Holly sentia-se mais pressionada do que nunca no dia em que foi conversar com o advogado.
Precisava arranjar uma babá para as crianças, tendo ou não condições financeiras para isso, pois não achava justo continuar dependendo da boa vontade de Liz por muito tempo. Mas como faria para pagar? Outra grande soma de dinheiro fora gasta há pouco para instalar um telefone e suas economias iam acabando depressa. Após comprar mantimentos e outros produtos de que necessitava para a casa, ficara com exatamente quinhentos e quarenta dólares no bolso. Se controlasse com cuidado cada centavo gasto, poderia manter a família por mais umas seis semanas.
- Sra. Simpson, o Sr. Brown vai recebê-la agora - avisou a secretária.
Tensa, Holly pegou a bolsa e dirigiu-se ao escritório que a secretária lhe indicava. O homem magro que se encontrava parado junto à escrivaninha abarrotada de papéis levantou-se ao vê-la entrar e estendeu-lhe a mão com um sorriso amistoso.
- Sou Ned Brown. Seja bem-vinda à nossa cidade. Fico feliz por ver que o desejo de sua avó acabou se tornando realidade. Cora sempre quis que você viesse morar aqui; vivia dizendo que este era o melhor lugar para você criar sua família.
- Acho que vovó tinha razão. Acredito que iremos ser muito felizes aqui. - "Se não morrermos de fome antes", ela acrescentou para si própria.
- Ótimo. Faço votos para que tudo dê certo. - Ele soltou a mão de Holly, indicou-lhe uma cadeira e sentou-se também. Depois afrouxou a gravata e abriu uma pasta que se encontrava à sua frente. - Vou colocá-la a par dos fatos. Você é a única herdeira dos bens de Cora Kensington, de acordo com o testamento que ela deixou. A escritura da casa foi passada para seu nome e isto é tudo. - Ele franziu a testa ao examinar um documento manuscrito de duas páginas que retirara de uma das pilhas de papéis. - Você era filha única?
- Era a única neta de minha avó. Ela teve duas filhas gêmeas, mas uma morreu logo após o nascimento. Mamãe faleceu quando eu era muito pequena e papai casou-se novamente dezesseis anos atrás. Tenho dois meio irmãos.
- Ah, sim. Agora eu me recordo. Parece-me que Cora não se entendia bem com sua madrasta, não é?
- Essa é uma maneira muito branda de se colocar a situação. Velda sabia ser bastante... Agressiva - Holly respondeu, concluindo que ela também amenizara a realidade. Velda era uma verdadeira bruxa.
- Você tem algum contato com ela?
- Não a vejo há cinco anos, desde o enterro de meu pai. Nós nunca nos demos muito bem. - Holly baixou os olhos, sabendo que continuava abrandando a situação. Provavelmente Velda havia sido o fator mais importante em sua decisão de casar-se tão cedo, mais até do que a gravidez inesperada. Fora uma maneira de fugir do ambiente pesado de sua casa, das intermináveis brigas entre seu pai e a madrasta. O casamento deles fora um pesadelo, do início ao fim.
Ned Brown recostou-se na cadeira e cruzou os braços, fitando Holly com ar especulativo.
- E seus meio irmãos? Você tem notícia deles?
- Não. Nem sei por onde andam.
- Ótimo. - Ele sorriu; visivelmente satisfeito com as respostas que obtivera. - Sua avó tinha algumas preocupações em relação a eles e a sua madrasta. Segundo palavras de Cora, eles não passavam de sanguessugas e ela queria ter certeza de que não se aproveitariam de você ou de sua situação aqui. - Ele tornou a juntar os papéis e fechou
a pasta. - Bem, isto era tudo que eu tinha a lhe dizer. Tem alguma dúvida quanto ao testamento?
- Não, suas cartas foram muito claras. - Holly baixou os olhos, com um súbito aperto na garganta. - Quero lhe agradecer pelo que fez por minha avó. O fato de saber que o senhor estava por perto para cuidar de tudo deu a ela muita paz de espírito no fim da vida.
- Foi um prazer. Cora Kensington era uma mulher extraordinária. - Ele ficou pensativo por alguns instantes, como que perdido nas lembranças, então bateu as mãos sobre a escrivaninha e levantou-se. - Se tiver mais alguma pergunta ou se eu puder ser útil de alguma forma, telefone. Annie tem alguns documentos para você assinar e... Ah, sim, há a questão do dinheiro que sua avó tinha no banco. Annie cuidará disso também; ela está com a lista de todas as despesas do inventário. Pelo que me recordo, não sobrou muita coisa. Creio que cerca de trezentos dólares.
