Capítulo 2

Laura Martins:

×Noite do dia seguinte:

Respiro profundamente, enchendo os pulmões de ar enquanto me detenho diante da entrada suntuosa de um dos restaurantes mais requintados da cidade. Uma onda de nervosismo percorre meu estômago, uma sensação de torpor me invade, e percebo meus dedos frios e rígidos. Eu nunca fui num encontro "às cegas" -vamos nomear assim -. É estranho, já assisti doramas coreanos onde isso é normal, mas aqui no Brasil? Nunca ouvir falar.

A mulher, que descobri se chamar Ana, não quis me dizer o nome e nem mostrar a foto do rapaz, tudo o que eu tenho é um pedaço de papel com o sobrenome dele: "senhor Duarte", e uma instrução simples: dirigir-me à recepção. Com o coração palpitante, agarro-me à coragem e adentro o estabelecimento.

O piso de mármore sob meus pés ressoa cada passo meu pelo luxuoso hall de entrada, e luto para camuflar minha ansiedade. Aproximando-me do balcão, a recepcionista muito elegante usando um terninho cinza me atende muito educada. Pergunto pela reserva no nome do meu "cliente" -acho melhor tratá-lo assim, não quero apegar-me a ele-, o senhor Duarte.

- Por aqui, senhorita - ela diz com uma voz serena, conduzindo-me por entre mesas meticulosamente arranjadas até uma localização privilegiada ao lado de uma ampla janela.

A cada passo, meu coração acelera, minha respiração se torna mais ofegante e gotículas de suor começam a escorrer por minha nuca. O homem está com o rosto virado para a janela, sem notar nossa aproximação.

- Senhor Duarte? - A recepcionista o chama.

O homem vira o rosto em nossa direção e ao pousar os seus olhos -de uma tonalidade de azul tão profundo e gélido- em mim, sinto um calafrio percorrer a minha espinha tensionando todos os meus músculos.

Essa não, essa não! Que merda! O meu cliente tinha que ser logo ele, o ogro.

A surpresa me golpeia com a força de um trovão, misturando temor e incredulidade, enquanto me vejo diante da última pessoa que esperaria encontrar -reencontrar- no mundo.

Não, não, não, mas que droga! Entre tantos homens neste mundo, por que tinha que ser justamente ele? Desde o primeiro momento em que nos conhecemos, eu o chamo de ogro. Seu nome? Não sei, mas agora sei o seu sobrenome, ótimo.

- O que está fazendo aqui? - Ele questiona, sua expressão de poucos amigos, os olhos penetrantes azuis como gelo.

Sento meu estômago revirar e meu coração acelerar. Não posso acreditar que, entre todas as pessoas possíveis, é ele quem estava ali.

- O ogro continua de mau humor - falo e revirei os olhos. Merda, escapuliu. A frustração era evidente na minha voz.

- Sua fedelha... - Ele começa, mas não espero para ouvir o resto. Viro-me de costas e começo a me afasta da mesa, meu corpo inteiro tremendo com um misto de emoções que eu não sei descrever nesse momento.

Antes que eu consiga chegar à porta, uma mão grande e firme segura meu antebraço, me fazendo parar. O toque é quente, mas a intenção claramente não era amigável, mediante a hostilidade de seu aperto.

- Você é a senhorita Martins? - Ele indaga, sua voz baixa e ameaçadora. Puxo meu braço para fora do seu aperto, sentindo uma onda de adrenalina misturada com raiva se espalhar em meu corpo.

- Para que quer saber, seu troglodita? - Retruco, tentando manter a compostura enquanto meu coração golpeia descontroladamente em meu peito.

- Como conseguiu marcar um encontro comigo? - Ele pergunta, seus olhos agora fixos nos meus, como se tentasse desvendar meus segredos.

- Eu não sabia que era você - respondo, minha voz carregada de desdém. - Jamais iria querer um encontro às cegas com um ogro feio como você - provoco.

