Quando acordei, a primeira coisa que senti foi o vazio.
A minha mão foi instintivamente para a minha barriga, à procura da curva familiar de nove meses. Não encontrou nada. Apenas o lençol áspero do hospital e uma dor surda que vinha de dentro.
O cheiro a fumo e a desinfetante ainda pairava no ar, uma lembrança do incêndio.
O meu irmão mais novo, o Leo, estava na Unidade de Cuidados Intensivos. O seu ataque de asma, desencadeado pelo fumo denso, quase o matou.
E o meu bebé... o meu bebé tinha-se ido. A inalação de fumo tinha sido demais para ele.
Peguei no telemóvel com os dedos a tremer. Precisava de ligar ao meu marido, Marcos. Ele era bombeiro. Ele devia estar aqui.
A chamada demorou a ser atendida. Quando ele finalmente falou, a sua voz estava tensa, mas não era de preocupação por mim.
"Clara? O que foi? Estou ocupado."
"Ocupado?", a minha voz saiu como um sussurro rouco. "Marcos, o nosso bebé..."
"Eu sei, eu sei, o incêndio foi terrível", interrompeu ele, impaciente. "A Sofia está em choque. O gato dela, o Miau, mal consegue respirar. Estamos no veterinário de emergência agora mesmo."
Sofia. A sua amiga de infância que vivia dois andares abaixo de nós. A mulher que ele sempre protegia.
"O veterinário?", repeti, incrédula. "O meu irmão está nos Cuidados Intensivos. O nosso filho... morreu, Marcos."
Silêncio do outro lado da linha. Um silêncio pesado, culpado.
"Eu salvei a Sofia primeiro", admitiu ele finalmente, a voz baixa. "O andar dela era mais fácil de alcançar. Era uma decisão tática."
Uma decisão tática. Ele salvou uma mulher e o seu gato enquanto o seu filho por nascer e o seu cunhado asmático sufocavam dois andares acima.
"Quero o divórcio", disse eu, com uma clareza que me surpreendeu. A dor era tão imensa que se transformou em gelo.
"O quê? Não sejas dramática!", a sua voz subiu de tom, irritada. "Estás a passar por um trauma. Não estás a pensar com clareza. A Sofia precisa de mim agora. Falamos mais tarde."
Ele desligou.
Tentei ligar de volta. O número estava bloqueado.
As lágrimas que eu pensei que tinham secado começaram a escorrer pelo meu rosto. Ele tinha razão numa coisa. Eu não estava a pensar com clareza. Se o meu bebé ainda estivesse aqui, eu talvez o perdoasse. Eu iria querer uma família completa para o meu filho.
Mas agora, não havia mais nada que me prendesse a ele. O divórcio não era uma ameaça. Era uma promessa.
O telemóvel do hospital tocou na mesinha de cabeceira. Uma enfermeira atendeu e passou-mo. Era o meu sogro, Ricardo, o chefe dos bombeiros reformado.
"Clara", a sua voz era dura como pedra. "O Marcos disse-me que estás a ter um ataque. Ameaçá-lo com o divórcio numa altura como esta? Não tens vergonha? Ele é um herói. Ele fez o que tinha de fazer. A Sofia é como uma filha para mim. Deves estar grata por ele a ter salvado."
Gélida, desliguei-lhe o telemóvel na cara.
Herói. Ele deixou a sua família para morrer e era um herói.
Nesse momento, eu soube que não estava apenas a lutar contra o Marcos. Estava a lutar contra toda a sua família.
Contra o conselho dos médicos, tive alta do hospital no dia seguinte. A dor física era nada comparada à necessidade de ver o Leo.
Passei pela UCI. Ele estava entubado, pálido, mas os seus sinais vitais estavam estáveis. Os médicos disseram que ele ia recuperar. Respirei fundo pela primeira vez desde o incêndio.
Antes de ir para casa dos meus pais, precisava de passar no nosso apartamento. Ou no que restava dele. Precisava de ir buscar a caixa com as coisas do bebé. As roupinhas que tricotei, os sapatinhos minúsculos. Não podia deixar aquilo para trás.
O prédio estava isolado, mas o porteiro, o Sr. Valdir, deixou-me entrar quando viu o meu rosto. O cheiro a queimado era avassalador.
Quando cheguei ao nosso andar, a porta estava entreaberta. E lá dentro, estavam eles.
O Marcos estava a segurar a Sofia, que chorava histericamente nos seus braços.
"O meu Miau, o meu pobre Miau", soluçava ela. "Ele está tão traumatizado, Marcos. O veterinário disse que os seus pulmões estão frágeis."
"Shh, calma, meu bem. Eu estou aqui. Vamos cuidar de ti e do Miau", dizia ele, acariciando o cabelo dela com uma ternura que ele nunca me mostrou.
Eles não me viram na porta. Fiquei ali, a observá-los, o meu coração a transformar-se numa pedra pesada no meu peito.
Finalmente, pigarreei.
Ambos se viraram, sobressaltados. O Marcos largou a Sofia como se ela estivesse a arder.
"Clara! O que estás a fazer aqui? Devias estar a descansar."
"Vim buscar as coisas do meu filho", disse eu, a voz sem emoção. Passei por eles e fui até ao quarto do bebé. A maior parte estava destruída pela água e pelo fumo, mas a caixa de madeira que o meu pai fez estava intacta.
"Deixa-me ajudar-te", disse o Marcos, aproximando-se.
Recuei. "Não me toques."
A Sofia aproximou-se, o rosto manchado de lágrimas falsas. "Clara, eu sinto muito pelo vosso bebé. Se eu soubesse..."
"Se soubesses o quê?", olhei diretamente para ela. "Terias dito ao Marcos para me salvar a mim primeiro? Ou o teu gato ainda seria a prioridade?"
Ela engasgou-se, parecendo ofendida.
O Marcos interveio, o rosto vermelho de raiva. "Já chega! Foi uma decisão tática! O fogo no teu andar estava pior! Eu ia chamar reforços para ti e para o Leo! Eu sou um bombeiro profissional, sei o que faço!"
"Um bombeiro profissional que deixou o seu cunhado com asma e a sua mulher grávida para trás", retorqui, a voz cortante. "Tu não estavas a tomar uma decisão tática. Estavas a fazer uma escolha. E escolheste-a a ela."
Peguei na caixa. Era mais pesada do que eu esperava.
"Não te preocupes com os papéis do divórcio", disse eu, ao passar por eles na porta. "O meu advogado entrará em contacto contigo em breve."
Saí do apartamento sem olhar para trás, deixando-os no meio da fuligem e das mentiras deles.