Trezentos dólares! Para Holly, aquele dinheiro era muito importante e ela esforçou-se para não deixar transparecer a sensação de alívio. Juntando com os quinhentos dólares que lhe restavam, teria reservas para aproximadamente dois meses. Nesse meio tempo poderia encontrar algum emprego. Com isso, adiava um pouco mais o momento de enfrentar um futuro que lhe parecia assustador.
- Ah, mais uma coisa! - disse o advogado no momento em que ela abria a porta para sair. - Todas as contas pendentes foram pagas, mas os impostos sobre a casa vencem no próximo mês. Você poderá verificar a situação com a Sra. Townsend, no escritório imobiliário.
Holly sentiu o estômago revirar. Nem mesmo pensara em taxas.
- O senhor sabe qual a quantia aproximada?
- Não sei ao certo. Por volta de quinhentos ou seiscentos dólares. Não deve ser mais do que isso.
Quinhentos ou seiscentos dólares! Como arrumaria esse dinheiro? Chocada, ela forçou uma expressão impassível e procurou sorrir.
- Obrigada novamente, Sr. Brown.
- Às suas ordens. Fale com Annie antes de sair e assine os papéis.
Holly saiu da sala com dificuldade para respirar. Onde conseguiria tanto dinheiro?
Descobriu mais tarde que a quantia exata era seiscentos e vinte e três dólares, a serem pagos até o dia primeiro do mês seguinte, isto é, dali a dezessete dias. O rosto de Holly estava sem cor ao deixar o escritório imobiliário. A Sra. Townsend deixara bem claro que deveria pagar a quantia total; não aceitariam parcelamento algum. Queriam tudo, dentro de dezessete dias. O choque foi cedendo aos poucos e, ao chegar ao caminhão, Holly sentia-se à beira das lágrimas. Abriu a porta, esforçando-se para controlar o desespero. Como iria arrumar todo aquele dinheiro?
- Ei, moça, sabe que está com um pneu furado?
Holly virou-se na direção da voz. Três homens vestidos em roupas de trabalho haviam acabado de sair do café e estavam parados na calçada. Um deles indicava o pneu traseiro da direita.
Um quarto homem saiu do prédio e juntou-se aos demais. Mesmo sem fitá-lo, Holly podia sentir seus olhos sobre ela. Sentindo-se constrangida, desceu do caminhão e deu a volta no veículo para verificar o estrago.
- Se tiver um macaco, posso trocar o pneu para você. Não vai demorar nem cinco minutos - ofereceu o homem mais velho, que a alertara para o problema.
Holly virou-se para responder, mas sem querer seu olhar se prendeu ao do homem que se juntara ao grupo por último e ela sentiu-se ainda mais tímida e embaraçada. Ele aparentava trinta e poucos anos; era alto, vigoroso, com um rosto forte e masculino. Mas Holly mal reparou no físico dele. O que a impressionou de fato foi à intensidade magnética daquele olhar. Nunca experimentara algo parecido com a sensação atordoante de fitar
aqueles olhos azuis. Holly estremeceu com o estranho arrepio que lhe percorreu a espinha.
Sua momentânea paralisia foi abalada quando o rapaz mais jovem do grupo, que devia ter uns vinte anos, disse algo em voz baixa que levou dois de seus companheiros a rirem. Ele estava olhando para Holly e ela logo soube, pela maneira como o rapaz a observava, que havia feito algum comentário malicioso. Ruborizada, Holly sentiu-se numa espécie de flashback: reviu os colegas de rodeio de Derek aparecendo em sua casa uma madrugada, dirigindo-lhe comentários grosseiros e sugestões obscenas, enquanto Derek permanecia deitado no sofá, o chapéu sobre os olhos, excitando-se com as investidas dos vaqueiros bêbados sobre sua esposa. Isso acontecera duas semanas antes de ele morrer e Holly nunca se esqueceria de como se sentira envergonhada.
De repente, experimentava de novo a mesma terrível sensação. Com tantos problemas na cabeça, aquilo era mais do que podia suportar. Procurando conter as lágrimas de humilhação, apertou os lábios e abriu o capô do caminhão.
- Posso cuidar disto sozinha, obrigada - ela disse, friamente.
- Isso não é trabalho para uma mocinha bonita como você.
Ela virou-se para o homem mais velho, trêmula de indignação.
- O problema é meu e posso muito bem trocar este pneu, sozinha.
