Capítulo 2

Um Anos Antes....

— Ele não está bem. – Cecília tentava enxergar alguma coisa a sua frente. — Como eu sei?

Cecília olhou para o marido, Diego estava tenso, dirigia com as duas mãos no volante, os olhos crispados e a boca comprimida em uma linha reta. Miguel tinha nascido á duas semanas, era um bebê prematuro, não conseguia respirar sozinho e era muito abaixo do peso ideal.

Diego havia dado seta para entrar no subsolo do hospital quando um trovão rasgou o céu, só tiveram tempo de olhar um para o outro, um caminhão acertou o lado de Diego em cheio, o carro rodou e tudo perdeu o foco para Cecília.

***

Duas semanas depois Cecília abriu os olhos, sentia a garganta seca e não conseguia respirar direito, afoita logo foi contida por um grupo de enfermeiras, o que lhe tirava o ar foi retirado da garganta com muito custo, os médicos falavam sem parar com ela, queriam que Cecília acompanhasse alguma luz, que contasse quantos dedos estavam dispostos na sua frente, que respirasse com calma.

Foram minutos torturantes da vida dela. Quando por fim acabaram, ela adormeceu outra vez, para acordar minutos depois, assustada.

— Cecília. – Um médico se aproximou. — Como se sente?

— O que aconteceu? – A garganta parecia duas lixas.

— Você sofreu um acidente. Um caminhão se chocou com a lateral do seu carro, você e seu marido sofreram ferimentos graves.

— Diego.. – Ela sabia que se fosse formular uma frase doeria de mais, então optou por dizer poucas palavras.

— Seu esposo só não ficou pior porque o caminhão arrastou o carro, mas foi o seu lado que bateu no poste.

— Diego...

— Ele está ficando melhor. – O doutor se aproximou. — Nessas duas semanas voltou para casa, está sendo tratado por algum familiar seu. Ele ficará com sequelas. Você foi um milagre.

— Miguel...  – Ela sentiu algumas lágrimas saltarem e escorrer pelas laterais do rosto. — Meu... Filho..

— Sei que está em uma situação crítica. Pela profissional que é iria querer ser sincera com seus pacientes, então... – Ele engoliu em seco. — O Miguel descansou Cecília. Viveu até você dar entrada no hospital, enquanto eu cuidava de você ele teve outra parada respiratória, tentaram de tudo, mas ele era muito pequeno, estava debilitado... Eu lamento querida...

— Não.. – Ela sussurrou. — Eu... Eu não o vi partir, não...

Cecília havia se preparado mentalmente. Iria tirar o filho da incubadora e segurá-lo nos braços até que ele fizesse a passagem. Ela o viu nascer, deveria ser ela a vê-lo voltar para o paraíso. Não um bando de rostos desconhecidos.

Imaginou o corpinho dele perdendo a força, assustado...

Diante do médico ela chorou muito, se desesperou, arranhou os próprios braços, até bateu no próprio rosto, até que o Doutor Victor a segurou com força, e então ela urrou pela dor que estava sentindo. 

— Diego e a sua irmã cuidaram de tudo Celina, o colocou no mausoléu da família, pode ir lá quando estiver bem. Você precisa ficar bem Ceci.

Cecília chorou durante dias, na manhã que foi liberada para ir embora  esperou pelo marido, convencida de que ele estava tão debilitado quanto ela conseguiu uma carona com os amigos da ambulância. O apartamento em que morava não era longe. E ela não havia perdido os movimentos das pernas por pura sorte. embora tivesse várias cicatrizes profundas na lateral do corpo. 

— Obrigada Otávio. – Cecília acionou o elevador. — Vou fazer uma surpresa para o Diego.

O elevador parou na cobertura, o andar era somente deles, já que Diego havia planejado aquele prédio, e dado o sobrenome dele. Arezzo.

Cecília abriu a porta, sentia dores pelo corpo e mal podia se dobrar, estava tudo no lugar, viu que Celina havia esquecido os sapatos altos. E o casaco. Caminhou mais um pouco e viu a bolsa da irmã.

Cecília não conseguia respirar mais, se arrastou para o quarto deles, a cama estava bagunçada, talvez ela tenha vestido alguma roupa confortável, já que usavam o mesmo tamanho. 