Seus olhos se estreitam, e ele dá um passo à frente, a raiva pulsando em seu olhar.

- Não pensei que passaria de mendiga para rameira em tão pouco tempo...

O calo com um tapa estalado na cara, o som ecoando pela restaurante. Minha mão arde, fecho-a em punho para conter um pouco do ardor, a raiva me ajudando a ignorar.

- Não vou aceitar nem mais um insulto seu - declaro, minha voz firme. - Lave a sua boca antes de falar comigo.

Sinto todos os olhares sobre mim, mas não me importo. Sei que fui alugada para "amar" esse cara, mas não vou permitir que ele me desrespeite assim.

Mais uma vez, viro-me de costas e retorno para o caminho de saída. Cada passo parece uma eternidade, e meu corpo está tenso. No entanto, antes que eu alcançasse a porta, uma tontura me atinge. Minhas vistas escurecem, e todo o meu corpo fia leve, como se eu estivesse caindo lentamente.

Antes que eu perca todos os sentindo, sinto o meu corpo ser amparado por braços fortes, que erguem o meu corpo; minhas pálpebras estão quase fechadas, mas tento ver quem me salvou. Seus olhos azuis encontram-se com os meus, e diferente de segundos atrás, não estão frios e vários.

Sem forças para me manter desperta, meus olhos se fecham, mas as lembranças do dia que conheci esse homem dançam em minha mente, com imagem e detalhes vividos. E aquele dia de segunda-feira começou assim.

Capítulo 3

Laura Martins:

×Memórias de alguns meses atrás:

Cuidadosamente, fecho a porta de vidro fumê ao sair da sala do RH. A alegria, ansiedade e esperança percorrendo todo o meu corpo fazendo-me vibrar com as emoções borbulhantes dentro de mim.

Me controlo ao máximo para não andar saltitando enquanto encaro esse pequenino livro azul em minhas mãos como se fosse o maior tesouro do mundo. Agora que está finalmente assinado, com certeza conseguirei alugar uma casa e sair das ruas perigosas dessa cidade; mostrarei aos meus pais, que me expulsaram de casa apenas com as roupas que estou no corpo – uma camisa de mangas curtas, calça surrada e sapatilhas com um pequeno furo na sala–, que de agora em diante sou uma pessoa independente, e não preciso mais contar com a piedade de estranhos para sobreviver.

A assinatura na minha carteira de trabalho é o meu passaporte para uma vida melhor...

- Aí!

Gemo de dor ao bater a minha cabeça na parede macia, caio de bunda no chão.

- Merda! - exclamo frustrada, rapidamente me levanto e com as mãos abertas espalmo sobre minhas roupas para tirar a poeira do chão.

Ergo um olhar raivoso para a parede, mas sinto a surpresa deixa minha mente branco com a visão da parede de músculos cobertos por um terno preto sob medida.

- Ei cara, olha por onde anda! - Reclamo, recuperando a minha razão.

- Aqui não é lugar para mendigos - diz a parede de músculos, seu tom grosseiro e hostil tentando me humilhar faz a raiva fulminar dentro de mim, ergo as vistas em sua direção, e por um instante, quase esqueço que esse babaca me derrubou no chão e nem ofereceu a mão para me ajudar. O que tem de bonito, tem em dobro de idiota.

Apesar do brilho penetrante dessas safiras azuis, seus olhos destilam frieza e um vazio assustador. No entanto, seu charme não passa despercebido: sobrancelhas espessas e escuras contornam o olhar sério e hostil, a barba por fazer acrescenta um toque jovial, e a boca rosada, larga e carnuda completa o quadro facial. É lamentável que toda essa beleza se restrinja apenas à aparência externa.

- Um mendigo tem mais educação que você - retruco, recuperando a compostura. - Derrubar uma dama no chão, não pedir desculpa e nem sequer a ajudá-la a se levantar, é um perfeito ogro - alego petulante, olhando-o de cima a baixo com o lábio superior franzido demonstrando todo o meu desprezo. Mas quem começou com as ofensas foi ele, então que aguente agora, oh belo ogro.