O homem dos magnéticos olhos azuis a encarou com uma expressão tão dura que fez Holly estremecer. Era evidente que ficara muito zangado com a atitude dela.
- No caso de você não ter notado, a oferta de Mike foi um ato de cortesia. Ele não teve qualquer intenção de ofendê-la. Mas se você está preocupada em defender ideias feministas, então se vire! - Ele ajeitou o boné na cabeça e voltou-se para os companheiros: - Vamos embora.
Enquanto os homens se afastavam, Holly mirava fixamente um ponto de ferrugem na lataria do caminhão, os olhos nublados de lágrimas. Sabia que havia agido como uma tola. Interpretara a situação de forma totalmente errada e acabara recebendo o troco. Tinha vontade de apoiar a cabeça nas mãos e chorar. Não agüentava mais tanta pressão. Queria desistir de tudo, parar de angustiar-se a cada dia com a incerteza de não saber como sustentar os filhos. Sentia-se arrasada e tinha ímpetos de abandonar aquela luta desesperada pela sobrevivência, mas sabia que não podia fazer isso.
Apertando os lábios com força, enxugou lentamente as lágrimas. Depois, arregaçou as mangas da blusa e pegou o macaco.
Holly parou junto à porta, com uma xícara de café na mão, recebendo no rosto os primeiros raios de sol da manhã que mal começara. A cidade ainda estava silenciosa e ela perma-
neceu vários minutos observando o céu escuro clarearem num azul-pálido, enquanto as nuvens no horizonte tingiam-se de vários tons, do laranja à púrpura. Era tão lindo o alvorecer!
Ela suspirou e levou a xícara até os lábios. Passara metade da noite fazendo contas, tentando achar uma solução para o problema do imposto, mas a situação não lhe oferecia muita esperança.
Qualquer possibilidade que examinasse, desde vender algumas das coisas da avó até cortar despesas, á levava a um fato que era evidente: não podia mais manter o caminhão. O seguro venceria em dois meses, os gastos com combustível não cabiam em seu orçamento e os freios necessitavam de regulagem. Vender o veículo seria uma atitude sensata e necessária. Não gostava da idéia, mas não tinha outra escolha.
Ela afastou o cabelo do rosto e apoiou a cabeça na madeira fria da porta, com uma expressão desolada no olhar. Precisava estar sempre lembrando a si mesma os aspectos positivos de sua situação: a casa estava paga, as crianças tinham saúde e ela era capaz de trabalhar duro. Poderia ser pior.
Admirou o nascer do sol por mais alguns momentos e, então, seu olhar desviou-se para a rua tranqüila. A casa de sua avó era muito bem localizada. A rua em frente à
propriedade já fizera parte de uma auto-estrada, e, desde que a nova rodovia fora construída havia alguns anos, tornara-se a principal via de acesso à cidade. Não havia muitos sinais de desenvolvimento na região, dali à estrada de ferro: uma oficina reformada que exibia uma grande placa com os dizeres "O'Neil Veículos", um posto de gasolina, a velha estação ferroviária e um grande prédio que pertencia a um comerciante de implementos agrícolas. Mais para adiante, do outro lado dos trilhos, erguiam-se quatro enormes elevadores para grãos, que abasteciam os trens a caminho dos mercados consumidores.
Holly começava a se identificar com Jennings, uma típica cidade do sudoeste canadense, com a maior parte de sua economia baseada nas prósperas comunidades agrícolas que a cercavam. Era um lugar pequeno, com uma população gentil e hospitaleira, e contava ainda com a vantagem de ser próxima a uma cidade grande: Calgary ficava a apenas uma hora de viagem de carro, na direção sul.
As montanhas localizavam-se a pouca distância, e a paisagem da região era inacreditavelmente bela.
Uma vantagem extra era o fato de a casa ficar nos limites da cidade, com apenas duas outras residências ao norte dela. Nos fundos da propriedade havia uma depressão no terreno que formava uma divisão natural entre a cidade e os vários hectares de terra desabitada. Diversas árvores cresciam ao longo da borda da ravina e, no fundo dela, entre moitas de inúmeros matizes de verde, corria um fio de água, serpenteando sobre um leito rochoso.