Enquanto adentrava o quarto, Cecília viu a porta do banheiro aberta, o som da água do chuveiro e o cheiro de Diego a fez relaxar um pouco.

Então ela se livrou da camiseta, das calças e do tênis. Iria surpreender o marido depois de tantos dias, talvez chorar juntos, fazer amor e depois se despedir do filho da forma certa.

Porém, ao entrar no banheiro ela viu o marido se movendo de forma estranha, agora ouvia os gemidos dele. Quando Diego se afastou Celina respirava ofegante.

Humilhada, Cecília voltou, colocou as mesmas roupas, calçou o tênis e voltou para a sala, sentou-se no sofá e esperou paciente enquanto lágrimas pingavam na calça larga.

Não demorou muito Diego apareceu, usava uma cueca box, o cabelo estava molhado, via-se machucados no corpo dele. Assim como Cecília, ele mancava.

— Ceci? – Ela levantou os olhos para ele. — Ia agora mesmo te buscar...

— Cecilia? – Celina parou no corredor, com os olhos arregalados. — Como....

— Cheguei agora. – Ela mentiu. — Dormiu aqui Celina?

— Sim. Eu... Achei que você iria sair cedinho então... – Celina desviava os olhos. — Como se sente?

— Despedaçada. – Cecília engoliu em seco. — Perdi meu filho, voltei de um coma sozinha, e passei as últimas semanas sozinha.

— Eu não podia ir lá...

— Tinha um telefone ao lado da minha cama Diego. – Ela o respondeu seca. — O banho estava bom? 

Diego engoliu com dificuldade, era o seu namorado de escola, fora seu companheiro durante a faculdade, e depois de doze anos de relacionamento, ele transou com a cunhada no banheiro deles.

— Ceci. – Celina passou Diego. — Aquilo que você viu, eu posso jurar que aconteceu só agora. Nós... Eu e Diego nos respeitamos muito. Acho que foi culpa da bebida...

— Conta outra Celina. Eu sempre via os olhos de vocês, se comiam na frente de todo mundo. A mãe morreu dizendo que você e o Diego eram dois safados. Que eu ainda viria o que a minha cega confiança ia me dar. E olha só. Meu marido estava te fodendo no meu banheiro. Provavelmente te fodeu esse tempo todo na minha cama. Não foi?

Nenhum dos dois sabia o que responder. Cecília era sincera no que dizia.

— Ceci. – Diego disse enquanto mancava até ela. — Estamos todos sensibilizados pelo quê aconteceu...

— Pega as suas coisas Celina. 

— Ceci, meu noivo vai morrer se souber...

— Seu noivo não vai saber. – Ela levantou os olhos magoados. — Quero que volte para a sua casa e esqueça que um dia teve uma irmã. 

Cecília se levantou lentamente, todo o corpo doía, se arrastou pelo corredor e abriu a porta azul com detalhes  de nuvens. 

Tudo estava como antes do acidente. O berço, as roupinhas, as primeiras fotos de Miguel antes de ser entubado. Cecília se aproximou do berço, a roupinha que ele sairia, serviu para enterrá-lo.

Só então ela respirou fundo, agarrou a mantinha azul e levou até o nariz e chorou. Perderia mil maridos, mas não sabia como viver com a perda do único e verdadeiro amor.

Abraçou apertado a mantinha.

— Me desculpa Miguelito. – Ela sussurrou. — Eu deveria estar lá. Deveria ser o meu rosto sua última visão. 

— Ceci.  – Diego totalmente vestido parou no umbral da porta. — Celina já foi. Vamos conversar...

— Não. – Ela o olhou por cima dos ombros. — Vou ficar aqui até me recuperar. Vou dormir no quarto do meu filho, já que não me despedi dele como deveria. Por favor, me deixe em paz. 

— Mas Ceci...

— Se eu não estivesse vindo por conta própria você foderia minha irmã, e depois me buscaria no hospital, e continuaria tendo um caso com ela. Porque a Celina é boa de cama. Não se preocupa com nada, já que o velho noivo compra tudo para ela. Com a Celina tudo era mais fácil. Ela não lidaria com o luto, como a sua mulher. Então não. Não quero mais ouvir nada.

