada. Algo estava muito errado e eu já tinha adiado demais o momento.
Não posso recair nos mesmos erros que cometi durante o meu casamento com Martina, quando eu não percebi nada do que acontecia dentro da minha própria casa e, principalmente, com a minha filha. Nicole estava escondendo algo e eu vou descobrir do que se trata, me prometi.
No momento, contudo, não foi possível puxar aquele assunto, pois a todo momento um associado ou cliente requisitava a minha atenção, enquanto Nicole permanecia todo o tempo em silêncio, sem participar das conversas, apenas respondendo aquilo que lhe era perguntado diretamente.
— Sinto que há algo errado e você não está me contando — desabafei na primeira oportunidade que tivemos a sós desde que chegamos ao evento.
— Eu estou apenas…
— Cansada — Completei antes que ela repetisse aquela mesma desculpa esfarrapada — Eu posso acreditar que está mesmo cansada. A pergunta é: de que você está cansada?
Nicole escapou da resposta, pois naquele momento um casal com o qual sempre mantive um contato bastante estreito se aproximou de nós e precisei voltar a minha atenção aos recém chegados.
— Oliver Mackenzie — A mulher disse de modo esfuziante — Há quanto tempo não nos vemos, querido!
A mulher em questão era Elena Freeman, esposa de um de meus sócios, Marcus Freeman. Elena me puxou para um cumprimento íntimo, com um beijo de cada lado do meu rosto, enquanto o seu marido apenas acompanhava a cena de modo despreocupado.
— Como está, Elena? — perguntei logo que consegui me afastar dos braços da mulher, que permaneceu ao meu redor por mais tempo do que o necessário.
Apesar da pergunta dirigida a Elena, o meu olhar recaiu sobre Nicole, preocupado com a sua reação diante da efusividade da mulher desconhecida para ela, mas Nicole apenas observava a cena sem expressão. Ao menos foi o que assimilei nos poucos segundos que pude encará-la.
— Estou ótima, querido. Estava morrendo de saudades de Nova Iorque — Ela disse com um sorriso amplo — E vejo que você também parece muito bem, Oliver. Estou certa?
— Sim, estou — Não negaria algo que era totalmente verdade em se tratando da minha vida ao lado de Eloá e Nicole — E você, Marcus? Como está?
— Aguardando a minha esposa parar de monopolizar a sua atenção para então cumprimentá-lo, meu caro — Foi a resposta divertida, mas carregada de verdade.
Marcus me cumprimentou com um aperto de mão e mesmo apontando aquele detalhe sobre a esposa, ele não parecia aborrecido com o fato, algo compreensível, visto que Elena sempre agiu daquele modo quando estamos próximos.
Eu pretendia apresentar Nicole ao casal naquele momento, mas antes que eu conseguisse fazer isso, Elena se antecipou ao perguntar de maneira indiscreta:
— Onde está Martina? Estou morta de curiosidade de saber tudo o que aconteceu neste ano em que estive fora do país — E antes que eu pudesse responder qualquer coisa, ela continuou — E essa garotinha bonita? Quem é?