Uma trilha estreita levava à propriedade do outro lado, e fora durante uma caminhada no primeiro dia em Jennings que Holly descobrira uma pequena casa de madeira meio escondida entre as árvores. Quando percebera que o local era habitado, decidira não avançar mais, embora se sentisse tentada. Era um lugar retirado e pitoresco, onde as plantas cresciam sem serem molestadas e flores silvestres espalhavam-se exuberantes. Havia também um laguinho, com suas águas cintilando ao sol quando a brisa suave lhe agitava a superfície. Holly ia com freqüência à ravina com os filhos e, enquanto as três criança brincavam, ela ficava sentada durante longos e silenciosos minutos sob uma enorme árvore, desfrutando a paz e a tranqüilidade que encontrara ali. Gostava de ir para lá principalmente ao alvorecer, quando o sol começava a surgir no céu e o lago ensombreado refletia as plantas molhadas de orvalho. Para ela, aquele ambiente era pura mágica.
O relógio de pêndulo bateu sete horas e Holly ouviu distraída o som melodioso, imaginando se as crianças demorariam a acordar. Há tanto tempo levantavam-se com ela ao romper da manhã que não costumavam mais dormir até muito mais tarde.
De fato, haviam enfrentado uma dura e ingrata rotina. Fora logo após Megan nascer que Derek, finalmente, arrumara um emprego fixo numa fazenda em Manitoba. Haviam se mudado para a casa apertada que era cedida aos trabalhadores locais assim que Holly saíra da maternidade. Por pior que fosse, era o primeiro lar de verdade que conseguiam ter.
Ela sentira-se tão esperançosa com o emprego, convencida de que Derek se daria bem ali.
Mas em seis meses ele já se desinteressara pelo trabalho e retornara aos eternos rodeios. As únicas ocasiões em que permanecia na fazenda eram durante o plantio e a colheita; no restante do tempo, a responsabilidade pelas tarefas recaía sobre Holly. Felizmente para ela e as crianças, Stan Rogers, seu patrão, não se importava muito com quem se encarregava do trabalho, desde que este fosse feito. Foi um tempo difícil, em que precisava levantar de madrugada para alimentar o gado, limpar os celeiros, recolher grãos, porém era a única maneira de garantir casa e comida para sua família. O salário mal dava para vestir e alimentar a todos, mas pelo menos conseguiam sobreviver, e era isso que importava para Holly.
Então, descobrira que Derek vinha dormindo com a esposa do patrão desde que haviam se mudado para lá e pensou que iria enlouquecer. Nunca se sentira tão amargurada em sua vida.
Quatro meses depois, Derek aparecera bêbado num rodeio e insistira em fazer sua prova de qualificação para a disputa num dos touros mais ferozes e rápidos que se en-contravam disponíveis.
Seu marido, que continuava perseguindo sonhos e apostando na sorte grande, fora atirado para longe do animal logo no início da prova e morrera em questão de segundos.
Stan permitira que ela ficasse na fazenda pelo menos até receber o pequeno seguro de vida a que tinha direito. Mas então ele descobrira sobre Derek e sua esposa e dissera a Holly, numa entrevista humilhante para ela, que dirigia uma fazenda e não uma casa de caridade e que ela tinha o prazo de um mês para sair de lá. Felizmente o seguro fora liberado dentro desse prazo, ou ela teria de partir sem um centavo no bolso.
- O que foi mamãe?
Holly virou-se e encontrou Trevor fitando-a com ar intrigado.
- Nada, querido - ela respondeu, sorrindo. - Só estava pensando.
- No papai?
- Sim, no seu pai - ela confirmou; um pouco hesitante. Observou o filho em silêncio, atenta. Ficara preocupada pelo fato de os meninos terem demonstrado tão pouco sofrimento pela morte do pai. Na verdade, Derek nunca havia sido duro com os garotos. Deixava que fizessem tudo o que tivessem vontade. Felizmente para Holly, Derek ficava tão pouco em casa que ela tivera oportunidade de contornar a excessiva permissividade dele, conseguindo que as crianças desenvolvessem um sólido senso de responsabilidade.
Megan, por outro lado, queria desesperadamente agradar o pai, embora ele sempre houvesse deixado bem claro que não a suportava. Vivia chamando a filha de bebê mimado e essa rejeição tornara a menina tímida e insegura. Era estranho como os sentimentos se desenvolviam, Holly pensou. Apesar de tudo, Megan era quem mais sentia falta do pai. Os meninos, principalmente Trevor, haviam reagido à morte de Derek com uma emoção semelhante a ódio, como se aquilo houvesse sido mais uma decisão do pai para aborrecê-los.
Holly entrou na sala, colocou a xícara sobre a mesa e agachou-se em frente ao filho.
- Você sente falta dele, Trevor?