Diego fechou a porta, havia acabado com um relacionamento de doze anos, não tinha mais o que dizer. Perdera o filho, e destruiu para sempre o coração da esposa.

Capítulo 3

Tempos Atuais....

— O que eu vou fazer Júnior? – Felix levou as mãos a cabeça.  — Não sei como fazer com ele.

— Felix. – José Carlos sentou-se ao lado dele. — Você perdeu seus pais, depois a Mel, e mesmo que tenha se afastado de tudo, cuidou do seu irmão á distância. Cuidou da faculdade dele, da formatura, das finanças e até das encrencas que ele arrumava. Cuidou da sua família quando o Nando quase morreu. Agora você tem um filho, eu sei que vai dar conta dele.

— Eu... Não sei como vou dizer para ele, que eu e a mãe. – Felix fechou os olhos. — Eu não pensei em ter um filho assim.

— Ninguém pensa cara. – José Carlos mantinha a mão nas costas dele. — Você é um Olivar Smith, sei que vai fazer a coisa certa. Vai aos poucos. O Luca nasceu bem fraquinho, não conseguia respirar direito, se conseguir passar essa noite vai ficar muitos dias aqui, até ele sair você terá tempo de aceitar as coisas. Tomei a liberdade de chamar o Nando. A Lu não pode vir, parece que a Maria Helena acordou com febre.

— Quando ele chega? – Felix indagou.

— Liguei para ele antes de você chegar aqui, se ele usou o avião, já deve estar por aqui.

— Obrigado Júnior. – Felix levantou o rosto.

— Vou ficar por aqui até seu irmão chegar. Depois devo ir para Londres.

Felix sabia o real motivo de José Carlos estar sempre longe. Ele nutriu um sentimento pela esposa de Fernando. Na época o irmão estava lutando contra um câncer agressivo, e Júnior esteve tanto do lado de Luiza que se apaixonou por ela. José Carlos era o melhor amigo de Nando, e acabou por contar para Felix quando estava bêbado de mais. Considerando-se um traidor do pior tipo, José Carlos resolveu que se afastar seria a melhor coisa.

Felix permaneceu ali até sentir um par de mãos em seu ombro, sabia que era seu irmão, então desabou completamente.

***

Horas se passaram, Fernando entrava e saía de salas, seguido por José Carlos. O corpo de Luciana já não estava mais na sala de parto. Era hora de ir até ela. Felix caminhou atrás do irmão pelo corredor frio, iria reconhecer o corpo de Luciana, já que ela não tinha parentes vivos. Parado frente aquela porta simples ele imaginou todas as circunstâncias que  o levariam para longe daquele lugar. Por fim pensou em Luca. Felix devia isso á ela. Uma despedida.

— Eu entro com você. – Nando se adiantou.

— Não cara, eu entro. Devo isso á ela.

— Felix, você não aguentou ver a mãe naquela situação..

— Eu entro. – Felix manteve o tom firme. — Devo isso á ela. 

Felix respirou fundo empurrou a porta e entrou.

Era uma única mesa disposta ali, Luciana ainda usava a touca do parto, a camisola hospitalar e o lençol sujo de sangue. A pele dela, normalmente rosada estava pálida, e os olhos que os inebriava estavam cerrados para a vida.

Ele parou a poucos centímetros dela, observou uma última vez as sardas que lhe cobriam o rosto e os ombros, as unhas curtas e bem feitas. Luciana era jovem.

— Lu... – Ele engoliu com dificuldade. — Me desculpa. Eu... Deveria ter colocado você dentro da minha casa. Mesmo com seu jeito estranho eu deveria ter protegido você. – Felix se aproximou mais um pouco. — Não entendo como alguém pôde ferir uma mulher grávida...

Felix se aproximou mais ainda, já podia sentir o cheiro doce dela misturado ao sangue. Luciana estava fria quando ele a tocou, os dedos já enrijeciam.

— Me perdoa Luciana, pelas vezes que brigamos, você deixou o Luca para mim e eu vou cuidar dele. Quanto á quem te fez mal, vou fazê-lo sofrer.