- Não estou vendo nenhuma dama, só uma pirralha maltrapilha - ele continua me ofendendo, fazendo minha raiva crescer ainda mais.

- E eu só vejo um ogro feio! - Exclamo exaltada.

Certo, de feio ele não tem nada. Ele aparenta ter uns trinta anos, mas isso não importa. No meu mundo, a beleza externa não é tudo.

- Com quem você acha que tá falando, menina? - Pergunta, de cara feia, tentando me intimidar. Comigo isso não funciona não, garotão.

- Com um ogro mal-educado que saiu direto do pântano! - Respondo, atrevida.

- Sua fedelha... - ele xinga com a voz rouca, fazendo-me arrepiar. O gelo em seus olhos dá lugar a chamas azuis de ódio, como se saídas direto do inferno. Sinto meus ossos começarem a tremer enquanto ele se aproxima de mim com passos firmes e ameaçadores.

Mesmo com uma língua atrevida, sou extremamente medrosa. Dou passos para trás, e, para minha salvação, uma mulher de meia-idade se coloca entre mim e o ogro.

Observo a senhora de costas. Ela está usando um terninho elegante, o cabelo é curto e um pouco grisalho, na altura dos ombros. Saltos médios e finos completam o visual.

- Fernando, meu filho, estão todos te esperando na sala de reuniões. Você não pode se atrasar - diz a mulher suavemente. A expressão no rosto do ogro volta a ficar neutra, me deixando aliviada. Ele acena com a cabeça para a mãe e dá as costas, sem nem olhar para mim. Ainda bem, estou nova demais para conhecer o céu.

É melhor eu aproveitar essa chance. Viro de costas e levanto a perna para dar o primeiro passo, mas uma mão toca meu ombro, interrompendo o movimento.

- Qual o seu nome, querida? - pergunta a mulher.

- Laura Martins - falo, fico de frente para ela. - E a senhora?

- Pode apenas me chamar de Cristiane - ela responde meigamente, finalizamos a apresentação com um aperto de mão. - Você é bem jovem, tem mais de vinte anos?

- Vinte e quatro, senhora - respondo alegre, é sempre bom parecer que temos uma idade menor.

- Você já conhecia o meu filho?

- Aquele ogro... hum-hum - pigarreio. - Eu não conhecia o seu filho não - respondo. - Ele esbarrou em mim e me derrubou, só isso.

- Ah, sim - a senhora sorrir, e por alguma razão, acho o seu sorriso suspeito. - Sinto muito. Você machucou-se?

- Agora já estou bem - comento, sorrindo. Apesar de achá-la suspeita, ela aparenta ser gentil. - Obrigada pela preocupação. Já vou indo. Tenha um bom dia!

- Para você também, querida. Nós nos veremos mais vezes - ela declara e sorrir, eu sorrio amarelo e me afasto.

Assim que coloco os meus pés para fora dessa empresa, o vento bate no meu rosto, respiro aliviada.

- Cruzes, nada contra a senhora, mas espero nunca mais ver aquele ogro na minha frente.

As imagens do nosso primeiro encontro começam a distorcer-se na minha mente, e minha cabeça dói enquanto luto para abrir os olhos. A luz branca da lâmpada acima de mim é intensa, forçando-me a piscar várias vezes até minha visão se ajustar. Estou deitada em um lugar estranho, mas logo reconhecer ser um sofá. Tento me sentar, mas meus músculos protestam. Minha mente está uma névoa enquanto tento lembrar o que aconteceu.

De repente, ouço uma voz conhecida.

- Não, por favor, não! - Reconheço a voz do ogro, extremamente baixa.

Viro a cabeça lentamente na direção do som e o vejo caído de joelhos no chão. Ele está visivelmente abalado, com a expressão arrogante agora substituída por puro pânico, seu rosto pálido e as lágrimas rolando por suas bochechas.

- Não, por favor - ele repete.

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