- Não - o menino respondeu, sacudindo a cabeça e baixando os olhos.
- Não há nada de mal em conversar sobre isso - e pousou o queixo sobre as mãos.
- Não sinto falta dele, mamãe - Trevor repetiu, encarando-a. - Ele só fazia você sofrer e eu não suportava isso. - O garoto enxugou rapidamente uma lágrima antes de prosseguir: - Estou contente por termos mudado para cá. Ninguém vai rir de nós dizendo que temos um pai que só serve para se exibir em rodeios. Será muito melhor, mamãe.
- Não vai ser fácil, Trev - Holly murmurou, abraçando-o. - Haverá ocasiões em que não teremos muito dinheiro.
- Eu sei.
- Eu amo você, querido. - Ela o segurou mais algum momento depois se afastou e o encarou com uma expressão séria. - O que Ryan pensa de tudo isso?
- Ele pensa como eu. Dá um pouco de medo mudar para um lugar novo, mas é emocionante também. É como começar a ler um livro de aventuras: a gente nunca sabe o que vai acontecer. Quando a gente morava na fazenda, era sempre a mesma coisa.
- Bem, acho que este livro vai ser mesmo interessante - Holly comentou, sorrindo.
A tarde já chegava ao fim quando Holly resolveu fazer uma pausa no trabalho de limpeza e arrumação da casa. Deixou as crianças brincando no pátio e desceu a rua na direção da residência de Liz Crawford. Acabara de entrar no jardim e fechar o portão quando Eric surgiu pela porta lateral, seguido por outra pessoa.
Holly quase ficou sem ar ao reconhecer o estranho: era o mesmo homem que se zangara com ela na véspera, por causa do episódio com o pneu furado. Ela parou no mesmo instante constrangida. Por que não tivera o bom senso de manter a boca fechada? Prendendo a respiração, permaneceu imóvel, parcialmente escondida atrás das plantas, até os dois sumirem de vista. Só se arriscou a sair do lugar após ouvir o carro de Eric afastar-se. Encontrou Liz na cozinha, fazendo pão.
- Como vai, Holly? Há café fresco na garrafa térmica. Sirva-se e fique à vontade enquanto me conta o que Ned lhe disse ontem.
- Nada especial. Ele me chamou ao escritório porque eu precisava assinar alguns papéis - Holly contou, omitindo o problema dos impostos.
- Ned é um bom homem. Pode confiar na honestidade dele.
- Ele me pareceu simpático. - Ela tomou um gole de café e pousou a xícara sobre a mesa. Tentando disfarçar a ansiedade, respirou fundo antes de prosseguir: - Quero vender meu caminhão. Será que Eric sabe de alguém que possa estar interessado?
- Vender seu caminhão? Por quê?
- Eu não tenho condições de mantê-lo - Holly respondeu, procurando não demonstrar a real seriedade do problema. - Posso muito bem ficar sem ele.
Liz a fitou por um instante, depois suspirou e retomou o trabalho de amassar o pão.
- Tenho certeza de que Eric pode encontrar alguém que esteja interessado. Falarei com ele sobre isso.
- Obrigada. - Holly tomou mais um gole de café antes de fazer a pergunta que a incomodava desde que entrara na casa de Liz! - Eric estava saindo quando eu cheguei. Quem era o homem que estava com ele?
- Ah, sim! - Liz riu, com um brilho travesso nos olhos. - É Grady O'Neil, o proprietário da O'Neil Veículos, aquela oficina quase na frente da sua casa. O chalé de madeira naquela clareira do outro lado da ravina também é dele. É o homem mais sexy que eu já encontrei. Toda vez que o vejo sorrir fico com as pernas moles.
- É mesmo? - Holly perguntou, rindo. - E o que Eric acha dessa sua paixão?
- Ah, isso eu não sei. Mas ele vive dizendo a Grady que vai arrumar-lhe alguma garota só para mantê-lo longe da nossa cozinha! - Liz sorriu, espalhando mais farinha sobre a massa. - Eles se conhecem desde o tempo de escola e a O'Neil Veículos trabalha para a Construções Crawford em vários locais. Eric e Grady são grandes amigos.
Holly ouvia com uma aparência relaxada, mas por dentro sentia-se cada vez mais tensa. Ele trabalhava em frente á casa dela, vivia atrás de sua propriedade. Estava cercada por esse homem que fazia as pernas de Liz amolecer e pensava que ela era uma feminista idiota. Mais dias menos dia acabariam se encontrando e essa idéia não a agradava nem um pouco.