Se Luiza estivesse com ele, teria rezado pela alma de Luciana. Mas ele não sabia como fazer, então ergueu a cabeça para o alto e desejou que Luciana apesar de tudo o que havia feito, estivesse em um bom lugar. E que pudesse ver o crescimento do filho, se é que Luca cresceria.

Quando Felix voltou para junto do irmão tinha um semblante mais calmo.

— Irei cuidar do enterro dela. Luciana não tinha amigos ou parentes. Mas deixou meu filho e eu vou dar uma cerimônia á ela.

— Certo cara. – Nando deu alguns tapas no ombro dele. — Agora vamos descansar. Amanhã voltaremos para cuidar do Luca e de toda a papelada. A policia colheu os depoimentos das meninas do balcão, vão voltar para pegar as imagens da câmera e conversar com você. Por hoje, acabou.

***

Nem Felix, muito menos Nando conseguiram dormir naquela noite. O dia amanheceu chuvoso, a tempestade havia deixado muita gente desabrigada, houve vários acidentes e até mesmo alguns fatais.

Felix entrou no carro seguido pelo irmão e foram até o hospital,

Ao entrar ele notou os olhares estranhos, sussurros e condolências. Rumaram para o terceiro andar onde a médica, Doutora Ana os aguardava.

— Doutor Smith. Senhor Smith. Bom dia. Serei responsável pelo Luca. Podemos conversar na minha sala?

— Claro. – Nando respondeu. — Vamos.

Felix não sabia o que fazer, ouvia a médica falando em termos técnicos com Fernando, mostrando exames e sendo cobrada por mais.

— Ele não estava saturando muito bem. – Ela se explicou. — Então o ligamos no oxigênio. O Luca estava abaixo do peso para a idade gestacional, olha. — Ela olhou diretamente para Felix. — Ele sobreviver essa noite já foi um milagre. Agora torcemos para ele desenvolver.

— Quanto a parte neurológica. – Fernando pousou os exames na mesa. 

— Sendo sincera ele passou por muita coisa, e também é muito prematuro. As sequelas serão aparentes com o tempo.

— Eu quero que deixe essa parte comigo. Serei o neurologista do Luca. Quero deixar bem claro que o tratarei como um paciente, farei por ele tudo o que faço pelos meus pacientes. Então, se eu solicitar exames não é porque é meu sobrinho. Entendeu?

— Sim, Doutor Fernando. 

Felix nunca tinha visto essa agressividade no irmão. Talvez fosse porque ele havia pego alguns descasos com pacientes custeados pelos projetos.

A conversa durou bastante. Luca ainda não podia receber visitas por ser arriscado para a saúde dele, e era até melhor para Felix.

Fernando ainda ficou por lá uma semana. Como prometido cumpriu com a promessa, cuidou dos primeiros exames de Luca, acompanhou os primeiros dias dele, contratou uma empregada para Felix e pediu que um amigo, decorador fosse até a casa, mostrou onde seria o quarto do pequeno. Com a policia foi bem mais lento, já que Luciana era somente uma prostituta cara. Felix tinha um álibi, todas as câmeras de segurança em volta da casa e na portaria, o telefone que fora rastreado e todas as redes sociais. 

— Eu não posso ficar muito mais tempo Felix. – Nando empurrou a mala para a porta. — Luiza está se virando como pode com os pequenos furacões. Vou me manter informado sobre o estado de saúde de Luca. E você trate de ajeitar uma babá com experiência para cuidar dele.

— Não tenho sorte com essas coisas. – Felix disse.

— Vou conversar com a Lu. Ou pedirei para algum médico daqui me passar o contato de alguma babá competente.

— Obrigado Nando. Por tudo o que fez por mim. – Felix o abraçou meio sem jeito.

— Somos uma família. Você cuidou da minha quando eu precisei. E eu estou cuidando da sua. Voltarei mais vezes com a Lu. Vamos passar por isso juntos cara. Nossa família vai crescer, e logo vamos nos lembrar dessa fase ruim como um aprendizado.

Felix levou o irmão até o carro, se despediu e voltou para a casa enorme e solitária. O pensamento estava em Luca. Ele tinha de viver. Por Luciana.

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